Perchance
18 Labirinto II
Notas iniciais
O ar estava frio e o céu nublado lá fora, mas já não chovia em Santa Tereza.
Haviam mudado de posição enquanto Clara continuava seu relato. Agora estavam ambas recostadas na cabeceira da cama, os olhos machucados de uma mirando o borrão da parede a sua frente, os olhos marejados da outra fitando as mãos que se apertavam irrequietas no próprio colo, e o abismo de alguns palmos entre elas.
Era o começo do fim e Marina não queria estar ali, naquele momento que havia negado a si mesma, apesar de tê-lo esperado por tanto tempo.
Negou-se porque temia perder Clara pra sua própria reação, temia não conseguir achar uma saída para o que não foi evitável.
Porque sabia que iria quebrar em mil pedaços silenciosos outra vez.
Ainda doía por dentro mesmo quando não lembrava exatamente o motivo, mas agora que tinha esses lampejos do que viu naquela noite chuvosa, do que provou no corpo dela depois...
Durante aqueles malditos instantes em que abriu a porta do carro, colocou os pés no asfalto laminado pela torrente de água que caía sobre sua cabeça, esse abismo se abriu sob seus pés e Marina havia olhado bem dentro dele...
Desde então tudo o que fez foi olhar para aquela cena que parecia ter saído dos seus piores pesadelos. Olhou tão de perto que se anestesiou nela, no trabalho, nos comprimidos, no sexo com ela, de todas as formas que podia. No começo por uns dias, que viraram meses, então quase dois anos que pareciam uma vida inteira passada em torpor...
E agora se encontrava presa naquele momento de novo. Só que, dessa vez, quando mais necessitava da memória exata de tudo o que aconteceu depois dali, quando mais precisava olhar no castanho quente nos olhos dela, o destino, tão irônico e sabiamente cruel, lhe havia tirado a graça de Mnemosine.
Sim, saber por Vanessa não tinha sido fácil.
Mas Deus, como não queria estar ali ouvindo Clara lhe dizer aquelas coisas...
***
Depois de deixá-los a par dos últimos e pitorescos causos da família Fernandes, além de listar algumas sérias instruções para o caso de não haver melhora dos sintomas que Felipe atribuiu a uma presumível virose, o médico havia deixado o apartamento de Cadu com aquele ar de bobo apaixonado enquanto falava com Sílvia pelo celular.
Clara havia agradecido o irmão com um beijo carinhoso, já o ex-marido quase o espremeu fora das peles com um abraço de quebrar os ossos. Logo depois de checarem mais uma vez o estado do garoto e ficarem mais tranquilos ao notar que Ivan havia adormecido, o chef avisou que ia tomar uma ducha quente e sugeriu que ela fizesse o mesmo, ao que ela havia se negado veementemente, fazendo-o rir.
Assim que saiu do quarto, o peito nu e ainda por secar, Cadu havia se enfiado num avental, e, no presente momento, estava como sempre pavoneando do seu assento no outro lado da mesa sobre o manjar que havia preparado.
Clara olhou discretamente pro seu pulso, o relógio marcava quase vinte e uma horas e o céu desabava no Leblon sem previsão de trégua. Não pela primeira vez naquela noite havia se repreendido internamente por ter esquecido seu celular no tapete da sala. Mas estava com pressa, a cabeça a mil, também não tinha como voltar agora.
Suspirou preocupada. E se Marina tivesse ligado?
Ah, mas seu destino não era nenhum mistério, já que havia deixado recado com o porteiro de onde e por que estaria fora por algumas horas. Se Marina tivesse chegado – o que era pouco provável, porque a essa altura já teria ligado pra saber do Ivan –, dificilmente teria como vir ao encontro dela por causa desse tempo.
E já que estava ilhada de qualquer forma, Clara decidiu que tentaria relaxar e aproveitar o jantar que estava realmente delicioso.
Enquanto comiam e jogavam conversa fora, os dois bebericavam um coquetel pouco doce e definitivamente forte que, segundo o chef, era a mais nova pedida no Bistrô. Conversaram sobre as notas do Ivan na escola que, felizmente, andavam bem, trocaram impressões sobre a gravidez da Verônica e da recente exposição de Marina, brincaram com a coincidência de terem sido abandonados por suas parceiras nesse dia tão cinza e frio, e ainda por cima com um filho adoentado pra cuidar. Entre uma troca e outra sobre coisas desimportantes e cotidianas, seus pensamentos sempre voltavam para a fotógrafa, mas Clara não se permitiu compartilhar suas dúvidas com o ex-marido, também nunca falaram sobre o passado.
