Após dias andando em seus cavalos hunos rumo a oeste para o Reino dos Gépidas, eles finalmente avistam uma pequena cidade no horizonte.

—Até que fim um povoado! Não aguentava mais andar neste mundo vazio e sem esperanças. -Fala Arcmênidas.

—Calma, Arc. Não é porque encontramos um vilarejo que eles serão gentis conosco e nos acolherão para uma estadia de alguns dias.

—De qualquer jeito, nós precisamos tentar. Precisamos de abrigo e comida depois de gastar toda nossa disposição lutando e cavalgando sem mantimentos por incontáveis quilômetros de puro campo. -Fala Arthanna.

Eles andam por uns três minutos até que estão perto o suficiente da cidade para serem vistos pelos habitantes. Logo, um grupo de cavaleiros sai da cidade e vai de encontro aos nossos heróis.

-Auto lá, viajantes! Vocês estão entrando nos limites do domínio do rei Ardarico dos Gépidas. Digam quem são e o que querem aqui.

—Olha, eles falam nossa língua! -Exclama Marcius.

—Pelos deuses. Nós somos viajantes e só queremos alguns dias de estadia na sua vila.

—Além disto, estamos em uma missão de suma importância. -Fala Aurel.

—Hum... Pois então explique-se, forasteira.

—Não lhe diz respeito. A única pessoa que precisa saber é o rei dos Gépidas.

—E eu sou Thorismund, governador desta cidade e leal súdito do rei. E se querem vê-lo e descansar aqui, deverão nos informar qual é o assunto e a sua urgência.

—Pois bem. Nosso grupo diante agora de você, acabou de sair de uma cidade de hunos, onde vencemos uma batalha contra eles. Mas eles ainda não foram derrotados. Eles se aliaram a tantas raças que eu ficaria surpresa se você conhecesse um terço delas. Das profundezas inimaginávais da Cítia (Scythia) até o oriente próximo. De sármatas a ávaros. Foi um feito impressionante de fato. E junto a estas tribos, os hunos pretendem lançar uma invasão maciça às terras ocidentais e cumprir aquilo no que eles falharam há tantos anos: acima de tudo, conquistar o oeste. Eles pretendem iniciar esta invasão mais cedo do que imagina e os gépidas, seus súditos e suas terras serão os primeiros a sentir sua ira. Eles não pretendem deixar uma única mulher, homem ou criança gépida viva. -Fala Aurel.

—O quê? Ha ha. Os hunos foram derrotados por nosso povo e nosso exército, liderado pelo grande rei Ardarico, e fugiram para longe, se tornando vassalos de outras raças logo depois. Querem mesmo que eu acredite que no estado fraco no qual eles foram deixados eles tornaram suas aliadas tantas tribos e raças como você disse? E quer que eu acredite que um número diminuto de aventureiros como vocês derrotaram eles em uma batalha sozinhos? Lorota.

—Não foi bem assim que aconteceu, mas sim. O que eu lhe falei é verdade. Você precisa acreditar.

—Veja estes cavalos são cavalos hunos. -Fala Marcius.

—Tem razão. Eu percebo que são mesmo. Isto me faz acreditar que aquela raça tenebrosa esteja mesmo de volta.

—Ótimo. Então podemos ficar aqui?

—Claro que não. Não como convidados ao menos. Eu ainda não acredito na história de vocês. É bem provável em vez disso, que, se os hunos ainda existem, vocês sejam espiões deles, tentando de infiltrar no Reino Gépida para colher informações. Estão presos. Logo os guardas que estavam ao lado de Thorismund vão em direção aos heróis.

—O quê? Vocês são burros? Não percebe que somos sua única esperança contra aqueles seres infernais e querem nos prender? -Grita Arthanna.

—É melhor não resistirmos. -Fala Marcius.

—Por quê? Acabaríamos com todos muito facilmente! -Fala Arcmênidas.

—Talvez. Mas é melhor não arriscar. Além disto, precisamos da simpatia do rei, o que não iremos conseguir matando seus guerreiros.

—E seu plano é ser preso até que os hunos invadam, sem termos feito nada?

—Pergunta Arcmênidas indignado.

—Não. Mas nós vamos dar outro jeito. De sair daqui. Assim, eles são presos e levados até uma masmorra ao lado do palácio. Lá, eles são privados de suas armas, que são jogadas em uma sala separada. Eles então são todos divididos em três selas. Gunnar fica com seus compatriotas nórdicos que eram onze quando eles entraram no acampamento huno e agora eram dez. Arc. fica com seus homens e o restante fica na última.

—Aí Gunnar, ser preso era parte do plano?

—Creio que não, Valgard. Mas não se preocupe, podemos usar este tempo aqui para continuar aprendendo a língua destes forasteiros. Eu estou quase decorando estas malditas declinações do latim.

—Aí, e o que nós podemos fazer para sair daqui, senhor Thorismund? -Pergunta Aurel ao líder.

—Pelas nossas leis, vocês só têm que renunciar suas intenções malignas e nós prover a informações de onde seus soberanos hunos estão e onde planejam atacar.

—Mas era esta última parte que nós viemos fazer em seu reino! Mas precisamos reportar isto ao rei!

—Esqueçam. Vocês não ganharão autorização para ver o rei. Se quiserem sair, deverão reportar tudo a mim e assim, ir embora deste reino por bem.

—Suas leis são ridículas! Está nos prendendo sem nem ao menos fornecer-nos um julgamento adequado! -Fala Marcius.

-Em tempos de guerra como estes, não existem suspeitos, apenas culpados. -Fala o chefe indo embora, finalmente.

