Perchance

13 Prelúdio


Notas iniciais
Nota 1: Primeiro, peço desculpas pela demora em postar o capítulo. Tive alguns contratempos essa semana, mas vou tentar manter o ritmo anterior de atualizações. o/ Nota 2: Trama, trama, trama... Nota 3: Black, black heart... Why would you offer more? Why would you make it easier on me to satisfy? I'm on fire...

Era cedo e ainda chovia quando Clara deixou a atmosfera morna e silenciosa do quarto para o ritmo constante e profundo da respiração de Marina.

Desceu as escadas na mesma passada demorada do sol que se escondia no horizonte acinzentado lá fora, os pés como se pisassem num tapete de nuvens em vez de madeira sólida, mas ainda os tinha no chão o suficiente para se lembrar de levar o guarda-chuva e colocar um roupão dessa vez. Mesmo que agora a precipitação fosse mais aquela neblina esbranquiçada típica dessa época do ano, ainda soprava fina e gelada pelos verdes amarelados do jardim orvalhado.

Seus passos a levaram por entre as poças no gramado, pelos corredores de cercas vivas até a estufa das flores. Apesar da estação, algumas espécies ainda floresciam graças aos cuidados constantes de um sábio jardineiro.

Clara sorriu para o pequeno emaranhado de pétalas azuladas e vermelhas que aninhava entre seus dedos, então fez seu caminho de volta ainda sorrindo para as memórias felizes e tépidas que brincavam na chuva suave e na luz fria ao seu redor, saltando entre os muros verdes e as poças turvas do jardim.

Uma delas saltava mais alto que as outras, a promessa que fizera a sua companheira horas atrás, e mais uma vez se encontrou absorta e encantada pelo significado que a noite passada teve para ambas.

Nos intermináveis dias em que o abismo da dúvida se alargava, aquela dolorosa indiferença apenas crescia entre elas depois de cada noite desperdiçada sob os lençóis. Agora, diante de tudo o que passaram, sentia que essa noite foi uma reaproximação não apenas física, mas, e acima de qualquer intenção carnal, foi a reconquista emocional que tanto precisavam. A redescoberta de uma ligação muito mais profunda e inquebrável entre elas, uma que tinha sabor de novidade e futuro, e que marcou o reencontro de suas almas.

Lembrou-se, e essa reminiscência lhe trouxe certa trepidação, de que mesmo naquele momento de completa entrega Marina ainda parecia resistir, como se de algum modo estivesse ciente, sensível àquela chama escura que ardeu dentro do seu peito sua vida inteira.

Clara sabia contra o que ela lutava, por ocasiões e momentos até sentiu aquela força misteriosa tentando consumi-la, e por isso também não cedera completamente aos seus instintos ali.

Na verdade, noite passada lhe trouxera a confirmação daquilo que já suspeitava. Havia notado as marcas daquele conflito interno de Marina no corpo da fotógrafa, tentado ignorar a opacidade cansada que tingia o amendoado nos seus olhos agora, porque sabia que ela mais fingia que sentia estar tudo no lugar, que lutava em silêncio contra o fato de as peças não estarem mais nos seus encaixes perfeitos, ainda mais agora depois do grave trauma que sofreu e das sequelas que habitavam seu físico e sua mente. Marina chegou mesmo a afirmar entre murmúrios que ainda não tinha a memória exata do dia do acidente e, isso, Clara tinha certeza, era o que mais perturbava sua companheira.

Era certo que ainda precisavam conversar sobre o tempo deixado em suspenso entre elas desde muito antes daquela tarde sombria de domingo, mas o que mais queria nesse momento era ver Marina bem, completamente recuperada e de volta ao que mais amava fazer nessa vida, que era a fotografia.

Foi então que seus pensamentos foram interrompidos pelo súbito eco de um latido alto, que foi seguido por um grito ainda mais assustado e estridente e entremeado por resmungos de uma jura pros céus.