Os minutos foram passando e, entre um gole e outra garfada, a conversa foi se tornando mais amena, descontraída, até casual...
“Diz aí”, o chef chamou sua atenção de repente, sorrindo faceiro por trás da borda do copo, “O que ela tem que eu não tenho?”
Um tanto zonza e pega de surpresa pela pergunta descabida, Clara meneou a cabeça vagamente e fez uma careta confusa para o seu prato quase vazio. “Tá de sacanagem com a minha cara, né?”, retrucou ao lhe dar um relance de olhos, então voltou sua atenção para os talheres que, depois de um copo do tal coquetel, já não manuseava com tanta destreza.
Cadu deu de ombros. “Estou curioso, só isso”, murmurou entre um gole e outro, “Você nunca tinha se interessado sexualmente por mulheres antes da Marina, é natural que fique essa... dúvida, não acha?”, perguntou casualmente, olhando-a de esguelha.
“Pra falar a verdade...”, fez uma cara pensativa, baixando os talheres por um instante, então um sorriso bobo começou a se espalhar em seu rosto, “vocês dois tem mais em comum do que parece”
Nessa, o chef levantou seus olhos negros e lhe lançou um brilho irônico, “Ah, não me diga...”, soprou num tom de falsa surpresa, meio arrastado, antes de entornar sua bebida toda de uma vez.
Clara riu um pouco, então levou sua última porção até a boca e a mastigou entre as palavras, “Sério... E eu também descobri... que sou o maior caso perdido da história”
“Estou ouvindo...”, ele disse ao repousar os cotovelos na beirada da mesa, sorrindo com aquele ar condescendente que fez Clara balançar a cabeça em desaprovação.
“É a verdade...”, mordeu o canto do lábio pra não rir da cara entediada que ele fazia agora, então olhou para a borda do copo onde a ponta do seu dedo circulava devagar, “Quase um carma, sabe? Sempre me apaixono pelos tipos mais sedutores e cafajestes”
“Isso é calúnia, hein?”, ele apontou-lhe um dedo, fingindo indignação, “Eu nunca fui um sedutor, muito menos cafajeste”
“Ah, sim. Você é”, rebateu com um garfo que rivalizava o dedo do chef, aí seu olhar baixou e um sorriso meio tímido curvou seus lábios, “E ela também, especialmente na... hum...”, suas sobrancelhas franziram no quase lapso e, de repente, aquele aroma forte de rum vindo do seu copo parecia uma boa rota de fuga.
“Na...?”, o chef a instigou, mas agora a ex-mulher parecia bem mais interessada em degustar o coquetel, fazendo Cadu suspirar sofregamente, “Brincadeira, né? Logo agora que a conversa estava ficando interessante...”
Clara riu irônica no comentário, “Ah, porque é óbvio que eu vim aqui só pra falar da minha intimidade com a Marina pra você, não é, Carlos Eduardo? Tá doido?”
“Que tem, ué? Sou seu padrinho de casamento, tenho a obrigação de zelar pelo futuro desse matrimônio”, Cadu então inflou o peito de maneira exageradamente despretensiosa, apoiando o queixo nas mãos ao abrir aquele sorriso do qual a inocência passava longe, “E pra isso, claro, eu tenho que estar por dentro da, hum...”, pigarreou de leve, “... ou no meio. É, no meio também seria bom, hm... uma boa perspectiva pra essa... discussão”
Sua boca se abriu num ‘O’ indignado na insinuação do chef, que ela logo em seguida condenou fervorosamente, “Mas que cara de pau, cínico!”, então atirou um pedaço de legume na direção dele. Cadu, já pra lá de alto, não conseguiu desviar antes que a ofensa lhe atingisse bem no olho direito, “Ai, Cadu... Você não muda, cara”, repreendeu-o num tom mais leve, agora rindo da cena do ex-marido tentando limpar o molho da cara com um lenço.