-Tá bom, e agora, qual o plano? -Pergunta Nikos. -Não sei, mas deveríamos fazer algo logo. Os hunos lançarão suas invasões em breve. Fala Aurel.

—Se quisermos dar um jeito de cumprirmos nossa missão a tempo, deveríamos fugir pelo menos hoje à noite. -Fala Marcius.

—Eu concordo.

Logo após algum tempo, um guarda que vigiava as celas passa por nossos heróis presos conversando com outro guarda na língua gépida. Aurel consegue entender algumas palavras, devido ao fato da sua língua de nascença ser muito similar.

—Pois é. Hoje à noite o chefe Sigisbert, segundo em comando da cidade e sua mulher daciana irão até Sirmium.

—E o que eles farão na capital?

—Foram convidados para a corte do rei Ardarico pelo próprio. Acredito que ficarão algum tempo antes de voltarem.

—Que grande honra para ele.

Após ouvir aquilo, Aurel fala:

-Pessoal, tive uma ideia!

-Diga, Aurel. -Fala Arcmênidas.

-Um dos governadores da cidade vai para a capital do reino amanhã. Só precisamos dar um jeito de capturar ele e nós disfarçarmos como ele.

—Mais disfarces? E como vamos todos nós nos disfarçar todos nós de apenas uma pessoa?

—Aí que está o problema. -Fala Aurel.

—Acho que apenas dois de nós poderemos escapar. O resto ficará aqui esperando os outros voltarem.

—Mas que ideia ridícula! -Fala Arcmênidas.

—Não, acho que pode funcionar. -Fala Marcius. -Vamos tentar.

Ao entardecer, Marcius fala: -Acho que já é uma boa hora para o plano. Não podemos nos atrasar muito.

—Certo! -Responde Aurel. -GUARDAS!

O guarda da masmorra escuta e fala:

—O que é, prisioneira?

—Nós desistimos desta vida. Iremos entregar a intenção dos nossos soberanos hunos.

—Finalmente! Sabia que iam acabar não aguentando pois os hunos contratam os piores mercenários, mas não sabia que iria ser tão rápido. -Ele zomba se aproximando da cela. -Muito bem, eu vou querer apenas a mulher ruiva e o homem de barba negra! -Fala ele apontando para Arthanna e Arcmênidas.

—Parece que vocês foram os escolhidos. -Fala Aurel. -A partir de agora contamos com vocês, pois são nossa única esperança.

-Pode deixar, Aurel. Não falharemos.

Assim, eles são levados para fora da cela com cordas segurando seus braços.

-Apressem-se, corjas. -Fala o guarda, acompanhado de outros dois.

O grego e a bretã dão um pequeno sorriso e se viram para o guarda.

—Que tipo de piada é essa? Não se esqueçam que estão com os braços amarrados. Não me obriguem a usar minha espada contra vocês! Assim, Arcmênidas dá uma cabeçada no guarda principal, fazendo-o cair inconsciente. O outro guarda corre para fora para chamar ajuda e o grego o persegue, até que dá uma rasteira nas pernas do homem, fazendo cair com tudo no chão. Arc então, pisa na sua cabeça, nocauteando-o. Arthanna desvia das espadadas do terceiro guarda com sua agilidade inigualável e acerta um chute no seu queixo, fazendo-o cair também.

—Devemos matá-los? -Pergunta Arthanna.

—Não. Eles ainda precisam estar vivos para alimentar nossos amigos. Eles então usam as espadas para cortar as cordas que estavam amarrando seus braços e fogem da prisão. Do lado de fora, eles vem o chefe Sigisbert e sua mulher indo em direção à carroça que iriam usar para ir a Sirmium. Eles se aproximam sorrateiramente por trás deles nas sombras da noite com poucas fogueiras e tochas iluminando e agarram seus pescoços, asfixiando-os até sua morte. Eles jogam os dois corpos sem roupas externas na carroça e vestem suas roupas, subindo na carroça e partindo para Sirmium logo depois.

—Sabe como chegar nesta cidade? -Pergunta Arthanna.

—Sim. Eu sei. Tem um mapa dentro desta carroça, felizmente, mostrando todas as cidades e estradas do reino.

—Graças a Deus. -Fala Arthanna.

Assim eles partem com a carroça rumo a oeste, abandonando aquela pequena cidade.

A quilômetros a leste dali, de volta à cidade principal dos hunos, os guerreiros ainda tentam lidar com as perdas catastróficas que haviam sofrido. Eles ainda estavam enterrando seus mortos, junto ao líder Leozir e o segundo em comando, Rekarius, quando avistam um pequeno exército se aproximando. O líder deles se encontra com Leozir.

—Meu senhor supremo, Leozir! Rei dos hunos e supremo líder do mundo. Eu sou Rustam, filho de Ildar, o antigo rei dos búlgaro e general do nosso exército. Ele estava na reunião e foi morto pelos guerreiros misteriosos. Eu agora sou o novo rei dos búlgaros e comando todos os milhares de clãs guerreiros que compõe a nossa tribo. Assim que eu ouvi sobre estas desastrosas notícias eu reuni todo meu exército e mandei a mensagem para as outras tribos em seus acampamentos.

—Saudações, Rustam. É realmente uma perda catastrófica a que sofremos ontem. Mas eu juro, que não descansarei até que eu encontre os guerreiros misteriosos que se infiltraram na nossa reunião e fizeram isto! Eles pagarão muito caro!

—Motivador, Leozir. Mas não é isto que eu, como filho de Ildar queria escutar. Eles também mataram meu tio e muitos amigos meus. Eu quero respostas. Para meus exércitos continuarem sob seu comando, quero chegar no fim deste mistério.

