Perchance

5 Quebra II


Notas iniciais
Nota 1: Para quem ainda está na dúvida, o primeiro capítulo “Significado” é um produto do sub/inconsciente da Clara. Ou seja, um sonho. Um que se repete, mais ou menos igual, desde vocês sabem quando. E, como todo sonho, pode ser muito realista, muito surrealista, intenso, simbólico, misturar sensações, etc., enfim. No mais, ali deixei dicas de coisas que aconteceram, acontecem, e acontecerão na estória, capiche? Nota 2: Só pra dizer que se notarem erros, sejam de qualquer tipo, sintam-se livres para apontá-los. Não costumo revisar, mas antes de postar dou uma lida no anterior e corrijo o que consigo enxergar no momento. Mas sempre passa uma coisinha aqui e ali. Nota 3: Que cena linda foi aquela de hoje... Ainda suspirando aqui. E lembrem-se: universo alternativo, ok? Nada de me matar ainda, tá?

Curvou-se um pouco para colocar o aparelho em cima da mesa de centro, aproveitando o momento para bagunçar o cabelo do filho e receber um resmungado “Pô! Não atrapalha, pai!” como resposta. Ivan estava ali há horas, sentado no tapete da sala todo concentrado nas imagens que lampejavam na tela de LCD.

Sentado no sofá, Cadu observava os movimentos rápidos e enérgicos do menino. Não entendia como o filho conseguia passar tanto tempo olhando para aquela confusão de pixels coloridos saltando e girando na televisão. Cinco minutos daquilo já era para deixar qualquer um zonzo.

Seu olhar trilhou para o celular novamente e coçou a nuca, irrequieto. Aquele ruído repentino na linha não podia ser mais incomum. Havia essa música ao fundo que o ruído cobriu, foi muito estridente no começo, depois entrecortado, então parou de uma vez como numa...

Levantou-se de súbito. “Ivan, vai arrumar suas coisas. Estamos de saída”, disse enquanto alcançava o aparelho na mesa, colocando-o no bolso da calça e já caminhado para seu quarto.

Sem tirar os olhos da tela, o menino esticou o pescoço para reclamar, “Mas pai, você disse que a Marina estava vindo!”

Ivan não diria isso a nenhum de seus pais, mas preferia quando era Marina a ir buscá-lo porque a fotógrafa sempre o levava para tomar sorvete. Ela sussurrava-lhe com uma piscadela, “Quer saber de um segredo doce e gelado?”, e esse era o código dos dois pra farra antes do jantar. Aí quando chegavam em casa já fartos da rua, Clara reclamava e brigava, mas no fim os dois sempre dobravam a fera. Cada um do seu jeito, claro.

Pena que Marina não ia buscá-lo mais vezes, como era antes.

A cabeça de Cadu apareceu pela porta de repente, “Olha pra cá. Pra mim, Ivan”, chamou num tom ríspido e o menino finalmente obedeceu, “Vai pegar suas coisas agora. A gente tá indo pra sua tia Helena”.

Ivan franziu a testa. Ainda imperou de interrogar o pai sobre o porquê de ir pra casa da tia, sobre o carro do pai na oficina, sobre a falta de carona da Verônica e, o mais importante, como recuperaria sua fase do jogo, mas por fim grunhiu sua frustração. O pai parecia sempre nervoso esses tempos, melhor não irritá-lo mais.

***

Diana estava em sua cobertura em Santa Teresa, aproveitando o fim da tarde entre os lençóis na companhia bastante revigorante de uma jovem morena, quando ouviu o familiar zunido do vibracall.

Un minute, mon petit”, murmurou entre um selar de lábios, desvencilhando-se dos braços em volta dos seus ombros. Alcançou o aparelho que estava em cima do criado-mudo, ao lado da cabeceira da cama. Suas sobrancelhas franziram ao reconhecer o remetente.