“Pô, Clara! Mancada, viu?”, resmungou ao jogar o lenço no prato, o rosto mais lambuzado que antes quando falou todo caricato, “Não é você que diz que agora... somos uma família grande e diferente e feliz? Então?”, nessa, Clara lhe deu um olhar de tédio e ele revirou os olhos, ainda mais contrariado ao ver a ex-mulher se levantando da cadeira, “E quem sabe... eu podia até aprender um truque... ou dois com a grande conquistadora Marina Meirelles, hm? Vai me negar essa chance de beber direto da fonte?”, balançou as sobrancelhas sugestivamente, só que Clara já estava do seu lado pegando-o pelo braço.
“Pelo visto você já bebeu essa ‘fonte’ toda faz tempo, meu filho...”, ironizou ao puxá-lo da cadeira e ficou satisfeita quando o chef não ofereceu resistência, embora estivesse mais que um pouco bambo dos pés, “Meu Deus, olha aí como você tá... Um horror, Cadu!”
“Hã? Eu? Claro que não, que coisa...”, resmungou enquanto se deixava guiar pela sala até que ambos pararam pelo sofá, “Você tá bêbada?”, perguntou com um sorriso torto, aí se deixou cair por ali, espalhando-se todo entre as almofadas.
“Err, um pouquinho só, assim... quase?”, riu ao se encolher um pouco no espaço que o ex-marido deixou livre no cantinho do sofá, “Olha só que mãe desnaturada que eu sou...”, disse com um suspiro pesado, sentia as pálpebras e os ombros pesando a cada segundo que passava.
“Isso não é verdade”, Cadu murmurou ao apoiar a cabeça no recosto do sofá, os olhos piscando vagarosos para o teto, “Você sempre cuidou do Ivan, até demais... Ah, e da casa também...”, uma pausa, então virou a cabeça para que pudesse olhá-la nos olhos, “... sempre cuidou de mim”
“Ah, então você reconhece...”, meneou a cabeça com um riso pouco modesto, meditando nos pensamentos em voz alta, “É, ainda tenho que cuidar de vocês, não é? Ai, meu Deus, essas duas crianças mais malucas e irresponsáveis da minha vida!”, levou as mãos ao rosto e suspirou audivelmente, “Marina também é outra criançona, viu? Cabeça na lua, corpo na rua... Só que eu estou colocando ela nos trilhos, devagar e sempre, assim como fiz com você...”, nessa, o chef lhe deu aquele olhar estranho de novo, no que Clara desviou o dela, de repente se sentindo desconfortável em sua própria pele.
Nenhuma palavra foi trocada entre eles por um longo momento, até que Cadu exalou tremulamente, cruzando os braços sobre o peito descoberto como se tentasse se proteger da mordida do frio.
“Hm, Verônica agradece...”, ele falou um instante depois, o sorriso pequeno no rosto dele contrastando com o grave da voz que soou perturbadoramente alto no silêncio que se fazia no lugar.
Clara lhe deu um olhar de canto, replicando vagamente, “Tenho certeza que sim”, e então se encolheu ainda mais no sofá, as mãos entrelaçadas e se apertando entre as pernas para espantar a frieza no ar.
Mais alguns instantes se passaram em que tudo que se ouvia era o som da chuva que caía lá fora, até que ela falou numa voz pequena, “Obrigada”
“Bobagem...”, o chef soltou um riso definitivamente embriagado, “É sempre um prazer cozinhar pra você”
“Ah, pelo jantar também... Mas eu não...”, franziu a testa em breve confusão, uma sensação estranha que misturava angústia e letargia começando a se espalhar por seus membros mais rápido que o normal, “É que, você sabe... O meu maior medo era perder o afeto... a confiança do Ivan... com tudo que aconteceu entre a gente e...”, falava pausadamente porque a eloquência já lhe escapava, aí virou-se um pouco na direção do ex-marido que continuava fitando-a com olhos desfocados, mas fixamente, “Sei que não agi bem no... fim. Fui deixando as coisas acontecerem sem tomar uma atitude, e isso foi péssimo, mesmo...”, suspirou pesadamente, fechando os olhos por um instante antes de continuar sua admissão, “Não queria que o nosso casamento tivesse acabado daquela maneira, sabe? Tão... dolorida, repentina, sem uma conversa amigável... Acho que merecíamos um final melhor, sim, em nome de tudo que a gente viveu, que construímos juntos...”, nessas palavras Cadu meneou a cabeça, piscando os olhos devagar, “Foi injusto contigo, mas quero que saiba que eu nunca quis magoar você. De verdade, Cadu. E eu sinto muito... porque foi exatamente isso que fiz...” uma pausa, respirou fundo, “Só que... não fui eu que escolhi a Marina, ou ela a mim... Foi a vida que nos escolheu uma para a outra”, seus olhos castanhos tinham um brilho de lágrima quando terminou, e essa foi a vez de Cadu desviar o olhar.
