Percabeth - I Knew You Were Trouble
44 Capítulo 45
Notas iniciais
–Sabe, cinco euros por um algodão doce é um absurdo de caro. — Percy sorriu, os cantos da boca sujos de açúcar. Louise estava ao seu lado, segurando sua mão enquanto pulava pelos ladrilhos da calçada, tentando não pisar nas rachaduras.
–Eu te avisei que a maçã caramelada valia mais a pena, pai. — Ela o encarou, sorridente, segurando a maçã no palito como se fosse um troféu. Percy a olhou por um segundo e percebeu que o sorriso dela era a coisa mais adorável que já vira na vida.
Haviam chego ao parque de diversões faziam duas horas. O sol estava alto no céu, a brisa era morna e o som que mais se ouvia era de risadas e músicas macabramente divertidas. Louise já tinha ido em duas montanhas-russas, e agora decidira comer algo típico das barraquinhas de parques de diversões.
–Vamos sentar lá! — Apontou-lhe um banco, de frente para uma roda gigante. Puxou Percy pela mão, quase fazendo-o derrubar seu algodão doce.
Assim que se sentaram, Louise aprumou-se e olhou-o com aqueles olhos verdes curiosos.
–Muito bem. Quero que me diga tudo.
–Tudo...? -
–Tudo! De onde você é, como você e a mamãe se conheceram, suas comidas favoritas, tudo mesmo!
Percy riu e bagunçou seus cabelos, fazendo-a resmungar.
–Baixinha, que tal começarmos por você? Eu definitivamente não sou tão bom com palavras quanto você.
Louise pareceu irritada por um segundo mas aprumou-se de novo, arrumando os cabelos.
–Muito bem, vamos começar. — Ela cruzou os braços, como se fosse começar um grande e longo discurso. — Meu nome é Louise Chase, tenho 7 anos e 5 meses e eu nasci aqui em Paris. Minha vovó e meu vovô são de Nova york, assim como minha tia Claire, que só é tipo, uns 7 anos mais velha que eu. Bizarro né? — Ela o olhou esperando uma confirmação. Percy assentiu.
–Com certeza.
–Bom, continuando.. Eu estudo na escola Madam. Prefoit para jovens moças. — Ela fez uma careta enjoada e Percy riu. — Minhas coleguinhas na escola são a Laura e a Amelie, embora as duas tenham uma fascinação exagerada pela barbie....
–Vai entender... — Percy continuou, segurando um sorriso.
–Pois é! Enfim, elas são legais, fora isso. Continuando... Eu gosto muuuuuuito mesmo de petit gateau, e pode até ser algo óbvio porque eu sou francesa mas acredite em mim, é o melhor doce que existe! Mesmo assim, a mamãe só me deixa comer às vezes. — Ela fez uma careta de decepção.
Percy ouvia tudo que ela dizia com a mais dedicada atenção, concordando sempre com ela e rindo quando ela ria. Ao mesmo tempo que a escutava, reparava nas suas pequenas maneiras de criança. Quando ela ficava irritava, soprava a franja pro alto e quando se exaltava (o que acontecia por praticamente qualquer coisa que ela falava) gesticulava com as mãos. Seus olhos brilharam e ela quase saltitou quando começou a falar dos seus documentários favoritos, e Percy fez a si mesmo a promessa de que algum dia arrumaria paciência e assistiria a um inteiro com ela.
Quando ela finalmente começou a ficar sem idéias pra falar, Percy fazia-lhe perguntas. A primeira foi qual era seu maior sonho.
–Bom, eu quero virar uma Chef. — Ela sorriu. Percy ficou surpreso que uma garota tão inteligente quisesse algo tão simples, mas ela percebeu sua surpresa e a cortou imediatamente. — Ei, não é tão fácil sabe? Qualquer um pode fritar um misto quente na chapa mas só um chef de verdade sabe fazer um Coq au vin sem deixar muito aguado.
–Como você...- Percy não sabia nem o que perguntar. Só conseguia olhá-la, admirado. — Cozinha algo pra mim um dia? Vou testar se você realmente é boa.
Louise sorriu e concordou com a cabeça.
–Faço isso todo dia em casa. Se eu deixar minha mãe chegar perto do fogão, tenho que deixar o telefone dos bombeiros por perto.
Percy riu. Louise saltou do banco e puxou sua mão, novamente animada.
–Vamos lá! Quero ir em mais brinquedos e não ficar sentada aqui o dia todo!
–Tudo bem, tudo bem! Você é quem manda! — Percy sorriu e se deixou ser guiado por ela.
* * *
Já eram oito da noite quando foram embora do parque.
