Perchance
19 Interlúdio
Notas iniciais
Marina desceu as escadas como quem tem asas nos pés, enquanto Clara, abismada, observava ainda nos degraus finais a companheira habilmente cruzando o estúdio até a antessala onde Diogo e Ivan estavam sentados lado a lado no sofá.
“Pelas caras amassadas já vi que cheguei bem na melhor parte da conversa!”, o homem exclamou com um sorriso sugestivo ao se levantar, já de braços abertos, “Espero não ter atrapalhado nada, meus amores”
Clara só podia rir do comentário evocativo do sogro. Ah, se ele imaginasse o quanto não estava certo...
“Tá brincando, né, velho? Vem aqui me dar um abraço!”, a fotógrafa se atirou nos braços do pai, que imediatamente a envolveram num abraço afetuoso, “Senti tanta saudade, tanta...”
Nesse meio tempo Clara repetia o mesmo gesto carinhoso com Ivan, ambos também murmurando palavras de saudade no ouvido um do outro. Ela então levantou o olhar por um instante e viu Diogo lhe jogando uma piscadela por cima do ombro da filha, fazendo-a menear a cabeça e rir enquanto trazia o próprio filho ainda mais perto em seu abraço.
“Ô, minha princesa. Eu também senti muito sua falta...”, o homem disse ao quebrar um pouco o abraço para que pudesse olhar para a filha, “Perdoa esse seu velho pai por ser um mafioso workaholic que não se emenda nunca?”, ele lhe pediu fazendo aquela cara de cão abandonado.
Marina balançou a cabeça e riu. “Ai, você é impossível mesmo, né, Don Diogo? Nem vou me dar ao trabalho de te negar o salvo-conduto, já que sempre consegue o que quer com essa cara de pidão que eu sei que você tá fazendo agora!”, a fotógrafa então lhe beijou a bochecha antes de se agarrar as lapelas do paletó dele e puxá-lo para outro abraço, esse ainda mais forte.
“E você saiu a mim até nisso”, Diogo riu no abraço e lhe deu um último aperto extremoso antes de deixar Marina ir, “Ah, e eu encontrei esse pequeno gentleman aqui no seu portão”, ele acenou para Ivan, que agora tinha uma expressão cautelosa no rosto e a mãe em suas costas o envolvendo pelos ombros num abraço mais descontraído.
“Não sei, não, mas acho que esse mocinho errou o caminho pra algum lugar chamado... escola?”, Clara o repreendeu num tom pouco sério, bagunçando os cabelos claros do garoto que só baixou a cabeça com um sorriso meio embaraçado.
Ivan então deu um passo curto à frente e Clara, atenta ao momento, também o deixou ir.
“Oi...”, murmurou timidamente, as mãos nervosas agora se apertando sob o peso leve da mochila que trazia nas costas.
Marina se curvou um pouco mais perto dele e então um sorriso radiante se espalhou em seu rosto. “Oi, garotão”, disse simplesmente ao abrir os braços, e nessa Ivan também sorriu com gosto antes de se atirar no abraço da fotógrafa que riu em surpresa e satisfação.
“Sentiu saudade de mim também, mamãe?”, o garoto sussurrou-lhe no ouvido e Marina teve que fechar os olhos com força, obrigando-se a não emitir qualquer som por uns segundos a mais. Sabia que se tivesse respondido no mesmo instante só teriam lhe saído lágrimas da voz.
Não conseguia vê-los ou distinguir seus movimentos, mas podia sentir a presença da companheira e do pai, ambos de pé uns três passos atrás dela. Sem dúvida eles observavam a interação, ainda que mantivessem certa distância em respeito ao momento que sabiam ser só dela e do menino.
Quando Marina enfim abriu os olhos para a nódoa de cores opacas que era seu mundo agora, ela cheirou aquela massa bagunçada de cabelo sob seus lábios antes de murmurar ali, “Muita saudade. Todos os dias, filho...”, e sorriu ao sentir os braços magricelos do menino lhe apertando a cintura, até que um momento depois Ivan a soltou com um fungado baixinho.
“Ah, eu também...”, ele começou meio sem jeito, então hesitou por um instante como se esperasse alguma permissão silenciosa antes de continuar, “A mãe disse que você estava machucada... na memória, e nos olhos também, e...”, fungou de novo, “... por isso precisava de um tempo sozinha pra sarar. Eu entendo, sabe?”, aí o menino baixou o tom de voz para lhe cochichar, “Às vezes também gosto de ficar sozinho, principalmente pra jogar vídeo game e... quando preciso pensar. Mas eu, hum...”, fez uma pausa, então ele sussurrou as próximas palavras de uma forma que sempre lembrava Marina de uma outra voz rouca, “Ela falou que era só por uns dias e aí eu podia voltar pra casa. Só que eu queria ver se... se você estava bem, mesmo. Você tá melhor, não tá?”
Marina sorriu encantada nas palavras acanhadas do menino, então levou as mãos até o rosto dele para trazê-lo mais perto. “Estou melhor, sim. E ainda mais feliz que você tá aqui”
Ivan arregalou os olhos, lhe agarrando os pulsos ao perguntar todo esperançoso, “Então quer dizer que eu já posso ficar?”
“Claro que pode, meu menino lindo!”, assentiu com um sorriso meio choroso, então beijou-lhe a testa antes de continuar num tom mais sério, “Mas sua avó sabe que você faltou na aula? Não andou dando trabalho pra ela, não, né?”
