Percabeth - I Knew You Were Trouble
41 Capítulo 42
Notas iniciais
O sol começava a raiar mas ele já estava acordado.
Abrira os olhos, subitamente, depois de pegar no sono. Olhou em volta, tentando se lembrar onde estava. Tinha tido um sonho tão bom... E agora, como a rotina mandava, tinha que levantar-se da cama e ir ao refeitório da prisão tomar o café.
Para a surpresa dele, assim que ia levantar o lençol, sua mão encostou em algo quente e macio. Esfregou os olhos e viu que estava com a mão na cintura de alguém. Na cintura dela. Não tinha sido um sonho.
Permitiu-se sorrir e deitar-se na cama novamente, decidido a não acordá-la. Desde então não conseguira dormir, observando a silhueta dela se iluminar enquanto o dia raiava, seu corpo dando uma sombra no lençol, enquanto atrás dela, as cortinas abertas deixavam a vista para a torre Eiffel adquirir o tom cinzento da manhã.
Ficara reparando em cada coisa que mudara nela. Sua expressão mal humorada estava levemente mais marcada, os quadris estavam mais largos e a cintura continuava fina. Ele riu com o pensamento de pegá-la no colo e deslizar os dedos sobre ela, como um violão.
Além disso, ela parecia mais pálida. Se em nova york maior parte do ano era nublado, aqui em Paris os dias de sol deviam ser uma raridade. Além disso, ela parecia uns centímetros mais alta, quase alcançando-o. Era constrangedor o fato de ele ser tão baixinho. Até Nico o havia alcançado e agora ela.
Foi caminhando os dedos pelo braço dela, arrepiando-a. Chegou até aquele osso logo abaixo do pescoço e parou ali, depois de tirar uma mecha que lhe caíra no rosto. Não podia acordá-la. Nunca vira-a tão tranquila.
Ele decidiu fazer algo cavalheiro dessa vez. Ia preparar um café pra ela. Quando ela acordasse, o encontraria na cozinha, com o jornal do dia, esperando por ela fingindo que sabia ler em francês. Plano melhor não tinha.
Estava prestes a se levantar quando ouviu a campainha tocar. Ficou meio confuso e sem saber o que fazer, até que rapidamente agarrou suas roupas no chão e foi vestindo pelo caminho, com a camisa semi abaixada quando abriu a porta.
–Hã. Olá? — Uma mulher estava parada à porte. Era negra, alta, magra, e com um sotaque francês carregado. Seu cabelo volumoso estava preso pra trás com um lenço estampado e àquela hora da manhã ela já estava maquiada. — Quem é você?
–Ele é o meu pai. — Uma voz aguda falou, um pouco mais embaixo. Percy não percebera Louise ali, que entrou pela porta passando por entre as pernas dele, sem pedir licença. — Cadê a mamãe?
A mulher parada na porta pareceu ao mesmo tempo muito constrangida e interessada. Olhou-o da cabeça aos pés, analisando-o.
–Hum.. Então você é... Bom, esquece. — Fez um gesto com as mãos. — Não é da minha conta. Só vim trazer Louise, antes de ir pro trabalho. Ela e Cosette ficaram conversando até tarde ontem. Mas sabe como é, crianças..
Percy não sabia o que responder. Balbuciou umas sílabas e deu um sorriso enquanto a mulher se despedia e ia embora.
–Não parei pra pensar onde você estava. — Ele falou, fechando a porta e virando-se para encarar Louise.
–Estava na casa da Co. Dã. Ela acabou de te falar isso. — Louise resmungou, indo à cozinha e abrindo a geladeira. — O que tem pra comer?
–Hãm. Eu não sei. Quem mora aqui é você. — Deu de ombros. Assim que falou isso, ela fechou a geladeira e caminhou até ele, olhando-o com olhinhos desconfiados.
–Não perguntei o que você tá fazendo aqui... — Falou. — O que você tá fazendo aqui?
–Bom... E-eu.. — Percy gaguejou.
–Você tava namorando com a mamãe?
–O quê?
–É claro que tá. — Ela cruzou os braços. -Dá pra ver pelo jeito que se olharam quando ela foi me buscar. Ela é a Rapunzel e você é o tal do Flynn Ryder.
–Hã.. Bom, eu.. — Percy virou-se de costas pra ela com a desculpa de que ia preparar um café.