“Tudo bem, já passou”, assentiu num tom compenetrado, os olhos agora voltados para o teto.
Clara balançou a cabeça e fungou um pouco, “Você entende que eu tive que fazer isso, não entende? Que preciso viver essa história com ela até o fim, tudo que tiver que ser...”, não sabia por que não conseguia olhar para o ex-marido naquele momento, então olhava pras próprias mãos, enquanto sua mente revolvia-se em pensamentos entorpecidos pelo álcool, pelo súbito medo que sentia de si mesma.
“E tem outro jeito?”, o riso dele foi retórico e fraco, mas Cadu não parecia se importar com o quão vulnerável soava ali.
Mas foi essa outra inflexão no tom de voz dele, talvez uma nota tépida e feliz do passado, que forçou Clara a olhar para o chef.
Sob as sobrancelhas franzidas seus olhos o fitaram na luz baixa.
O choque ao notar uma lágrima descendo pelo canto do olho semicerrado de Cadu foi tal que sua voz falhou nas três primeiras tentativas que fez.
Suspirou pesadamente, então foi deslizando para perto, mais perto, até que reclinou a cabeça no ombro dele e sussurrou-lhe, “Você sempre foi um bom amigo, Cadu”, palavras que também ecoaram alto demais no silêncio do apartamento.
***
“Espera”, Vanessa pediu agitada, dessa vez agarrando o braço da mulher que passava pela mesa onde ela se reclinava, “O que vocês... O que conversaram?”
A fotógrafa lhe lançou um olhar praticado na indiferença, mas enfiou as mãos nos bolsos da calça preta de corte que usava com mais força que o necessário quando resmungou irritadiça, “Você nem sabe se conversamos... ou não”
A ruiva balançou a cabeça com um sorriso pequeno. “Eu te conheço, Flavinha...”, então mordeu o canto do lábio inferior num gesto mais nervoso que sedutor antes de perguntar numa voz mais mansa, “O que ela te disse?”
“Nada que seja da sua conta”, rebateu naquele tom impassível e Vanessa sibilou, já perdendo a paciência.
“Quero saber como, Flávia... Como ela falou”, reformulou seu pedido com um bater vagaroso de cílios que pretendia disfarçar o ranger de seus dentes.
Mas Flavinha já conhecia os melindres dela de cor, não se comovia com nada daquilo. “Não tenho tempo pra isso, Vanessa. Preciso trabalhar”, e nessa lhe deu um último brilho desdenhoso antes de se livrar da garra em seu braço e retomar seus passos na direção da entrada principal.
Vanessa, óbvia e rebeldemente, a seguia nos calcanhares e antes que Flávia pudesse alcançar a maçaneta já estava sendo virada e empurrada contra a madeira sólida e fria da porta.
“Flávia, não faz assim... Vamos resolver isso, hm?”, murmurou ao beijar-lhe os lábios suavemente, só para depois mordiscá-los uma vez, duas, e sentir a postura rígida da fotógrafa ceder aos poucos, “Foi uma bobagem, só um momento sem importância, passou...”, sussurrou as palavras na curva da mandíbula dela, enquanto as palmas subiam pela cintura por baixo da jaqueta, da regata, até que encontraram os seios que eram do tamanho exato para caber nas suas pequenas mãos.
Flávia deixou escapar um gemido baixo no toque, e foi nessa que Vanessa a ganhou.
“Eu nem deveria me importar, não é?”, a fotógrafa conseguiu murmurar nos lábios que agora assaltavam os seus, “Afinal, nem estamos namorando de verdade...”
