Perchance
12 Retorno
Notas iniciais
Tudo o que precisava era de luz...
A carícia faminta, molhada e quente dos lábios que agora possuíam os seus, sugando a língua de sua boca e o ar dos pulmões, sem pudores, sem arrependimentos.
Naquele momento sentiu como se algo implodisse dentro dela, expandindo-se vagaroso, morno e continuamente por cada fibra do seu ser, fazendo seu corpo inteiro vibrar e sua cabeça girar com a força avassaladoramente gentil que guiava aquela boca até a sua, aquelas mãos ansiosas que lhe apertavam os seios e quadris, as salivas e os suores se misturando no calor delicioso que agora emanava entre elas.
Suas mãos já não tremiam, seu toque firme quando subiu devagar pelas costas nuas, dedos seguindo a linha reta daqueles pequenos ossos que se curvavam quando o corpo torneado arqueava contra o seu, pressionando-a contra o colchão num ritmo instintivo, insaciável. Resolveu desenhar suas próprias linhas para sentir até onde elas a levariam, e então eram unhas que arrancavam grunhidos da pele bronzeada, boca que sugava suspiros da língua que acariciava a sua, dentes afiados que mordiam rosnados nos lábios molhados e ávidos...
Soavam como música antiga em seus ouvidos, a mais afinada e erótica das melodias que seguia no compasso melancólico da chuva lá fora.
Queria ouvi-los eternamente, queria sentir mais e mais daqueles sons que assombravam seus dias e noites, que povoavam até seus pensamentos mais inóspitos.
Queria prová-los na sua pele, nos seus dedos, na sua língua, queria que seus sentidos fossem consumidos até que não restasse mais nada além de paraíso em seu corpo, de luz em sua mente...
E tinha uma vida inteira pela frente pra se lembrar de não ter pressa...
“Espera...”, suspirou entre um sugar de lábios, puxando um pouco pelos cabelos ainda molhados até que suas bocas se afastaram.
Sentiu uma respiração quente ofegando palavras em seu rosto, “Você não...”, mas seus dedos tocaram-lhe os lábios, silenciando-os.
“Só... me deixa beijar você... por um tempo?”, sussurrou erraticamente, seu olhar semicerrado tentando capturar os contornos daquele rosto que pairava sobre o seu na meia luz do quarto.
Por longos segundos ela não fizera um som, e Marina ouviu nada além do ritmo daquela respiração soprando contra seus lábios, pensou em nada além daqueles dedos que agora tocavam seu rosto e cabelos em reverência, deleitou-se em nada além daquela umidade quente e pulsante que se insinuava entre suas pernas.
Alguns segundos mais e então sentiu uma mão que deslizou do seu pescoço para os cabelos úmidos na sua nuca, puxando-a com ela até que ambas estavam sentadas no meio da cama, pernas entrelaçados e corpos brilhando suavemente na pouca luz, beijados pelo suor cálido e pelo desejo ardente que as consumiam.
Ouviu-a inspirar profundamente, como se buscasse a calma necessária para não devorá-la ali mesmo, até que suas mãos tocaram-lhe os lados do rosto borrado.
E quando seus lábios se uniram dessa vez, Marina enfim se deixou tomar pela epifania daquele momento...
Encontrara a luz certa.
Sua luz...
Ela que era ardente em suas veias agora, boca que não era tão suave com seus lábios, e nem tão ásperos foram os dentes na sua pele, mas sempre atenta ao toque, e doce, ah, tão doce na sua língua...
Ela que evocou tantas outras sensações, cores, gostos, visões que aos poucos foram tomando formas entre as carícias das línguas, descortinando-se em cenários entre os toques das mãos, brilhando nos vãos escuros da sua mente e entre os corpos que ondulavam sempre mais perto, gravitando um para o outro.
Foi então que lá, naquele espelho quebrado dentro dela, um rosto perfeito, de contornos bronzeados pela luz natural, se refletiu mais claro, mais íntimo, tão dela...
Ela...
Ela era essa luz se tornando pequenas faíscas, pontos luminosos que aos poucos foram acendendo atrás de suas pálpebras cansadas, trazendo o leve e salgado formigamento de uma memória vívida que então rolou por seu rosto, desenhando uma linha morna, feliz, clara...
“Clara...”, sussurrou e aqueles lábios corresponderam, se submeteram, rendidos.
Clara como a lembrança do afeto deve ser.
Como sempre foi e seria.
***
“Você não cansa de ser linda, não?”, murmurou com um sorriso cínico, o olhar semicerrado voltado para o teto.