“Ah, ela sabe!”, Ivan respondeu com um sorriso traquino, balançando a cabeça para enfatizar suas palavras, “Estou mandando bem na escola aí a avó disse que só dessa vez eu podia faltar. E eu me comportei, sim, pode perguntar!”, ele concluiu com um riso eufórico, feliz da vida.
Marina meneou a cabeça, orgulhosa com a resposta do garoto. “Não precisa, acredito em você”, ela então acenou para a poltrona larga que sabia estar ali perto, mais para o lado deles. Ivan seguiu sua instrução silenciosa e ambos trilharam os poucos passos até que a fotógrafa se sentou e tateou o braço acolchoado do móvel, onde o menino se empoleirou logo em seguida.
Agora sentada ao lado de Diogo no sofá perpendicular ao deles, Clara continuava observando de canto de olho a troca entre o filho e a esposa. Já Diogo alternava entre lhe contar os detalhes da viagem e olhar para a filha com um sorriso meio abobalhado no rosto. Mesmo claramente aliviado e contente em ver que Marina estava se recuperando bem dentro do esperado, eram visíveis os sinais de cansaço e preocupação que abatiam o sempre tão jovial semblante do sogro.
Os minutos foram passando e, enquanto nora e sogro confabulavam entre risos de um lado, Marina continuava sua conversa particular com Ivan do outro.
“E seu pai, como tá? Foi ele que te trouxe?”
“Err... O pai?”, o menino vacilou por uns segundos, mas aí riu e continuou num tom mais descontraído, “Caraca, ele anda muito ocupado no Bistrô e tem... hum... Ele tá meio estressadão, sabe? Aí não quis atrapalhar o trabalho dele e pedi a Verônica pra me buscar lá na avó, só que no caminho da escola eu a convenci a vir me deixar aqui”
“Ah, entendi...”, acenou com um riso vago, franzindo as sobrancelhas um pouco enquanto remoía aquela informação. Não era raro que Verônica acompanhasse Cadu quando ele vinha deixar o garoto depois de um fim de semana, ou mesmo que ela viesse sozinha trazê-lo, mas era novidade a pianista ter vindo sozinha com Ivan e não ter entrado pelo menos para uma visita rápida.
Dando de ombros, Marina resolveu deixar o assunto por isso mesmo, “Tudo bem, mas você vai ligar pro seu pai mais tarde avisando que tá em casa, pra ele não se preocupar. Combinado?”, consentiu com um sorriso um momento depois, enfatizando a última palavra.
Ivan suspirou, mas não parecia ser de alívio quando replicou numa voz pequena, “Combinado...”
Não tão satisfeita assim com a resposta murcha do menino, Marina então espalmou as mãos juntas e falou num tom animado, “Eu estava aqui pensando... Que tal uma piscina? Aproveitar esse solzinho que tá saindo lá fora, hein, garotão?”
A expressão do menino se acalorou instantaneamente, “Já é! Vou me trocar!”, e já saltou do braço da poltrona, fogueteando pela sala até a porta oculta sob a estrutura metálica que sustentava a escada, mas então parou e virou com um dedo erguido, “Ah, e sem trapaça dessa vez, pô! Mãe, não deixa ela sair antes de mim, não, que eu já venho!”, e num piscar de olhos a porta havia aberto e fechado atrás dele.
Nessa, o riso da fotógrafa se juntou aos outros dois ecoando pela sala, então ela se levantou e foi caminhando devagar na direção das escadas. Alguns passos e um ou outro obstáculo depois seus dedos tocavam o corrimão, mas aí parou e virou com uma expressão mais neutra no rosto, “Você vem?”
Ciente de que aquela pergunta não foi para ele, Diogo só acompanhou a troca com um sorriso pouco discreto.
Clara trocou um olhar humorado com o sogro antes de consentir com um riso leve na voz, “Taí, acho que vou me juntar a essa farra na piscina também”, ela então se levantou e seguiu no rastro da companheira, até que espalmou uma mão na testa e fez uma careta ao parar pela mesa, “Ah, mas tenho que ligar pra Galeria antes, tentar remarcar aquela reunião pra depois do almoço...”
“Pode ligar do quarto? É que preciso de uma mãozinha com o biquíni”, a fotógrafa franziu um pouco o nariz daquele jeito manhoso dela e nem esperou que Clara respondesse, já foi subindo os degraus e exclamando para o ar, “Ô, Soninha? Diz pras meninas que eu estou declarando fim do expediente por hoje, e isso inclui a senhorita também! Quero todo mundo naquela piscina, tá ouvindo?”
“Sim, senhora!”, veio uma voz faceira da área externa e em seguida Sônia cruzava a sala apressada rumo ao arquivo, enquanto Clara seguia para as escadas com um sorriso de orelha a orelha.
Diogo, deixado a sós com o silêncio no estúdio, relaxou um pouco mais no sofá, cruzando os tornozelos em cima da mesa de centro e as mãos atrás do pescoço antes de murmurar para si mesmo com um sorriso convencido, “Como eu disse, saiu ao pai”
***
“Vai, Vanessa...”, a fotógrafa urgiu com um grunhido impaciente, colocando as mãos nos quadris ao resmungar, “E nem adianta tentar me enrolar, porque Soninha já me falou que percebeu o climão entre vocês”
A ruiva esfregou as mãos nos lados do rosto, fazendo uma careta no entremeio, então lançou um olhar acusatório pra Sônia que estava na água perto da borda da piscina, mas a moça só se encolheu e baixou os olhos antes de voltar sua atenção para Ivan, o que fez Vanessa suspirar sofregamente e retornar seu olhar para Marina.
