Percepção Desconhecida

1 A Falta de Compreensão


Ela corria, corria demais. Era quase como um animal. Não se sabia o certo como tinha estado lá, sozinha, sem nada e nunca tendo visto sequer um animal na vida dela. Ela era uma espécime rara, a última sobrevivente de uma devastada linhagem de monstros como ela. Monstros? Era a palavra certa?

Se viam longos cabelos, obviamente nunca haviam visto uma tesoura ou algo afiado o suficiente para cortar. Mas ela não sabia disso, só pensava em algo que ela nem sabia identificar: correr. Tudo em sua vida era inconsciente, ou era o que ela pensaria se soubesse usar palavras. Ela só via tudo por imagens, cheiros e sons. E ela não sabia usar palavras.

Era como se algo em sua cabeça não fosse desenvolvido e ela estava ali, correndo. Mas, do quê? Havia algum quê? Ela nunca saberia, obviamente.Ela ia ficar assim como sempre ficou, desde que abriu os olhos. Mas ela não sabia o que eram. Ou sabia, e não entendia isso. É... entendimento.
O entendimento é algo que todos os seres humanos possuem, ou deveriam, e não usam. Quase nunca. Até que não é tão falta de sentido ela não possuir tal habilidade. Mas ela possuem muitas outras, como todos os humanos. Ela só não sabe. Não mesmo.

Mas ela não era um monstro? Não estava correndo? Não havia a descrição? Tudo nela era por partes, faz-se a noção de que sua cabeça seja assim também. Tudo no seu devido tempo.

Era um misto de nudez, pelos, cabelos,unhas. Isso por ela não conseguir controlar o camaleão que era. As suas cores? Ela praticamente só sabia quando estava sem medo, o que era raro, por quê saberia identificá-las? Além do mais, quando via-se naquilo que poderia beber porque não lhe daria dor e medo ela era sempre diferente. Cores tão diferentes.

Uma vez estava fugindo (não sabia ao certo) num lugar cheio de folhas, mas as tais pareciam ter bebido aquela coisa mal cheirosa que uma vez ela tinha bebido e a deixado com dor. Elas estavam com a mesma cor daquilo que ela tinha que soltar quando doía seu ventre. E como era doloroso tudo aquilo. Ela havia visto aquela cor em si mesma, toda vez que estava assim, naquilo que podia beber. Era maleável, as poucas tardes sem medo eram dentro daquilo. Ela soltava um grunhido diferente, um que vivia parando e tinha uma sensação de quando o sol estava alto.

Algo era como um raio em seu pé. Ela identificava isso, era de se tremer demais quando as luzes atingiam onde pisava. Foi de encontro onde antes haviam seus pés. Ouviu os grunhidos do que a perseguia, coisas inteligíveis para ela. Mas tudo era tão igual, igual a ela. Ela estava com mais medo do que lembrava ter tido.

Ela estava indo para onde imaginava ser o fim de tudo. Aquele líquido que ela não poderia beber tanto quanto beberia o outro que ficava perto de onde fechava os olhos. Era onde ela não poderia mais correr, não poderia mais fazer nada, pois era puxada ao fundo. Ela parou. Ali era como a sua cabeça: algo vazio, nada, nenhuma informação. Ela olhou de onde veio e se deu por vencida que deveria ser alguma folha quando mais crescida, a parte rígida, já da cor daquilo que soltava quando doía o seu meio. Mas foi puxada como nunca havia sido.

Era como se o que ela bebia estivesse em sua cabeça, mostrando ela em cada vez que mudou de cor. Era vários ´´ela´´. Estavam gemendo como ela quando estava alterada. Ela nunca havia visto nada disso, não estava preparada. Que cor? O que poderia fazer? Como reagir? Pensou em se jogar como fazia nas poucas tardes sem medo, mas isso seria certo? Quando estava em choque, parada, foi atingida por alguma pedra muito pontiaguda, daquela que conseguiria cortar seu cabelo.

E tudo ficou como se ela houvesse fechado os olhos quando gemia de cansaço, quando não havia mais luz.