Notas iniciais
Nota 1: Que final de novela puxado, aquele... -_- Nota 2: Se segurem aí que a montanha russa vai entrar num looping agora. o/

Seus pés nunca pesaram tanto...

Era como se toda a força da gravidade no universo a tivesse escolhido para fincá-la no chão naquele momento.

Ou talvez sua consciência fosse a causa por trás disso, do peso do mundo que sentia desmoronar sobre suas costas agora.

Poucas chances de recuperação total...”, a médica lhe dissera com pesar.

Queria tanto chorar, choraria por mil anos se isso significasse que esse pesadelo passaria no fim, que evaporaria junto com as lágrimas que já não tinha.

Mas estava seca por dentro...

Seus pensamentos eram um deserto sem miragens, enquanto seus pés trôpegos a levavam cegamente pelo corredor, a mão de sua aliança se arrastando pela parede azulejada e fria.

Sentia como se aquele buraco que pressentira em seus sonhos fosse se abrir a qualquer instante sob seus pés. Sentia como se fosse cair e cair e cair...

Deus, como algo assim podia ter acontecido? Por que justo com a Marina?

Por que não comigo?”, a culpa lhe soprava no ouvido, corroendo-lhe as entranhas.

Clara já estava caindo...

“Por que, meu Deus? Por que?”

***

Vanessa saltou dos braços de Flávia quando avistou Clara se agachando no corredor, as costas deslizando contra a parede enquanto as mãos seguravam a cabeça num aperto desolado.

“Clara? Meu Deus, o que aconteceu?”, já estava se ajoelhando diante da mulher, usando os dedos para remover algumas mechas de cabelo que pendiam na frente do seu rosto pálido, “O que a médica disse?!”

Clara ergueu os olhos e viu de relance que Flavinha as observava a certa distância, dando-lhes a privacidade do momento, mas ficando por perto caso precisassem. Sentiu-se imensamente grata pela presença das duas ali, não sabia se teria aguentado passar por isso sem o alento de um rosto conhecido.

As mãos foram para os pulsos de Vanessa, que agora acalentava o rosto de Clara nas suas, o olhar assustado da ruiva procurando por respostas que não sabia se queria ouvir.

“Por favor, me leva pra casa...”, murmurou, sentindo as pálpebras pesar sobre seus olhos contra sua vontade.

Percebendo a palidez e a frieza repentina na pele dela, Vanessa meneou a cabeça e fez sinal para Flávia, que só então se aproximou das duas com uma expressão tensa no rosto.

“Acho que a pressão dela caiu, ou pode ser hipoglicemia... Ela comentou que isso acontece às vezes, quando fica muito tempo sem se alimentar”, Vanessa cochichou para a namorada enquanto ajeitava o braço direito de Clara em volta do seu pescoço.

“Vou chamar um enfermeiro”, Flavinha disse com os olhos arregalados, já procurando ao redor.

“Não, não. Ela só precisava comer alguma coisa...”, fez uma careta quando tentou se levantar, havia calculado mal o peso da outra mulher, “Vem rápido, me ajuda aqui”.

Flávia apressou-se para o outro lado de Clara, colocando seu braço em volta da cintura dela, então apoiou o braço solto da mulher por cima do seu ombro.

As três mulheres seguiram se tropicando de volta para a sala de espera, onde agora menos pessoas se apertavam pelos cantos. Diana, que estava sentada ao lado de Cadu próximo a um guichê de informações enquanto falava ao celular, percebeu a cena e logo se levantou, mas seus pés do lugar não saíram.

Já Cadu levantou e acelerou o passo na direção delas. Quando o viu, Clara parou de repente, fazendo Vanessa ranger os dentes e trocar um olhar impaciente com Flávia. Não gostava nem um pouco de ver esse homem ali, mas essa não era a hora nem o lugar pra expor sua opinião sobre a relação indigesta que Clara ainda fazia questão de manter com o ex-marido.

“Vai embora, Cadu”, disse com as forças que lhe restavam, fazendo a ruiva lhe lançar um olhar de espanto, “Sai da minha frente... Sai da minha vida...”