“Flavinha tá no arquivo, enfiada lá no meio de uma pilha de caixas...”, disse vagamente como se isso explicasse tudo, os olhos agora fixos nos próprios pés para não ter que encarar uma Marina seminua e sugestivamente molhada ali, parada na frente dela.
“... com cara de poucos amigos e ainda se atreveu a negar meu convite pra piscina, eu sei”, imitou o tom caricato da amiga, mas então suavizou um pouco a voz quando falou, “Vocês brigaram, não foi?”
Vanessa grunhiu baixo, vencida pelo cansaço. “Ah, Marina... Essa história é longa e complicada demais, tá? Melhor deixar a poeira baixar e... sei lá, esperar pra ver o que acontece”, coçou a testa irrequieta e se obrigou a fixar o olhar no rosto franzido da fotógrafa, “Agora mesmo só quero ir pra casa, tomar uma boa ducha quente e deitar na minha cama, porque estou estourando de dor de cabeça, pode ser?”, a ruiva falou naquele tom entediado que Marina conhecia muito bem, um que dizia ‘estou sofrendo pra caramba, e a culpa é toda sua’.
Por um momento, Marina a encarou com aquele olhar encapuzado dela e Vanessa percebeu o esforço que ela fazia pra tentar enxergar além do que podia, até que por fim a fotógrafa concedeu com um suspiro, “Tudo bem, mas depois eu quero saber direitinho dessa história ‘longa e complicada’ aí, viu?”, e pontuou seu decreto com um sorriso que costumava desmontar Vanessa completamente, e se fosse direcionado a ela alguns anos atrás até teria desmontado, só que então Marina fez a graça de tentar abraça-la.
É, dessa vez a ruiva não ia aceitar os quereres de Marina assim tão fácil. “Nem vem que não vou te contar é nada!”, retrucou ao tentar se esquivar dos braços da fotógrafa, só que aí já era tarde demais, “Ai, me largaaa, Marinaaa! Ô Clara, fala pra tua mulher me soltar ou eu não me responsabilizo pelos meus atos!”, exclamou toda dramática e viu quando Clara ergueu as mãos para sinalizar dois ‘V' com os dedos no ar, sorrindo despreocupadamente do seu assento ao lado de Diogo no sofá, o que fez a ruiva revirar os olhos em chiste, “Me deixa ir lá, vai”, disse com um riso frouxo e Marina finalmente a soltou do seu aperto, “Essa pode ser a minha única chance de dar um abraço no ‘Don Diogo Meirelles’ antes de ele sumir no mundo de novo”, ironizou antes de dirigir seus passos para a área alpendrada, ao que a fotógrafa balançou a cabeça e riu antes de atender o chamado do brilho fosco azulado que vinha da piscina.
***
Clara notou certa melancolia na expressão da ruiva quando ela abraçou Diogo demoradamente, mas preferiu não comentar nada na frente do sogro, também por não saber exatamente a causa dessa tristeza ou se sua atenção seria bem vinda naquele momento. Mesmo depois que Vanessa lhe deu um sorriso pequeno e seguiu rumo à estrada ladrilhada que levava ao portão principal, seus olhos preocupados continuavam fixos na trilha invisível deixada por ela, até que uma voz a trouxe de volta para a realidade.
“E aí? Como estão as coisas entre vocês?”, indagou-a com um fungado baixo.
Clara olhou para o perfil do homem sentado do seu lado esquerdo, depois para a distância onde Marina, Ivan e Sônia brincavam na piscina, então balançou a cabeça com um riso. Não saberia dizer quem era mais criança daqueles três.
“A gente tá se acertando”, suspirou as palavras antes de tomar um gole do seu suco.
“Se acertar é bom, eu suponho”, Diogo riu um pouco e lhe deu um olhar rápido antes de retornar sua atenção para a mesma cena, “Não sei o que é, mas ela me parece um tanto... diferente. Mais disposta, talvez?”, bebericou um pouco do seu whisky e ponderou por uns segundos, “Mas a atitude casual, esse ar blasé é o mesmo de antes... Lembra muito a Marina dos velhos tempos”, ele concluiu com um estreitar de olhos e um sorriso esgueiro.
Clara agora olhava para Marina atentamente, “Ah, você também percebeu...”
“É mais sutil agora, mas dá pra notar, sim. E acho engraçado isso, porque quando você ou o Ivan estão por perto, ela mostra esse lado mais doce que acaba contrastando radicalmente”, ele murmurou com um riso, meneando a cabeça por trás do copo, “Quem não a conhece tão bem pode até se confundir com essa... calma intensa na expressão dela. É enervante, mesmo”
“É, talvez o trauma do acidente tenha mais a ver com isso”, Clara acrescentou pensativa, então olhou para o sogro que agora a fitava com olhos curiosos, “A médica que tá acompanhando o caso dela me falou que essas mudanças de humor podiam acontecer... Têm vezes que eu olho pra Marina, quando ela tá dormindo ou mesmo andando pela casa, ou sentada aqui fora, e de repente ela fica tão quieta que chega a me dar uma aflição...”, riu um pouco antes que seus olhos castanhos procurassem pela silhueta da fotógrafa novamente, “... a postura, a expressão dela muda, sabe? Parece distante num momento, mas aí depois ela tá toda sorridente, mais... hum... receptiva, carinhosa...”, demorou-se num suspiro, “É estranho mesmo, mas acredito que isso passe quando ela melhorar desses lapsos de memória e... recuperar a visão... completamente”, franziu as sobrancelhas ao hesitar na última parte, o que fez Diogo erguer as dele em suspeição.
