Perchance
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Notas iniciais
“Ah, são vocês”, disse com um sorriso pequeno quando parou cerca de uns quatro passos da mesa. Seu olhar alternava entre as duas mulheres, notando a estranha proximidade dos corpos e as expressões agravadas, “Tá... tudo bem por aqui?”, a pergunta retórica deixou seus lábios hesitantes.
E foi retórica e hesitante porque, definitivamente, algo fora do comum acontecia ali.
Havia uma cadeira caída no chão para o lado da entrada principal, o ar no lugar estava consideravelmente mais denso e gelado do que de costume e, a julgar pela postura enrijecida de ambas as mulheres, Flávia podia apostar sem quase sombra de dúvida que esse 'algo fora do comum' tinha a ver com aquela palidez no rosto de Clara e a leve vermelhidão no de Diana.
A francesa tinha as costas pressionadas contra a estante e olhava fixamente para o perfil da carioca, que por sua vez olhava vagamente na direção da porta que dava acesso a escada espiralada na área externa da casa, por onde Flavinha costumava entrar no arquivo.
Se não tivesse falado, ou se tivesse entrado dois segundos antes pela outra porta, Clara não queria nem pensar no que a fotógrafa teria presenciado ali...
Dos poucos passos que a separava delas, os olhos treinados de Flávia não deixaram de notar o contraste marcante entre as duas mulheres. Em como, naquele momento, elas espelhavam o exato oposto uma da outra, desde a tonalidade dos cabelos a da pele, do modo como se vestiam e as cores do tecido que as abraçavam.
Atrás de Flávia, na parede ampla e branca, a dança ora lenta, ora rápida das sombras com a baixa luz projetada pelo equipamento fazia com que as imagens piscassem e mitigassem numa dessincronia vertiginosa no painel. Os flashes esbranquiçados que se espalhavam dali para as demais paredes do ambiente lembravam luzes de faróis, mas o que mais chamou a atenção da fotógrafa foram esses mesmos faróis refletidos nos olhos delas, um par claro e friamente curioso, o outro escuro e silenciosamente assustado.
Que desperdício não ter uma câmera em mãos naquele momento...
E assim os segundos se passavam em que o único ruído ouvido era o zumbido elétrico da central de ar que se confundia com o chiado do antigo projetor.
O silêncio se espaçava desconfortavelmente no ambiente, mas Flávia decidiu que era melhor não questioná-las mais e retomou seus passos quietos até a mesa, onde despejou com cuidado o conteúdo de uma caixa que carregava.
Enquanto separava e organizava metodicamente os negativos e algumas peças em cima da superfície polida, a fotógrafa as fitou de canto de olho uma ou outra vez, até que percebeu uma troca de olhares intensa entre as duas mulheres. Foi só quando Clara quebrou o contato silencioso e começou a andar na sua direção que Flavinha baixou o olhar discretamente e voltou ao seu trabalho. Já tinha seus próprios reveses sentimentais para enumerar e não estava a fim de adicionar mais dois a lista. Ou melhor, três. Porque embora o terceiro elo dessa corrente não estivesse ali para contar, sua presença se fazia audível no tom de voz de Clara quando ela falou.
“É, hum... Flavinha?”, ouviu-a chamar numa voz pouco estável, “Já que está aqui...”, nessa, ela levantou o olhar dos dedos de Clara que tamborilavam nervosos na borda oposta da mesa, “Gostaria que você me desse sua opinião sobre uma ideia que tive pra exposição. Quer dizer... se não estiver muito ocupada agora”.
Flávia sorriu um pouco, meneando a cabeça. “Ah, não. Depois eu arrumo essa bagunça, é coisa da Vanessa...”, seu olhar desviou por um instante para a francesa que permanecia de pé perto da estante, quase inexpressiva, seus olhos azuis agora fitando o chão a frente dela, “Do que se trata?”, perguntou solícita, voltando sua atenção para a carioca.