—Eu compreendo, Rustam. E eu como o poderoso líder que sou, lhe providenciarei isto. Que respostas você busca?

—Eu quero saber quem foi o culpado pelos malditos guerreiros misteriosos terem se infiltrado na reunião. Eles não têm poderes sobrenaturais para terem realizado tal feito sozinhos. Alguém que sabia do que nós sabíamos, alguém deste acampamento deve tê-los ajudado. E quero que descubra quem foi e faça-o pagar.

—Eu sem dúvidas realizarei sua requisição. Mas não ache que pode demandar tais coisas de mim neste tom, companheiro. Se quer suas terras, suas mulheres, seu tesouro, e sua glória, continue a entender seu lugar perante o líder dos hunos e seu líder.

—Meu senhor, se me permite. -Fala Rekarius. -Mas acho que posso ajudar nesta questão. Por acaso você se lembra do líder dos veneti? Ele foi o único dos líderes da reunião que não foi morto. E se lembra quando ele pediu a você que discursasse na língua dos veneti? No meio daquele caos, eu vi que quem começou a matar todos os líderes se vestia em roupa veneti. Então ele estava sob o comando de Dragomir. Foi ele quem os ajudou a fazer este massacre.

—Dragomir? O líder supremo dos veneti? Não pode ser! É um dos meus melhores aliados! Seus homens são vitais para nossas campanhas.

—Bem, você terá que fazer algo com ele. É o que todos querem. Todos demandam justiça! -Fala o líder búlgaro. -Pelo Céu Azul!! Você está certo, Rustam. Farei isto. Ele se arrependerá de ter feito o que fez.

Assim, Leozir e Rekarius começam a subir a colina rumo à cidade. Chegando lá, se deparam com Dragomir com seus homens bebendo cerveja e rindo ao redor da fogueira central. Leozir aparece empurrando os veneti com brutidão do seu caminho para chegar ao seu líder.

—Se divertindo, Dragomir?

—Ah, Leozir... O-o que faz aqui? Tem alguma coisa a tratar comigo? Ou quer apenas se divertir conosco?

—Não é momento para diversão! Nós sofremos um desastre. E o culpado é você!

—Eu?!

—Sim, não se faça de tolo. Sabe do que estou falando. Os guerreiros que causaram o massacre. Você sabe quem eram? Eram os guerreiros veneti com quem você conversou. Você os contou como chegar na reunião. Você os disse como chegar na nossa cidade. Se não fosse por sua culpa, nada disto teria acontecido!

—Ma-mas senhor! Eu não tive culpa! Eles falavam veneti! Eles falavam com um sotaque estranho, é verdade, mas só estava sendo cordial e tentando ajudá-los! Como eu iria adivinhar que eles não eram quem alegavam ser?

—Isto não interessa!

—Não interessa?!

—Você é o maior culpado pelo desastre de ontem, Dragomir. E deve pagar! Espero que seus homens estejam cientes!

—O que você vai fazer com nosso chefe? Saiba que não podemos permitir que faça nada com ele. -Fala o seu braço direito.

—Seu chefe foi o único dos grandes líderes que não morreram ontem. Provavelmente como gratidão dos inimigos por tê-los ajudado a se infiltrarem em nossa reunião. Suas tribos devem sentir a mesma coisa que as outras sentiram.

—Não podemos deixá-lo fazer isto! Ele não teve culpa. Os inimigos o enganaram!

—Pois bem. Eu sou um líder misericordioso. E não posso perder mais generais. Mas ele ainda deve ser punido pelo que fez. Então eu declaro que ele foi sentenciado a levar vinte chicotadas!

Assim, os líderes hunos puxam Dragomir do meio de seus homens sem oposição e o levam ao grande poste no espaço central da cidade, e o amarram com os braços para cima e sem camiseta.

—Por favor, lorde Leozir. Vamos punir estes guerreiros misteriosos quando encontrarmo-nos. Eu os matarei com minhas próprias mãos! Mas me punir com chicotadas na frente de meus próprios homens e das outras tribos não é a resposta! -Fala Dragomir desesperado.

—Silêncio! Você merece isto! Além disto, os outros senhores tribais querem uma resposta imediata para a situação. Eles querem um culpado punido pelo que aconteceu.

—Ah, claro. Você está preocupado com as pressões de seus próprios supostos súditos. Será que todo este medo de perder a liderança deles é porque você não é você o líder legítimo dos hunos, mas sim Rekarius? Rekarius, neto de Ellac, primogênito de Átila, enquanto você é meramente neto de Bleda, irmão do antigo rei huno! O direito ao trono não é seu.

—Silêncio agora, verme.

—Ainda não entendo como Rekarius aceitou ser súdito do homem que assassinou o seu próprio pai e tio para roubar seu trono!

—O pai e o tio de Rekarius eram líderes fracos! Eles não tinham a visão para o futuro dos hunos que eu tenho. Queriam uma vida pacífica para nosso povo. Queriam aceitar o status de vassalos de outras raças, pois achavam que não era possível nos nos reascendermos ao poder. Eu sabia que era tudo idiotice e fiz o que devia ser feito. E Rekarius entende isto. É o que precisava ser feito!

—É isto mesmo, seu rato! -Reponde Rekarius. -E por sua tentativa de espalhar discórdia, sua pena será aumentada para 80 chicotadas!

