Percepção Desconhecida
5 Luz e trevas
Ela estava tendo uma hemorragia interna, com toda a certeza. Dava até aflição ver um ser daquela beleza indo para a morte, deixar ir para o inferno, mesmo sentindo que deveria ir para os céus com os anjos. Ela estava afrouxando o abraço aos poucos, gemendo e chorando, sua cor estava empalidecendo. Os cabelos estavam, pela primeira vez, tomando uma cor diferente da pele. Ainda assim, era falho, como um sinal de rádio.
Para Samuel cada soluço era como um dos sinos da Catedral soando grave em seu peito. Blém; se a monstrinha se fosse a glória seria sua. Blém; o soluço veio com tosse. Blém; um ganido com tosse seca indicava a fraqueza visível do corpo, que estava perdendo a cor única de novo. Blém; ela ainda era um ser vivo. Blém; ame o próximo como a ti mesmo. Blém, a cor voltava com tudo, deveria ficar bem. Ela não soluçou de novo.
Colocou rapidamente o corpo dela no chão e foi buscar a caixa de metal que tinha caído no chão antes. Ela tinha os olhos arregalados, e um lilás se apossava de seu corpo, tendo em vista que empalidecia rápido demais para ser um roxo. Abriu a caixinha com calma, se tremesse como queria iria cortar outra pessoa além da ferida; olhou para os olhos dela e, tentando assegurar alguma coisa, puxou a flecha com tudo.
A rapidez dos movimentos que tinha que realizar era a maior que já tinha feito, claro. Aprendera uns truques com a mãe, parteira, de não deixar um buraco provocado aberto muito tempo e já se esmurrava internamente por ter pensando no contrário. Que tipo de crente seria ele se ignorasse o maior mandamento? Que tipo de gente ele seria? Não o melhor, mas o que tinha a maioria. Pegou a aguardente e jogou no corte, sabia que qualquer excesso seria equilibrado pelo corpo dela. Isso é sabido.
O grito que ela deu foi como o pio de um passarinho esmagado pelo frio. Fraco, agudo e, diferente de antes, melódico. Um calor subiu por suas entranhas, mas precisaria de foco ou logo a garota iria morrer. Jogou a flecha de lado, passou a mão pelos cabelos e deu um gole na bebida que usou, também, para lavar suas mãos. A agulha da caixa já estava preparada com um fio e concentrou-se em costurar a parte da frente da... do... ombro.
Ela estava ficando humana ou aparentava estar, a pele era suja e seu cabelo ensebado era cor de ferrugem. O sangue estava sendo contido e iria ser reorganizado dentro dela. Samuel sabia o que tinha que entender sobre coisas como ela e a consciência lhe dizia que parar de respirar não fazia parte do esquema corporal. Dane-se isso tudo, iria terminar o que começou, sabia que o corpo ia se regenerar. Ele regenerava, não é?
Por baixo da sujeira ela estava pálida e com os olhos vidrados, ou seja, não tinha muito tempo. Terminou a costura e virou-a de costas, fazendo o mesmo. Jogou aguardente por toda a parte do corte e a sacudiu. Nada.
Precisava dela acordada, pelo menos parte dela. Pegou um bisturi e fez cortes leves por todo o corpo, jogando mais bebida neles. Estava acabando o líquido, então acendeu um fósforo e jogou ali mesmo no corpo. Ela começou a ser flambada como o peixe do capitão na cozinha toda terça-feira. Faltava uma coisa só, mas se fizesse isso ele estaria condenado.
As portas se abriram e a guarda entrou com tudo, trazendo um homem de cabelos negros e pele clara. O capitão estava ali, impecável e implacável, com o olhar desconfiado e pronto para jogá-lo no mar. O que faria ele agora que via o corpo da garota no chão? O que faria com ela? Com ele?
-Bem, creio que o senhor teve uma batalha e tanto aqui, estou correto senhor...?
— Domani, capitão. Samuel del Domani, ajudante do cozinheiro. E não foi bem uma batalha, senhor.
E o coração batia pesadamente, como os sinos da catedral faziam. Hoje ele iria ou morrer ou servir de escravinho sexual dos marinheiros mais antigos. Era a mesma coisa no fundo, então preferia morrer e se quisessem usá-lo que seja por necrofilia.
— Hum, vejo. Fosse corajoso o suficiente para atacar a besta em chamas, depois de tratá-la? – afastou a fêmea com o pé, pegou o casaco e começou a apagar as flamas com ele. — Gargalho por dentro, senhor Domani, já que esta criatura aqui deveria enfeitiçá-lo como os piores monstros do Tártaro e torturá-lo como um condenado aos Campos de Asfódelos.
O calor estava no cômodo e o espasmo no corpo. Houve uma onda elétrica, uma descarga, no corpo da criatura. Criatura: era isso que ela era, sempre iria ser, dizia a cabeça. Os dois se olharam rápido e foram até ela, mas com intenções diferentes; enquanto a luz segurava sua cabeça a sombra segurava seus pés, usando o casaco para amarrar bem firme.
Samuel olhava assustado para o capitão que agia como se soubesse que aquilo aconteceria, deveria ser um homem muito culto e saber com o que estava lidando. Lembrou-se que na verdade todos os presentes deveriam, já que era uma missão secreta e só estava ali quem sabia o que ela era... menos ele, que só sabia por coincidência. Como um sujeito imbecil estaria numa missão secreta?
— Guardas, quero que ela tenha uma colcha grossa e não vamos acostumá-la mal, só tragam água e frutas. Quero que seja alimentada 3 vezes ao dia e só. E você, salvador da pátria, venha conversar comigo no meu gabinete mais tarde. Por agora vai fazer uma função muito importante. Aonde o senhor costuma dormir?
— Bem, a verdade é que durmo na cozinha mesmo. O cozinheiro prefere que eu durma lá por enquanto, senhor, pois estávamos tendo alguns furtos de noite. Caso contrário, dormiria na despensa.
Parou pensante o homem e Samuel achava-o bem apessoado e bonito. Os cabelos negros cortados com uma navalha e uma franja sobre o olho direito, o traje bem ajustado azul, o lenço vinho que carregava na mão (para quê não se sabia, talvez o estilo), o cheiro de perfume amadeirado que era característico da maior fonte de medo dos marujos... E ele encarava-o com um olhar penetrante, frio. Ele poderia ser o que fosse por fora, mas era de dar nos nervos o que tinha ali dentro.
— O senhor vai fazer o seguinte, então: vai pegar suas coisinhas e colocar aqui dentro com a nossa colega, dormirá aqui a partir de hoje. Aproveite e traga a primeira refeição dela.
-Sim senhor, senhor.
-E tire a flecha quebrada em sua perna, sim? – Disse o capitão se demorando em sair junto dos guardas. Deu-lhe um meio sorriso e se foi sem esperar nenhuma resposta.
Que coisa! O que faria, hum? Traria uma mochila, um colchonete e colocaria num canto afastado dela. Falando nisso, tinha que ler alguma coisa sobre anatomia ou enlouqueceria cada vez que ela se machucasse. Iria aproveitar a noite e limpar a sujeira que estava impregnada ali.
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