Perchance

11 Atemporal


Notas iniciais
Nota 1: My head’s under water, but I’m breathing fine…

Desceu as escadas com uma prece silenciosa nos lábios.

Deus, como fazia frio. Devia ter vestido algo por cima da seda branca curta de alças finas, e as rasteiras nos pés não eram mais reconfortantes também.

Agora era tarde, tinha o som urgente da chuva lá fora e a batida firme de um nome dentro do peito a chamando.

E já era quase tão frio, quase cedo demais...

Mas, apesar da hora e do clima, seus passos eram certos, levando-a pela sala, até a porta, então pelo acesso lateral para o set externo.

Os braços apertaram-se ainda mais em volta do torso quando sentiu um arrepio repentino subir neles. Do corredor já podia notar que o espaço estava mergulhado em sombras, exceto por aquela lâmpada solitária e distante na parede de fundo.

“Marina?”, chamou, mas só ouviu o próprio eco.

Suspirou quando uma memória sussurrou-lhe nos ouvidos, enquanto seus olhos continuavam procurando por um rosto para dar a ela. Só achou escuridão.

Mas tinha boas lembranças dessa parte do estúdio, onde anos atrás fez aquele primeiro ensaio com Marina...

“Pra onde você foi?”, murmurou para si mesma, um suspiro exasperado deixando seus lábios.

Alguns passos mais e seus pés pararam, seu olhar atraído por um objeto no chão.

Abaixou-se devagar, sentando nos calcanhares, os joelhos no piso carpetado, então alcançou a câmera de estimação de Marina. O LED piscando confirmou que estava ligada e Clara virou-a com cuidado nas mãos.

Um clique, dois, três... O quarto a fez sorrir.

Marina levava essa câmera com ela todas as manhãs, quando ia sentar naquele banco velho sob a copa da figueira para esperar o nascer do sol.

Agora Clara entendia o porquê.

Nas primeiras o foco saíra distorcido, borrado, tremido. Nas seguintes havia o verde e o amarelado da folhagem, o alaranjado e azul do céu, os raios esbranquiçados da luz nascente.

Até que uma fez suas pálpebras vibrarem, roubando-lhe o fôlego por alguns segundos.

Nessa, estava de olhos fechados, uma mão repousando sobre o peito e o corpo relaxado entre os lençóis brancos, seu rosto calmo voltado na direção da lente que a capturava naquele momento mais vulnerável da vida, o sono.

Seu polegar tremia quando tocou o pequeno visor iluminado, uma carícia que não era para aquela imagem de si mesma. Não, essa carícia foi naqueles olhos machucados que, apesar das sombras que os cercavam agora, conseguiram retratá-la da forma mais transparente, iluminada, íntima. Dessa forma que só sua Marina seria capaz de eternizar numa imagem assim, tão comum e tão extraordinária ao mesmo tempo...

“Ah, Marina...”, suspirou com um sorriso para suas únicas testemunhas ali, a ária da chuva e a lágrima solitária que descia morna por seu rosto.

Foi então que a batida metálica ecoando pelas paredes sombreadas a assustou fora do momento saudoso, fazendo seu olhar estreitar na direção do ruído.

Era a porta dos fundos que meneava com o vento.

Marina havia saído? Mas para onde? E nesse temporal?

Apressou-se na direção da plataforma montada junto a parede de fundo, colocou a câmera com cuidado em cima do tablado de madeira, então correu para a porta que agora rangia insistentemente nas dobradiças.

O sopro gelado do vento foi a primeira coisa que a cumprimentou quando seus pés cruzaram o limiar da porta. Ainda sob a proteção da marquise, usou as mãos para escudar os olhos enquanto procurava pelos lados, pela escada espiralada que dava acesso a varanda no segundo piso da casa.

Marina não estava em parte alguma.

Respirou fundo, encolheu-se entre os próprios braços, e encarou a chuva.

Seus pés afundavam na grama alagada enquanto a levavam na direção da piscina. Ali, parou pela borda, olhou ao redor por um sinal da fotógrafa e encontrou nenhum. Então relutou por um momento, mas teve que olhar na água também. Sim, Marina tinha dessas manias estranhas, e nunca se sabia o fim delas...

Respirou aliviada, esfregando os respingos dos olhos com uma das mãos. A água azulada na piscina estava agitada, só que pelo vento e pela chuva.

Onde ela poderia estar?

Já começava a sentir uma pontada de desespero no peito, mas aí...

Lembrou-se da câmera, das fotos...

Clara fez o caminho de volta, seus passos apressados escorregando entre o cascalho molhado, afundando na terra e na grama, guiaram-na para o outro lado do jardim.