Pego de surpresa pelo tom venenoso da ex-mulher, ele recuou no meio da passada, os olhos piscando algumas vezes até que as palavras finalmente se assentaram, fazendo sentido em sua cabeça.

Nessa Flávia e Vanessa se entreolharam discretamente, então se voltaram para Cadu que agora parecia uma tela em branco ali parado, seus olhos lacrimejando de mágoa, de pura raiva mal contida.

Diana foi quem interrompeu o silêncio constrangedor, aproximando-se com cautela, “Se estiver indo pro Leblon, posso te oferecer uma carona”, falou devagar, o olhar calculado alternando entre Clara e Cadu.

“Eu aceito”, ele replicou sem olhar pra francesa, meneando a cabeça com um sorriso irônico curvando o canto da boca, “Tenho certeza que sua... esposa vai sair dessa ilesa, Clara. Sabe o que dizem por aí, vaso ruim não quebra assim tão fácil”.

***

"Pega aí. Come tudo, hein?", disse com um pequeno sorriso, mas seu olhar era apreensivo quando entregou a sacola a Clara.

Já estavam no carro a caminho de Santa Teresa. Eram quase dez da noite quando pararam num barzinho e a ruiva desceu pra comprar um lanche rápido.

No banco de trás, Clara olhou para o sanduíche em suas mãos, seu estômago embrulhou.

Flavinha trocou um olhar com Vanessa antes de dar a partida novamente.

Seria um longo caminho de volta pra casa.

***

As chaves tintilavam em seus dedos trêmulos, mas conseguiu abrir a porta. Entrou, seus passos ecoando pela sala vazia e escura, o som seguido de perto por outros dois pares igualmente cautelosos.

Acendeu a luz, seu olhar imediatamente trilhou para aquele objeto que repousava intocado, ainda no mesmo lugar.

Sobre a capa do clássico Dom Casmurro.

Clara já não tinha lágrimas, mas as sentiu cair e cair.

ALGUMAS SEMANAS DEPOIS

Inspirou profundamente, os olhos fechados voltados para o céu entardecido.

Estava ansiosa para sentir o sopro morno da última brisa de verão em suas pálpebras cansadas.

As coisas estavam tão... diferentes.

As sensações, os sons, os cheiros, os gostos, de alguma forma tudo parecia mais intenso agora.

Familiar e estranho ao mesmo tempo.

Era assustador...

Levantou uma mão diante do rosto, moveu-a assim, sentindo o ar passar por entre seus dedos, então cerrou o punho com força.

Não. Não era de ar que estava precisando, afinal.

Precisava de luz.

***

Estava de pé ali havia mais de uma hora, no seu lugar seguro detrás do vidro da janela do quarto, seu olhar fixo numa silhueta conhecida.

Marina havia deixado o quarto com a desculpa de que precisava tomar ar fresco, negando-se a ser ajudada quando Clara ofereceu.

Preocupada, havia observado a fotógrafa fazer seus passos com a destreza de quem dança um ritmo conhecido há anos.

Ela havia descido os degraus, tateado seu caminho pelo estúdio, seguido para a área externa, e então sentado na borda da piscina, afundando os pés descalços na água fria.

E lá permanecera pelo resto da tarde.

Era realmente impressionante que conseguisse encarar a situação assim, como se nada estivesse fora do lugar, e em tão pouco tempo.

Talvez porque, para Marina, tudo sempre estivera fora do lugar.

Afinal, o que é a vida se não uma questão de encaixe? A fotógrafa lhe dissera uma vez, quando lhe falava sobre a mãe.

Que desde que ela havia morrido, sentia-se assim, deslocada num mundo de encaixes imperfeitos. Passara a juventude tentando se encontrar enquanto se perdia nas curvas sinuosas de outros corpos, nos vãos escuros de mentes tão quebradas quanto a dela.

E, até certo ponto, Marina havia conseguido esse encontro de si, consigo mesma. Na sua arte, nas suas viagens pelo mundo, nos seus momentos de solidão.

Mas, desde o dia do acidente, do qual Marina afirmava não ter qualquer memória, Clara ficara com essa sensação de que suas vidas haviam se transformado naquele quebra-cabeça que a fotógrafa ganhara de presente da mãe muito tempo atrás.