—Isto mesmo, Rekarius. Vamos nos deleitar agora com o sofrimento deste miserável. Meus homens! Este é o homem responsável pelo desastre que nos assolou ontem. Para que todos vejam que eu não deixo ninguém impune por suas injúrias, ele será punido. E eu decreto que em luto, nossa invasão será adiada em uma semana! Assim, na frente de quase todos os guerreiros que ocupavam aquela cidade, Dragomir recebe uma chicotada dolorosa após a outra enquanto todos lá gritam fervorosos e, depois de um longo tempo de dor, finalmente seu castigo acaba, deixando suas costas em puro sangue e machucado. Após o doloroso castigo, ele é levado incapaz de andar e quase desacordado pelos guerreiros hunos para a frente de sua cabana.

—E fique aí pensando nas suas atitudes por um tempo. -Fala Rekarius.

—Você é ridículo. Um cachorrinho do Leozir sem visão. Tenho nojo de você.

—Silêncio. Fique aí jogado como o fracassado que você é. -Fala ele indo embora depois de cuspir no chão e colidindo de propósito com um guerreiro veneti que se aproximava.

—Senhor, não é desta maneira que um líder como você deveria ser tratado. Nós escolhemos nos aliar aos hunos sob a sua liderança achando que seríamos cobertos de glória. Não de ver nosso líder humilhado.

—Mas não ficará assim. Se estiverem todos os meus homens ao meu lado, eu digo que a gente deixe esta aliança com os hunos e nos rebelemos! Tal humilhação terá uma resposta!

—Senhor, pode parecer loucura, mas queremos punição ao desgraçado do Leozir. Nós estamos com você!

—Pois bem.

Enquanto isto, no império Romano, em Ravenna, no palácio imperial, uma comissão de mensageiros alamanos chega. Eles são levados até o centro do palácio para uma audiência com o governante do Império Ocidental, Flávio Orestes. Eles aguardam um tempo, até que Janus anuncia a chegada do seu líder, que aparece na sala e se senta no trono imperial, e manda que os alamanos falarem.

—Saudações minha adorada raça dos romanos, meus senhores. Eu sou Armunt, mensageiro dos alamanos e venho humildemente com esta comissão e com presentes de boa-fé, perante o homem mais poderoso do Oeste, aquele que se senta no trono romano, em nome do rei Gundoric, que lhe apresenta uma proposta que acabará com nossas guerras sem sentido.

—Pois bem bárbaro. Como hoje estou entediado, aceitarei ouvir o que seu rei tenha a dizer.

—Bem, o rei Gundoric sabe tão bem quanto vocês que a guerra entre nós não nos beneficia em nada. Bons homens acabam mortos o tempo todo e sem uma causa verdadeira. Vilas são saqueadas e abandonadas a todo o momento. Mas o rei sabe como acabar com esta guerra sem sentido. Há algum tempo, caiu em nossas mãos ninguém mais ninguém menos do que o próprio Imperador de Roma. Romulo Augusto é seu nome e ele é mantido refém na corte de Gundoric, sendo bem tratado a todo o tempo. O rei no entanto está disposto a entregar o imperador ileso para de volta do Império, cessar as guerras e ataques imediatamente e servir como seu fiel vassalo pelo resto da sua vida e da de seus sucessores, além de lhes fornecer quantos soldados precisarem para suas outras guerras. Além disto, lhes poupamos da exigência de um resgate pelo imperador. A única coisa que o os alamanos pedem em troca, é que nos concedam a região que vocês conhecem como Gália Cisalpina para habitarmos pacificamente. Vocês podem aceitar esta generosa oferta, ou podem recusá-la, mas se se recusarem, o rei verá isto como um sinal de desrespeito e hostilidade e vocês tem a promessa de que ele irá recorrer à guerra novamente. Os conselheiros começam a discutir em voz alta sobre a proposta.

—Temos que aceitar. O império não aguenta mais guerra. Além disto eles tem o imperador. Ele é seu filho, Orestes! -Fala o Mestre da Cavalaria.

—Sim, mas se concedermos estas terras, ficaremos ainda mais fracos! -Fala outro ministro.

—Não podemos aceitar nenhuma proposta vinda destes seres selvagens! Eu estive no sul lutando contra eles com minhas tropas. Eles causaram muitas mortes e destruição. Não são confiáveis! -Fala um conde.

—Mil perdões, senhor. -Fala um duque que se levanta. -Mas acredito, assim como muitos de meus companheiros também acreditam, que Roma está decaindo é pela grande quantidade de guerras civis que temos lutado ultimamente, além da constante corrupção. Talvez o que precisemos seja paz com mais uma tribo e mais soldados para suprir a falta que as guerras nos trouxeram.

—Bonito discurso, meu amigo Sejanus Olivius. -Volta a falar Orestes. -Mas o que você supõe é uma piada. Não aprendemos nada com a história? -Continua Orestes. -Se esqueceram de quando os visigodos receberam vastas terras na Aquitânia como federados há cinquenta e oito anos, durante o reinado de Honório sob a promessa de paz? Isto fez com que eles entrassem em paz com os romanos? Não. Após receberem aquelas terras, eles não perderam tempo para nós trair e se expandir muito além dos territórios que eles receberam e hoje são poderosos rivais. Ou talvez se lembrem dos Vândalos. A eles concedemos o direito legítimo de ocupar Cartago e todo o território da África e eles nos responderam com uma imensa e terrível pilhagem e destruição à nossa sagrada cidade de Roma. Não se esqueçam também dos Burgúndios aos quais nós, romanos, demos permissão para que se estabelecessem um reino na Gália há 60 anos e isto não os impediu de realizarem saques e pilhagens em território romano. Entre estas e muitas outras traições e quebras de acordos o que faz vocês acreditarem que logo com os alamanos seria diferente? Esta que é a mais selvagem e pagã das tribos bárbaras do alto Reno! Dar terras a eles dentro do império não adianta pois eles não sabem se comportar como clientes!

