Perchance

17 Labirinto I


Notas iniciais
Nota 1: "A vida de uma pessoa não é o que lhe acontece, mas aquilo que recorda e a maneira como o recorda.” - G. G. Márquez

Quando saiu do banheiro, encontrou Marina e Clara sentadas aos pés da cama, estranhamente quietas e segurando as mãos uma da outra.

Percebendo que o momento devia ser mesmo sério, a ruiva engoliu o gracejo que trazia na ponta da língua. Não trocou mais do que algumas palavras e outra trivialidade qualquer com as duas mulheres antes de deixar o quarto em busca da namorada.

Clara havia comentado vagamente que Flavinha estava no piso superior do arquivo, e que provavelmente Diana ainda estivesse por lá também. Na menção da francesa, Vanessa havia franzido a testa, aquela inquietação no peito voltando, a mesma que também fazia as pontas das suas orelhas formigarem toda vez. Era estranho, porque não sabia dizer o que exatamente lhe causava essa sensação, se ciúmes, raiva, intriga, receio, ou uma mistura corrosiva de tudo isso.

Só sabia que precisava olhar nos olhos de Flávia o quanto antes.

E foi com esse pensamento que Vanessa cruzou o limiar da porta da sala, deixando-a por fechar. Os pés apressados por nenhuma razão em particular, ou talvez porque lhe sobrassem as razões erradas.

Seguiu pelo corredor curto, então pela porta estreita até a escada espiralada. Estava tão perdida em sua própria mente que quase esbarrou em alguém quando alcançou o penúltimo degrau.

Levantou o olhar atordoado e deu de cara com ela, que a esquadrinhava da altura dos seus saltos com olhos que eram duas fendas finas e azuis sob os cílios pesados.

Vanessa engoliu em seco na visão que transpirava elação e malícia.

“Não se preocupe”, a francesa disse com um sorriso de canto, antes de encurtar a mínima distância entre elas, insinuando-se entre o corrimão e seu corpo ao descer para o mesmo degrau em que Vanessa estava, “Sua... namorada está te esperando lá dentro... sem um arranhão”, sussurrou-lhe no ouvido e riu baixo, o que fez Vanessa piscar irrequieta e se encolher um pouco contra o corrimão oposto.

Diana lhe deu um último olhar apreciativo, então começou sua descida vagarosa com uma leveza no passo que não podia ser coisa desse mundo.

Seus olhos arregalados acompanharam a silhueta da francesa até que ela desapareceu por aquela mesma porta, então se fecharam quando uma tontura súbita ameaçou derrubá-la do topo da escada, as mãos agarrando-se com urgência no corrimão atrás dela.

Baixou a cabeça, respirou fundo algumas vezes, então olhou para a pequena luz vermelha acesa na parede, a que ficava afixada acima da porta do arquivo.

É, até podia ser que estivéssemos aí pra isso, que nessa vida iríamos cair e levantar, e cair só pra levantar de novo, se assim nos favorecesse a mão do destino.

Só que, nessa queda livre em que se via agora, Vanessa não estava tão certa de que seria amortecida, de que haveria uma subida possível...

Talvez seu fôlego acabasse no chão dessa vez.

***

A voz dela soava distante, cansada, sem aquela verve que costumava marcar-lhe as notas roucas e alegres.

Era como se Clara estivesse mergulhando em águas muito mais turvas e frias, onde a luz do sol não a alcançava mais.

As mãos dela seguravam as suas e já não eram tão sólidas, mas ainda assim as sentia puxando-a, trêmulas e fluidas, sempre mais perto e cada vez mais dentro daquelas águas.

E Marina se deixou atrair, se deixou afundar junto com ela, fechando os olhos para o som da voz que a guiava pelas profundezas escuras de memórias que não eram suas para contar.

***

As três mulheres estavam sentadas no tapete da sala, imersas entre as fotografias, livros, pilhas de papéis e seus respectivos notebooks, enquanto trabalhavam na companhia silenciosa uma da outra, até que...

“Quem é essa Diana Gui... ma... sei lá, que a Marina foi ver em São Paulo?”, perguntou vagamente, enquanto seus dedos folheavam irrequietos um bloco de notas vazio de palavras.