Um dia, Marina havia lhe contado, quando estava prestes a finalizá-lo percebeu que faltavam algumas peças.

E sua mãe já não estava mais lá.

Faltava-lhe o encaixe perfeito.

E foi esse encaixe perfeito que a fotógrafa passou a procurar desde então.

Clara suspirou pesadamente, afastando-se do vidro e dos seus pensamentos melancólicos, os passos a levando pela porta, pelas escadas...

Como suportaria conviver com uma sombra daquilo que um dia foi o seu encaixe perfeito?

O que seria da sua vida se a sua Marina nunca mais voltasse?

***

“Posso sentar um pouquinho aqui com você?”

Marina inclinou a cabeça na direção daquela voz.

Com um sorriso, tateou o mármore do seu lado, “Claro, senta”.

Clara se abaixou devagar, todo tempo a olhando com uma expressão que era um misto de cuidado, alívio e incerteza. Pelo menos Marina não rejeitou sua companhia dessa vez.

Olhou para a água e viu os pés da fotógrafa balançando vagarosamente ali dentro. A cena lhe trazia lembranças agradáveis, memórias de um tempo onde não existiam tantos arrependimentos.

Ficaram ali por longos minutos na companhia silenciosa uma da outra, enquanto o céu mudava de laranjas e azuis para cinzas e breus. Até que...

“Meu pai não veio”

Clara a olhou, franzindo as sobrancelhas ao falar devagar, “Ele retornou meu email, disse que tá tendo uma semana cheia, mas que assim que puder vem te visitar... de novo”

“Ah...”, foi tudo que Marina disse.

Silêncio. E mais silêncio. Já havia até estrelas no céu, o ar se tornando mais frio e pesado entre elas.

“Você... tá bem? Quer que eu prepare alguma coisa pra comer, amor?”, perguntou sem jeito, só percebendo um segundo depois o que havia dito no final, “Ah, eu... Tá ficando frio aqui. Acho que vou entrar... um pouco. Você não vem?”, emendou fazendo um careta, sentindo-se ainda mais sem graça.

“É, acho que me lembro dessa parte”, Marina finalmente falou, rindo baixinho, o rosto ainda voltado para o espectro azulado da água, “Quer dizer, menos do ‘amor’...” entoou a última palavra com um sorriso estranho, como se a degustasse, mas não encontrasse sabor algum nela.

Clara engoliu em seco, seus olhos esperançosos fixos no perfil da fotógrafa, “Do que mais você lembra?”

“Que você sempre ficava desse jeito, toda nervosa quando a gente se encontrava ou falava por telefone...”, disse com um sorriso pequeno, “... mas aí no fim você voltava pra casa. Pra... ele”

Sentiu o nó em sua garganta crescer, mas conseguiu controlar o tremor na voz, “Não volto mais, Marina”

“Por que estamos casadas agora?”, questionou-a, franzindo a testa como se a confundisse a ideia de casamento.

Porque eu te amo”, quis dizer, mas algo dentro dela a impedia.

Culpa? Talvez.

Baixou a cabeça com um suspiro, fixando o olhar nas mãos que agora se apertavam nervosamente em seu colo, “Você não se lembra de quando nos casamos?”

Marina exalou audivelmente, inclinando a cabeça na direção daquela voz tão íntima e ao mesmo tempo tão distante.

“Lembro que a gente usou vestidos iguais...”, disse e ambas riram por um momento, então sua expressão foi ficando mais séria, “Mas não sei por que tenho essa sensação de que não fomos felizes depois... Não completamente. Estou certa em pensar assim?”

“Não sei, Marina”, murmurou com um fungado baixinho, ainda olhando para as próprias mãos, “Não sei...”

Marina balançou a cabeça devagar naquelas palavras, então voltou seu rosto para o calmo brilho azul que refletia da piscina.

O pior não era esse mosaico de faces borradas que era sua mente agora. Essas lacunas iam ser preenchidas com o tempo, mais cedo ou mais tarde, não importava. Disso ela sabia.

Não, o pior não era o fato de não lembrar o lugar exato, o encaixe perfeito das peças que agora diziam fazer parte da sua vida.

Para Marina, o pior era não poder enxergá-las mais.

Notas finais
*Respira* É...