—Perdão, meu senhor, mas se estes são os problemas, o rei também falou que está disposto a se converter à sua fé e prestar tributos anuais ao Império caso aceite sua proposta. -Fala o mensageiro.

—E desde quando podemos contar com a palavra de um bárbaro? É impensável ceder a Gália Cisalpina. É impensável ceder um hectare que seja de terras públicas na Itália para bárbaros! Deixá-los mais perto de Ravenna e perder as férteis e vastas planícies do Pô? Só um insano para aceitar semelhante acordo! -Alguns apoiadores gritam concordando.

—Você se esquece, Orestes, que foi esta mesma atitude sua que fez com que o exército de Odoacro se rebelasse contra você e contra nós! Negou terras que havia prometido a eles, após eles lutarem e morrerem ao seu lado para pô-lo no trono.

—Eu nunca deixaria que mais uma figura tão influente entre romanos e bárbaros ganhasse mais influência e poder na Itália. Não tenho dúvidas que tomei a decisão certa.

—Suas intenções são boas, Orestes. Mas eu, como como Mestre Doméstico, não pude deixar de reparar em alguns furos nos seu plano. -Fala um dos homens na corte. -Como você planeja lutar contra os hérulos de Odoacro e contra os alamanos ao mesmo tempo?

—Se eu posso falar, meus soberanos, mas o rei dos Alamanos já tem ciência de sua luta contra os Hérulos, e ele promete dar um fim rápido a eles caso aceite sua proposta. -Fala o mensageiro alamano. -E para que você tenha certeza de que ele cumprirá todas as promessas do acordo, ele está disposto a entregar 50 reféns alamanos por um prazo de 5 anos e todos os prisioneiros de guerra romanos que foram capturados nas guerras. Orestes dá uma risada e fala:

—Vocês são insistentes mesmo não é mesmo? A resposta ao seu rei é não. E esta é a decisão final. Sob meu governo, mais nenhum acordo será feito entre Roma e bárbaros.

—Que pena. O rei Gundoric tinha plena certeza que qualquer homem sensato aceitaria a sua proposta. Especialmente considerando que ele tem em custódia o imperador Rômulo Augusto e que assegurou que terminará sua vida em caso de ser recusado.

—Está ameaçando de matar meu filho? -Pergunta Orestes.

—O rei será obrigado. Nenhum rei que mereça sua coroa aceitaria tamanho desrespeito sem resposta.

—Pois bem. Eu amo meu filho e faria qualquer coisa por ele. Ele é o futuro de Roma. Me dê algum tempo para deliberar sobre sua proposta. Amanhã você terá sua resposta.

—Certo, ó grande poderoso Mestre dos Soldados Orestes. -Fala o mensageiro. -Tenho certeza de que amanhã você fará a escolha certa. -Ele solta como últimas palavras, indo embora, com sua comissão sendo levada a aposentos na cidade.

Durante a noite, em uma janta numa grande mesa de banquetes, Orestes está comendo e sentado à sua frente, está Janius Petronius.

—Ah Janius. O que eu devo fazer? Perder meu filho ou perder a Itália para bárbaros.

—Eu não sei, meu senhor. Mas garanto com você que se abrir mão da Galia Cisalpina, o Império do Oeste estará a um paço de deixar de existir de uma vez por todas.

—Sim, eu sei disto. Isto é tudo culpa do Aquilius! É por culpa dele que meu filho foi capturado pelos alamanos!

—Sim, mas Marcius Aquilius é o melhor guerreiro que Roma tem a oferecer e meu grande amigo. Sei que se o perdoarmos podemos fazer ele realizar grandes coisas por Roma ainda.

—Sim. Marcius Aquilius é o maior guerreiro desde Aécio. Talvez até maior, mas agora não podemos voltar no tempo e eu tenho uma ideia.

—E qual ideia, meu senhor?

—Vamos aceitar a proposta dos alamanos. Isto nos dará mais tempo. Para assinar o tratado de paz pediremos que os alamanos venham para a Itália com seu rei e meu filho. Faremos uma grande festa e então, quando estiverem todos distraídos, nós esfaqueamos todos os alamanos ali presentes, inclusive o rei. Assim, recuperamos meu filho e não precisaremos ceder o território da Itália.

—Nos voltarmos contra os bárbaros após selarmos um acordo? Mas este não é o jeito romano! Estaremos agindo como os próprios bárbaros! -Esta Roma da qual está falando já não existe há muito tempo, meu caro amigo

. Se quisermos que Roma sobreviva, temos que nos adaptar aos tempos atuais.

—Espero que seu plano funcione, meu senhor.

Enquanto isso, na carroça de Arcmênidas e Arthanna, durante a manhã, eles começam a avistar uma grande cidade ao longe.

—Aquilo lá é a capital do Reino Gépida no final das contas. -Fala Arcmênidas.

—Finalmente. Mas até que foi uma viajem curta. Só uma noite. -E é uma bela cidade essa, diga-se de passagem. -Fala Arcmênidas. A cidade de origem romana possuía enormes paredes ao redor dela toda e um enorme portão de entrada. Eles atravessam uma ponte sobre um rio para chegar até ela. Ao redor da cidade existiam várias fazendas de trigo e gado, além de alguns vilarejos. Quando entram na cidade, eles se deparam com um grande hipódromo e um grande aqueduto onde pessoas pegavam sua água. Havia várias casas romanas também e no centro da cidade, um enorme palácio com três andares. Eles entram no salão principal, que era vasto e veem uma corte cheia de pessoas. Muitas pessoas possuíam itens de ouro no corpo, mulheres utilizavam brincos de ouro, e alfinetes de prata em suas capas, bem como braceletes e colares de ouro. Os homens não eram muito diferentes em seus acessórios dourados.