–Se você não cuidar bem dela, eu juro que vou atrás de você, pateta. — Ela pegou um donut do armário e saiu para a sala, deixando-o sozinho na cozinha. Ele acabara de perceber que aquela garotinha era muito mais que assustadora.
Ele sentou-se pesadamente na mesa, segurando a xícara de café. Da porta da cozinha dava pra observá-la, pulando no sofá e ligando a tv no disney channel. Depois fez uma careta e mudou de canal, e Percy pode jurar que ela estava assistindo um documentário no discovery.
Realmente, ela parecia uma versão de Annabeth, menor e mais irritante. Ele tomou um gole do café, observando as maneiras dela. Mesmo sendo rebelde, sentava-se que nem uma princesinha. Parecia dois opostos em uma pessoa só.
Os pensamentos dele vaguearam pro outro lado dela. De quem ela teria herdado aquele jeito? Ele não tinha coragem suficiente pra perguntar a Annabeth quem era o pai. Não ainda.
De repente, Louise virou-se pra ele e acenou pra ele vir assistir tevê com ela. Percy sorriu e então seus olhos focalizaram nos dela, notando aquele tom de verde que lhe parecera familiar. Seu olhar então se fixou nos cabelos pretos e rebeldes da menina. Sentiu seu sorriso desaparecer.
A xícara de café escorregou dos seus dedos e caiu no chão, se espatifando enquanto ele a encarava, catatônico.
Nesse momento, Annabeth saiu do quarto de roupão, esfregando os olhos e perguntando que barulheira foi aquela. Louise tinha se levantado do sofá e olhava espantada para Percy. Annebeth seguiu o olhar dela e então se deparou com ele, largado na cadeira da cozinha, os cacos da xícara aos seus pés, e as mãos tremendo violentamente.
Como não percebi antes?
* * *
–Percy! — Ela correu até ele, desviando os pés descalços dos cacos. — Você está bem?
Ela percebeu que ele olhara fixamente para Louise, e então tudo fez sentido.
–Louise, vá para o quarto, por favor.
–Mas mãe..
–Vá pro quarto! — Annabeth gritou. A menina cruzou os braços, ressentida, mas foi para o quarto e bateu a porta com força.
Annabeth o olhou e sentiu-se desabar por dentro.
–E-eu vou... Pegar um copo de àgua pra você. — Gaguejou.
Ele soltou um longo suspiro, tentando se recuperar. Apoiou as mãos na mesa mas elas não paravam de tremer mesmo assim, então escondeu-as nos bolsos da calça.
–Eu não quero um copo dàgua, Annabeth. — Falou. Sua voz soava trêmula e fraca mas mesmo assim ela pousou o copo em cima da pia imediatamente. Relutante, sentou-se na cadeira ao lado dele e cruzou os braços em cima da mesa. -Eu sou o pai dela, não é?
Annabeth desviou o olhar dele, fixando-o na mesa.
–Eu perguntei se eu sou o pai dela, me responda caralho! — Percy gritou, se levantando da cadeira tão abruptamente que esta caiu pra trás, fazendo um estrondo no piso de mármore. Annabeth se encolheu por um segundo de surpresa mas então se levantou também.
–Não ouse gritar comigo na minha própria casa, Percy! — Falou, erguendo o tom de voz. — Senta nessa merda de cadeira e vamos conversar como pessoas normais, ou então saia.
Por um segundo ela realmente achou que ele fosse caminhar até a porta e dar o fora dali, mas algo o obrigou a ficar. Ergueu a cadeira do chão e sentou-se com raiva, encarando-a fixamente nos olhos.
–Agora... — Ela recomeçou, ainda de pé. — Você pode fazer o favor de se acalmar? Senão eu juro que eu te expulso daqui e você nunca mais vai ouvir falar dela!
Ele pareceu surpreso por um segundo mas depois retornou à expressão de frieza habitual. A verdade é que estava com medo. Medo de quê, ele não sabia definir, mas estava aterrorizado a ponto de deixar que ela tomasse controle da situação, só pra poder ouvir uma explicação.
Annabeth respirou pesadamente e deslizou uma das mãos pelo cabelo, parecendo extremamente melancólica.
–Eu descobri logo depois que você se entregou pra polícia. — Annabeth continuou, em voz baixa agora. Apoiava as mãos na mesa e tentava parecer forte, embora sua voz um tanta embargada denunciasse tudo. — O que você queria que eu fizesse? Queria que eu te contasse mesmo assim, fazer você sofrer por anos que ficaria sem vê-la?