Clara balançou a cabeça e riu um pouco, já na área alpendrada da casa.

Assim que adentrou na sala, apressou os passos na direção das escadas, mas então outro ruído repentino a fez parar logo no segundo degrau. Esticou-se um pouco sobre o corrimão para ver se Sônia já estava pela cozinha, mas o ambiente parecia vazio.

Quem ligaria tão cedo para o fixo da casa?

Com um suspiro receoso, resolveu atender.

“Alô?”

Bom dia, é da residência da senhora Marina Meirelles?”

Reconheceu aquele tom afobado de imediato, mas quis confirmar mesmo assim.

“É, sim. Com quem falo?”

Ana, hum... Senhora Clara?

“A própria”, afirmou, tentando abafar uma risada.

Marina tinha acabado de ser transferida do quarto da UTI naquele dia e, apesar da situação não ter sido nem um pouco cômica, Clara nunca ia esquecer a cara que uma das enfermeiras fez enquanto ajudava a neurologista na troca dos aparelhos, curativos e então das batas da fotógrafa. Assim que viu Marina despida, a pobre moça arregalou os olhos e hiperventilou do nada, segundos depois estava tão vermelha que parecia à beira de um ataque cardíaco.

Err... É do consultório da doutora Tereza Dias. Ela pediu pra avisar que os exames finais da sua esposa estão prontos e que o retorno está marcado para a próxima segunda-feira”.

“Ah, que ótimo! Obrigada...”, respirou mais aliviada com a notícia, “Mas, hum... tem alguma novidade que possa me adiantar sobre os resultados?”

Sabe que eu não posso te passar essa informação, senhora Clara

Riu um pouco no tom exageradamente formal da enfermeira, “Eu sei, eu sei. Você tá certa”, uma pausa, então falou num tom provocativo, “A gente se vê na segunda, então. Ah, e a Marina tá te mandando um beijo, viu?”

Hum, é... sério? Eu– obrigada! Senhora Clara e, hum... Até segunda. Tenha um ótimo dia!

“Você também, Ana”, colocou o aparelho de lado na mesa, olhou para os lados, e não se aguentou mais.

“Olha que fazia tempo que eu não te via assim nesse bom humor, hein, dona Clara? Dá até gosto!”, veio o gracejo da cozinha.

Clara secou uma lágrima no canto do olho, ainda gargalhando enquanto se dirigia para os degraus, “Isso porque faz tempo que você não me vê, não é, dona Sônia?”, imitou o tom faceiro e arrastado da empregada.

“Mas... Mas eram minhas férias! Só eu que não tenho direitos nessa casa, é?”, a moça resmungou da entrada da cozinha, apontando-lhe uma faca de mesa ousadamente, enquanto Clara só ria e acenava pra ela já no meio das escadas, “E mais uma coisa, eu sei que a dona Marina ainda tá se recuperando e tudo, mas só ela que consegue domar aquele cachorro. Por isso a senhora trate de dar um jeito no pulguento porque se ele me matar, saiba que eu volto pra acertar as contas com as duas!”, e nessa girou nos calcanhares, rebolando sua indignação de volta pros seus afazeres na cozinha.

Clara meneou a cabeça com um riso baixo, os dedos da mão direita alcançando o metal da maçaneta. Antes de girá-la, olhou para o pequeno buquê que trazia na outra mão, então sua expressão foi suavizando, um sorriso diferente iluminando seu rosto agora.

Respirou fundo, abriu a porta, e deparou-se com uma cama vazia.

As sobrancelhas franziram um pouco quando notou um rastro de pegadas molhadas pelo chão do quarto, como se saíssem e entrassem do banheiro que agora tinha a porta meio aberta.

Também não ouvia mais o barulho da água que era pra estar enchendo a banheira que havia preparado antes de deixar o quarto.