“A gente já conversou sobre isso... Você concordou que–”, mas aí sentiu aquelas mãos em seus ombros que não estavam puxando-lhe para perto.
Pelo visto, outra rodada havia começado sem que Vanessa tivesse percebido.
Flávia balançou a cabeça devagar, os olhos baixos, e por um segundo surreal Vanessa pensou que ela fosse chorar, mas então...
“Não dá mais...”, suspirou pesadamente, aí levantou o olhar com uma expressão contorcida no rosto, “Não dá, Vanessa”
Foi quase como se o tempo tivesse parado por uns segundos ali. Sentia seu coração saltando na garganta, mas manteve a compostura e se afastou um passo, baixando a cabeça por um instante antes de voltar a encará-la.
“O que você quer? Só me diz o que você quer...”, indagou-a num tom compenetrado, e só então Vanessa percebeu que ela era a única à beira das lágrimas ali.
“Eu quero você, por que não consegue entender isso?”, Flávia gesticulava como se para enfatizar suas palavras e Vanessa sentiu os joelhos titubearem de repente, “Quero te sentir aqui, inteira, do meu lado... Mas você... Você tá sempre fugindo, sempre correndo de mim”, a fotógrafa concluiu com um grunhido baixo, contrariado, aí enfiou as mãos nos bolsos novamente ao baixar a cabeça.
Já Vanessa não tinha uma réplica sarcástica na ponta da língua dessa vez, nenhum comentário sagaz iria socorrê-la naquele momento. Porque, por mais que quisesse, não podia negar o evidente. Sabia que tudo que Flavinha havia falado era a mais pura verdade.
“Do que você tem tanto medo?”, ouviu a fotógrafa murmurar baixinho depois de um momento, ainda cabisbaixa, e teve que fechar os olhos para evitar que as lágrimas lhe escapassem.
Trêmula, respirou fundo antes de falar, “Eu... não sei”, fez uma pausa, “... de mim, talvez...”, foi quando Flavinha finalmente a olhou nos olhos, e nessa Vanessa teve que desviar o olhar do que viu ali, estampado no rosto dela, aquela esperança tingida de receio, afeto, paixão. Por longos segundos, seus olhos úmidos encontraram refúgio naquelas sombras e luzes que continuavam sua dança tortuosa pelas paredes do arquivo ao som daquela velha banda, então soltou o ar de seus pulmões num riso igualmente frio antes de falar, “Você diz que eu não te entendo, mas você também não me entende...”
Flávia meneou a cabeça com um suspiro resignado, a voz minguando no abismo que parecia se alargar entre elas, “Como espera que eu te entenda quando tudo que faz é me empurrar pra longe de você?”
“Desculpa...”, murmurou ao cruzar os braços pelo peito.
“É só isso que tem pra me dizer?”
O silêncio se prolongou pesado e amargo, desses que duram alguns poucos segundos de eternidade e falam mais que qualquer língua ou gesto.
Estava cansada de ser sempre a única a pedir, a esperar por respostas, e agora também já não estava tão certa se as queria.
Girou nos calcanhares para abrir a porta, mas então a voz dela cortou o ar denso como uma lâmina afiada.
“Eu te amo...”, seus olhos se fecharam por um segundo naquelas palavras, mas Flávia não conseguiu virar para vê-las sendo pronunciadas outra vez, “Amo você, Flavinha, de verdade. Só que–”
“Só que o quê, Vanessa?”, interrompeu-a num tom frustrado, virando o rosto na direção da ruiva enquanto os dedos agarravam o metal da maçaneta viciosamente, “Tem sempre um ‘mas’, não é? Ah, e não precisa falar mais nada. Eu sei muito bem que nome dar a esse seu... ‘medo’...”, riu sem humor na expressão inconfundível que se delineava no rosto da outra mulher, fingindo pouco-caso ao concluir, “Aliás, parece que ele tem mais de um nome agora”
E antes que pudesse ouvir a resposta que não sabia se queria, a porta se fechou atrás dela.
***
“Clara!”, ouviu-o chamar pela segunda vez, mas continuou andando, se continuasse andando talvez a chuva levasse essa ânsia embora, “Clara, espera aí!”, Cadu a alcançou antes que pudesse abrir a porta do carro, “Ei, ei, espera! Calma... Onde é que você vai desse jeito?”, ele lhe agarrou pelos braços e Clara sentiu seu estômago revirar quando olhou nos olhos assustados dele, “Meu Deus, você tá... chorando? É por causa do que aconteceu noite passada?”