Não que o lugar estivesse fechando mas Percy podia perceber que Louise quase dormia em pé enquanto andavam. Assim que ela saiu do último brinquedo que fora — um carrinho bate bate — ergueu-a nos braços, dizendo que a levaria até o carro. Ela brigou falando que não estava cansada, mas depois de dois passos já estava adormecida no seu ombro.
Ele segurava de leve sua cabeça, tentando não acordá-la enquanto descia as escadas do parque para o estacionamento. Abriu o carro e colocou-a delicadamente no banco de trás, lembrando-se do cinto de segurança, e logo estava dirigindo por Paris, levando-a para a casa de Annabeth.
Assim que chegou ao apartamento dela, tocou a campainha. Annabeth abriu a porta, com um rosto cansado e cabelos bagunçados presos num rabo de cavalo. Estava de calça jeans e regata, os pés descalços no chão. Percy quase deu um soco em si mesmo ao perceber que, mesmo daquele jeito, achava-a incrivelmente bonita.
–Já não era sem tempo. — Ela falou sem encará-lo, com a voz amarga e triste. Ele sentiu qualquer tipo de animação em vê-la murchar, depois disso.
–Onde é o quarto dela? — Perguntou, desviando o rosto dos cabelos de Louise.
Annabeth abriu a porta e caminhou até uma das portas brancas do apartamento. Acendeu a luz de um quarto lilás, todo arrumado e delicadamente decorado, do jeito que ele imaginou que fosse. Ele entrou e abaixou-se, deitando Louise na cama. Annabeth cobriu-a com os lençóis.
Aquela cena, eles dois juntos colocando Louise pra dormir, provocou algo dentro dele. Era assim que deveria continuar, os dois, colocando-a pra dormir daquele jeito todas as noites e depois indo pra sala assistir a tevê, lado a lado. Ele já tinha imaginado algo assim, e na época, era a coisa que mais queria. Era o futuro que ele desejava pra eles.
Movido por essa sensação, levantou-se da cama e puxou Annabeth pela mão, para fora do quarto.
–O que você está fazend... -Annabeth começou a falar, mas ele a cortou.
–Não era pra ser assim. — Murmurou, já fora do quarto da filha.
–Do que está falando? -Annabeth perguntou, receosa. Sentia que sua muralha ia desmoronar em alguns segundos.
–De nós, Annabeth. Não era pra ser assim. Você me olha como se eu fosse uma pedra no seu sapato.
–E você olha pra mim como se eu fosse uma megera sem coração! — Ela replicou.
–Bom, é exatamente desse jeito que você está agindo! Você está sendo uma cretina e eu nem sei o porquê!
Annabeth tentou com todas as forças segurar tudo dentro de si.
–Eu não estou agindo assim, Percy. Eu sempre fui assim...
–Você nunca foi assim! — Ele gritou, exasperado. Lembrou-se então de que Louise estava dormindo, então tentou controlar-se. — Você era o tipo de garota que ria das minhas piadas idiotas, que matava aula comigo, que me tranquilizava nos momentos mais difíceis. Você se lembra daquele dia em que matamos aula e fomos ao parque? Eu te beijei e só faltou você chorar porque sentia que estava sendo desonesta com a Cally. Você nunca foi essa cretina fria que é hoje!
Annabeth tentou sorrir.
–Isso foi há tanto tempo, Percy..
–Foi. E eu lembro que naquela época eu já sonhava com um futuro pra nós dois. Eu imaginava a gente no futuro, colocando nossos filhos pra dormir, juntos. — Ele não conseguiu olhá-la nos olhos. — E hoje, aqui estamos, você me chutando pra fora da sua casa, com medo de que eu volte no dia seguinte. Não era pra ser assim.
– Nem tudo acaba bem, Percy. É a vida. — Respondeu ela, usando suas últimas forças pra tentar manter a expressão inalterada.
–Teria acabado bem... — Ele se aproximou dela, colocando-a contra a parede. — Se você não estivesse escondendo tudo o que está sentindo.
Annabeth sentiu um repentino vazio dentro de si, como se o chão tivesse desaparecido.
–Eu não estou escondendo nada!
–Está sim! E não quer me dizer o porque.
Ela ficou em silêncio por um momento, olhando para baixo.
–C-como você sabe? — Perguntou ela. Seu plano afinal, tinha sido descoberto.
–Por que eu te conheço mais que ninguém. — Ele murmurou. Colocou uma das mãos em seu queixo e a fez olhar pra ele. — E eu sei que seus olhos sempre te denunciam.
Foi isso. A muralha sentimental de Annabeth Chase finalmente desabava por terra.
Um soluço lhe escapou. E depois outro. Quando percebeu, ela estava encolhida, abraçando a si mesma, de costas pra ele. Tentava segurar as lágrimas, em vão, então limpava continuamente o rosto com as mãos.