Curiosos e bem quietos, seus pés a guiaram até a outra porta, mas do limiar não passaram. Parada ali na pouca réstia, Clara inclinou um pouco a cabeça para o lado, os olhos trilhando para as pegadas que seguiam pelo chão entre a porta e a parede.

E então sorriu.

Seu olhar subiu devagar pelos contornos das panturrilhas bem definidas, pelas pernas longas que culminavam nas curvas perfeitas dos quadris arredondados, apreciando por uns segundos a mais a vista dali, e foi se esgueirando pela cintura marcada até que repousou nos cabelos negros que cascateavam em ondas suaves pelos ombros nus da fotógrafa.

Aparentemente alheia aos olhos desejosos que a observavam, Marina permanecia parada de frente para o espelho. Os dedos de uma mão tateavam um lado do rosto, as sobrancelhas franzindo em concentração, enquanto a outra mão segurava um pequeno frasco branco sobre o mármore escuro do lavabo.

Clara suspirou profundamente na visão, finalmente fazendo sua presença audível para a fotógrafa.

Terminou de abrir a porta, deu um passo, dois, três, pareceram centenas até que aquele calor finalmente gravitou no seu. Então pressionou seu corpo firmemente no dela e ouviu Marina suspirar tremulamente quando suas mãos a circularam pela cintura e alcançaram a mão dela no mármore. Cuidadosamente, retirou o frasco de comprimidos dos dedos úmidos da fotógrafa, substituindo-o pelas pequeninas pétalas aveludadas.

Viu pelo reflexo do espelho esfumaçado um lampejo do sorriso que iluminou o rosto da esposa, quando ela levou as flores até o rosto e as cheirou levemente, os olhos piscando devagar no perfume suave e adocicado.

Roçou seus lábios no ombro nu antes de recostar o queixo ali, “Não vai precisar mais desses”, murmurou ao afastar o pequeno frasco para um canto.

Marina se encolheu um pouco em seu abraço, inalando um aroma decididamente diferente que se espalhava no ar, então pegou uma das mãos da esposa entre as dela, entrelaçando-a entre as flores e seus dedos junto ao peito.

“De verdade?”, fechou os olhos ao exalar a palavra, um sorriso familiar curvando-lhe o canto da boca. Um gemido baixo lhe escapou quando sentiu o corpo da companheira arquear instintivamente no seu, pressionando-a contra a borda fria do mármore, as pétalas agora esmagadas entre suas mãos entrelaçadas.

“Nunca mais”, prometeu, se aconchegando ainda mais nela, “Ia precisar mesmo era dessas flores lindas que eu tive que roubar do nosso jardim pra te dar, mas olha só o que você fez com elas...”, ouviu-a sussurrar naquele tom rouco em seu ouvido, antes de mordiscar-lhe a pele sensível mais embaixo.

Marina riu baixo na sensação, seu tom era tudo menos inocente quando levantou suas mãos entrelaçadas até os lábios para murmurar nas costas da mão da companheira, “Ah, que pena. Todo esse trabalho... em vão... ”, e apertou-lhe os dedos com mais força ao beijar a pele bronzeada, a ponta da sua língua provocando um arrepio ali e fazendo a outra mulher gemer baixinho na curva do seu pescoço, "Quem sabe eu não posso te recompensar?"

Mas a essa altura Clara já não ouvia, estava completamente tomada pela sensação hipnotizante dos quadris que ondulavam e pressionavam contra os dela, a mão que agora deslizava entre as pernas da fotógrafa lhe confirmando que ela estava tão ansiosa por isso quanto insinuava.

Ia tê-la ali mesmo, se Marina não tivesse outros planos...

Mal viu o rosto dela quando a mulher girou em seus braços de repente, e então seu mundo sumiu naquela boca quente que agora consumia a sua, seus pensamentos caçados até o último pelos dentes e língua e lábios que perseguiam sua pele entre grunhidos e suspiros.

