Percabeth - I Knew You Were Trouble
45 Capítulo 46
Notas iniciais
Annabeth sentou-se no sofá, sentindo que suas energias estavam sendo sugadas por aquela conversa. Subitamente, desejou não ter contado toda aquela história para ele. Sentia-se como a água de uma represa que acabara de estourar.
—Como assim, tem mais? — Percy ficou em pé à sua frente.
—Bem… — Ela esfregou as mãos nos joelhos e dirigiu um rápido olhar à porta do quarto da filha, pintada de cor-de-rosa e cheia de desenhos surpreendentemente bons para aquela idade. — Eles pagaram meus estudos e depois minha vinda pra cá. Mantivemos um contato mínimo, só para eles saberem como eu estava me saindo com a criação de Louise …
—E?
—Uma vez que contei a eles que tinha conseguido um emprego aqui e que a situação era finalmente estável, ele me falaram que não queriam mais manter contato algum.
—Como assim? — Percy sentou-se ao lado dela. -Eles são seus pais!
—Sim, mas aparentemente, eles não querem saber o que acontece comigo e muito menos querem que outras pessoas saibam. Minha mãe em suas entrevistas para essas revistas de negócios de sucesso, afirma que sua filha Annabeth está na França, e não mais do que isso. Ninguém sequer sabe da existência de Louise. Meus pais estavam envergonhados de mim.
Percy ficou em silêncio, tentando absorver todas aquelas informações. Nunca imaginou algo assim vindo de Victoire Chase, a senhora que lhe parecera tão simpática, lhe oferecendo sanduíches quando ele visitou sua casa. No entanto, desde aquele dia, percebeu que tinha algo um tanto artificial naquela família. Só não sabia dizer se isso era comum porque ele próprio não tinha tido uma normal como aquela.
—Você alguma vez tentou entrar em contato com eles, depois disso?
—Aí é que está. — Annabeth encarou-o com tristes olhos cinzas. — Eu ia tentar fazer uma visita pra eles, semana que vem. Para tentar acertar as coisas, sabe? Querendo ou não, eles são meus pais. — Ela suspirou. — Então você chegou…
Percy sentiu um gosto amargo na boca. Algo lhe tinha dito que não deveria ter vindo pra França. Ele viera pedir desculpas por estragar a vida dela uma vez, e por isso, acabara estragando de novo.
—Eu… — Annabeth começou. Ele ergueu uma mão para silenciá-la.
—Eu vou embora. — Murmurou, com a voz fraca. — Pelo menos por agora, pra você resolver isso. Louise vai entender.
—Não. — Annabeth olhou-o, com os olhos surpresos. — Percy, eu.. Eu quero que você vá comigo.
***
Seguiu-se um momento de silêncio tenso.
—O quê? — Ele se afastou.
—Só se você quiser, é claro.- Ela o encarava de forma quase suplicante.
Aquela foi a gota d'água.
—Annabeth. — Percy se levantou, caminhando ansiosamente pela sala. Parou em frente a janela, tentando conter sua respiração. — O que você quer de mim, afinal?
—O que quer dizer? — Sua expressão ficou confusa.
—Uma hora você quase me põe pra fora da sua casa. Na outra, quer que eu vá conhecer os seus pais. O que você quer? — Ele virou-se pra ela. Annabeth olhou paras as próprias mãos, delicadamente pousadas no colo. Ele sentiu-se profundamente irritado.- Pare de ficar brincando comigo. Isso é cruel.
Annabeth estremeceu com a acusação, mas entendeu seu motivo. Respirou fundo e o encarou.
—Essa é a questão... Eu não sei o que eu quero.
—Como assim não sabe? — Percy se aproximou. — À essa altura, ja deveria saber!
—Bem, meu lado racional me diz para fazer uma coisa, mas o que eu sinto é outra, Percy. Eu não sinto essa confusão desde… -Ela suspirou, passando as mãos pelo cabelo, exasperada. — Eu não sei! Eu me sinto louca quando você está por perto. — Ele ergueu uma sobrancelha. -E ao mesmo tempo que eu odeio me sentir assim, eu não consigo… Eu não quero parar. Droga!