“Eu... eu não sei... Não sei o que aconteceu”, murmurou confusa, os olhos agora vagando pelos rostos que passavam apressados pela calçada do prédio, alheios à tempestade que deixava tudo em escombros dentro dela, “Tenho que ir. Só... me deixa, Cadu. Me deixa ir!”, livrou-se das mãos dele, mas somente depois de alguns segundos seus dedos trêmulos conseguiram desativar o alarme, “Preciso ver a Marina...”, murmurou para si mesma enquanto entrava no carro às pressas, batendo a porta com força.
Acionou a ignição, mas parou de repente, então olhou pelo vidro esfumaçado da janela uma última vez. Viu ex-marido ali, parado, os olhos negros marejados a fitando em silêncio contrito, de esperança quebrada.
Clara ainda não sabia, mas aquela visão seria a tormenta dos seus dias e noites por vir.
***
“Essa é a última coisa que me lembro com clareza...”, ouviu-a dizer numa voz pequena, embargada.
Clara estava sentada na borda da cama agora, os cotovelos apoiados nos joelhos, costas voltadas para a companheira. Já Marina não havia saído do lugar, só que agora os olhos semicerrados estavam baixos, tentando encontrar nos borrões dos seus dedos um motivo para não ter que ouvi-la mais.
“Depois que acordei, vim direto pra casa...”, ela continuava, “E o resto, se ainda não lembrou, acho que Vanessa deve ter te contado”
A fotógrafa soltou uma risada baixa, um tanto amarga, então balançou a cabeça ainda sem levantar o olhar, “E você espera que eu acredite nisso? Que não se lembra de nada do que aconteceu... entre vocês?”
“Eu... não posso pedir que entenda, nem tenho esse direito. O que eu fiz, o que permiti que ele fizesse... não tem justificativa, eu sei, Marina. Meu Deus, às vezes nem eu mesma acredito nisso...”, esfregou as mãos no rosto com força, então suspirou pesadamente antes de pedir numa voz trêmula, “Mas, por favor não duvide de mim... Não agora...”, Clara fez uma longa pausa e Marina notou, pelo som da respiração dela, que o silêncio foi uma tentativa de abafar o choro, “Eu... Por tudo que é mais sagrado, pela vida do meu filho, eu te juro que não lembro o que aconteceu naquela noite... Não sei mais o que dizer ou pensar, não posso... não posso voltar no tempo e... Mas o que você decidir, eu vou... entender...”
E então veio aquele silêncio com seus dedos gélidos que pressionavam na sua garganta, apertando, sufocando-a... Seus pensamentos eram uma massa amorfa de memórias entrecortadas e imprecisões profundas, mas uma única certeza flutuava acima dos escombros.
Sabia que se sua Marina não segurasse sua mão agora, iria afundar para sempre naquelas profundezas escuras dentro dela.
Mas nada podia fazer além de sentar ali, esperando o inevitável das consequências de suas ações e omissões durante todo esse tempo. Tivessem sido elas conscientes ou não, tudo nessa vida tinha um preço, e Clara sabia disso como ninguém.
E esse preço foi cobrado momentos depois no tom quieto e despedaçado da voz dela...
“O mais triste é que lá no fundo eu tinha esperança, sabe?”, seu rosto se contorceu ainda mais nessas palavras e Clara teve que abafar um soluço com a mão, mas se forçou a ficar, porque era parte de sua pena ouvi-las, “... De que nada disso tivesse acontecido... que foi só um sonho ruim”, fechou os olhos em resignação quando Marina continuou num tom distante, “Se tivesse sido minha imaginação que me fez ver, sentir... coisas absurdas... Teria sido tão fácil colocar a culpa nesse medo que eu tinha... e ainda tenho de te perder...”, Marina suspirou profundamente e esse foi o fim.
Engraçado. Agora que tudo havia sido feito e dito, já não doía tanto.
Não havia derramado uma lágrima e não sabia bem o porquê, mas não importava. A admissão de Clara, finalmente, havia lhe tirado aquele peso titânico das costas.