“Grimaud”, Vanessa cantarolou o pouco de francês que tinha na pronúncia, o que fez Flávia rir do lado dela, “É essa aqui, ó”, e atirou uma fotografia na direção de Clara, que agarrou o papel um segundo antes que voasse direto no seu rosto.

A mulher fez uma careta descontente pra ruiva, mas então seus olhos se arregalaram quando pegaram um relance da fotografia em suas mãos. “Caramba, ela é...”

“Um escândalo, realmente”, Flavinha completou, meneando a cabeça com um sorrisinho que Vanessa já conhecia muito bem. A ruiva só teve que levantar um dedo na cara da fotógrafa para que a expressão faceira derretesse novamente para aquela máscara de indiferença característica da namorada.

“Hm, pode até ser...”, a ruiva murmurou, voltando sua atenção pra mulher sentada a sua frente, “Mas o fato é que essa mulher é mais que beleza, não é por acaso que ela é conhecida na França como a ‘Mecenas de Nantes’...”, na expressão confusa de Clara, ela suspirou antes de esclarecer, “Diana tem muitos investimentos espalhados pela Europa e Ásia, e como toda gente podre de rica, ela tem seus hobbies... excêntricos. Acho que o mais ‘normal’ deles é financiar e divulgar trabalhos de aspirantes e até de nomes conhecidos do mundo das artes em vários países, assim como a mãe, a avó e a tataravó faziam antes dela”

Flávia não exteriorizou qualquer sobressalto com a informação, ao contrário de Clara que estava visivelmente impressionada, “Ah, então ela é de uma família influente por lá...”, instigou a ruiva num tom curioso.

“Meu amor, o nome Grimaud pode até não ser tão alardeado assim no Brasil”, Vanessa então olhou para Clara, que agora olhava fixamente para a fotografia entre seus dedos, antes de finalizar com um estreitar de olhos, “mas é bastante influente por aqui também, acredite”

Ainda sem levantar o olhar, Clara indagou-a num tom estranhamente calmo, “Mas de onde, exatamente, Marina conhece essa mulher?”

Vanessa suspirou sôfrega, colocando o notebook de lado no chão. “Pelo que sei os pais dela conheceram os pais da Diana durante uma viagem que fizeram pra Suíça, muitos anos atrás...”, nessa, Clara a olhou por baixo dos cílios, a cabeça inclinando sutilmente na direção dela quando a ruiva continuou narrando, “Pouco tempo depois a mãe da Marina morreu e aí ‘Don Diogo Meirelles’ e a mãe de Diana foram se tornando mais... próximos”, foi a vez de Flávia tirar os olhos do computador em seu colo, voltando sua atenção para a namorada, “Marina nunca gostou de falar disso, foi uma fase bastante difícil da vida dela, mas pelo pouco que ela me contou Diana chegou a morar uns anos com a família dela aqui no Rio enquanto frequentava um curso de... música, conservatório, ou coisa do gênero. É, lembro que a Marina disse que fazia o colegial nessa época...”, Vanessa então se levantou e foi até a bancada, os olhos procurando na bagunça organizada por ali enquanto falava, “Só que aí, com a morte da mãe da Diana, ela teve que voltar pra França pra cuidar dos negócios da família, e por causa disso elas foram perdendo contato até que o ‘romance proibido’ –”, e nessa, uma a voz rouca a interrompeu.

“Espera aí”, Clara falou e levantou-se de uma vez, “Como assim ‘romance proibido’?”

Vanessa piscou umas duas vezes, um tanto confundida. “Err, pensa comigo, Clarinha... Elas acabaram se tornando meio que ‘irmãs’ aos olhos da sociedade, por causa do affair público entre os pais delas, entende?”, notou a crescente agitação na expressão da mulher e trocou um olhar apreensivo com Flávia, antes de continuar mais devagar, “E ao que parece era complicado demais explicar pra mídia e pros amigos da família que as filhas deles também... sabe? O lance gay e tal? Aí faziam o que podiam pra abafar o caso. Mas, é...”, então catou um grampeador de cima da bancada e refez seus passos até o tapete, onde se sentou toda desengonçada, “Nem foi preciso tanto esforço no fim. Um oceano Atlântico inteiro de distância esfria qualquer relação, minha filha”, finalizou com uma risada sem humor.