Clara retribuiu com um sorriso meio embaraçado e um aceno curto de cabeça, então caminhou com certa pressa até um armário seccionado que ficava numa parte mais reservada do arquivo, fixado no canto da parede em que ficava o painel. Depois que girou seu segredo na tranca da porta e a destravou, ela retirou um tubo longo preto e um notebook do compartimento antes de fechá-lo, e então seguiu de volta para o centro do cômodo, onde Flavinha a esperava com uma placidez na expressão que era enervante.
Suspirou irrequieta quando percebeu Diana intentando uma saída discreta pela porta dos fundos, até que sua voz enrouquecida ecoou alto no silêncio hermético do lugar, fazendo a francesa parar já com uma mão na maçaneta.
“Esse é o... assunto que eu queria tratar com você, Diana”.
A loira girou devagar nos calcanhares, seus olhos azuis levantando aborrecidos do chão para enquadrar os de Clara na distância dos poucos metros que as separavam. Auxiliada por Flávia, a mulher começou a desenrolar algumas folhas grandes de um papel branco e grosso, espalhando-as cuidadosamente sobre a mesa. Pareciam ser plantas ou mapas pelo tamanho, mas assim que Diana capturou um relance de uma das folhas percebeu de imediato a semelhança com o traço da carioca.
Estreitando os olhos, fez seu caminho de volta até a mesa larga, onde Clara e Flávia agora se debruçavam sobre os papéis e falavam baixo entre si. Alguns dos modelos exibiam imagens impecavelmente retratadas em grafite, nas mais variadas tonalidades, enquanto outros exibiam formas bem definidas e paletas coloridas, o traçado em uns deles se assemelhando aos contornos dos cenários e alas da Galeria.
Clara ergueu o olhar por um instante, a testa franzida no que aparentava ser concentração, então acenou para que Diana se sentasse numa outra cadeira ao lado dela, antes de voltar sua atenção para o computador. A francesa arqueou uma sobrancelha numa pergunta silenciosa, mas, como não obteve resposta, sua curiosidade venceu sua impaciência e Diana consentiu o pedido mudo da outra mulher.
Quando sentou, cruzou as pernas tediosamente, assim como os braços sob o ‘V’ tentador do seu decote, antes de trilhar seu olhar cético para a tela inicial do notebook. Ali, Clara abriu um ícone nomeado ‘Sinestesia’ e então uma demonstração de slides em vídeo começou a rodar no LCD a sua frente.
“Bom, esse é o primeiro esboço de Sinestesia...”, informou-as num tom compenetrado, antes de subir para sua altura. Enquanto Flávia se juntou a Diana e sentou, ambas agora assistindo a demonstração sem pestanejar, Clara se manteve em pé entre elas, meio passo atrás dos recostos das cadeiras.
Sentia uma tensão quase paralisante pesando-lhe nos ombros e o que de calma conseguia expressar no rosto era mantido às duras penas.
Ansiosos, seus olhos trilhavam da tela do computador para o topo da cabeça loira de Diana mais vezes do que seria considerado normal, enquanto seus dedos se apertavam em punhos cerrados que mantinha cruzados pelo peito.
Era como se aquela sombra de medos e dúvidas que havia se dissipado durante a noite que passara com Marina ameaçasse pairar sobre sua consciência novamente. Mas o pior de tudo foram os flashes daquele sonho, o que desde o acidente não havia mais se repetido, mas que lampejavam no espelho de sua mente agora, causando-lhe uma sensação crescente de náusea.
Teve que fechar os olhos por uns segundos, enquanto tentava controlar sua respiração.
Embora tivesse disfarçado, Clara ainda não conseguia processar direito o que tinha acontecido ali.
E se Flávia não tivesse chegado?
Teria se afastado? Rejeitado o contato? Por que não o evitou antes que acontecesse, quando tinha Diana sob seu domínio?
E aquele tom malicioso com que a francesa mencionou a mensagem que havia enviado na tarde anterior, enquanto Marina passava o tempo com as amigas no alpendre lá fora? E os olhares estranhos, o rastro de portas destrancadas, a insinuação sobre a tal noite com a fotógrafa dois meses atrás?
Sim, estava claro agora que aquela cena na cozinha foi só mais um ato nessa trama dantesca na qual a francesa a estava enredando. O problema é que Clara já não sabia com certeza onde estava atuando e onde não, nem por que ou quando isso começou, se conseguiria levar essa situação até o fim.
