Coração batendo alto, batendo rápido, como os pés quando tocavam sem piedade na terra batida enquanto corria há horas atrás? Mas o que eram as horas, além de uma parte de vocabulário? Precisava deixar aquele reflexo de si ali, ele era muita felicidade. Era a cor dos dias ensolarados, os dias que nunca teria medo. Afinal, o que fazia aquela parte num lugar tão sem vida? Sem sol? Sem... Luz. Ela via o porquê : ele era a Luz, claro. Que descia do lugar infinito que nunca poderia tocar... Dos céus... e viera acalmá-la.

Mas ele tremia tanto, isso era estranho. A luz poderia ter trevas? Afinal, como diferenciar uma da outra, se estavam juntas naquele reflexo? Será que não eram a mesma coisa?

Do outro lado daquele aperto forte estava o desesperado rapaz, o desesperado capacho que tinha sido jogado naquela pocilga por si mesmo! Quando pararia de fazer besteira? Aquela criatura grunhia e o olhava atentamente. Sabia que se olhasse para aquele demônio teria de ser morto, ela o enfeitiçaria e uma praga seria jogada por toda a humanidade. Ele não faria o que ela iria querer. Uma fêmea animalesca com forma de mulher, com cores berrantes e cheiro tóxico. Céus, ela nunca havia tomado um banho, com toda a certeza.

Porém, devia ter um nome esse ser estranho a seus olhos. Haveria algo a se fazer? Ela poderia comê-lo e Deus sabe o que tinha comido até então. Precisava começar a falar com ela, a sobrevivência básica em floresta que os guardas falavam era que´´ precisa de barulho humano pra afastar os bichos. Eles correm´´.

-Eh... olá. Me chamo Samuel – disse tentando parecer confiante, juntando as sobrancelhas e não olhando a coisa – Sou um homem plebeu com poucas habilidades e um desastre enorme, se quer saber. Não valho muita coisa.

Claramente ela estava querendo entender o que ele falava, mas se a fala já era difícil de ser entendida por quem convivia diariamente com os seus, para ela era horrível. Se a cabeça ficasse em silêncio. Se pudesse ouvir o que a luz falava. Sentia que ele correria se o soltasse, portanto passou a corrente que a prendia nos braços que eram deixados atrás.

— Ei, não pode fazer isso, eles vão te queimar viva — Blefou o rapaz inutilmente, a força da criatura era apocalíptica como sua presença.

Foi virado e posto contra as barras de ferro de uma parte da jaula aberta, sendo obrigado a olhá-la pela sua mão. O rosto daquela existência era demarcado com traços fortes, como se sempre estivessem sido retraídos e se formado assim. Era difícil dizer que cor ela deveria ser, mas estava ficando azul claro. Seu rosto tinha um lábio cortado profundamente e inchado, repartido em um canto. A feição de sofrimento indicava que tinha sido maltratada pelos seus dias onde estava colocada. Ela parecia fazer força para parar de mexer os cílios e conter algo em si.

Foi então que se deu conta de estar perto demais de um bicho enviado pelo próprio diabo. E ela devia estar tentando manipulá-lo, devia sentir o cheiro do seu medo.

— Bem, a senhorita deve ter um nome, não é mesmo? Deve ser interessante ser do jeito que você é. Forte, cheia de trejeitos, complexada...

— Com-ple... xo.

Se seu sangue não tinha congelado antes, agora seria capaz de esfriar a cerveja dos 15 oficias em três doses cada! Que voz estranha, metalizada e seca tinha aquele bicho. Ela podia falar belamente, lera em histórias, e com toda a certeza aquilo não era belo.

O quê era complexo? Complexada? Não fazia ideia, mas sua cabeça gritava que assim era ela, que devia ser trancado, que desonra!

Ela estava ficando roxa aos poucos, o aperto das correntes no rapaz foi se desmanchando; deixava a luz livre para correr, pois ela sumia toda a vez que precisava dela.

Precisar? O que é precisar? Essa história de precisar era futilidade, gritava a cabeça. Deve ser trancado, gritava a cabeça. Ela não sabia o que era tudo isso, mas assim se formou numa bolinha de gente, chorando.

O aperto nas correntes tinham ido, mas um aperto no peito se formava. Aquilo não era normal, estava rápido demais, o humor era brusco demais. Ficou com pena da criatura e ,sabendo que nunca mais veria o casaco que tinha, tirou dos ombros masculinos e jogou sobre o amontoado de carne cor de ameixa, sentindo que cantarolar a ajudaria a se acalmar. Ela ainda iria afundar mais aquela flecha se abaixasse muito.

E para ela, o que era essa palavra que vinha na cabeça, o choro? Era a única coisa que aliviaria um pouco sua dor, vinha da única coisa que não tentava agredi-la; vinha de si mesma. E a cabeça não dava indício de parar. E tinha alguma dor por aí, onde?

Samuel estava nervoso, ela parecia não ouvir. Chegando perto dela, abraçou aonde o casaco tocava a pele, para não se contaminar. Cantarolou mais alto. Estava com uma flecha quebrada na perna, teria que tirar isso de um jeito.

O calor vinha da luz, igual aos dias ensolarados. Mas este dia tinha um gosto bom, era doce. Se um dia poderia ser doce ela não sabia, mas sabia que a luz um momento aparecia. E aquele reflexo tinha seus braços nela, sentia como se a cabeça inteira estivesse esfumaçando de tanto batalhar, querendo ouvir e não querendo deixar-se ouvir. Podia ser perigoso.

Então ela fez aquilo que achava certo. Num impulso rosado trocou o abraço ao homem. A cabeça foi ao pescoço, tentando ficar próxima a origem do som... O calor era bom. Era primavera.

Ah, a respeito daquela dor: era a flecha infeccionando seu organismo com a abertura que fizera. Não fora limpo direito, não fora nem retirada. Quando olhou pra baixo, o sangue escorria. Doía e doía, estava demais.
Vendo aquela criatura pronta pra ir para um túmulo com aquela infecção só conseguiu pensar que se a deixasse ser levada por Caronte haveria menos um monstro no mundo. O apocalipse não viria e a humanidade estaria salva. Estava pronto para piorar a situação dela e melhorar a dele: teria honra, fama, seria condecorado e a jovem voltaria para ele! Não só ela, qualquer jovem iria querê-lo.

É, este será o fim.