Ainda assim pegou um relance daqueles olhos preguiçosos se abrindo, daquele sorriso apaixonante se espalhando, então sentiu um formigar no braço quando ela levantou um pouco a cabeça do recosto quentinho e macio que fizera dele.
Agora ela a encarava com uma expressão de deleite no rosto, as pálpebras pesando na carícia que seus dedos faziam nos cabelos da sua nuca, enquanto sua outra mão se movimentava sorrateira por baixo do lençol vermelho que as cobriam da cintura para baixo.
Aquele sorriso se tornou mais largo quando o olhar dela baixou, seguindo seu movimento por um instante, então suspirou toda contente, se aconchegando ainda mais perto no lado da fotógrafa. A mão esquerda deslizou vagarosa pelo antebraço de Marina até encontrar aqueles dedos que agora a estimulavam, então entrelaçando-os levemente nos seus, mas sem interromper a fricção deliciosa.
Ah, ela sabia, e como sabia a qual tipo de beleza a fotógrafa estava se referindo...
“Só pra você ficar sabendo, se a senhorita continuar nesse ritmo”, começou fazendo cara de séria, “essa minha beleza toda não vai durar muito”, e concluiu num tom muito sério pra ser levada assim, beliscando a cintura da fotógrafa como se a repreendesse, o que só fez a outra mulher rir.
“Senhorita ‘olha quem fala’...”, imitou a expressão no tom rouco e grave dela e Clara apertou-lhe os dedos com força dessa vez, arrancando um biquinho manhoso e um resmungo da fotógrafa.
“Ah, é, bem lembrado. Agora é senhora Fernandes Meirelles pra você”, murmurou entre um sorriso e um bocejo que parecia mais lassidão do que sono.
Ah, se as noites tivessem o dobro das horas, só para que tivesse a satisfação de colocar essa expressão no rosto dela cada deliciosa vez. A verdade é que a noite do seu casamento não poderia ter sido mais perfeita, e havia mesmo cuidado de todos os detalhes para que fosse inesquecível, só que havia situações que nem mesmo sua sensibilidade aguçada era capaz de prever...
Como quando ela se iluminava daquele jeito, assim de repente, sempre ela mudando o rumo do jogo, primeiro embaralhando sua cabeça para só então dar as cartas marcadas, até que decidia virar a mesa e fazer de tudo uma bagunça deliciosamente... dela. E tão arrebatadora, provando com unhas, lábios, dentes, pele e prazer que não precisava de tanta paciência e delicadeza assim. É, não precisou na sala, não precisou na cozinha, muito menos no quarto...
“Hmhm...”, assentiu alguns segundos depois, sorrindo distraída para a sensação um tanto dolorida das marcas que ela deixara em seu corpo, “E pra você? A mais recatada e prendada das senhoras Fernandes Meirelles? É, porque com certeza você é a ‘mulherzinha’ dessa família”, e pontuou as palavras com uma flexão do seu pulso, fazendo a outra mulher gemer baixinho no seu pescoço.
Sentiu quando ela respirou fundo, inalando o cheiro levemente amadeirado da fotógrafa antes de murmurar, “Acho que vou discordar disso aí... só um pouquinho...”, e sugou um beijo arrepiante da sua pele já aquecida.
Marina riu baixo na sensação, e de repente já estava montada nos quadris dela, prendendo-lhe os pulsos acima da cabeça, lábios então sussurrando sem tocar os da esposa que agora arqueava na cama sob seu peso leve, “Ah, vai, sua bandida?”
Um sorriso lascivo espalhou-se na boca tão perto da sua, “Dessa parte, não, porque eu sou mesmo suaaa...”, e a palavra virou gemido na sensação dos dentes afiados raspando-lhe o queixo, “... bandida, só sua...”, ofegou as últimas coerências que tinha quando aqueles dentes atacaram-lhe o lábio inferior.
E dentes logo se tornaram línguas famintas, corpos em frenesi, cabelos selvagens e sons de prazer...
Passaram-se segundos, minutos, talvez horas até que adormeceram, exaustas nos braços uma da outra.
Não viram os primeiros raios de sol se esgueirando preguiçosos entre os vãos das cortinas, espalhando-se em feixes de luz suave pelo quarto, nos pés da cama.
Até que um par de olhos se abriu devagar, sentindo o calor da pele sob seu rosto e a vibração de uma batida firme e constante no seu ouvido.
“Sabe o que é incrível?”, murmurou, sorrindo quando sentiu os braços em volta dos seus ombros apertarem um pouco, “Ontem você me fez sentir uma coisa que há muito tempo eu não sentia”.
“Hm, e eu posso saber o que foi isso que a senhora sentiu?”, percebeu o riso no tom sonolento da esposa.