—Puxa, esse pessoal é rico. -Fala Arcmênidas.

—De fato, a riqueza destes gépidas é impressionante. -Responde Arthanna.

Eles vão à presença do rei, sentado em seu trono com a rainha sentada no trono ao lado.

—Saudações, meus convidados. Fico feliz que tenham chegado! -Fala o rei. Arcmênidas e Arthanna tiram seus disfarces e se revelam, deixando o rei surpreso.

—Espera! Vocês não são as pessoas que eu mandei chamar na aldeia! Quero que se livrem destes impostores agora! -Fala o rei.

Os guardas com lanças se aproximam dos nossos heróis desarmados. -Qual é? Dez guardas armados contra duas pessoas desarmadas é covardia. Pelo menos se livrem das armas! -Fala Arcmênidas.

—Como quiser! -Fala o chefe de segurança, ordenando que os guardas largassem as armas.

Eles vão todos para cima de Arcmênidas, que usando toda a sua habilidade espartana, nocauteia um após o outro. Arthanna também derrota seus oponentes desviando de seus golpes e acertando golpes precisos no pescoço. Logo estão todos os guardas nocauteados.

—Já basta! -Fala o rei.

—Estes impostores ousam se infiltrar na corte do rei disfarçados e derrotar meus guardas na minha frente? Eu sou o rei Ardarico! Rei dos gépidas, senhor da Dácia e da Panônia e derrotador dos Hunos! Líder do maior e mais próspero dos reinos germânicos do Leste e até o Imperador Romano do Leste reconhece nossa grandiosidade e nos presenteia com dotes todos os anos. Se tivessem noção de tudo isso pensariam duas vezes antes de tomarem tal ação.

—Mil perdões, senhor! Mas tudo isto que fizemos foi por uma boa causa! Eu sou Arcmênidas de Esparta. Esta é minha companheira, Arthanna, da Bretanha. Estamos aqui para lhe avisar de uma calamidade iminente ao seu reino. Os hunos estão de volta e prontos a conquistar todo o reino gépida e atacarão vocês em pouco tempo.

—Neste momento devem estar a uns 300 quilômetros a leste e marchando direto para cá. -Continua Arthanna.

—O quê? Mas isto é impossível! Os hunos foram derrotados há duas décadas pelos gépidas sob o meu reinado!

—Sim! O rei Ardarico foi súdito dos hunos uma vez, mas se rebelou contra eles e os derrotou vinte e três verões atrás. O rei Ellac, filho de Átila foi morto no combate e eles se fragmentaram em várias partes. E agora você está dizendo que eles retornaram? Isto é algum tipo de comédia?

—Não, meu senhor! Não é nenhum tipo de comédia. Nós adentramos seu reino para lhe avisar desta invasão, mas fomos presos em uma das vilas da fronteira porque o chefe Thorismund pensou que fôssemos os próprios hunos e não nos deixou vir falar com sua alteza. Então nos disfarçamos como oficiais gépidas e viemos escondidos. Esta é a verdade. -Fala Arthanna.

—É, esperamos que você fosse mais esperto que o seu súdito e acreditasse em nós.

—Haha. Vocês realmente acham que o rei vai deixar de se preocupar com os nossos inimigos atuais para ouvir aos delírios de estrangeiros loucos sobre um atacante imaginário? -Fala o conselheiro real, Nadmund.

—Sim. No momento nós estamos em estado de guerra com os Ostrogodos. Várias e várias vezes eles tentaram tomar Sirmium, e todo o nosso território ao sul do Danúbio. Precisamos manter nossos esforços para mantê-los longe! Se eles perceberem que estamos nos concentrando em outro inimigo eles podem atacar a qualquer momento.

—Bem, mas talvez se os Ostrogodos souberem da volta dos hunos, eles se aliem a vocês e vocês podem esquecer esta rivalidade por ora.

—Você tem que entender que não posso me arriscar a lutar contra um inimigo que não sei se existe.

—Tudo bem, então talvez isto prove a você. -Fala Arcmênidas lançando algumas moedas de ouro na direção do rei. As moedas caem no colo de Ardarico e ele as pega.

—Impossível! Uma moeda huna! Este rosto não é de Ellac nem de nenhum rei anterior a ele. Mas as características físicas são inconfundíveis. Não há como ser de nenhuma outra raça!

—Sim. Este é o rosto de Leozir, o atual rei dos Hunos. E ele não está só. Ele conseguiu fazer com que incontáveis tribos das profundezas da Cítia se unissem a ele. E tamanha aliança requer uma aliança ainda maior do outro lado. E precisam agir logo.

—Ela tem razão querido. Você precisa recrutar outras tribos para lutar ao nosso lado contra os hunos. Mande uma mensagem ao rei dos Ostrogodos.

—Sim! Não só dos ostrogodos, como também dos alamanos, dos turíngios e dos lombardos! Foi uma aliança de povos que derrotou os hunos da primeira vez e será uma aliança de povos que derrotará eles novamente!

—Isso! Sabia que faria a coisa certa, sua alteza! -Fala Arthanna empolgada.

Alguns dias depois, na tribo alamana:

—Meu senhor, os mensageiros alamanos chegaram de sua missão. -Fala um homem no salão real.

—Excelente! E estão todos vivos?

—Cada um.

