Percabeth - I Knew You Were Trouble
42 Capítulo 43
Notas iniciais
Ele ficou sentado ali, ouvindo o próprio coração bater. Parecia que seu corpo estava agindo por conta própria, quando bateu um punho na mesa com força. Annabeth batera a porta do quarto e se trancara lá dentro. Tinha abandonado Percy na cozinha, em um estado lamentavelmente catatônico.
Ele estava com uma mistura intensa de raiva e choque, contorcendo-se dentro de si. Queria ir até o quarto dela, arrombar a porta e gritar por mais explicações, mas ao mesmo tempo queria se ajoelhar em frente à ela e pedir que ela não o abandonasse, que não o tratasse como se tivesse sido um erro.
Franziu a testa quando alguém abriu a porta da cozinha. Ajeitou-se na cadeira, esperando que fosse sua — o quê? namorada? Ex? Transa de uma noite em Paris? Erro? — e então se deparou com arregalados olhinhos verdes, espiando-o.
Louise abriu a porta cautelosamente e entrou na cozinha, descalça, apenas com as meias cor de rosa no chão frio. Percy observou-a ir até a geladeira, abrí-la e tirar de lá uma jarra de suco maior que a sua cabeça, que carregou com todo o cuidado, meio desequilibrada até a mesa. Ergueu-se na ponta dos pés para alcançar a cadeira. Tinha trazido consigo um copo mas não conseguia levantar a jarra para colocar o suco.
Percy revirou os olhos impacientemente e pegou a jarra, erguendo-a facilmente e encheu o copo dela de suco de laranja. Ela murmurou um tímido obrigada, pegou o copo com as duas mãos e tomou o suco, encarando-o curiosa.
–Eu te avisei. — Disse, limpando a boca com a manga da blusa.
–Sobre o quê? — Ele a encarou, com os braços cruzados no peito. Ainda não sabia como agir com ela, depois daquela discussão. Deveria abraçá-la, dar-lhe um beijo na testa e dizer que a amava por ela ser sua filha? ou deveria fingir que não sabia de nada e agir do mesmo jeito que sempre agiu? Ele sequer conhecia a menina!
–Eu te disse mais de uma vez, — Ela continuou. — Que você era meu pai.
Percy não pode deixar de sorrir.
–Eu achei que era brincadeira ou uma confusão de criança.
Louise o fuzilou com o olhar, exatamente como Annabeth fizera há poucos minutos.
–Bobão. Quem não perceberia? Teria que ser muito lerdo mesmo... — Ela tomou outro gole do suco. — E agora, que a mamãe confirmou pra você, o que vai fazer? ir embora? Saiba que não sentirei nem um pouco sua falta.
Ela ergueu o nariz já empinado e Percy riu novamente, não deixando de pensar o quanto ela era idêntica à mãe.
–Sério? — Perguntou.
Louise abaixou o rosto e corou.
–Bom.. Não. — Disse, surpreendendo Percy. — Mamãe tinha contado uma história de que você era um pirata e se perdeu no mar mas aí vi no discovery que os piratas "legais" deixaram de existir há muito tempo sabe. Então ou era mentira, ou você era um pirata mal. — Ela fez um sinal de gancho com a mão. — Então acreditei na primeira hipótese. Sempre soube que você estava por aí.
–Por aí?
–Sim ué. Pelo mundo. — Deu de ombros. — Ou fora dele. Tipo um astronauta. Mas você não tem cara de astronauta. É muito magrelo.
–Ah, certo. — Percy segurou o riso e tentou parecer ofendido. — Mas por que você sentiria minha falta Louise? Acabou de me conhecer.
– Eu não acabei de te conhecer. — Ela murmurou, meio envergonhada. — Achei a foto de você com a mamãe no armário dela há anos e assim que te vi nela, sabia quem você era. Foi só ver os olhos, são iguais aos meus, viu? — Ela indicou os dois olhos com as mãos. — Enfim, eu peguei a foto e guardei debaixo do meu travesseiro. Mamãe nunca perguntou por ela, por que é claro, você não pode perguntar às pessoas sobre algo que elas não podem saber. — Ela deu uma piscadela. Era mesmo uma espertinha, afinal. — Então sim, eu sentiria sua falta, por que todos esses anos eu quis te conhecer e agora que a gente acabou de se encontrar, você vai ser um bobão e vai ir embora.