Tudo o que Diana fazia, cada som que emitia, cada bater de cílios, tudo parecia ser proposital e ao mesmo tempo não.
Não conseguia mais compreender as intenções da francesa depois do que ela fez momentos antes.
E quanto a si? Já começava a duvidar dos seus próprios motivos também...
Será que, em algum momento anterior ao acidente, Marina havia por algum motivo confidenciado a Diana o que aconteceu entre ela e o ex-marido?
Será que ela já sabia de algo naquela tarde quando chegou sem aviso e flagrou o beijo que Cadu lhe forçou? E o que se passou depois da carona que a francesa ofereceu a ele, na noite daquele mesmo dia no hospital?
Não, Cadu estava com a Verônica, afinal.
E não queria nem pensar na possibilidade de ele estar envolvido com Diana de alguma forma. Temia sequer imaginar o que os dois provavelmente conversaram, se é que ao menos conversaram...
Temia ainda mais o fato de que, por mais insano que tivesse sido aquele momento com a francesa, no fundo não tivesse sido tão inesperado assim. Tinha que admitir para si mesma que o beijo não foi insignificante.
Sentiu alguma coisa ali, sim, e sabia que grande parte disso era Marina.
Aquela Marina que virou seu mundo de ponta cabeça anos atrás, foi a que Clara viu diante dos seus olhos ali, naqueles lábios vermelhos de perdição. O que a consumiu foi o brilho dos olhos amendoados que trouxe mais colorido a sua vida desde aquele primeiro encontro, e que aos poucos foi desvendando seus grises e breus, descortinando os cantos mais sombrios de sua mente outrora atravancada naquela vida de 'mulher Amélia', sempre devotada ao lar, marido e filho, sempre esquecida de si.
Mas essa era outra história, uma parte dela que era feita de memórias tépidas e felizes também, mas que agora eram lampejos lívidos de um passado que sentia já tão distante.
No momento presente só queria saber para onde, em nome de Deus, onde, naquele ínfimo e absurdo instante no tempo, foi parar toda aquela raiva e desprezo que sentia por Diana. Porque, no fundo, sua mente sabia que não era sua Marina ali, mas apenas um pálido reflexo dela. Não tinha como comparar, mas, mesmo assim, seu corpo não reagiu da maneira que deveria. Naqueles poucos segundos, sua mente não a impediu de corresponder aos lábios que lhe assaltavam da maneira mais sutil...
E dessa vez a dúvida sobre o motivo daquela viagem de Marina, quase vinte meses atrás, não lhe assombrava. Clara não estava inebriada pelo álcool ali, ou pela ansiedade impotente de ver um filho acamado.
É, talvez Diana tivesse mesmo um feitiço naquele azul gelado nos olhos dela...
Ou talvez não.
Talvez nada disso explicasse esse algo diferente que sentiu.
Essa excitação, medo, loucura... Todo o fascínio, essa mística mundana que não havia sentido por mulher alguma antes de Marina.
Ah, Deus... Por que tudo tinha que ser sempre tão confuso assim em sua cabeça?
“Que diabos há de errado comigo?”
“Clara, isso tá... simplesmente incrível”, o som da voz calma e grave de Flavinha se infiltrou no seu devaneio, “Eu não me lembro de ter visto nada parecido numa exposição de fotografia antes, ouso até dizer que seria algo inédito pro cenário brasileiro”
E nessa Clara finalmente piscou para a realidade, um sorriso pequeno agraciando suas feições distorcidas pela preocupação quando murmurou, “E a ambientação original, acha que vai mudar muita coisa?”
“Não acho...”, ponderou uns segundos, “É, mesmo nos baseando no original, acredito que pouca coisa precisaria ser alterada. Você conseguiu fazer uma síntese, criou essa atmosfera diferenciada, mas ao mesmo tempo em sintonia com o cânone fotográfico da Marina...”, Flávia tateou os modelos em cima da mesa, então girou em seu assento para que pudesse falar olhando nos olhos de Clara, “Aliás, você fez uma leitura admirável de perspectivas aqui, e o seu traço a cada dia fica mais realista. Parabéns”
“Obrigada, mas não...”, Clara balançou a cabeça com um sorriso modesto, “Essa parte é mérito da Marina. Foi ela quem me indicou essas referências todas, leu e debateu comigo várias vezes, inclusive. Ela me orientou durante boa parte do processo...”