“Pode ser”, ele assentiu vagamente, olhando-a de canto ao falar, “Mas pelo que você me contou, ela ainda não decidiu sobre o transplante”
“Ah, essa cabeça dura da sua filha insiste que a cegueira pode ser uma experiência transformadora pra arte dela...”, Clara esfregou uma mão na testa e suspirou pesadamente, sentindo um cansaço repentino pesar-lhe os ombros, “Eu até compreendo, e a admiro ainda mais por ela conseguir encarar a situação dessa forma, mas... eu sei que no fundo ela tem medo que dê errado, de se frustrar ainda mais. Por isso pretendo tocar no assunto de novo, sim, mas só depois que essa correria da exposição passar”, e pontuou sua decisão com um gole demorado da sua laranjada sem açúcar.
Diogo a observou por uns segundos antes de murmurar, “Entendo”, e também fez uma pausa para um gole, antes de finalmente dar voz a uma inquietação antiga, “E a diaba francesa? Ainda rondando a Marina?”
Nessa, e apesar de si mesma, Clara riu alto no termo que o sogro usou, “Ai, nem me fala... Não duvido nada que aquela lá tenha um pacto com o ‘coisa ruim’, porque olha... cada dia ela apronta uma diferente e pior que a outra...”, aí sua risada foi morrendo quando uma memória perturbadora e não muito distante ameaçou roubá-la do presente por um momento.
Um tanto confundido pela súbita mudança no humor dela, Diogo lhe deu um olhar engraçado antes de gesticular no ar entre eles, “Ah, mas não se preocupa com isso, não. Marina teve seus bons tempos de, hum, você sabe...”, fez outro desvio estratégico para o whisky.
E nessa Clara o cutucou no lado ao falar com um sorriso irônico, “E a quem será que ela puxou, né, seu Diogo?”
“Mas, como eu dizia...”, o homem lhe deu um olhar enfático, “... minha filha já atingiu a cota dela de aventuras amorosas”, uma pausa pensativa depois e Diogo suspirou, “Ai, ai, mas eu já previa que isso ia acontecer. Na primeira vez que ouvi seu nome saindo da boca dela eu soube que Marina estava arruinada para aquela vida...”, dessa vez Clara lhe deu um olhar desconfiado, ao que Diogo revirou os olhos e acrescentou num tom já meio trôpego, “Não me leve a mal, tá, norinha? Mas você conseguiu acabar com a reputação de conquistadora da minha filha”, quando a mulher só continuou olhando para ele com aquela expressão de suspeita, Diogo então exalou dramaticamente, por ora decidindo voltar para o território mais seguro, “Nunca pensei que ia dizer isso, mas essa vida doméstica favoreceu muito a Marina. E, pelo visto, as... rédeas por aqui andam bem curtas, hm?”, e se escondeu por trás do copo.
“Curtíssimas mesmo”, Clara se dignou a respondê-lo com um aceno vago de cabeça. Não captou direito o que o sogro quis dizer com aquilo, o que de fato ele disse, mas talvez ele só estivesse mesmo tirando uma com a cara dela, e por isso continuou olhando-o por baixo dos cílios, repetindo a mesma ação com seu copo um instante depois.
Foi quando Diogo limpou a garganta e lhe abriu um sorriso um tanto largo demais, “Mas é claro, olha só pra ela”, acenou com o queixo para o cenário a frente deles, onde Marina agora sentava na borda da piscina como se assistisse a improvisada competição de nado entre Ivan e Sônia, “Ah, céus, minha pequena domadora de leoas... partiu tantos corações que findou sendo ela a fera domada”, o homem parecia lamentar o próprio destino ao falar do da filha, embora o sorriso no rosto contradissesse as palavras que os lábios sopraram em seguida, “À você, que conseguiu esse feito, minha querida!”, ergueu o copo no espaço vago entre eles antes de virar todo o whisky num trago só.
“Valeu pela força, sogrão”, enquanto dava umas tapinhas no ombro do sogro, Clara teve que rir da cena em que ele bravamente tentava não se engasgar com a bebida forte.
“Não me agradeça”, o homem disse num tom meio raspado depois de um momento, então pegou a garrafa que estava na mesa de centro e se serviu um pouco mais do líquido envelhecido. E foi aí que Clara notou a expressão dele mudar, os olhos que tanto se assemelhavam aos de Marina se tornando sombrios e estreitos quando ele falou friamente, “Se você fosse homem, quatro anos atrás eu teria cortado seus testículos fora com minha faca de pesca e jogado pros tubarões no mar do Caribe. Depois teria te dado uma bela de uma surra, arrancado um dedo ou dez, e, ah, sabe onde o resto de você estaria agora?”, e nessa, ele a olhou bem dentro dos olhos e sorriu malignamente ao notá-los assim tão arregalados. De repente se sentindo acuada, Clara se encolheu um pouco nesse leve suor frio que se espalhava pelo seu corpo quando o sogro sussurrou suas próximas palavras com uma calma arrepiante, “Passando a ração e fel na cela mais imunda de Guantánamo pelo que fez minha filhinha sofrer”, sem bater um cílio ou mover um músculo, Diogo segurou o olhar horrorizado da mulher por uns longos e tensos cinco segundos a mais, até que explodiu numa gargalhada pomposa, “Brincadeira, norinha!”, ele cantarolou todo zombeteiro, dando-lhe uma tapinha nas costas que quase a derrubou do sofá antes de emendar, “E a exposição? Como andam os preparativos?”, fitou-lhe entre um gole e outro, ainda rindo baixo da expressão perturbada no rosto da nora.