Percy a olhou, sentindo-se um tanto emocionado, mas sem demonstrar. Queria conhecê-la; Queria levá-la todos os dias à escola e vê-la crescer e aprender coisas novas; Queria protegê-la. Ele sabia agora que abriria mão de si para ela.
Talvez essa fosse a sensação de ser pai.
Ele só não sabia lidar com ela ainda.
–E se eu não for? — Murmurou cada palavra com cuidado e relutância, como se estivesse contado um segredo oculto de si mesmo. Olhou-a atentamente para perceber cada reação dela. Louise simplesmente arregalou os olhos e abriu a boca num sorriso meio chocado.
–Sério? — Ela colocou as mãos nas próprias bochechas rosadas.
–Sim. O que você acharia de eu ficar, Louise? -Ele soltou, num segundo de coragem absurda.
–Aqui em casa? — As sobrancelhas de Louise se ergueram ainda mais.
O sorriso de Percy desapareceu.
–Bom, eu não...
–Não importa! — Ela o cortou. — Eu vou te ver né? — Percy assentiu com a cabeça. — Eu vou achar ótimo, papai! Ops, desculpe... — Murmurou ela, ao ver uma surpresa passar pelo rosto dele. — Eu sei que não se acostumou com a ideia ainda.. Mas enfim! Vamos nos divertir muito!
Ela saltou da cadeira e foi correndo abraçá-lo. Ele ficou meio sem jeito, mas bagunçou os cabelos dela, fazendo-a rir alto.
E ele soube que ele ia querer ouvir essa risada pra sempre.
* * *
Ele andava pela rua enquanto uma garoa fina começava a cair sobre seus ombros.
Como ele iria ficar em Paris?
Não tinha casa, nem emprego, sequer dinheiro guardado. Talvez com a ajuda de Nico, pudesse se manter por uns meses. A questão era que ele tinha de ficar. Seu inconsciente não deixava que ele escolhesse.
Louise de repente pareceu ser a criança mais maravilhosa do mundo. O jeito como ela sorriu quando ele disse que ficaria... Ele queria vê-la sorrir assim para sempre. Ele queria vê-la para sempre. Agora sabia que nunca poderia abandoná-la de novo.
Combinou com ela de levá-la a um parque de diversões no dia seguinte. Ele descansaria bastante pra aguentar e prestar atenção na infinita faladeira da menina. Iria ouvir cada palavra que ela tivesse a dizer sobre a escola, sobre os documentários do discovery favoritos, sobre tudo. Queria conhecer ela em um dia o quanto deveria ter conhecido em sete anos.
Não sabia qual seria a reação de Annabeth ao ouvir Louise dizer o que se passara entre eles. Talvez ela ficasse com raiva, talvez chocada, mas não importava. Percy iria cumprir seu papel como pai de Louise, quer Annabeth quisesse ou não. (Mas, por precaução, ia preparar-se psicologicamente para outra possível briga no dia seguinte.)
Percy parou embaixo de um toldo de um café quando a chuva começou a ficar mais forte. Enquanto observava a rua, meio entediado, reparou num casal sentado em um restaurante. Com surpresa, percebeu que era Nico e Will. Os dois estavam com as mãos dadas por cima da mesa e ambos pareciam muito felizes. Percy não sabia o que pensar daquilo, mas sorriu ao ver que nico estava feliz. Talvez ele fosse contar à Percy depois. Não importava.
Quando a chuva diminuiu, Percy continuou seu caminho ao lugar onde tinha estacionado o carro noite passada. Assim que abriu a porta, lembrou-se do olhar feliz de Louise e do sorriso de Nico, conversando com Will. Tudo que conseguiu pensar era que, na verdade, a felicidade vinha das coisas mais simples possíveis.
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