Até que pararam de uma vez.

Lá estava ela.

Sentada no banco velho de madeira, as pernas nuas dobradas e abraçadas contra o peito, o queixo recostado nos joelhos.

Clara soltou o ar preso na garganta, sentia um misto de alívio, angústia, medo, e era impossível distinguir o que mais naquele momento quando suas pernas começaram a se mover novamente, até que se viu de frente para a fotógrafa, ajoelhando-se na grama molhada.

“Marina?”, exclamou, agarrando-lhe pelos antebraços, “Levanta, não dá pra ficar aqui agora. É perigoso!”

Mas a fotógrafa não se movia, e se não fosse pelo tremor que sacudia todo o corpo dela e os olhos semicerrados, Clara podia jurar que ela havia dormido ali, ou coisa pior...

“Meu Deus, Marina...”, murmurou aflita, dando um puxão mais forte nos antebraços dela, mas o aperto que a mulher mantinha em volta das pernas era ainda mais firme.

Frustrada, levantou-se dali, suas mãos agarrando os lados da cabeça da fotógrafa, forçando-a até que Marina se deixou encarar.

Mas quando fitou aqueles olhos machucados, Clara engasgou-se com palavras que não podiam conter o que viu neles, porque palavras haviam perdido todo o sentido, simplesmente evaporaram de sua mente como o éter.

Os olhos de Marina miravam o nada, piscando devagar contra os respingos de chuva que caiam neles e as lágrimas que rolavam deles, os lábios que tremiam e arroxeados pelo frio intenso balbuciavam incoerências que se perdiam no ruído ao redor.

Mas então seus dedos trêmulos foram para os pulsos da outra mulher, apertando-os com força, tanta força que fez Clara grunhir baixo na dor, enfim retornando para a realidade do temporal que desabava sobre elas.

“Me ajuda...”, foi tudo o que teve forças pra falar.

Clara só teve a presença de espírito para menear a cabeça, absorta naquele pedido angustiante da fotógrafa. Estivera esperando, e até duvidou que esse momento chegasse, mas ali estava sua companheira, sua mulher, sua vida se quebrando, ruindo diante dos seus olhos...

Ainda aturdida pelo desespero que ouviu naquelas duas palavras, Clara demorou uns segundos ali parada, mas assim que percebeu a dificuldade da outra mulher que tentava em vão se levantar, seus braços a envolveram pela cintura, deixando que Marina se apoiasse nela até que conseguisse ficar de pé.

Só então, com o contraste evidente do tecido, Clara notou a palidez na pele e o azulado nas extremidades de Marina. Ela vestia uma camisa preta de mangas longas que vinha até o meio das coxas, a textura fina agora encharcada e grudando em seu corpo, que provavelmente nada mais vestia por baixo considerando o estado em que se encontrava, tremendo tanto que mal conseguia dar um passo.

Clara ajeitou-se um pouco, colocando o braço direito em volta dos ombros da fotógrafa, o outro firmemente seguro nas mãos gélidas da mulher.

Estava tão preocupada em tirar Marina daquela chuva que não ouviu de primeira os soluços da companheira. Só quando a fotógrafa parou de andar e baixou a cabeça, Clara virou com uma expressão atormentada no rosto, já pronta pra enumerar todos os motivos pelos quais não deviam ficar mais nem um segundo ali, no meio de um gramado a mercê da chuva, relâmpagos e trovões.

Mas se segurou no olhar semicerrado de Marina, se segurou o quanto pôde e o que não podia, esperando um sinal para continuar, de que o mundo não iria acabar daqui a três segundos, qualquer coisa, mas esperou, esperou, e esperou...

Até que Marina abriu os olhos, o rosto franzido em dores que mais pareciam ser da alma do que do corpo.

E então sentiu aquela respiração errática e morna chegar perto, mais perto, tão perto que agora eram lábios que lhe tocavam o olho esquerdo, tão de leve que pareciam mais plumas, descendo por sua bochecha, roçando em sua mandíbula, como se procurassem uma trilha há muito tempo conhecida, mas que havia se perdido no labirinto da mente que os guiavam agora.

Fechou os olhos na sensação de infinito que experimentava naquele momento. Depois de tantos dias esperando, horas povoadas de medos e incertezas, dos incontáveis segundos que foi obrigada a viver sem esse toque, sem o calor dessa respiração em sua pele, sem os lábios que tanto desejava...

O chão que pisava, o ar que respirava, a chuva que castigava, tudo a volta empalideceu depois que aqueles lábios encontraram a trilha certa, quando enfim se uniram aos seus, selados em um beijo suave, tão trêmulo, de descoberta, uma revelação...