Só que Clara estava mais que apenas perturbada com a ‘brincadeira’ do sogro, estava mesmo era completamente confundida, tanto que mal conseguia raciocinar entre as palavras que lhe deixavam a boca sem sua permissão, “Eu acho... que vão bem... até agora...”, então pigarreou de nervosa, do nada tomada por essa necessidade terrível de virar um trago cheio daquele whisky.
Passaram-se mais alguns segundos, mas nem assim seu coração parecia desacelerar. Olhou para o seu copo e desejou que Sônia tivesse colocado alguma mistura com álcool ali, porque aquela laranjada não estava nem começando a dar conta.
Foi só depois que Diogo lhe lançou um brilho questionador que ela finalmente articulou com exagerada animação, “Aaah! E o que dizer mais? Que tem tudo pra ser o acontecimento do ano?”, riu meio sem graça, de repente se sentindo muito transparente sob o escrutínio pesado do sogro.
Mas Diogo só sorriu de canto nas suas palavras, meneando a cabeça com um ar de satisfação quando replicou ao retornar o olhar para a cena lúdica a sua frente, “Se você diz, tenho certeza que será”
Clara engoliu em seco, respirando um pouco mais facilmente agora, mas mesmo assim achou mais prudente se afastar um palmo discreto ou dois no sofá quando perguntou um momento depois, “Você... vem pra abertura?”, deu-lhe um brilho cauteloso pelo canto do olho.
E nessa ela o viu suspirar, “Quero muito estar no Rio pro grande dia, mas se eu não conseguir você já sabe o que fazer, não é?”, o sogro lhe piscou um olho com uma cópia exata daquele sorrisinho culpado que Clara reconheceria a quilômetros de distância.
“Amanso a fera, pode deixar”, lhe retribuiu o sorriso com uma piscadela das suas.
O riso de Diogo foi todo faceiro e meio bêbado, “Ah, minha querida Clara... Eu realmente não podia ter entregado minha filha em melhores mãos”, suspirou as palavras como se saudoso de si mesmo.
“Ah, agora é assim, né?”, ela lhe deu um safanão no braço que só fez Diogo rir mais, “Deixa só a Marina saber desse seu lado machista aí!”, e foi a vez de Clara rir quando o sogro arregalou os olhos de repente.
“Deus me livre! Fica sendo nosso segredo, hein?”, apontou-lhe um dedo em chiste e Clara, humorada, passou um zíper na boca antes de voltar para sua laranjada com um riso definitivamente mais aliviado.
Os dois então passaram a desfrutar do café da manhã leve que Clara havia preparado com Sônia e deixado na mesa de centro mais cedo, apreciando a companhia silenciosa um do outro enquanto observavam o trio fazendo as estripulias mais improváveis na piscina.
É, depois dessa manhã, a alcunha ‘Don Diogo', que tantas vezes ouvira a esposa e as amigas usar em tom de pilhéria pra descrever a figura do seu sogro, ia ganhar um significado totalmente novo no dicionário de Clara.
Ou talvez não fosse tão novo assim, afinal.
***
Naquela tarde meio ensolarada e quase cinzenta, o almoço dos Fernandes Meirelles foi outra anedota de se contar para as futuras gerações. Flavinha havia se juntada a eles na bagunça depois de muita insistência de Marina e então de Clara, mas como era de seu feitio ela permanecera a maior parte do tempo calada, envolta em si mesma, e se despediu não muito depois que a refeição foi extinta da mesa.
E assim foi que, após enquadrar filho, companheira e sogro com instruções bastante específicas – que tinha certeza que não seriam seguidas – para que não virassem a casa de cabeça para baixo em sua ausência, Clara também havia deixado o complexo da mansão, só que com destino a reunião dos expositores na Galeria.
Três longas e cansativas horas depois, ela cruzava um corredor largo no quinto piso do edifício em direção ao elevador mais próximo, quando então parou no meio da passada ao avistar a única secretária ainda batendo gavetas no salão entre os escritórios.
Deu meia volta e foi recontando os pensamentos em sua cabeça enquanto se aproximava da mesa, até que parou por ali.
“Raquel? Você sabe da Diana? Ela não estava na reunião e a sala dela tá trancada”, perguntou rápido, quase distraidamente.
A moça parou de mexer na gaveta por um momento para lhe dar um olhar vago, “Ah, a senhora Grimaud não vem pra Galeria hoje. Na verdade, ela ligou faz uma meia hora dizendo que estava a caminho do aeroporto e agora eu que vou ter que me virar pra reagendar todos os compromissos dela...”, suspirou cansadamente antes de continuar mais para si mesma, “Estou tentando cancelar o que for possível, mas... a senhora tá precisando de alguma coisa?”