–Eu.. — Ele começou mas ela estendeu a mão para interrompê-lo.
–Fora o fato de que assim que meus pais descobriram, quase me deserdaram. Uma Chase grávida aos dezesseis anos, uma pirralha que resolveu dar, é isso que iam pensar. — Ela respirou fundo, se lembrando dessas palavras que havia ensaiado por anos pra dizer a ele. — Eles me ajudaram a esconder tudo mas não deixaram eu continuar em Nova York. Sabiam que no dia em que você saísse eu iria atrás de você, e era verdade. Me despacharam pra cá e eu até agradeci à eles, sabe? Se eu continuasse lá, todos os dias seria um inferno ver todos aqueles lugares pelos quais passamos. Todas as memórias.
Finalmente, ela sentou-se à mesa, parecendo meio incapaz de continuar em pé.
–Você se entregar... Essa foi a coisa mais estúpida que você fez em toda a sua vida. Mas foi também a mais nobre. De um jeito ou de outro, isso ferrou com a minha vida, seu babaca. — Ela riu tristemente. — E o mais engraçado foi que mesmo aqui, eu não conseguia esquecer você. Por que? Porque eu tenho um lembrete vivo que é apaixonado pelo Discovery Channel. Sim, todas as vezes que eu olhava pra Louise, lembrava que você ainda estava lá, esperando pra eu te contar a novidade. Isto é, se você ainda pensasse em mim.
–E por que não me contou? — Ele não resistiu perguntar. Annabeth o encarou por um segundo, seus olhos cinzas vazios e opacos, a expressão cansada.
–Porque eu não quis.
Um silêncio desconfortável pairou na cozinha. Dava até para ouvir o trânsito do lado de fora do apartamento.
– Eu não acredito. — Ele riu, nervoso. — Isso é tudo que vai dizer?
–Entenda uma coisa, Percy. Quando eu me mudei pra cá, já estava sendo ruim demais me lembrar de você todos os dias. Mas sabe, um dia, isso passou. Eu consegui me concentrar no meus estudos e arranjei um estágio, comecei até a sair com um cara. E então pensei, por que eu deveria contar à ele? Ele está seguindo com a vida dele e eu com a minha, nós nunca mais nos veremos de qualquer modo. Imagine como seria a vida se você soubesse: brigas diárias e você aparecendo no meu apartamento para buscar Louise pra passar um fim de semana por mês com você. O quão horrível seria? — Ela se levantou e se virou para ir buscar um copo dágua. Na verdade, queria esconder seu rosto para que ele não pudesse vê-la quando continuasse. — Não estava nos meus planos você aparecer aqui e vir atrás de mim, me atormentar.
Aquilo foi como um soco. Ele se sentiu ficar atordoado na cadeira, incapaz de dizer qualquer coisa.
–Ontem à noite foi um.. erro. — Annabeth tentou reunir forças para dizer aquilo que sua parte racional mandava, no entanto, seu coração estava se partindo lenta e dolorosamente. — Você me bagunçou por um tempo e eu o deixei entrar de novo em minha vida. Mas... Eu não quero que isso aconteça de novo.
Ela repôs a expressão fria e voltou para a mesa, levando o copo dágua. Percy parecia machucado demais pra falar qualquer coisa, e então ela continuou:
–Agora que sabe sobre Louise, vou te dar todos os direitos que você tem. Se quiser, pode sair com ela amanhã. Levá-la pra almoçar, ter um tour em Paris ou qualquer coisa. Conheça-a um pouco. Talvez essa seja a última vez que a verá.
–Por.. que? — Ele reuniu forças pra falar.
–Porque eu quero você fora da minha vida. Já me causou problemas demais. — Ela falou, com uma voz suave demais para a frase. Parecia que tinha ensaiado tudo aquilo, e agora dizia a ele, com o único objetivo de ferí-lo.
Ela abandonou o copo cheio na mesa e foi para o quarto. Percy ficou sentado lá, ainda incapaz de se mexer, sentindo tanta raiva e mágoa dentro de si que era como se estivesse pesado e não conseguisse se levantar. Pegou um cigarro no bolso e tentou acendê-lo mas não conseguiu segurar o isqueiro com suas mãos trêmulas. Jogou-o no chão da cozinha, com raiva.
A noite passada agora era apenas uma lembrança.
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