“Mas esse material aqui?”, Flávia apontou para os esboços na mesa, “Esse é específico, e diria até bem recente. É o seu olhar, Clara”, cumprimentou-a com um sorriso honesto.
“Pode até ser...”, deu de ombros e suspirou, “Acho que dividimos os louros, nesse caso”
“Concordo, e digo mais: se esse aqui é seu primeiro esboço? Olha, de verdade... estou impressionada”, a fotógrafa agora folheava os croquis, seus dedos traçando as linhas e contornos vívidos neles, “Só que vai ser uma corrida contra o tempo pra colocar tudo isso em prática. Tá sabendo, não é?”
“É, eu sei...”, exalou ao esfregar uma mão na testa, de repente se sentindo muito cansada, “Mas e aí? Você toparia me ajudar nessa?”
“Tá brincando?”, Flavinha riu, olhando-a de relance antes de retornar sua atenção para os desenhos, “É claro que eu topo!”
Clara sorriu satisfeita, mas aí foi minguando quando seu olhar trilhou para a francesa que até então não havia pronunciado uma palavra.
“Então, Diana?”, perguntou-lhe um tanto apreensiva, seus dedos flexionando nos bíceps tensos, “O que acha?”
A mulher permaneceu calada por mais alguns segundos, até que inspirou profundamente e inclinou a cabeça ligeiramente na sua direção, o olhar baixo quando falou, “Você conseguiu agregar outras referências aqui, realmente. E inovou sem desviar radicalmente do conceito que Marina desenvolveu pra exposição, o que é apreciável”, e as próximas palavras deixaram sua boca como um veludo que se rasgava, “Demonstra o quão bem você a conhece... artisticamente falando”
Suas sobrancelhas franziram em agitação, mas os lábios sorriram na admissão forçada da francesa, “Ah, isso é verdade. Cada dia é um aprendizado novo com ela...”, Clara então foi para o outro lado de Flávia e, ao parar por ali, deslizou as pontas dos dedos pelos contornos de um rosto familiar no papel, “Marina é... a inspiração para tudo que faço de bom nessa vida”, murmurou mais para si mesma, os olhos traçando aquele sorriso eternizado pelo grafite.
Diana suspirou, parecendo contrariada. “Você devia ter levado o tema pra ser discutido antes, nas reuniões com os expositores”, a francesa a encarou do seu lugar com um olhar frio, “É pra isso que temos uma equipe de consultores e técnicos na Galeria”
Agora com Flávia entre elas, Clara se sentiu mais segura para cruzar olhares com a francesa, lançando-lhe um cortante com os seus castanhos, embora seu tom fosse brando quando explicou, “Aí é o ponto onde eu queria chegar. Eu pensei... penso nisso como uma surpresa pra Marina. Ela se dedicou tanto, se superou na concepção dessa exposição e eu quero que as pessoas possam experimentar todas essas sensações que ela propõe, sim, mas especialmente que ela viva esse momento da forma mais intensa, íntima... Mais visceral possível”
“Compreendo...”, foi a única palavra que a francesa disse, seus olhos azuis agora fixos na imagem de Marina que Clara inconscientemente acariciava com os dedos.
“Foi só por isso que não levei o tema pras reuniões”, disse num tom mais firme, “Até que eu conseguisse organizar as ideias e colocasse tudo no papel, isso não podia ser assunto de pauta”, uma pausa, então seus olhos estreitaram ligeiramente, “Pelo menos não até eu ter o seu aval”
“Hmhm...”, Diana sorriu de canto, “Mas diante de tudo que foi exposto aqui...”, notou um relance daqueles olhos castanhos pros seus dedos que agora tamborilavam vagarosos na borda de um dos modelos, o que fez seu sorriso se tornar mais felino, “Dá pra ver que você já vinha desenvolvendo esse projeto há algum tempo... O que me leva a pensar no porquê de só agora você me comunicar sobre isso, se esperava o meu...”, o olhar da francesa baixou sugestivamente na palavra, “... aval?”