Os dedos ansiosos da fotógrafa tentaram desapertar o nó da faixa em volta da sua cintura, só para no fim arrancar o tecido espesso que cobria seus ombros enquanto a empurrava e empurrava, até que Clara sentiu suas costas nuas colidirem contra o fumê frio do vidro maciço atrás dela, o impacto roubando todo o ar dos seus pulmões momentaneamente.

Ah, se todas as dores dessa vida fossem assim, tão deliciosamente erradas, tão cruelmente prazerosas...

Com Marina, sempre foram.

E mais uma vez Clara se castigou internamente por ter se deixado esquecer, e da pior maneira possível...

Esse ardor arrepiante na sua pele toda vez que Marina a despia desse jeito, esse latejar molhado no seu sexo toda vez que ela rosnava vontades no seu ouvido, as unhas arranhando desejos em suas coxas enquanto a boca sugava luxúria da sua carne, dos seus seios...

Isso era só dela, da sua...

“Marina...” gemeu o nome daquele inferno em sua pele, os olhos fechados para o teto, mãos perdidas entre os cabelos da cabeça que pressionava contra seu peito.

Com os dedos fincados num aperto vicioso em seus quadris, a fotógrafa respondeu seu chamado sugando-lhe o mamilo direito e então todo o seio dentro da boca, o que fez seus joelhos fraquejarem por uns segundos, até que se recuperou e conseguiu chamar a atenção dela com um puxão mais forte nos cabelos.

“Vai com calma...”, sussurrou quase sem ar, “Você ainda não–”, mas suas palavras seguintes se afogaram no oceano da boca profunda e urgente que segundos depois descia insaciável por seu pescoço, pelo vale entre seus seios, os dentes afiados raspando por seu abdômen, deixando uma trilha escaldante em sua pele.

E então aquele delírio roubou o lugar do que ainda lhe restava de pensamento coerente, seu mundo se resumindo ao paroxismo que era Marina ali, de olhos fechados, ajoelhada entre suas pernas, lábios e língua e dedos tomando-a com tanto vigor que a forçou a ficar na ponta dos pés, lutando para encontrar o equilíbrio necessário enquanto suas mãos se agarravam ora no vidro escorregadio atrás dela, ora na cabeça da fotógrafa, até que Marina a incentivou a erguer uma de suas pernas sobre o ombro dela. Depois disso, tudo ao redor derreteu no fogo líquido que lambia seu sexo num ritmo alucinante.

Um momento mais, só um pouco mais do paraíso infernal que aquela boca e dedos provocavam entre suas pernas e então o arrepio se espalhou por cada centímetro da sua pele. O impacto avassalador do seu orgasmo a curvou para frente e sua visão desbotou durante os longos segundos em que experimentou o êxtase mais pleno, até que o tremor em seu corpo começou a ceder aos poucos, e enfim seus pés voltaram a tocar o piso frio e aderente da realidade.

“Caramba, Marina... Isso foi...”, ofegou entre leves espasmos, esfregando uma mão no rosto suado, enquanto a outra inconscientemente acariciava os cabelos úmidos da fotógrafa que agora lambia e sugava beijos lânguidos de suas coxas, “Vem aqui...”, e então sentiu aqueles lábios macios subirem por seu ventre, salpicando beijos ao longo do caminho até seus seios, e por fim na sua boca que esperava ansiosamente.

Enquanto a beijava, Marina alcançou e levantou sua perna direita, dobrando-a em volta do quadril para que pudesse se encaixar melhor no seu corpo, então a mão livre desceu pela outra perna da esposa e repetiu a ação.

Clara obedientemente cruzou os tornozelos, abraçando-a entre suas pernas, e então sentiu quando Marina deslizou uma mão entre seus corpos até seu sexo ainda sensível, os dedos estimulando-a sem tanta urgência agora.

“Meu Deus... O que deu em você?”, sussurrou com um riso baixo e nervoso, enquanto a fotógrafa mordiscava e beijava seu pescoço distraidamente.