Sentiu o aperto desesperado daquelas mãos em seus braços afrouxar aos poucos, as palmas deslizando devagar até seus ombros nus, deixando para trás as marcas do arrepio que provocavam em sua pele, então acalentando seu rosto entre os dedos frios, os polegares hesitantes acariciando embaixo dos seus olhos.

Era como se as pontas daqueles dedos quisessem enxergar.

E, naquele momento, Marina descobriu que queria, sim.

Queria sentir mais...

Só que todo momento, mesmo que infinito, teria seu fim.

E ainda assim, os lábios se separariam para que as testas não, os olhos fechados de uma que via por fora para os olhos abertos da outra que enxergava por dentro.

Quando ouviu aquele suspiro trêmulo, Clara abriu os olhos, então sentiu Marina sussurrar em seus lábios entreabertos.

“Me leva pra casa, pro nosso quarto”.

***

Suas mãos pressionavam a toalha com cuidado, passando pelos pés descalços, subindo em reverência silenciosa pelas pernas nuas da fotógrafa, secando os últimos vestígios da água quente que havia aliviado o tremor no corpo dela minutos atrás.

Marina estava sentada na borda da cama, as mãos segurando a lã espessa do cobertor em volta dos ombros, enquanto Clara continuava seu trabalho meticuloso, ajoelhada no tapete que Marina tinha sob os pés.

De vez em quando seu olhar trilhava para o rosto da fotógrafa, um vinco de preocupação permanente entre suas sobrancelhas. Desde o banho, onde havia permitido que Clara lavasse seus cabelos e enxaguasse seu corpo, Marina não havia falado uma palavra sequer e aquele silêncio já agitava as águas turvas de seus pensamentos.

Estava prestes a pôr um fim na própria angústia, quando então o silêncio foi quebrado.

“Estive pensando no que o médico disse, sobre aquela possibilidade”, disse numa voz pequena, o olhar perdido no vazio.

Clara engoliu as palavras nervosas que queimavam na sua garganta, erguendo os olhos para fitar o rosto da companheira.

“O que você decidir, eu vou apoiar”, falou suavemente, mas a testa ainda franzia em inquietação.

Marina exalou o ar preso em seus pulmões como que em alívio, os olhos piscando devagar quando ela se encolheu um pouco sob o cobertor escuro.

“E se eu... não quiser? Acho até que poderia me acostumar a viver assim”, murmurou, o rosto sempre voltado para a parede do quarto.

“Mas eu pensei que...”, uma pausa, um suspiro, então repousou suas mãos sobre a toalha branca que agora cobria as pernas da companheira, “Fotografar é a sua vida, Marina. Eu sei disso, você sabe disso. Então por que não tentar?”

“Você ouviu o que ele falou, que pode não funcionar...”

“Mas têm boas chances de dar certo, também”, insistiu ainda que cautelosa, as mãos afagando as pernas sob a felpa do tecido num gesto de encorajamento.

Marina nada disse, só meneou a cabeça e continuou encarando o nada, o que fez Clara suspirar, um tanto contrariada. Quando ficou evidente que o silêncio ia durar, decidiu continuar seu cuidado no corpo da fotógrafa, mas então...

“Você vai me deixar, não vai? Se eu não fizer isso?”

Uma tontura súbita roubou-lhe até o mais claro dos pensamentos por um segundo ou três, mas logo se recuperou do golpe doloroso que aquelas palavras lhe desferiram.

“De onde você tirou...”, respirou fundo, os olhos já queimando quando enquadraram os da fotógrafa que agora a encarava vagamente, “Meu Deus, não! Nunca, Marina!”, exclamou, agarrando a cabeça da mulher firmemente entre suas mãos, “E você nunca mais repita isso, entendeu?”, e nessa Marina piscou, parecendo desconcertada quando acenou timidamente no tom enérgico da companheira.

Clara relaxou o aperto na cabeça dela, os polegares acariciando levemente os templos de Marina, o olhar baixando até que encontrou aqueles lábios que agora tremiam, mas rosados pelo calor que se espalhava por seu corpo despido sob o cobertor...

Engoliu em seco, tentando se controlar, mas as palavras deixaram sua boca antes que pudesse impedi-las, “Aliás, eu até imagino quem colocou essa ideia absurda na sua cabeça...”

Nessa, um sorriso pequeno e conhecido de longa data curvou o canto da boca da fotógrafa, aquele sorriso que Clara não via há muito tempo e que a fez titubear nos joelhos por um instante.