“Eu? Não, não”, demorou uns segundos para assimilar aquela informação, então interrogou a secretária por mais detalhes, “Ela por acaso disse pra onde ia? Ou se vai ficar fora por muito tempo?”
“Não, senhora. Mas...”, a moça começou, aí hesitou por um instante, o que Clara fingiu que não perceber, “... ela confirmou que está de volta antes da abertura da exposição”, ela emendou um segundo depois, lhe dando outro relance.
Na brevidade em que os olhares se cruzaram dessa vez, os seus castanhos se estreitaram em suspeita nos peculiarmente verdes da secretária antes de assentir com um sorriso pequeno, “Entendi. Tenha uma boa tarde, Raquel”
A moça lhe retribuiu o sorriso ao cumprimentá-la, “Boa tarde, senhora Clara”, e seu olhar curioso acompanhou a silhueta da carioca até que ela entrou no elevador.
***
Lamentando o quanto essa vida podia ser irônica, Clara suspirou quando finalmente encontrou um sinal fechado, em seguida alcançando a bolsa no banco do carona e remexendo por ali até que encontrou seu celular que tocava insistentemente desde que deixara o estacionamento da Galeria quinze minutos atrás.
Olhou para a tela e respirou fundo antes de atender.
“Oi, Cadu”
“Cadê o Ivan?”
“Tá em casa”, respondeu com uma voz controlada, mas a testa franziu um pouco no tom estremecido do chef, “Por que? Aconteceu alguma coisa?”
Cadu ignorou sua preocupação. “Ele tá aí perto? Passa o telefone pra ele, quero falar com meu filho agora”
Clara sentiu uma veia irritada começar a saltar na sua têmpora direita, mas inspirou profundamente antes de tentar explicar com mais calma, “Não, ele tá com a Marina, na nossa ca–”, só que o ex-marido não parecia disposto a ouvi-la.
“Como você deixa nosso filho de doze anos perambulando sozinho pela cidade, Clara?”, ele vociferou do outro lado da linha, “Outra que a Marina não está em condição de cuidar nem dela mesma, quanto mais de uma criança!”
“Cadu...”, silvou-lhe o nome novamente, a impaciência já lhe corroendo por dentro, estava realmente tentando, mas não o suficiente para tolerar esse tom hostil dele com a sua companheira por muito mais tempo, “Ivan não estava ‘perambulando sozinho pela cidade’, tá bem? Verônica foi deixá-lo no portão–”, foi interrompida de novo e dessa vez descontou sua frustração na buzina quando o motoqueiro na sua frente demorou uns segundos a mais para sair do lugar.
“Verônica?”, o chef riu incrédulo, “Ela não podia, cara... Não podia ter feito isso sem minha autorização!”
“Como assim sem tua autorização?”, passou o celular para a outra mão rapidamente, então trocou de marcha, “Ivan mora comigo, e diga-se de passagem que eu tenho a guarda legal, esqueceu? Ele só estava passando uns dias na casa da avó enquanto–”, outra interrupção que fez Clara ranger os dentes em exasperação.
“Enquanto você paparicava sua esposa adorada, pois é! E o nosso filho lá, largado na casa dos outros!”, criticou-lhe naquele tom cínico que a irritava profundamente, “E só Deus sabe quantos dias ele faltou na escola, também. Isso não tá certo, Clara!”
“Escuta, qual é o seu problema, cara? Até onde eu sei, ele só faltou na escola hoje, e não vejo motivo pra você tá fazendo esse escândalo todo!”
“É sério”, ele fez uma pausa, então despejou as palavras com uma exalação, “A gente precisa conversar. Essa situação tá ficando insustentável”
Contrariada com a aparente mudança no rumo da conversa, Clara acabou desacelerando o carro involuntariamente e ignorou as buzinadas que recebeu pela momentânea desatenção.
“Como é? Que situação?”, questionou-o com rispidez, mas logo suspirou cansadamente, “Ah, quer saber? Eu estou dirigindo no momento e não–”, mas de repente foi confrontada pela voz grave que gritava no seu ouvido.
“Você sabe muito bem do que eu estou falando, caramba!”
“Não, eu não sei!”, rebateu na mesma altura no instante seguinte, então teve que parar por uns segundos, controlando seu temperamento antes de enfatizar, “E me recuso a ter essa conversa com você por telefone, ainda por cima no meio do trânsito, Cadu!”
“Então para a droga do carro e me ouve!”, ele continuava gritando e, mesmo a contragosto, Clara achou melhor fazer o que ele pedia antes que acabasse cometendo uma loucura no trânsito.
Deu seta para a direita, foi diminuindo a velocidade e manobrando para o acostamento até que estacionou.
“Pronto, senhor Carlos Eduardo”, disse num tom irônico.
E ficou ali esperando impacientemente até que o ex-marido resolveu falar, agora numa voz estranhamente embargada.
“O Ivan falou se... se ele precisou de alguma coisa esses dias? É que ando sem tempo por causa das negociações da nova filial e–”, essa foi a vez de Clara o interromper.
“Nova filial?”, perguntou, um pouco confusa.
Ouviu-o suspirar e então o chef explicou, “É, finalmente tá saindo do papel, só que tá me dando muita dor de cabeça em troca também... E ainda tem o bebê que tá naquela fase terrível, sabe? Acorda de hora em hora, cólicas, choro, manha... Aí só consegui uma visita rápida com o Ivan essa semana, mas deu pra notar que ele estava meio, sei lá, pra baixo...”
