Percepção Desconhecida
3 A expressão se Inicia
E mais uma vez eram olhos se abrindo para a luz, as mãos doendo. A cor era aquela avermelhada em seus pulsos, que aos poucos levava-se para o roxo medonho. Medonho, medo? De onde vinham essas palavras? Como entendê-las se nem compreendia-as de fato? Vermelho... hã?! Tinha um líquido parecido com aquele que ela exalava quando sentia muita dor. E vinha de outros lugares dela, vinha de onde a flecha havia acertado seu corpo, e uma ferida havia sido exposta. Ela não sabia mais como lidar com tudo aquilo, a mente estava desestabilizada e o corpo também.
Entraram dois guardas, um tarrudo e um extremamente franzino, juntamente de um moço de olhos amedrontados. Ele andava como ela quando sentia dor, mas a cor dele era amarelada. Amarelada? Mas, não era a cor dela quando estava nas tardes sem medo, igual a luz? O quê pensava e como? Não, isso era um reflexo dela, não havia de pensar. Seus cabelos eram amarelados, seu olhos era como as folhas na árvora. Era o verde daquele lugar que pertecia. Mas como sabia disso, se não assimilava nada? Ou melhor, pensava não assimilar.Ele andava curvado, ´´ele´´ era diferente de ´´ela´´ e com certeza havia observado. Mas ele também era diferente do outro ´´ele´´. Esse tinha algo que nunca havia sentido, ou pensava nunca ter. Era como o que havia dentro das frutinhas. Era ... doce? Isso era doce? Mas como poderia, novamente, saber o que aquilo indicava?Ele chegou perto dela e suas cores não mudaram tanto. Ela estava preparada. Ficou logo enrubrecida como deveria ficar quando com raiva. Raiva? O rapaz estava tão amendrotado quanto ela! Começou a limpar as partes da estrutura com a própria roupa. Então, a mística criatura começou a rosnar, o mais alto que poderia, contudo seu interior estava se acalmando. Ela estava ficando azulada, mas o que era o azul? Era a cor da grandeza que era o fim do lugar que pertencia, era onde não existia nada e ao mesmo tempo era tudo. Era um sentimento desconhecido. Ela não conseguia mais rosnar. O jovem estava apavorado. Quem nunca ficaria ao ver uma criatura que havia somente nas histórias contadas por seus avós, que extinguidas desse mundo foram? Ele pensava que ela era o diabo encarnado, o mal do mundo inteiro e a desgraça do mesmo. Ela poderia o levar para tudo o que era pecaminosamente ruim.Todavia, a bondade era de ser o maior auge de seu coração. Esta parte, tão pouco desenvolvida nos homens chamados de racionais, era completa e intocadamente dele. Acreditava que era por isso que tinha se tornado um capacho de todos : o capacho do cozinheiro, o capacho dos guardas, do comandante, até dos próprios marujos. Mal sabia como havia entrado ali. Ah, não, sabia sim. Havia acreditado numa moça formosíssima que havia dito que para se apaixonar completamente por ele e oficializarem o namoro (ao invés das cortesias costumeiras) era necessária uma transformação para um homem mais experiente e forte, uma aventura náutica secreta proclamada pela alta sociedade parecia para ela a aprovação bem pontuada.Apesar de tudo, não chegava nenhuma carta dela quando atracavam num porto. É, era mesmo um capacho. Ele ainda gostava muito daquela mulher esbelta que enchia-lhe os olhos. Diferente daquele poço para a morte que a criatura a sua frente o causava. Ela era misteriosa, tinha o cabelo e os olhos azuis como um dia claro, e sua nudez mostrava as curvas de uma dama que havia sido moldada sem a ajuda das peças íntimas e... NÃO! Era muito perigoso qualquer deslize com a besta horrendo transmutada em beleza celeste.Sem perceber, ele cantarolava uma música. Mas o que era isso para ela? Era reconhecível e as palavras eram próximas, mas tão distantes de sua cabeça. Se a cabeça parasse de falar, ela talvez prestasse atenção naquilo. Ela não conseguia, era algo leve demais. Mas era uma melodia bonita. O que era a melodia e a música, além de grunhidos diferentes? Ela sabia. Se pudesse parar com as informações...Mas como ela entendia algo e como a cabeça falava, se ela não podia se esforçar para pensar? E por quÊ? Tantas perguntas. Sua cor estava se tornando um azul mais profundo, o azul de quando o fim era tocado por aquilo que ela poderia beber se olhasse para cima. O azul era perturbado.E saiu algo de sua boca além dos comuns gemidos. Os guardas ficaram assombrados, eram ganidos afogados. Quase como se algo não deixasse sair. O tal rapaz, parou de fazer tudo. MAS AQUELA MELODIA PRECISAVA VOLTAR! Ela corria para ele, mas não era liberada por seus pulsos e quando a besta foi apontada para ela, já podia se preparar. A cabeça não parava, mas ela agiria sem pestanejar. Por quê? A cabeça não podia parar. Iria morrer? O quê era a morte? Ela sabia, mas o medo daquilo tudo era o que a trancava. Novamente, por que tinha aquilo?E aquele que antes cantarolava gritou alto e se afastou, mas foi agarrado pelo pé.— Chamemos o Lorde, ele precisa ver o que o monstrinho fez!Os dois guardas deixaram ambos a sós, trancados, enquanto o capacho urrava por seu medo.
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