Percy não a consolava. Na verdade, estava encostado na parede, com as mãos nos bolsos, sem saber direito o que fazer. Apenas a olhava chorar, com raiva demais para ajudá-la e com amor demais para simplesmente ir embora.
Annabeth andou pela sala até que alcançou a janela, abrindo-a totalmente, na esperança de que o ar frio da noite aliviasse um pouco toda aquela onda na qual ela se deixara afogar. Apoiou-se no peitoril da janela.
–Por quê? — Ela ouviu-o perguntar.
–A-aconteceram muitas coisas. — Ela tentou falar, sua voz não mais do que um murmuro. Ele se aproximou e parou ao seu lado, na janela. — E eu não lhe contei nem a metade.
Ela esperava que ele a parasse, que dissesse que não estava interessado em ouvir, que dissesse que não dava a mínima. Mas ele continuou em silêncio, esperando, e ela se viu obrigada a continuar.
–Bom, quando meus pais descobriram, eles ficaram loucos. Queriam me mudar de escola, de país, mas pois é, agora a besteira já tinha acontecido. Então, me deixaram terminar meu último ano. É claro, não foi nada fácil. Todos adoraram saber que eu era a adolescente grávida que fora abandonada pelo namorado, que preferiu a prisão. Se bem que eu não dei a mínima para aquele bando de babacas.- Annabeth sorriu, com desprezo. Percy achou incrível a habilidade que ela tinha com isso, até quando estava com lágrimas nos olhos. De repente, ela abraçou a si mesma mais forte e Percy sabia que algo ruim estava por vir.- Mas foi aí que tiraram Louise de mim.
– O quê?
– Meus pais. Assim que ela nasceu, eles a levaram pra uma de suas mansões na Flórida e minha mãe ficou cuidando dela por mim. Não foi exatamente com a minha vontade. Eu chorei por dias em nova york e a ligava todos os dias para ela. Nunca me deixaram ouví-la no telefone por mais de cinco minutos.
–Por que eles a tiraram de você? — Percy perguntou, agora mais preocupado.
–Por quê? Pra que eu concluísse aquela droga daquele curso de arquitetura. Eu já nem ligava mais para aquilo, só queria minha filha,mas meus pais ainda queriam manter as impressões. Eu implorava aos professores que me ajudassem a passar mais rápido pelos semestres, para que eu pudesse vê-la crescer. Não adiantou. Perdi seus três primeiros anos.
–Espera um segundo. — Percy passou as mãos no rosto, incrédulo. — Eu não... Eu não consigo acreditar. Seus pais não fariam isso, Annabeth!
–Não? — Ela baixou os olhos para o peitoril da janela. — Alguma vez eu já te contei por que raios a Claire estudava em um internato? Na realidade, foi por que eles achavam que eu era um péssimo exemplo. Eu reprovei em uma matéria, e eles me colocaram no colégio público que você estudava pra eu aprender. Foi na mesma época em que mandaram Claire para o outro lado do país, para ela não seguir o mesmo "mau caminho" que eu seguia. — Ela respirou fundo, tentando com todas as forças manter a calma. Foi até o quarto, abriu uma gaveta e pegou do fundo um papel, que levou até ele.
Era um cartão de natal. Uma foto de dois adultos e um bebê gordinho, com as bochechas rosadas e olhos verdes, entre eles. Atrás, nenhuma palavra escrita, apenas o endereço a ser mandado.
–Eles só me mandaram por que eu liguei pedindo. — A voz de Annabeth falhou, e ela cobriu a boca com uma das mãos, tentando esconder a careta de choro.
–Quando eu finalmente terminei o curso, eu fui vê-la. Eles autorizaram, agora que eu já não podia mais ser "distraída" dos estudos. — Ela continuou. Percy segurava o cartão postal em uma das mãos. — Ela estava tão grande! Na ultima vez que eu a tinha visto, ela podia caber em um dos meus braços.. Assim que eu a vi, corri pra abraçá-la. Ela não me reconheceu, então começou a chorar. — Annabeth não estava mais conseguindo falar. A vontade de chorar criava um nó na sua garganta, que a impedia de dizer qualquer coisa e fazer qualquer outra coisa que não fosse colocar a mão na boca, segurando as lágrimas.
Percy também não sabia o que dizer. Finalmente, cansou de ficar parado feito uma estátua e aproximou-se dela lentamente, na intenção de abraçar seus ombros. Assim que ela percebeu o movimento, correu e apoiou o rosto em seu peito, surpreendendo-o. Tudo que ele fez foi passar os braços ao redor dela, aconchegando-a.
–Sabe qual o pior disso? — Murmurou ela, entre soluços.
–O quê?
–Ainda tem mais.
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