—Sabia que o amor de Orestes pelo seu pequeno filho faria sua consciência falar mais alto. Logo os mensageiros se encontram com o rei.

—Saudações meu senhor!

—Quais as notícias de Roma?

—Orestes concordou com o acordo de paz e quer que você se apresente em Ravenna para assinar o tratado e celebrá-lo com uma calorosa festa.

—Ora, o que ele pensa que eu sou? Alguma espécie de idiota? Até parece que vou entrar em Roma com o filho de Orestes para ele me matar e reaver seu filho sem consequências.

—O que devemos dizer para eles, majestade?

—Diga que o encontro entre nós deve acontecer fora de território romano e que seu filho permanecerá como refém e não estará no encontro do acordo. E diga para não abusar de minha paciência com mais uma de suas táticas de enganação. Se ele não aceitar tais termos, terá guerra.

—Senhor, conhecendo Orestes como acho que conheço e tendo ele seu temperamento deveras estourado, acredito que se ele esgotar sua paciência, é capaz de ele abrir mão da vida do próprio filho e mandar as cabeças de nós três como resposta ao seu ultimado. E se você matar o Augústulo, perderá seu poder de barganha sobre os romanos.

—Eu não ligo. Se as cabeça de vocês voltarem como resposta, a cabeça de Rômulo irá como a minha e nós batalharemos e conquistaremos toda Itália e faremos de Roma a nossa capital! Vamos ver quem de nós dois tem menos paciência. Agora v... -Antes que Gundoric pudesse terminar sua frase, outro mensageiro aparece a cavalo, desta vez um mensageiro estrangeiro.

—Saudações ao rei dos alamanos, Gundoric. Eu sou o mensageiro do reino dos gépidas e trago uma mensagem de meu rei Ardarico.

—Mas que droga! O que seu rei quer de mim?

—O rei acaba de descobrir que os hunos voltaram e precisará da ajuda de várias tribos para se opor a eles.

—Mas que porcaria! Estou preocupado com meus próprios problemas e você vem com esta idiotice de que os hunos voltaram de novo?

—Você precisa acreditar! O rei Ardarico é tão cético quanto você. Ele não pediria ajuda sem um bom motivo. Sua ajuda é vital. Precisamos de cada homem de cada tribo que puder lutar contra os hunos, pois seu exército é maciço. Aqui está a prova. -O homem dá uma moeda huna para Gundoric.

—Não pode ser!

—Senhor. Foi sua filha a primeira a avisar da presença dos hunos. Acredito que deva dar o seu voto de confiança a Aurel. Afinal, ela é sua filha e nunca falhou com você antes. -Fala um conselheiro de Gundoric.

—Por todos os deuses! Muito bem. Mobilizarei um exército. Mas é bom você estar certo!

De volta à vila onde nossos heróis estão presos:

—Eu não suporto mais isto! -Fala Marcius. -Já faz três dias que Arcmênidas e Arthanna fugiram e ainda não voltaram.

—Calma Marcius. Eles vão conseguir! -Acalma Aurel.

—Mas e se não conseguirem? Os hunos virão e invadirão sem que possamos fazer nada!

—Eu confio nos nossos companheiros. Você deveria fazer o mesmo. Logo eles escutam um grande são de marcha se aproximando. Após um tempo se passar, Arcmênidas entra sela.

—Arcmênidas, meu amigo! Você está de volta! Conseguiu!

—Sim. Eu fui bem-sucedido na minha missão. Eu e Arthanna, é claro. Agora está na hora de vocês saírem daí e se equiparem. -Arcmênidas tira sua Xiphos da bainha e destrói as trancas da prisão com um golpe. Eles vão até outra sala onde estavam guardadas suas armaduras e armas e as recuperam.

—Agora venham. Vamos lá para fora, pois há algo que precisam ver. -Fala Arthanna.

Eles saem da masmorra e se deparam com o rei Ardarico na sua frente. Atrás dele, havia um enorme exército.

—Saudações, guerreiros. Vejo que são os aliados do homem e da mulher que foram ao meu palácio. Fico grato por terem descoberto a ameaça dos hunos e nos informado.

—Olá, sua alteza. Fico feliz que fale latim. Sim, detectamos. Mas não teríamos feito isto se não fosse esta alamana, Aurel.

—Sim, fui eu quem descobriu.

—Ótimo. Trouxe meu exército, reunido com muito esforço. Mas estamos prontos para impedir os hunos finalmente. -Fala o rei.

—É honorável, meu rei. Mas temos apenas o exército gépida sob seu comando? Me desculpe, mas isto não irá ajudar contra os exércitos dos hunos. Eles são gigantescos. Há incontáveis nações bárbaras aliadas a eles, cada uma com um exército tão grande quanto o seu.

—Não precisamos nos preocupar com isto. Vocês têm um espartano ao seu lado. Eles não. -Fala Arcmênidas.

—Gostei das palavras deste homem. -Fala Ardarico.

—Muito bem. Se esta é a vontade de Deus, então que assim seja. -Sim. Acho que é a vontade de Deus, meu caro amigo romano.

—Fala o rei. -Também ouvi que você é o maior general do Oeste. Terei o maior prazer de colocar todo o meu exército e meus comandantes sob o seu comando.

—Você me cederia esta honra, grande rei Ardarico?

—Claro. Estamos em suas mãos agora.

—Não sei se consigo segurar este fardo novamente. Mas vou tentar.

—Não sei o que lhe aconteceu para ficar tão hesitante em comandar um exército, mas vamos montar a reunião estratégica logo. Não temos tempo a perder. Logo, estão todos reunidos em volta de uma mesa estratégica com um mapa da região.