“Mas você o deixou”, murmurou de repente, o olhar vagando de novo, mas dessa vez como se procurasse por uma luz no rosto bronzeado a sua frente.

Com um suspiro resignado, Clara balançou a cabeça e tentou achar as palavras certas.

“Marina, eu não sei... Não sei o quanto você lembra... desse nosso passado, mas se não lembra, eu vou repetir quantas vezes forem necessárias...", então inspirou profundamente antes de concluir, "Eu não me separei do Cadu por causa da doença dele, e nem depois quando ele estava se recuperando. Eu o deixei... porque não o amava mais”.

Marina pareceu refletir naquelas palavras por um momento, enquanto erguia uma mão hesitante para o seu rosto, as pontas dos dedos encontrando a linha da sua mandíbula e seguindo por ali, até que repousaram delicadamente em seus lábios.

Por fim, deu voz a lacuna que mais a atormentava, “E você me amou mais? Nesse passado?”

Clara sorriu tremulamente, sentindo uma lágrima rolar por seu rosto quando falou com toda lucidez que conseguiu reunir naquele momento, “Acho que não poderia ter te amado mais, mesmo que eu quisesse”.

“Então por que fez isso com a gente?”

Choque.

Silêncio.

Era como se o mundo, seu mundo fosse acabar daqui a três segundos...

“Você... Eu não...”

Sua visão escureceu por longos, torturantes segundos, a boca pendia aberta, seca, emudecida, perdera a razão de ser.

Sentia como se aqueles olhos machucados que a fitavam naquele instante a penetrassem como uma lâmina incandescente, bem no lado esquerdo do peito.

E Marina só a olhava e olhava, mas se via alguma coisa, se a via sangrar, sua expressão não demonstrava. Aquelas defesas que haviam ruído sob o frio da chuva agora estavam de pé, rígidas, impenetráveis no calor que emanava do seu corpo.

“Me perdoa...”

Foi o que restou da sua coerência ali, tudo o que conseguia articular no vácuo em que sua consciência se transformou.

Silêncio.

O mais dolorido e profundo dos silêncios invadiu todos os vãos e frestas do quarto.

E Clara finalmente desabou.

“Me perdoa...”

Eu te amo tanto, senti tanto sua falta...”, era o que queria dizer, mas seu peito, sua garganta, sua cabeça, tudo doía, tudo gelava, então se agarrou a única pessoa que podia livrá-la de si mesma, daquela dor, daquele frio...

“Me perdoa, Marina...”, seus dedos cravaram-se nos músculos das costas da fotógrafa, o rosto pressionado contra o peito nu e quente que permanecia indiferente às suas lágrimas.

E assim ficaram por longos, longos momentos. No choro silencioso, Clara agarrava-se a Marina, que continuava calada, segurando o cobertor em volta dos ombros com uma das mãos, a outra apoiada no colchão.

Até que...

“Clara, olha pra mim”

Sentiu uma mão hesitante tocar-lhe os cabelos, depois a nuca, e parar ali.

Soltou o ar frio preso nos pulmões, fechou os olhos com força por um instante.

E então a encarou com o coração saltando na garganta.

“Eu quero...”, uma pausa, sobrancelhas franzindo, então se concentrou o máximo que pôde naquele rosto borrado, “Eu quero que me ame agora”.

“Eu te amo, Marina, eu...”, engasgou nas palavras, faltou-lhe o ar, mas precisava se libertar dessa dúvida que a perseguia, “Eu– Você acredita em mim, não é? Diz que acredita em mim, por favor...”

Houve mais silêncio.

Mas quando sentiu aqueles lábios tocarem sua pele, entre suas sobrancelhas, Clara fechou os olhos e não conseguiu segurar um riso de alívio que trepidou em meio as lágrimas.

Não em palavras. Mas teve sua resposta, enfim.

Marina se afastou um pouco, então levou suas mãos para os lados do rosto da companheira, usando as pontas dos dedos para traçar-lhe os contornos das sobrancelhas, olhos, nariz, boca, até que as pálpebras pesaram sobre seus olhos e ela voltou a se aproximar.

“Quero sentir você...”, sussurrou entre um roçar de lábios, os olhos de ambas as mulheres se fechando na sensação extasiante, “Preciso que me sinta como estou agora. Que me faça lembrar... disso, de nós”.

Estremeceu com o arrepio que aqueles dedos agora provocavam na sua nuca, suas mãos se contraindo num aperto ansioso na cintura da fotógrafa.

Clara não sabia se podia reviver memórias, mas por Marina, ia tentar até o seu último fôlego de vida.

Notas finais
Ah, essas duas...