Ela levantou-se e correu até o quarto com as mãos no rosto escondendo as lágrimas.
—Eu... Ah, eu não sei! — Gritou, fechando a porta atrás de si.
Percy deixou-se cair no sofá, sem saber o que pensar. Não tentou ir atrás dela pois sentia-se esgotado e, honestamente, não estava mais com paciência para aqueles jogos que ela fazia. Não queria mais saber daquela bagunça em forma de pessoa que era Annabeth. Acendeu um cigarro. Ficou ali, encarando a televisão desligada, pensando sobre o que acabara de acontecer.
Tinha fumado quase um maço inteiro quando os primeiros raios de amanhecer iluminaram a sala. Não tinha percebido que tinha ficado ali uma noite inteira, absorto em seus pensamentos que vagavam entre raiva e ressentimento.
Foi até a janela e se apoiou no parapeito, observando Paris acordar.
As pessoas começavam a caminhar pelas ruas, vestindo agasalhos pesados para se proteger contra o frio enquanto falavam no celular, carregando bolsas e maletas. As lojas abriam, revelando as vitrines luxuosas, e as crianças saíam com o uniforme escolar.
O céu estava num lindo tom arroxeado quando ele resolveu ir até o quarto de Annabeth, anunciar que estava indo embora. Assim que abriu a porta, deparou-se com ela do outro lado, pretendendo fazer o mesmo. Tirou o cigarro da boca pra falar, mas antes que pudesse dizer alguma coisa, ela passou os braços pela sua cintura e apoiou a cabeça em seu peito. Os cachos loiros dela cheiravam a morango, ele reparou, abraçando-a de volta instintivamente. Ele não conseguiu ir embora, brigar ou sequer dizer alguma coisa por um longo tempo. A presença dela ali parecia torná-lo incapaz de falar qualquer coisa que a machucasse. Annabeth escorregou para o chão e se sentou, apoiada no batente da porta e ele também, de frente pra ela, as mãos juntas e os olhares quase que perdidos um no outro, em silêncio por não saber o que dizer ou por onde começar.
—Eu… Eu vou seguir o que eu sinto. — Começou ela, com a voz fraca e os olhos cinzas refletindo o tom de luz roxa vindo da janela. — A racionalidade não me trouxe nada até hoje além de dores de cabeça. -Percy continuou em silêncio, escutando-a. — Algo me diz que não consigo ficar longe de você.
—Agora que você percebeu? — Ele sorriu fracamente.
—Me desculpe, Cabeça de alga. — Ela murmurou, com a voz embargada e o corpo encolhido. — Eu não sei lidar tão bem com essa coisa de sentimentos. E eu me sinto terrível por tudo que te disse. É só que… Tudo ficou tão confuso depois de tanto tempo sem te ver. Eu vou entender se não quiser ir pra Nova York comigo, ou se… Se não quiser mais nada entre nós. — Ela pronunciou a última frase com hesitação.
Percy respirou fundo, entrelaçando seus dedos nos dela. Pensou a noite inteira sobre o que ia falar pra ela de manhã, mas nada saiu como planejado. Ele não conseguiu, afinal, fazer o que seu lado racional mandava também.
—Eu senti que eu não te conhecia mais, nesses últimos dias. Você está tão.. Diferente. — Ele suspirou e então sorriu. -Mas eu acho que podemos tentar começar de novo.
—Bom, minha cor favorita ainda é azul. — Ela sorriu abertamente. Aquele sorriso que ele adorava, com uma covinha só do lado esquerdo, os olhos encolhidos e a bochechas coradas emolduradas pelos cachos loiros desarrumados.
No fundo, Percy sentiu que também não conseguiria ficar longe dela. Isso o assustava um pouco, mas também era o sentimento mais próximo de felicidade que ele tivera até agora.
Ficaram os dois ali, conversando baixinho, até a hora que Louise acordou.
Fale com o autor