Clara suspirou sofregamente, então cruzou os braços com um sorriso debochado. “Ah, você sabe por que. Marina, Ivan, estúdio, casa... Não estava me sobrando muito tempo pra planejar. Ah, sem contar com o meu expediente na Galeria...”, nessa, Flávia baixou a cabeça, tentando abafar um riso, “... e é óbvio que você não esqueceu o que aconteceu com a Marina recentemente, não é?”, conclui secamente.
A francesa revirou os olhos, exasperada. “É, parece que você anda bem sobrecarregada, mesmo. Problemas no seu... pequeno paraíso doméstico?”, zombou com um riso baixo.
“Problema nenhum”, retrucou sem pestanejar, “Só que depois do acidente a rotina da Marina mudou muito, como você deve ter percebido. Consequentemente a minha também teve que mudar. E justamente por isso eu tive que redesenhar e adaptar alguns aspectos do projeto também”
“Sim, claro”, concordou, entediada.
Nessa, Clara respirou fundo, então trocou um olhar com Flavinha, “Mas agora que a Marina tá, hum... mais disposta, e com a Sônia de volta, vou ter mais tempo livre pra trabalhar nisso. Também sei da sua agenda lotada, mas que mesmo assim você sempre arruma um tempinho pra fazer aquela visitinha matinal...”, seu sorriso irônico foi correspondido por um olhar seco da francesa, “... então achei melhor esperar uma oportunidade pra te mostrar o esboço aqui em casa mesmo, informalmente. Mais pra saber da viabilidade do projeto, custos, enfim...”, Clara então olhou para os croquis e franziu as sobrancelhas levemente, “Mas... pra falar a verdade, não acho que seja possível executar algo assim com tão pouco tempo. Aí pensei que, sei lá, se pudéssemos amadurecer mais a ideia, deixar pra uma próxima ocasião ou... talvez adiar a exposição por mais alguns dias...”, comentou tentativamente, fitando a loira de canto de olho.
Já Flávia encarou a francesa abertamente enquanto Diana parecia refletir nas suas palavras, as pontas dos dedos trilhando pelos contornos de um rosto que Clara também adorava quando finalmente falou, “De fato, estamos em cima do prazo. Mas eu gostei, gostei mesmo do conceito... Quanto a estrutura também não acho que haveria problema, já que temos praticamente tudo montado na Galeria”, Diana então se levantou devagar, apoiando-se na borda da mesa com as mãos, “E, como a nossa querida Flavinha bem disse”, sorriu morosamente na direção da fotógrafa, que em troca arqueou uma sobrancelha cavilosa, antes de voltar sua atenção para Clara novamente, “... pelo menos essa parte não vai sofrer alterações significativas”
Silêncio profundo seguiu o eco grave e aveludado daquelas palavras, durante o qual a francesa a encarou com um sorrisinho irritante.
Mais um segundo daquilo e Flávia se viu forçada a intervir.
A fotógrafa limpou a garganta audivelmente e fitou a carioca pelo canto do olho, incentivo esse pouco desejado por Clara que suspirou exasperadamente.
Sabia o que Diana estava esperando, mas se reservou o direito de preservar seu orgulho pelo menos por mais alguns preciosos segundos.
“Então? Tenho sua aprovação, chefe?”, enfim murmurou com um sorriso que era só dentes.
Diana fez uma cara pensativa, mas então riu debochada. “Muito bem”, espalmou uma mão na outra animadamente, “Acho que dá pra realizar essa façanha, sim. Como dizem vocês brasileiros, vou pagar pra ver”
“Literalmente, Grimaud”, Flávia comentou, se levantando da cadeira visivelmente menos tensa.