“Ah, entendi...”, murmurou mais para si mesma, os olhos vagando pelo chão por um momento antes de trilharem para a ruiva de novo, “Mas e... você chegou a conhecer essa Diana pessoalmente?”

“Eu? Não, não”, Vanessa riu um pouco, então pronunciou entre um estalido nervoso e outro do grampeador, “Minha história com a Marina é... bem mais recente que isso. Ela tinha o que na época... em que o namoro começou? Quatorze anos? É...”, jogou o bloco de papéis pro lado com mais força que o necessário, antes de pegar outro e finalizar num tom sombrio, “Já Diana acho que devia ter uns dezessete, dezoito, por aí...”

Clara meneou a cabeça vagamente, então se agachou devagar no tapete ao falar, “Então quer dizer que ela foi, hum... a primeira... da Marina?”, seus olhos castanhos fitavam a fotografia no chão, até que desviaram quando uma sensação repentina fez seu estômago virar em nós.

“Sim, Clarinha”, a ruiva suspirou pesadamente, já estava cansada desse bate e volta sem sentido com a outra mulher, mas se forçou a continuar num tom pouco irônico, “Ela foi o primeiro amor, sexo selvagem, musa inspiradora, primeiro tudo da Marina. Paixonite daquelas agudas, mesmo, sabe? Com todo o drama que tem direito”, nessa, notou Flavinha alcançando a tal fotografia e estreitou os olhos, sua voz agora irritadiça, “Mas nada de entrar em pânico ainda, tá? Ela pode até ser essa deusa grega endinheirada da foto aí...”, voltou sua atenção pra namorada com um sorriso maligno, “... que a Flavinha tá babando toda por sinal, né, safada? Me dá isso aqui!”, arrebatou a fotografia das mãos da mulher, que só piscou pra ela daquele jeito apático que fazia Vanessa revirar os olhos em exasperação toda vez, então retornou sua atenção pra Clara com uma expressão contrariada, “Mas, pelo que venho percebendo de você? Nesse pouco tempo que a gente se tromba? Tenho certeza que não vai deixar a francesinha ricaça ser a última mulher na vida da nossa artista andarilha, não...”, e nessa a ruiva desviou o olhar da expressão embaraçada da outra mulher, baixando-o para a fotografia em suas mãos antes de murmurar para si mesma, “Se bem que, conhecendo a Marina como eu conheço, talvez até role um... tira-teima básico? Sabe como é, pra relembrar os velhos tempos...”, riu secamente, até que sentiu um cotovelo lhe cutucando, “Ai, que foi, hein, Flávia?”, deu-lhe um olhar ainda mais exasperado.

“Você não tá ajudando a situação...”, a mulher silvou baixo, então olhou enfática, porém discretamente para Clara que agora estava estranhamente quieta, os olhos mirando o nada enquanto os braços agarravam as pernas dobradas contra o peito.

“Meu anjo, eu não sou paga pra ‘ajudar a situação’ da esposinha da Marina”, Vanessa sibilou de volta, de repente se sentindo muito afrontada, então voltou sua atenção para a carioca com um suspiro, “Mas o contrário procede, não é, Clarinha? Olha, falta contabilizar essa parte e... essa aqui. Termina pra mim?”, pediu com um bater de cílios, abrindo aquele sorriso amarelo quando Clara então a olhou, piscando meio confundida, até que notou o notebook sendo empurrado na frente dos seus pés.

A mulher pigarreou sem graça e se ajeitou um pouco, cruzando as pernas antes de pegar o computador em seu colo. Seus gestos eram automáticos, a postura rígida, enquanto os pensamentos corriam perigosamente soltos, muito longe dali.

Tinham passado um final de semana incrível em Angra e Marina havia prometido que voltariam mais vezes lá, já que o pai havia lhe devolvido a posse da casa como presente de casamento. A exposição havia sido um sucesso, estava cada dia mais perto de convencer Cadu a deixar Ivan morar definitivamente com elas, e a relação das duas não poderia estar melhor, apesar e por causa das mudanças nos planos que haviam feito antes do casamento, como adotar e mudar para uma casa menor.