Só depois de instantes ela soprou-lhe nos lábios entreabertos, “Saudades...”, e lá estava de novo, aquele olhar encapuzado penetrando no seu, esquadrinhando sua mente tão facilmente, era como se nunca tivesse perdido o fio...

E naqueles segundos estranhamente longos, sentiu como se aqueles olhos machucados conseguissem mesmo enxergar o mais íntimo e profundo escuro do seu ser.

Clara estremeceu no arrepio súbito que aquele olhar lhe causou e teve que se segurar mais forte nos ombros da fotógrafa.

Mas então sentiu um dos braços de Marina a envolver pela cintura, os dedos daquela mão fincando-se no seu lado e trazendo seus corpos impossivelmente mais perto, enquanto os da mão direita agarraram o músculo firme da sua coxa, e logo em seguida os pés descalços já as guiavam através da porta de volta para o quarto com uma certeza no passo que era espantosa para alguém privado de sua visão.

Como Marina fazia tais coisas, como conseguia assustá-la e maravilhá-la assim, fazendo-a se encontrar num momento só para deixá-la perdida no seguinte, Clara não entendia.

Mas não precisava entender quando podia sentir, precisava? E se sabia de alguma coisa nessa vida com exatidão, era de que seria sempre a única a provar no corpo e na alma os prazeres inomináveis que o demônio que habitava nessa mulher era capaz de proporcionar...

Quando deu por si, estava ali novamente, entregue de corpo e alma sob o peso dela, só que dessa vez suas costas relaxavam no muito bem-vindo conforto da sua cama.

Já Marina não parecia interessada no ambiente que a rodeava, só tinha sentidos para o corpo que estremecia e se contorcia embaixo dela, tentando correspondê-la no súbito e intenso pulso de energia sexual que a tomou naquele momento.

Minutos depois e com certo esforço, Clara finalmente conseguiu colocar algum espaço entre suas bocas, o suficiente para que pudesse respirar fundo e procurar em sua mente as palavras que precisava dizer antes de se perder naqueles lábios outra vez e para sempre...

“Eu te amo...”, sussurrou nos lábios dela antes de beijá-los suavemente, “... amo sua inteligência, essa mente assustadoramente linda e incrível que você tem...”, beijou-lhe o olho direito e sentiu as mãos dela apertarem seus ombros com força, “... amo o jeito que me segura em seus braços e me traz de volta quando estou prestes a cair nessa confusão dentro de mim...”, Marina exalou trêmula quando seus lábios tocaram-lhe o olho esquerdo, “... amo cada pedacinho certo e errado de você...”, e então suas testas repousaram uma na outra, os castanhos abertos para os amendoados encapuzados quando Clara enfim segredou as palavras há muito presas em sua garganta, “E se eu falhei em te dizer, em te demonstrar isso antes, saiba que a minha maior recompensa é te ver bem, e feliz, seja como for... E ainda que eu sinta seu amor todos os momentos do dia, mesmo quando você não está por perto, eu... só queria que soubesse que cada vez que me toca assim? Você é esse amor, todo o amor que eu preciso...”

Um longo silêncio seguiu o eco baixo de suas palavras e, enquanto ficou ali, tremendo, esperando, sentindo o sopro da respiração quente de Marina contra seus lábios, Clara sentiu como se o peso daquela sombra de dúvidas e medos que pairava sobre sua consciência fosse finalmente levantado, erguido pelo toque áspero e ao mesmo tempo gentil dos dedos que apertavam seus ombros, liquidado no selar dos lábios que agora se uniam aos seus numa carícia trêmula e hesitante, então confiante e tão...

“Marina...”, e a sentiu sorrir no beijo, ambas cientes de que aquela mão sorrateira foi a causa do seu suspiro sôfrego, do arquear repentino dos seus quadris.

“Eu também te amo”, sussurrou em seus lábios, então aquele sorriso se tornou pura malícia, “... agora abre as pernas pra mim, só mais um pouquinho, vai, gostosa...”