“Mas é claro, mon petit”, beliscou de leve o queixo de Flavinha que, confundida, piscou no gesto espontâneo e quase maternal da loira, “Vocês sabem que dinheiro não é problema pra mim. E pela Marina? Eu faço qualquer negócio, apostaria até mesmo a minha...”, aí olhou para Clara por baixo dos cílios, a malícia de volta no seu sussurro estranhamente sugestivo, “... fortuna nisso, se fosse preciso”
Clara baixou a cabeça um instante, antes de voltar a encará-la com uma expressão educada, “É, eu estaria mentindo se dissesse que não estava contando com isso”, soprou as palavras cansadas de uma vez, rindo baixo para si mesma.
O olhar agora fixo no monitor do computador, Diana disse num tom vago, “Ah, mas pode contar com isso”, uma pausa, então aquele azul gelado nos seus olhos capturou o castanho quente nos de Clara por uns dois segundos demorados, “Sempre, mon chéri”
“Bom, eu... acho que é isso”, pigarreou entre as palavras, sentindo um leve suor lhe resfriar o rosto repentinamente, “A gente se reúne amanhã cedo, então, pra... combinar os detalhes. E Flavinha?”, virou-se para a fotógrafa, “Bico fechado, hein? Se isso cai nos ouvidos da sua namorada, é adeus surpresa pra Marina”
Flávia soltou um riso nervoso. “Tá, entendi. Nenhuma palavra com a Vanessa”, levantou uma mão com os dedos cruzados em juramento, fazendo Clara rir junto.
“Você guarda pra mim, por favor?”, apontou para o material espalhado em cima da mesa.
Flavinha acenou. “Pode deixar”.
Clara sorriu-lhe grata e, depois de lançar um último olhar hesitante na direção da francesa, acelerou o passo rumo à entrada principal do arquivo.
Só quando ela cruzou o limiar, recostando a porta atrás dela, o som macio e rasteiro da sua passada ecoando mais distante e distante, Diana ergueu seus olhos da tela do notebook para o rastro invisível que Clara deixou.
Com um suspiro pesado, a francesa começou a fazer o mesmo caminho.
Mas antes que circulasse o canto da mesa, uma mão firme agarrou-lhe pelo cotovelo e a puxou de volta.
Surpreendida, Diana olhou para aquela ofensa em seu braço e em seguida nos olhos escuros de quem a cometia, arqueando uma sobrancelha em questão.
“Preciso falar com você”
Olhou a mulher de cima a baixo, um sorriso malicioso curvando seus lábios vermelhos, “Sou toda ouvidos...”
***
Subiu as escadas dois degraus de uma vez.
No topo, franziu as sobrancelhas ao notar a porta do quarto entreaberta, apressando o passo até que parou na soleira.
Fechou os olhos, respirou fundo, alcançou a maçaneta, mas parou um instante.
Prometeu a si mesma que não ia cometer o mesmo erro duas vezes.
E, o mais importante, prometeu a Marina que não a deixaria esquecer de novo.
Abriu a porta devagar e lá estava ela.
De costas, Marina não parecia perceber sua presença enquanto mexia numa das gavetas da cômoda.
Clara foi se aproximando, os passos quietos, atraída pelo cheiro dela, os olhos flertando com a curva saliente dos quadris sob o tecido vermelho amarrotado.
Demorou uma eternidade, mas enfim seus braços a envolveram num abraço apertado, o rosto mergulhando nas ondas suaves e aromáticas dos cabelos da fotógrafa.
Marina sorriu contente, se aconchegando ainda mais no calor familiar daquele abraço quando sentiu os lábios da esposa tocarem a curva do seu pescoço.
“Pensei... que você tinha uma reunião inadiável hoje”, murmurou com um suspiro trêmulo, inclinando um pouco a cabeça para receber a carícia quente daquela boca que se abria, dos dentes que roçavam na pele sensível.
“Eu tenho”, sussurrou num beijo suave que fez a fotógrafa arquear em seu corpo, “Mas não é tão importante assim...”
Marina riu. “Aposto que tem o dedo da Diana nisso, não tem?”, foi quando sentiu os braços em volta da sua cintura enrijecerem imediatamente e suas sobrancelhas franziram na estranheza.
Girou vagarosa nos braços da esposa para que pudesse encará-la e, mesmo que não pudesse distinguir com clareza os contornos daquele rosto bronzeado, pela mudança repentina na postura e no ritmo da respiração dela Marina soube que tinha atingido um nervo ali.