Resolveram esperar e sua vida ao lado de Marina estava deliciosamente imperfeita desse jeito, como uma vez dissera a sua irmã Helena.

Só que, quando a fotógrafa recebeu aquela ligação internacional na manhã seguinte que retornaram da ilha, a expressão de espanto que se delineou no rosto dela, seguida do sorriso mais radiante, aquele brilho nos olhos amendoados enquanto falava ao telefone...

Naquele momento, enquanto observava Marina zanzar de um lado pro outro do quarto como uma criança que acabara de ganhar o presente mais almejado da vida, uma luzinha vermelha começou a piscar em alerta, bem do lado esquerdo do seu peito. Era esse mesmo incômodo na boca do estômago, uma sensação estranhamente familiar, mas que não havia sentido antes, ou pelo menos nunca com essa intensidade depois do casamento.

Minutos depois que aquela ligação havia sido encerrada, o que Clara via era um poço de excitação e surpresa na sua frente, falando e gesticulando pelo quarto como se o próprio Papai Noel viesse visitá-la daqui a poucos instantes.

Na tarde daquele mesmo dia Marina se despedia dela no aeroporto, dizendo que uma notícia muito boa estava prestes a agraciar suas vidas e prometendo estar de volta para o jantar no dia seguinte. Clara duvidou que assim fosse acontecer, mas não deu voz ao seu mau pressentimento, apenas sorriu e beijou-a como se o mundo fosse acabar daqui a três segundos...

“E quer saber?”, o tom zombeteiro da ruiva se esgueirou pela névoa densa de seus pensamentos, “Se eu fosse você eu estaria torcendo pra essa viagem render um patrocínio daqueles pro estúdio. Aliás, rezava mesmo pra que os bons ventos do leste soprem a nosso favor e a ‘Mecenas de Nantes’ resolva investir mais no Brasil, porque, pelo que estou vendo, o nosso teco-teco aqui...”, Vanessa rodopiou um dedo no ar, “... não vai chegar muito longe com esse vento de proa chamado Branca, não. Sem contar que a Marina não pode ficar dependendo da mesada do papai Meirelles agora que tem sua própria família pra sustentar, concorda?”, nessa, Clara trocou um olhar conformado com Flávia que deu de ombros, então suspirou e retornou sua atenção pro seu monitor.

“Olha isso”, Flavinha sussurrou pra ruiva minutos depois, apontando pra tela do seu notebook, “Segundo essa matéria aqui, a tal Grimaud tem fama de sedutora, um ‘bon vivant’ de saias que sempre se envolve com seus ‘pupilos’ e, hum...?”, estreitou um pouco os olhos, “... mais notavelmente com os do sexo feminino... Como assim 'os'?”, franziu a testa, parecendo confusa, o que fez Vanessa soltar uma risada maliciosa do lado dela.

“O que foi que eu falei? Excêntrica... Essa daí vai ser, ó”, fez um gesto de positivo com o polegar, jogando uma piscadela pra namorada, “... molezinha pra Marina”

Um estalido repentino ecoou na sala, fazendo as duas mulheres olharem surpresas para o notebook sendo atirado no chão, e em seguida para Clara.

“Dá pra fazer sua namorada calar a boca um segundo?”, rangeu as palavras entre um sorriso que era só dentes.

Flávia meneou a cabeça vagamente, um pouco aturdida pela reação da mulher. “Até dava, se... ela fosse minha namorada de fato...”, disse sem olhar pra ruiva.

“Ah, e eu não sou, não?”, a ruiva encarou a fotógrafa malignamente, fazendo Clara rir da expressão chocada dela.

Flavinha deu de ombros, fingindo indiferença. “Foi você quem disse que queria ficar na fase do ‘nos conhecendo melhor’, lembra?”, dessa vez a olhou de esguelha, mordendo o canto da boca para não rir também.

“Eu, hum...”, a ruiva gaguejou, parecia confundida agora, a testa franzida em agitação quando admitiu fracamente, “É, parece que eu disse...”

Flávia trocou um olhar sutil com Clara, e nada mais comentou sobre o assunto.