“Sinestesia”
“Sines– o quê?”
Marina riu, aconchegando-se mais no peito de Clara.
“Ah, deixa ver... Como vou explicar?”, a testa franziu de leve, sua voz ainda um pouco enrouquecida pelo sono, e aí organizou suas palavras, “É como se... uma sensação levasse a outra. Sabe quando a gente sente um cheiro que faz lembrar alguém ou algum lugar? É assim... uma confusão temporária dos sentidos. Às vezes acontece quando estou numa fase muito criativa ou... num momento de excitação forte”.
“Muita criatividade, excitação forte...”, sentiu o eco sonolento das palavras vibrando no peito dela e sorriu, “Isso parece ser, hum... perigoso?”
“Talvez, se eu estiver longe... de quem me inspirou, me excitou...”
“Sei, sei...”, ouviu aquele riso faceiro na voz dela de novo, “Quer dizer que eu causo, ou causei essa... coisa em você?”, falou bem devagar, como se confundida ou ainda perdida na névoa do sono.
“Hm, quase”
“Quase?”, agora sua voz parecia bem acordada.
Marina sorriu no tom dela, então se levantou um pouco nos cotovelos, os olhos procurando os da companheira que se escondiam embaixo das pálpebras pesadas.
“É que seu cheiro me fez lembrar... de uma vez que viajei de férias com meus pais pra Suíça”, seus dedos agora acariciavam os cabelos rebeldes da mulher, a voz mais compenetrada quando continuou seu relato, “A gente ficou num chalé, à beira de um lago. Lembro que teve um dia que choveu muito mesmo, madrugada à dentro. Fazia tanto frio, e os trovões eram tão assustadores, meu Deus...”, riu um pouco na lembrança, riso que foi ecoado por Clara enquanto ela deslizava suas palmas quentes para cima e para baixo nos braços da fotógrafa, “Só que aí minha mãe veio e... eu nem tive que chamar, ela só apareceu de repente, no meio da noite, e deitou comigo na cama, me abraçou assim bem forte contra o peito dela, aí falou: ‘Concentra na batida do meu coração, tá ouvindo? Esqueça os trovões lá fora e você vai conseguir dormir’...”, seu olhar se perdeu por um momento na memória, antes de voltar a fitar os olhos atentos da esposa, “Eu tentei fazer o que ela me disse, só que não conseguia esquecer os trovões, mas aí no fim adormeci... Foi o cheiro dela que me acalmou, aquele cheiro de chuva...”, nessa, seus olhos se arregalaram, e Clara riu da expressão excitada no rosto da esposa, “Não, de tempestade! Dessas que arrasam com tudo pela frente...”, uma pausa, sua expressão foi relaxando, e então suspirou antes de concluir, “... e tinha um pouquinho de adocicado... Tipo canela, sabe? Igual ao seu... Ah, e acho que ela vestia essa cor naquela noite”, sua palma alisou o púrpura do travesseiro sob a cabeça de Clara, “É, essa era a cor preferida dela...”
Clara a olhou por um longo momento, ambas em profundo silêncio, então suspirou com um sorriso radiante, “Que lindo isso, Marina...”, as mãos continuaram com o carinho nos braços da fotógrafa por mais alguns segundos, até que ela franziu as sobrancelhas de repente, “Só tem uma coisinha aí nessa sua estória que, hum...”, limpou a garganta de leve, fazendo uma cara embaraçada, “Sério que você se lembrou da sua mãe em plena noite de núpcias? Sua mãe, Marina?”
Entreolharam-se seriamente por um, dois, três segundos, então explodiram numa gargalhada nervosa.
“Ai, para! Não ri!”, Marina escondeu seu rosto no pescoço da companheira por um momento, antes de voltar a encará-la com um ar meio sem graça, “É sério...”, fez aquele biquinho de novo e nessa Clara teve que parar de rir, tentando ficar séria quando a fotógrafa suspirou pesadamente, “Só que... foi mais aquela sensação de paz que senti, entende? De que fui amada de uma forma tão... pura, profunda, mesmo que por tão pouco tempo. Era como se... como se ela fosse ficar ali comigo, pra sempre, me protegendo daqueles raios e trovoadas, de todos os perigos do mundo, e sei lá, essas bobagens que as crianças pensam...”, seu olhar estava vagando de novo, perdido nos lapsos dolorosos de um tempo que não queria, mas precisava lembrar.
Até que aquelas mãos firmes tocando os lados do seu rosto a trouxeram de volta para a realidade da luz morna que as cercavam.