Uma risada baixa e rouca ecoou pelo quarto, “Vadia...”

“E você me adora assim...”, foi quando Clara enfim se rendeu, e as palavras se afogaram na saliva e no suor.

***

A vibração aguda e súbita da campainha tirava sua atenção das coisas mais importantes, por isso Sônia sempre corria para atendê-la ao primeiro toque.

Abriu a porta já meio esbaforida, mas então seu fôlego sumiu completamente por um instante.

“Ah... Dona Grimaud...”

A francesa revirou os olhos e fez um gesto indiferente com a mão ao passar por ela sem maiores cortesias, “Já disse que não precisa dessas formalidades comigo, moça”.

Sônia fechou a porta devagar, balançando a cabeça nervosamente, antes de seguir no rastro dos saltos da francesa.

Diana já tinha uma mão no corrimão da escada quando ouviu um pigarreado insistente atrás dela. Suspirando por paciência, a loira girou nos calcanhares de uma vez, só para dar de cara com a empregada que a seguia bem mais de perto do que ela havia antecipado.

Sônia fez uma cara horrorizada quando quase trombou nela e Diana riu baixo, meneando a cabeça ao cruzar os braços sob o decote do blazer escuro que vestia suas curvas escandalosamente bem, gesto esse que pareceu deixar a empregada ainda mais nervosa.

A moça demorou uns segundos a mais para recuperar sua compostura, olhando para todo lugar menos na direção da francesa, até que por fim limpou a garganta antes de encará-la vagamente, “Eu, hum... Se eu fosse a... senhora, eu não subia lá agora, não...”, murmurou com os olhos arregalados.

Nessa, Diana deu um passo vagaroso à frente, inclinando um pouco a cabeça para melhor examinar a reação da moça, “Sônia, não é?”, no aceno robótico da empregada, a francesa sorriu maliciosamente e levou uma mão até o rosto dela, os nós dos dedos roçando levemente no queixo da moça que estremeceu visivelmente no toque, “Eu sei que a gente não se fala muito quando eu venho aqui e... às vezes isso pode parecer grosseria da minha parte. Mas é que... eu estou sempre tão ocupada, com mil e uma coisas pra resolver, sabe?”, Sônia arregalou ainda mais os olhos quando a mulher foi se aproximando devagar, devagar, até que seus lábios sussurraram-lhe no ouvido, “Agora me diz... Por que eu não deveria subir essas escadas, mon petit?”

Ao que parecia, Sônia havia perdido a habilidade da fala, porque mesmo quando Diana se afastou um pouco para olhá-la diretamente nos olhos com aquele sorriso desconcertante, a boca da moça continuou pendendo ligeiramente aberta e, se seu cérebro tentava produzir algum som, sua língua travada não veio em seu socorro.

Foi então que, do nada, um eco abafado, rouco e longo reverberou pela sala, acordando a empregada do seu transe e fazendo Diana olhar por cima do ombro para o topo das escadas com uma expressão no rosto que era um misto de desgosto e curiosidade.

“Err... Acho que a senhora, hum... teve sua... resposta?”, Sônia balbuciou com uma careta, esfregando uma mão inquieta no pescoço quando a francesa voltou a encará-la, agora com uma expressão mais neutra.

“Hmhm, entendi...", uma pausa, "Faria a gentileza de me acompanhar num chá, Sônia?”, pediu com um bater vagaroso de cílios e um sorriso condescendente.

“Depois da senhora...”, a moça gesticulou vagamente na direção da cozinha, o olhar agora fixo no chão.

A francesa virou devagar, então seus passos calculados a levaram pelo caminho que conhecia de cor.

Atrás dela, ouviu a moça exalar pesadamente antes que o eco lento dos seus passos decidisse seguir os dela.

Diana só não viu o sinal da cruz que Sônia repetiu três vezes assim que ela adentrou o cômodo mais aromático da casa.

Notas finais
Isso foi... interessante...