“Pois bem, amanhã finalizo o catálogo porque preciso sair... nesse minuto”, disse ao encerrar o computador e colocá-lo de lado no chão, então se levantou com uma expressão mais animada que o comum, “Tenho que resolver uns assuntos aí...”, e já foi pegando sua bolsa e se dirigindo pra saída.

“Uns assuntos aí, né, dona Flávia? Sei...”, Clara conspirou com um riso irônico, fazendo a fotógrafa virar por um instante com um sorriso faceiro no rosto, o que pareceu deixar a ruiva ainda mais agitada, “Ah! E não esquece de trazer aquele livro que te pedi, hein? Até amanhã”

“Sim, senhora”, Flavinha bateu continência antes de retomar seus passos até a porta, arrancando outra risada da carioca, mas aí parou com uma mão na maçaneta, “Você não quer uma carona? É caminho pra mim”

Vanessa demorou uns segundos a mais pra voltar a si, então piscou e murmurou sem graça, “Ah... É caminho, né? O que custa?”, e foi catando suas coisas ao se levantar, toda cabisbaixa.

“Tchau, Vanessinha”, Clara alfinetou do seu lugar no tapete, mal contendo o riso que borbulhava em sua garganta quando a ruiva lhe lançou um olhar assassino.

“Espera só o desempate amanhã, Clarinha”, imitou o tom chistoso da outra mulher, “Você que me aguarde...”, apontou-lhe um dedo ameaçador, antes de arrebitar o nariz e sair pisando duro pela porta.

Flávia segurou a porta um instante a mais, então balançou a cabeça e trocou um sorriso confidente com Clara antes de fechá-la atrás de si.

Vanessa e Flavinha tinham saído já fazia um par de horas, era fim de tarde e começava a chover em Santa Tereza, mas Clara ainda estava sentada no mesmo lugar, a testa franzida enquanto os olhos castanhos alternavam entre duas fotografias dispostas lado a lado sobre o tapete da sala.

Numa, o rosto sorridente que adorava, noutra, a face do desconhecido.

Foi quando seu celular tocou.

Era uma mensagem de Marina se desculpando porque não chegaria a tempo para o jantar.

Olhou para aquelas letras pretas no visor do celular por um longo minuto, antes de jogar o aparelho para um canto qualquer do tapete.

Suspirou angustiada, não sabendo por que se sentia assim, tão perdida, sozinha.

Minutos depois, o aparelho acendeu novamente, fazendo seu coração disparar esperançoso.

Suspirou em frustração.

Dessa vez era uma ligação, mas do outro lado da linha estava um Cadu agitado lhe dizendo que Ivan estava se sentindo mal e que não parava de chamar por ela.

Clara encerrou a chamada e fechou os olhos por um instante, “Onde você tá, Marina?”, murmurou para o silêncio da sala antes de levantar, pegar suas chaves e desaparecer às pressas pela porta.

***

O lugar estava mergulhado em penumbras, a frieza no ar era incomum e arrepiante.

Na parede ao fundo, imagens contorcidas e antigas giravam, colidiam, sumiam, enquanto a batida distante de uma melodia conhecida começava a flutuar ao redor.

... I’m gonna take my time, I have all the time in the world …

Vanessa se aproximou devagar, os passos embalados pelo ritmo compassado da música.

A mulher parecia alheia a sua presença ali, imóvel como estava na poltrona, de costas para a porta, o rosto voltado para o painel onde sombras e luzes dançavam sinuosamente, até que...

...Don’t say you want me, don’t say you need me, don’t say you love me...

“Os budistas em geral acreditam que o sofrimento só acaba quando paramos de desejar…”, a voz grave e calma dela ecoou em seus ouvidos, fazendo seus pés pararem assim que circularam o canto da mesa.

Vanessa apoiou uma mão na borda da madeira polida e fechou os olhos com um suspiro pesado, baixando a cabeça quando aquela voz asseverou com um riso fraco que se diluiu na letra da canção.

... I’ll be fine, I’ll be waiting patiently, until you see the signs …

“Acho que estamos fadados ao sofrimento eterno, então...”