Marina sabia que ainda tinham um caminho labiríntico pela frente, que ainda precisavam consertar o que foi quebrado, de tempo para aparar as arestas cortantes de um passado pouco lembrado e muito negado.
Mas podia esperar.
Esperaria uma eternidade se isso significasse que ela voltaria para os seus braços na manhã seguinte.
E todos os dias depois...
“Nós vamos superar isso”, seu coração saltou no tom convicto daquela voz e Clara abriu seus olhos úmidos com um suspiro trêmulo, mas ainda temia virar o rosto para encarar as próximas palavras da esposa, “Juntas, como sempre fizemos”
Apesar de si mesma, um sorriso pequeno curvou seus lábios quando murmurou para as próprias mãos, “Eu não mereço você, nunca mereci...”
Sentiu mais que viu quando Marina levantou e engatinhou devagar pelo colchão até que braços lhe envolveram pela cintura, as pernas deslizando nos lados das suas para fora da cama quando a fotógrafa se sentou atrás dela, pressionando os seios em suas costas e a boca no seu ouvido esquerdo.
“Bom, sou tudo o que você tem agora...”, Clara estremeceu no sussurro cálido dos lábios que agora lhe beijavam a pele, “... então é melhor que eu seja suficiente, senhora Fernandes Meirelles”
Suas pálpebras pesaram na sensação molhada e quente que se espalhava do seu pescoço para baixo do seu corpo, quando falou num tom sussurrado e firme, “Você é mais que isso, Marina. Você é meu encaixe... perfeitamente imperfeito, o meu amor...”, os braços dela apertaram-se em sua cintura e então sentiu um raspar de dentes afiados no seu ombro, “E eu vou passar o resto da minha vida te provando isso, todos os dias e noites... até você me perdoar”
Marina suspirou em seu pescoço, causando um arrepio gostoso ali, “Eu já te perdoei, Clara”, nessa, suas pálpebras vibraram abertas, “Mas e você? Já se perdoou?”
Clara pegou as mãos da fotógrafa nas suas, apertando-as contra o peito, “Acho que... vai demorar um tempo”
“Por que?”
“Tem outra coisa que você precisa saber”, uma pausa, então exalou as palavras, “É... sobre a Diana”
Marina riu baixo, beijando-lhe o ombro antes de apoiar o queixo ali, “O que ela aprontou dessa vez?”
Clara engoliu em seco, respirou fundo, então girou nos braços da esposa. Marina seguiu seu movimento e deslizou um pouco mais pelo meio da cama para que pudessem sentar de frente uma para a outra.
Se fosse para ser sincera, então era isso aí.
Esperou mais uns três segundos e...
“Ela me beijou”, despejou de uma vez, fazendo uma careta confusa que os olhos machucados da esposa provavelmente não assimilariam.
Marina piscou, então abriu a boca pra falar, mas no segundo seguinte veio a batida na porta do quarto.
“Err... dona Marina?”, uma voz tímida chamou do outro lado.
Seu coração quase saiu pela boca ali, mas Clara se segurou nos olhos semicerrados dela, sempre nos olhos dela.
“Fala, Soninha...”, a fotógrafa consentiu um instante depois, meio aturdida.
E a voz de Sônia reverberou pelo quarto, “É só pra avisar que seu Diogo tá aqui na sala... com o Ivan”
***
A uns treze minutos dali, Diana adentrava em sua cobertura em Santa Tereza.
Um estalar de dedos depois e uma melodia melancólica começava a inundar o ambiente amplo e levemente iluminado da sala de estar.
...Nous soffrons tout les jours, a quoi ca sert. Ces crimes d’illusions nous trompent tous…
Os passos vagarosos a levaram até as persianas entreabertas que cortinavam uma das vidraças no cômodo, os olhos azuis espiando por ali antes de baixarem para o celular em sua mão. Pensou por um momento antes de discar o número já decorado, um dos que nunca permaneciam no registro por mais de dois minutos.
Um sorriso pequeno e cansado tocou suas feições angélicas quando pressionou o aparelho no ouvido, esperando, e esperando, até que uma voz conhecida chamou do outro lado da linha e seu sorriso se tornou mais iluminado quando suspirou as palavras.
“Bonjour, mon ange...”
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