Clara estranhou o ex-marido não ter comentando nada com ela sobre uma nova filial antes, e foi ainda mais estranho ele falar como se estivesse cuidando sozinho do bebê, mas por fim deu de ombros. Esse assunto não era mais da sua conta, afinal.
“Cadu, não precisa se preocupar, eu já disse que o Ivan tá ótimo”, tentou apaziguá-lo, “Aliás, você conhece a dona Chica muito bem. Minha mãe sempre tratou nosso filho como um rei”
Nessas palavras o homem pareceu sossegar um tanto, mas o silêncio amigo só durou um momento.
“Quando a gente pode se ver?”
Clara revirou os olhos, exalando com as palavras, “Sinceramente? Não vejo necessidade pra isso...”
“Vou passar na Galeria amanhã e é melhor que você me receba”
“Como é que–”, mas a ligação já havia sido encerrada, “Mas que- droga! Droga, Cadu!”, exclamou ao jogar o celular no banco do lado, então puxou o freio de mão antes de resmungar para ar frio dentro do carro, “Teimoso do caramba...”
***
Eram quase cinco da tarde quando Clara estacionou seu carro ao lado do de Marina no pátio da garagem.
Pegou a bolsa de qualquer jeito, saiu batendo a porta com força e pisando duro, mas aí parou, respirou fundo algumas vezes, e então recomeçou o caminho conhecido pela trilha de pedras que a levou até a área frontal jardim.
Sua cabeça ainda fervilhava, latejava com tantos pensamentos que mais pareciam nuvens carregadas pairando sobre ela.
Mas essa tempestade ia passar, sabia que tudo isso ia passar... Só precisava terminar aquela conversa com Marina para se livrar de uma vez por todas dessa agonia que lhe comprimia o peito.
Talvez estivesse mesmo reagindo de forma exagerada. Afinal, havia chegado até aqui e o mundo não tinha acabado.
Mas era mais forte que ela, esse medo, esse pressentimento ruim que a acompanhava desde aquela maldita noite...
Era como se toda aquela felicidade que sentiu quando finalmente pôde se entregar a Marina de corpo e alma, que os laços as unindo uma a outra até então fossem tão frágeis que, a qualquer instante, a menor das brisas faria com que tudo esfarelasse por entre seus dedos.
Não queria pensar nisso. Não podia acreditar que tudo fosse assim tão fugaz, que o sentimento que existia entre elas pudesse ser tão facilmente manchado.
Mas foi. E tão precocemente, tão amargamente...
Balançou a cabeça, lembrando-se do som da voz da esposa lhe dizendo aquelas palavras que calaram fundo na sua alma.
“Nós vamos superar isso. Juntas, como sempre fizemos”, repetiu-as em pensamento e sorriu consigo mesma, “Amor...”, acrescentou em voz alta o nome dessa sensação inquietante e ao mesmo tempo acalentadora que lhe tomava toda vez que ela chegava perto, que a tocava, lembrava dela...
O que era tal sensação, se não essa pequena fortaleza de cartas valsando sobre a imensidão das areias movediças da vida?
O que poderia ser esse amor, se não fosse sua Marina?
Suspirou na cena com a qual se deparava agora, seu sorriso se tornando mais convicto como as palavras da esposa foram.
Ali, no sofá onde passara o começo da tarde com o sogro, Ivan tinha sua cabeça recostada no ombro da fotógrafa e um braço frouxo jogado pelo meio dela, enquanto os de Marina o envolviam num abraço adormecido.
Na poltrona ao lado, Diogo folheava as páginas de um livro enquanto fitava o par vez por outra com um sorriso sereno no rosto, tão diferente daquela expressão inebriada e zombeteira de mais cedo.
Quando o homem a viu se aproximando, fez menção de falar, mas Clara pressionou um indicador contra os lábios em sinal de silêncio e ele assentiu com um sorriso.
Parou por ali um longo minuto, apreciando a visão da sua pequena fortaleza de cartas inspirar profundamente e então puxar seu filho mais junto dela.
E, naquele momento, Clara finalmente compreendeu.
Porque sua Marina sabia o que era afundar naquelas areais movediças da vida, nos muros dela sempre iria caber mais uma carta.
***
Despertou com o som suave de uma voz familiar acariciando seus ouvidos.
“Estava com saudades de sentar aqui e ficar admirando você desenhar”
Girou em seu assento, seguindo o som daquela voz ao ajustar o olhar para a pouca luz que banhava o canto do ambiente onde ela estava sentada.
Marina parecia observá-la na distância dos poucos passos que as separavam, embora Clara soubesse que, dali, a fotógrafa não teria como distingui-la entre as sombras que rondavam seus olhos machucados.
Refez seus passos mentalmente e concluiu que já devia ser tarde, a julgar pelo silêncio e pelo frio que se fazia ao redor. Recordava-se de ter entrado e, depois de beliscar alguma coisa na cozinha, havia tomado um banho rápido e liberado Sônia para a noite. Tinha ido checar o trio que continuava na área externa da casa, todos nas mesmas posições, e então decidido passar o tempo desenhando no seu pequeno refúgio pessoal, no térreo do arquivo. Há alguns meses passou a usar a 'sala sem paredes' como atelier e, às vezes, como escritório informal quando precisava trabalhar e não podia sair de casa por um motivo ou outro.