“Aposto que é aquela fotógrafa...”, a moça reclamou baixinho, recostando a cabeça no braço, enquanto os dedos da outra mão subiam e desciam lentamente pelas costas da francesa.

Diana não replicou, apenas saiu de cima da outra mulher e sentou-se na beira da cama, pensativa, o celular ainda pendendo de seus dedos.

Depois de um momento, disse, “Não esteja aqui quando eu voltar”, e saiu à procura de suas roupas.

***

“Mas que inferno tá esse trânsito hoje, meu Deus!”, esbravejou, descontando toda sua frustração na buzina. Um senhor no carro ao lado lhe deu um olhar atravessado, o que fez a ruiva refazer a performance da buzina com ímpeto novo. Repetidas vezes.

Pois muito bem, se fosse pra ficar presa no carro em pleno fim de domingo a caminho de Santa Teresa, alguém ia ter que expiar esse pecado junto com ela.

Olhou para o lado e lá estava sua presa, ainda folheando aquela maldita revista sem um pingo de preocupação nesse mundo.

“Flavinha, meu anjo”, disse com um sorriso que era só dentes, “... larga”, arrancou a revista das mãos da mulher, “Essa. Droga. De revista!”, e arremessou a bola de papéis amassados lá no vidro traseiro.

Flavinha nada disse, apenas lhe deu um olhar. Aquele que deixava a ruiva ainda mais fula da vida.

Mas por fim, a fotógrafa suspirou, “Ainda tá chateada pelo que a Diana falou da exposição?”

“Chateada, chateada...”, Vanessa ironizou, tinha que rir da piada pra não chorar de raiva, “Chateada é o caramba, Flávia! Ah, mas se aquela cobra pensa que vai me passar pra trás nessa, ela tá lindamente enganada!”, nessa Flavinha ergueu uma sobrancelha suspeita, mas a ruiva, se viu, fingiu que não e continuou sua tirada, “Não sou a Marina, não, que bate palma pra tudo que ela faz. Tá achando o quê? Que só porque pinta aqueles quadrinhos mixurucas lá ela entende alguma coisa de arte? Pfft! Ainda por cima vem querer se meter no meu trabalho! Rá!”

“Mas esse é o trabalho dela,” Vanessa a fulminou com os olhos, “... também”, Flávia emendou um segundo depois.

“Você não tá ajudando, sabia?”

“E você tá sendo intransigente”

“Aiii, Flavinhaaa! Como você consegue ser assim, hein?”

“Assim?” Flávia franziu a testa, parecia genuinamente confusa.

Vanessa suspirou, sôfrega. “Sim, desse seu jeito aí. Essa sua... calma toda às vezes me deixa louca!”, bateu com as mãos no volante pra enfatizar o sentimento.

“Só às vezes?” Flávia lhe deu aquele olhar de novo.

“Tá! É sempre, mesmo! Mas olha que me dá uma vontade de te sacudir, viu? Dar uns tapas nessa sua cara pra ver se você acorda pra vida!” Vanessa brincou, rindo com gosto dessa vez. Sua irritação começava a ceder já que finalmente a massa infinita de veículos a sua frente decidiu fazer aquilo para o qual foi criada: se locomover.

Foram passando pela via acompanhado o fluxo lento dos carros, jogando conversa fora, implicando uma com a outra no entremeio, uma passada de mão mais ousada aqui e acolá... Até que, quase trinta minutos depois, avistaram umas luzes distintas uns cem metros a frente delas, e logo em seguida um burburinho e o som distante das sirenes se fez ouvir.

“Parece que foi feio”, Flavinha a olhou apreensiva por um instante, antes de voltar sua atenção para a confusão de pessoas, viaturas e ambulâncias que se formava na pista.

“É. Estão fazendo um desvio”, murmurou a ruiva, os olhos mais atentos ao tráfego agora.