“Não é bobagem, Marina”, disse com um sorriso iluminado, aquele que era como bálsamo para as feridas da sua alma, “E você é amada, sim. Muito. E, no que depender de mim, vai continuar sendo sempre...”
“Viu? Não cansa de ser linda...”, sussurrou-lhe com um sorriso trêmulo, seus olhos úmidos transmitindo toda sua gratidão, a felicidade espantosa que sentia naquele momento.
Não pela primeira vez se perguntou se realmente merecia ter essa pessoa tão incrível, tão generosa em sua vida...
Mas, por ora, selou aquela dúvida com um beijo suave nos lábios que ainda sorriam, e então voltou a recostar sua cabeça no peito dela, fechando os olhos no som daquela batida firme e constante.
“Sabe, eu pensava que o dia do nosso casamento ia ser o mais feliz da minha vida, mas parece que me enganei...”
“Ah, é? Por quê?”, os braços a envolveram num aperto mais forte e Marina sorriu satisfeita.
“Porque eu descobri que, com você, todos os dias serão os mais felizes da minha vida”.
“Caramba...”, ouviu-a murmurar com um riso baixo, o peito vibrando quando suspirou profundamente, “Não sabia que você tinha esse talento pro romantismo, não”.
Nessa, Marina sorriu de canto, “Hm, eu tenho talento pra muitas, muitas coisas...”
“Olha que eu vou te cobrar isso, hein?”, disse ao recostar o queixo no topo de sua cabeça, abraçando-a completamente entre os braços e pernas torneadas antes de sussurrar, “Quero conhecer um por um desses seus talentos, nos mínimos e nos mais obscenos detalhes, começando nesse exato momento...”, então sentiu aquelas palmas quentes deslizarem por suas costas nuas e exalou contente na leve ardência que provocaram na pele arranhada nelas.
“Ah, não. Pode ir parando...”, murmurou com um grunhido manhoso, aninhando seu rosto na curva do pescoço da esposa, “Não consigo levantar nem um mindinho agora, e é tudo culpa sua”.
Sentiu mais que ouviu a vibração de uma risada rouca e cheia de malícia antes do sussurrado, “Tá, acho que você merece dormir um pouco. Mas mais tarde nem pense que vai fugir de mim...”
Marina riu baixinho, apertando-se contra o calor do corpo dela por um instante, até que um pensamento lhe ocorreu.
“Por falar em fugir...”, ergueu-se um pouco para que amendoados pudessem olhar dentro dos castanhos encapuzados, “Me fala de você. Tá feliz?”
Clara suspirou profundamente naquelas palavras, então deslizou as mãos até o seu pescoço, os polegares desenhando pequenos círculos embaixo das orelhas da fotógrafa, fazendo-a fechar os olhos por um segundo na carícia calmante.
“Muito...”, a voz rouca soara firme, confiante, só que Marina notou um brilho estranho nos olhos dela, mas talvez fosse a luz sombreada do quarto, talvez apenas uma impressão errada, mas então...
“Tanto que dá até medo...”
Piscou uma vez confusa, então outra na certeza, os olhos lacrimejando quando as palavras deixaram seus lábios sorridentes, “Não precisa ter medo, eu vou te proteger sempre”.
“Promete?”, ela a olhou com um sorriso trêmulo.
Marina beijou a palavra em seus lábios, “Prometo”, e então recostou seu ouvido no peito dela.
Suspirou profundamente, deixando que aquele abraço quente a protegesse, que aquela batida firme e constante a guiasse de volta pra casa, para longe do frio e dos trovões assustadores da sua infância.
Até que adormeceu para um sono sem sonhos.
***
Seus lábios eram como um sonho lúcido nos seus, suas mãos como bálsamo para as cicatrizes que empalideciam no seu corpo, nos seus olhos...
Nunca se sentira tão amada assim, tão protegida, como naquele momento nos braços dela. Sentia como se pudesse passar a eternidade inteira ali, beijando os lábios da sua perdição, da sua redenção, os lábios dela...
Tinham gosto de luz do sol, de canela e chuva, da lembrança de uma antiga noite de revelações, do mais puro afeto.
Como podia ter esquecido disso? Esquecido dela?
Como alguém podia esquecer a luz do sol?
Sentiu seus olhos arderem e um grunhido involuntário deixou seus lábios quando baixou a cabeça, até que as mãos que acalentavam seu rosto guiaram-na de volta para aquele sorriso radiante.
“Tudo bem?”, as sobrancelhas franziram de leve, mas aquele sorriso...
Como pôde viver tanto tempo sem aquele sorriso?
“Promete que não vai me deixar esquecer de novo...”
E ela beijou a palavra em seus lábios, “Prometo”.
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