Fez do espaço um quadrado perfeito, separado do restante do arquivo por biombos e painéis de madeira, de onde seus quadros e desenhos pendiam numa bagunça meticulosamente planejada para ser assim; somados a um divã e a uma estante de livros ao fundo, uns cavaletes para as telas e alguns tripés de lâmpadas dispostos no lado oposto do ambiente, esses eram os únicos decorativos no lugar.
Marina era quem costumava tirar sarro dela sobre isso, dizendo que sua aptidão para cuidar do lar não era assim tão apurada quando se tratava do seu universo particular.
De fato, Clara não podia negar, o lugar parecia mesmo um reflexo da sua própria confusão interior feita de pensamentos mudos e lembranças nem tanto.
É, definitivamente, muitas delas foram mesmo de uma bagunça deliciosamente barulhenta...
“Lembra quando a gente fazia amor aqui, no chão, deitadas no meio das minhas telas?”, perguntou com esse sorriso melancólico que a esposa não veria.
“Você sempre com seus dedos sujos de grafite e tinta...”, a fotógrafa riu baixo, meneando a cabeça quase timidamente quando lhe revelou, “Sim, eu lembro. Ontem até tive a sensação de que podia enxergar cada detalhe do seu rosto de novo, o seu sorriso... tão lindo...”, suspirou ao fechar os olhos por um segundo na memória ainda tão quente e pulsante, então uma nota de malícia vibrou na voz dela quando sussurrou simplesmente, “Vem aqui, amor...”
Sentiu sua pele aquecer instantaneamente ao ouvi-la dizer aquelas três palavras e não pensou duas vezes para lhe atender o chamado.
Foi atravessando a distância até o divã onde Marina se sentava com as costas relaxadas contra o encosto lateral e então notou que a fotógrafa estava vestindo o mesmo roupão que havia usado mais cedo naquela manhã, aquele que ela tinha lhe arrancado do corpo antes de devastá-la por completo.
Engatinhou devagar pela superfície acolchoada até que seu corpo pairou sobre o dela, então lhe beijou os lábios demoradamente antes de murmurar, “Já colocou os meninos pra dormir?”, aí sentiu aqueles dedos espertos puxando as alças da camisola delicada que vestia e sorriu quando Marina gemeu baixinho na sensação da coxa firme que pressionou entre as dela.
“Hmhmm...”, ela confirmou distraidamente, então arqueou seu corpo no da companheira com aquela cara de súplica, “E adivinha... quem deu mais trabalho?”, ouviu Clara rir no seu comentário, mas logo aquele riso rouco deu lugar a um suspiro trêmulo quando arrastou suas unhas pelas costas bronzeadas dela e sussurrou-lhe nos lábios, “Mas enfim sou toda sua...”
Um arrepio percorreu-lhe o corpo quando os lábios de Marina tomaram os seus num beijo urgente, aquelas preocupações evaporando da sua mente no calor escaldante da língua que deslizava dentro da sua boca, dos quadris que ondulavam persistentes sob os seus...
As mãos de Marina lhe caçavam os cabelos e os quadris já com certo desespero, enquanto as suas perseguiam seios quentes e nus por baixo do tecido espesso do roupão. Ficaram nessa doce tortura por longos minutos até que um pensamento conseguiu se esgueirar na névoa de luxúria que havia envolvido seus corpos.
“O que foi?”, ela murmurou quando a sentiu se afastar um pouco.
Clara se apoiou nos cotovelos para que pudesse olhar nos olhos semicerrados dela, “Você– Quer dizer, nós não...”, franziu as sobrancelhas na dúvida, tentando achar as palavras certas, “A gente não teve tempo de conversar... mais, depois que seu pai e o Ivan chegaram...”
A fotógrafa foi direto ao ponto. “Quer falar sobre o beijo que a Diana te deu?”
Clara piscou, um tanto confundida pelo tom despreocupado da companheira, “Só quis ser sincera contigo, Marina”, murmurou e então grunhiu sua eterna frustração consigo mesma antes de continuar, “Acho que o pior que eu podia ter feito depois de tudo que aconteceu seria me omitir... outra vez”, suspirou as palavras irrequietas, mas aí sentiu as mãos dela em seu rosto num gesto que estava longe de ser recriminatório. Era tudo de reconfortante.
“Você quer entender, não é?”, perguntou-lhe com um sorriso pequeno, ao que Clara abriu a boca pra lhe responder, mas não soube de imediato o que falar.
Depois de uns segundos, ela recompôs seus pensamentos, “Eu... confesso que isso me passou pela cabeça, sim”
“Bem, tirando o fato de você ser essa delícia toda...", nessa, ela ganhou um cutucão e riu um pouco, aí tentou ficar mais séria, "... eu poderia enumerar, assim... pelo menos três motivos pra ela ter te beijado”, a fotógrafa concluiu enquanto acariciava seu rosto e cabelos com um ar pensativo.
“Pelo menos?”, exalou receosa, então balançou a cabeça e murmurou com um riso nervoso, “Meu Deus...”
Marina também riu baixo, daquela maneira cínica de quando aprontava alguma coisa, “Hm, mas... eu só te explico se você topar ir pra Angra comigo amanhã”, agora tinha certeza que esse demônio de mulher estava aprontando uma.
Clara estreitou os olhos em suspeita, refletiu por uns três segundos, e resolveu entrar na brincadeira.
“Feito”, e selou o trato com seu beijo mais caloroso.
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