***

“O que ele tem?”, perguntou aflita, já se recostando na cabeceira da cama ao lado do menino e lhe acariciando os cabelos desgrenhados, “Diz pra mamãe onde dói, filho...”, mas o menino só grunhiu baixo e encolheu-se mais perto dela, agarrando-se a sua cintura.

Enquanto isso, um Cadu sem camisa andava de um lado pro outro no quarto. Uma mistura de suor e chuva fazia o torso largo dele brilhar na pouca luz do ambiente e Clara se sentiu estranhamente forçada a desviar o olhar da visão familiar, “Não sei o que pode ter acontecido... A gente estava dando uma volta de bicicleta, aí começou a chover e... Ah, não. Será que foi alguma coisa que ele comeu naquela barraca enquanto eu–”

“Meu Deus, Cadu!”, quase gritou tamanha foi sua irritação naquele momento, aí se lembrou de baixar o tom de voz, “Você mais do que ninguém devia saber que comer qualquer porcaria na rua dá nisso!”, sussurrou enfática, fulminando-o com os olhos antes de voltar sua atenção para o filho.

O chef não pareceu se incomodar com a repreensão da ex-mulher e continuou resmungando incoerências para si mesmo, até que estalou os dedos no ar como quem tem uma ideia brilhante, “Já sei, vou ligar pro Felipe!”, e saiu apressado pela porta.

Clara revirou os olhos, exasperada. Teria rido se não fosse pelo aperto que sentia no peito em ver o filho nesse estado.

“Vai ficar tudo bem, meu bichinho”, murmurou contra os cabelos úmidos do menino, acalentando-o em seus braços, “Mamãe tá aqui pra cuidar de você...”

Cadu entrou de repente no quarto, esbaforido, o telefone apertado contra o ouvido enquanto esperava.

“Verônica já fez a mudança?”, perguntou-lhe vagamente, os olhos fitando a mala e algumas peças de roupa espalhadas pelos cantos do cômodo.

“Quem? Não, não. Ela tá fora da cidade, foi pra uma audição com a... Felipe? É o Cadu”, o homem levantou uma mão num pedido silencioso para que ela esperasse e Clara assentiu com um suspiro, “Tá ocupado? Ah... Você pode passar aqui no meu apartamento? Sim, agora. É que o Ivan... Não, cara. Escuta, o Ivan, ele não tá bem... Clara tá aqui, sim. O que? Tá, te espero, então. Vê se não demora, hein?”, encerrou a chamada com um suspiro aliviado e então olhou pra ex-mulher com um sorriso torto no rosto, “Pronto, ele tá vindo”, e nessa o chef foi pro outro lado da cama do filho, sentando sem muita cerimônia por ali antes de murmurar no ouvido do menino, “Viu só? Papai resolveu essa fácil. Aguenta firme aí só mais um pouquinho que logo você sai dessa, campeão”, o menino sorriu um pouco nas palavras do pai, mas além disso não se moveu.

Clara olhou preocupada para o ex-marido, “Ele tá ardendo em febre, Cadu... Não seria melhor levá-lo pro hospital?”

“Seu irmão tá na outra quadra, Clara”, olhou pro filho antes de voltar a encará-la, “Se a gente sair daqui agora pra qualquer hospital, nessa chuva, vai demorar muito mais...”

“Tem razão”, foi tudo o que disse.

Longo silêncio se seguiu, até que...

“Obrigado por vir”, Cadu murmurou de repente, enquanto acariciava o rosto do filho que se aninhava no peito dela.

Clara balançou a cabeça. “Ele é meu filho também, Cadu. Nada vai mudar isso”

Nessas palavras, o chef lhe lançou um olhar estranho, então abriu a boca para dizer alguma coisa só que foi interrompido pelo som da campainha ecoando insistentemente na sala.

Com um aceno curto e um sorriso meio sem graça, ele a deixou a sós com o filho e apressou-se para atender a porta. Assim que o ex-marido estava fora de vista, Clara fechou os olhos quando um rosto se refletiu no espelho de sua mente.

“Nada vai mudar...”, repetiu num murmúrio contra os cabelos do filho, então lhe beijou o topo da cabeça suavemente antes de sussurrar, “Eu te amo, mas não posso mudar... isso”

Notas finais
Me sinto meio zonza agora...