“Por que... você...”, Marina ouviu aquela voz rouca falhando e levou suas mãos para o rosto da companheira, incentivando-a a continuar com um sorriso pequeno, “Por que você deu as chaves do arquivo pra ela?”
Para qualquer outra pessoa essa soaria uma pergunta boba, até sem sentido já que Diana era sua sócia e parceira artística, mas Marina, secreta e habilmente, andou colocando Vanessa contra a parede esses dias. E como a ruiva não lhe negava nada, nem por decreto, a fotógrafa acabou por ser apresentada a um cortejo hilariante de memórias que já sabia lhe pertencer, mas também a outras lembranças que não eram dela.
“Eu...”, exalou com pesar depois de uns segundos, “Me desculpa, Clara. Devia ter te contado quando aconteceu, mas... eu estava com raiva e... não sei, me desculpa”
Sentiu um nó crescendo em sua garganta, o sal queimando nos olhos, não conseguia neutralizar seu tom de voz, “Contado... o que– o que aconteceu?”
“Eu não...”, suspirou, “Não transei com ela... naquela noite. Nenhuma vez depois de você”
Quase engasgou no próprio fôlego naquelas palavras, a boca secou, abriu, mas nenhum som saiu de primeira. Suspeitava mesmo que não tivesse acontecido, porque Diana não teria perdido tempo em esfregar na sua cara uma noite com Marina, mesmo que a contragosto da fotógrafa. Se não o fez logo no dia seguinte, isso significava que o que ela falou minutos atrás no arquivo não passou de pura e gratuita provocação.
Uma em que ela se deixou cair e não por força do hábito...
Mas ouvir isso da boca de Marina? Era o mais delicioso dos alívios.
“Você se lembra... daquela noite?”, murmurou um momento depois, ainda um tanto desnorteada.
Marina inspirou profundamente, “Algumas partes, flashes...”, e então um sorriso raro, tímido, tocou-lhe os lábios, “... do que fizemos lá embaixo e depois... aqui no quarto”
Clara fungou baixinho, deixando escapar uma risada meio chorosa quando exultou, “Meu Deus, Marina... Você lembra!”, abraçou-a com força por longos segundos, até que um pensamento lhe ocorreu e se afastou um pouco, fitando-lhe os olhos machucados, “Mas como? Quando?”
“Na verdade, a Vanessa vem, hum... me ajudando com isso...”, Marina baixou os olhos e mordeu o canto do lábio.
“Vanessa?”, suas sobrancelhas franziram ao perceber aquela expressão conhecida no rosto da fotógrafa, uma que de inocente nada tinha, “Já vi que andou aprontando de novo nas minhas costas, né? Pois fique sabendo que o seu castigo virá a cavalo”, repreendeu-a com um puxão que trouxe seus corpos ainda mais perto, o tom de voz notavelmente mais descontraído agora.
E foi nessa que uma cabeça ruiva apareceu pela porta do banheiro, “Opa, ouvi meu nome aí”, Vanessa cantarolou toda serelepe, a mão que lhe tapava os olhos, como sempre, tinha uma frestinha entre o anular e o médio por onde ela espiava.
Clara virou a cabeça na direção dela, rindo ao apontar-lhe um dedo autoritário, “Ah, mas vocês vão me contar direitinho essa história. Ah, se vão!”
“Seja qual for a acusação, eu sou inocente. Foi a Marina quem me obrigou”, a ruiva anunciou num tom muito sério, antes de desaparecer pela porta de novo.
Clara balançou a cabeça com um sorriso, então voltou a encarar a fotógrafa que também sorria, “Obrigada... por me contar”, disse sincera, antes de respirar fundo e continuar, “E... eu também quero te contar uma coisa”
“Só uma coisa?”, Marina brincou e ganhou uma cutucada nas costelas como castigo.
“Tá, são muitas coisas, mas...”, então encostou sua testa de leve na dela, seus lábios se tocando suavemente quando sussurrou, “Promete que vai me ouvir até o fim?”
Marina sorriu, acariciando seu rosto com reverência quando sussurrou de volta, “Sempre”.
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