O sol já havia descido no horizonte carioca e o céu estava pintado de púrpura e anil quando Vanessa manobrou o carro para o lado oposto da via, seguindo para o desvio provisório feito pela polícia. Foi então que uma sensação repentina fez subir um arrepio na sua nuca e a ruiva trilhou o olhar uma última vez para a cena caótica que se passava do outro lado da pista...

Sentiu seu corpo inteiro gelar no mesmo instante.

Com a brusca desaceleração, Flávia instintivamente pôs as duas mãos no painel do carro, o olhar assustado questionando a namorada. Mas Vanessa tinha o rosto voltado para o vidro da janela, suas mãos pálidas num aperto visceral no volante.

Dos lábios da ruiva saiu apenas um sussurro trêmulo.

“Marina...”

***

Acordou de seu sono turbulento com o toque insistente da campainha. Por um momento, sentiu como se ainda estivesse dormindo, como se aquilo tudo não tivesse passado de mais um de seus pesadelos.

Mas, enfim, despertara para a realidade fria e escura que era a ausência de Marina no quarto, em seus braços. Mas espera. A campainha. Marina havia retornado? Um suspiro pesaroso... Não, Marina tinha levado suas chaves. Talvez fosse uma das meninas, ou as duas provavelmente.

Depois que a fotógrafa fechara aquela porta, tudo o que Clara fez foi zanzar de um lado pro outro do quarto, a sós com o tumulto de seus pensamentos. Seu martírio interno durou por quase uma hora, então pensou em ligar pra Marina, várias vezes, mas desistia no instante em que teclava o primeiro, o segundo, o terceiro número. O telefone da casa era mais enfeite do que utilidade, já que mal o usavam. Mas seu celular era caso perdido, os pedaços espalhados no canto do cômodo atestando a intensidade da ira com que fora atirado contra a parede horas atrás.

Havia caído no sono depois de tanto chorar. Não queria lembrar. Mas Deus, como sua cabeça girava, latejava, doía, e mais essa maldita campainha que não parava de tocar...

Levantou-se e sentou na beira da cama, passando as mãos no rosto e nos cabelos antes de conferir o estado de suas roupas. Estavam amarrotadas, mas pelo menos não repetiria o espetáculo de mais cedo.

Desceu as escadas e foi acendendo as luzes pelo caminho, suas pupilas se ajustando a gradual mudança no ambiente.

Quando passava pela antessala do estúdio seus passos diminuíram. E foi então que uma visão, um lampejo do passado a arrebatou de si por alguns momentos.

Ali estava ela, linda naquele mesmo vestido branco de quando se viram pela primeira vez, deitada em cima da mesa. Parecia uma criatura mística daquelas de conto de fadas, uma ninfa no seu habitat natural feito de luz e sombras... Era o que esse lugar representava para Marina, afinal. Luz e sombras. Riu para o silêncio, porque podia jurar que ouvia uma voz melancólica soprando palavras de saudade em seu ouvido, palavras que sentia como uma carícia suave em sua pele e via preenchendo cada cantinho daquele lugar que era puramente, unicamente Marina.

Clara deixou seu olhar passear por aquele espaço, guardando cada detalhe na memória mais uma vez, até que seus olhos fitaram um objeto distinto.

Caminhou devagar até a bancada onde também repousavam o notebook e alguns livros, então estendeu uma mão para tocá-lo. Mas hesitou. Alguma coisa, força, ou sei lá, parecia paralisar seus dedos naquele instante.

Sua consciência? Talvez.

O ruído persistente e agudo a forçou fora de seu mundo paralelo e, com um último olhar para esse objeto, Clara virou as costas e retomou sua trajetória.

Segurou a maçaneta, abriu a porta, e pela segunda vez naquele dia as palavras, o ar, o chão, tudo lhe fugiu.

Na sua frente, aqueles olhos negros marejados se ergueram para encontrar os seus castanhos assombrados.

E depois de alguns segundos que literalmente duraram uma eternidade, falou.

“Posso entrar?”

Notas finais
Nossa...