—Muito bem, temos que esperar os hunos nesta região. -Fala Marcius apontando para um pouco a leste da vila em que estavam.

—E o que o faz achar que os hunos atacarão ali, general romano?

—Considerando que esta vila é o único ponto urbano entre as montanhas dos cárpatos e rio Danúbio por onde os hunos podem passar para chegar da terra dos sklaveni e a Dácia, onde fica seu reino, os hunos terão inevitavelmente passar por aqui, ou terão de cruzar os Cárpatos e depois invadir a capital pelo Norte, o que seria muito mais perigoso e demorado.

—Certo.

—Nós esperaremos os hunos há alguns quilômetros à frente da cidade e escolheremos o topo de uma colina para abrigar a vanguarda do exército. Além disto, precisamos de algum artifício para adquirirmos vantagem contra os hunos. E eu planejo uma grande construção.

—Puxa e que tipo de construção?

—Eu lhe mostrarei.

Enquanto isto, os hunos se preparam para marchar, em sua capital.

—Os últimos grupos do grande exército já estão chegando, Leozir.

—Ótimo. Assim que os últimos homem chegarem para se agruparem na cidade, avançaremos para dizimar a capital dos gépidas e qualquer cidade que encontrarmos em nosso caminho. Lembre-se...

—Não deixar nenhum homem mulher ou criança gépida viva. Eu sei. E os cavalos perdidos? Os líderes dos exércitos precisam estar montados e não há cavalos suficientes.

—Pois priorize todos os generais antes dos guerreiros para usarem os cavalos. Tome cavalos dos soldados baixos que ainda os possuem e dê-os para os líderes se por preciso. Além disto, precisaremos criar uma linha de frente de infantaria para o ataque.

—Sim senhor. Vai ser muito difícil para nós nômades lutar sem cavalos, pois é como fomos treinados. Mas não temos escolha. Agora vamos. -Fala Rekarius.

Logo, o exército dos hunos com dezenas de milhares de guerreiros avança rumo ao reino dos gépidas. Apenas dois dias depois, eles estão próximos à vila em que nossos heróis haviam sido capturados. Quando estão lá, eles escutam um assobio, que vinha de uma grande colina alguns metros à frente. Rekarius e Leozir, que lideravam o exército olham para aquela colina e se depararam com uma visão surpreendente.

—Não pode ser! Leozir, são os mesmos aventureiros que atacaram nosso acampamento àquela noite.

—Sim. Eu vejo que são eles mesmos. Aqueles desgraçados resolveram fazer-nos alguma resistência. Que admirável, mas tolo. Usaremos esta oportunidade para nos vingarmos deles!

—Mas eles não nos enfrentariam sozinhos. Seria tolice. -Sim. Seria. É óbvio que eles estão com um exército com eles atrás da colina. Logo, um imenso exército gépida aparece ao lado deles.

—Eu não disse? Mas não se preocupe. Os exércitos dos gépidas são pequenos. Não devem passar de dez mil homens. Tempos quase dez vezes este número.

—Mas eles estão em terreno mais alto. Acha prudente atacá-los mesmo assim?

—Nós não temos escolha, Rekarius. Mas não se preocupe. Enviaremos a infantaria na frente para termos uma noção das táticas que eles usam. Eu os observarei e encontrarei uma forma de sobrepujá-los. E enfim, quando tivermos nos livrado do exército gépida e daqueles aventureiros malditos, teremos nos livrados dos nossos maiores problemas logo no primeiro dia de campanha.

—Sim, você tem razão! -Fala Rekarius.

—Eu planejei isto por anos, Rekarius. Agora vamos tornar meus planos realidade.

Do topo da colina, os heróis veem os exércitos dos hunos se aproximando.

—Eles estão vindo. Está na hora de ver se a sua construção vai funcionar, Marcius. -Fala Arthanna.

—Sua ideia é ridícula. Quando falou de construção, achei que estivesse falando de catapultas, balistas, não aquilo! -Fala o rei.

—Você verá logo que funcionará melhor do que você espera, vossa majestade.

Assim, Leozir manda os guerreiros que haviam perdido seus cavalos no ataque ao acampamento, correrem para a colina e eles obedecem atravessando a grande planície imparáveis aparentemente. Aurel olha aquilo e um sorriso se forma na sua boca. Por trás dos seus dentes à mostra, ela fala:

—Isso vai ser divertido. Os guerreiros correm ao ataque, para então caírem em uma enorme e profunda trincheira e são atravessados por grandes estacas pontiagudas de madeiras que se encontravam em todo o seu fundo. A trincheira estava coberta por um tapete de folhas e grama, o que a tornara imperceptível para o exército huno. Eles caem e morrem às massas naquela trincheira. Leozir vê aquilo enfurecido e fala:

—Mas como? Não acredito que fizeram isto! Eles vão me pagar muito caro.

—O que faremos, senhor? -Deixaremos que continuem avançando.

—O quê?

—Temos soldados suficientes. Logo que aquela trincheira se preencher de corpos, os nossos guerreiros a cavalo poderão atravessá-la tranquilamente e esmagar o exército inimigo em questão de minutos.

—Sim, meu senhor. Acredito que seja o mais sensato.

—A nossa construção deu certo! Eles estão marchando como criaturas sem cérebro para a morte. -Fala Marcius.

Mas logo, a gigantesca e incontornável cova fica preenchida de corpos, de modo que os cavaleiros restantes podem atravessá-la sem problemas.

—Droga, isto não é bom. -Fala Arcmênidas.

—Hora dos exércitos se confrontarem. Ao menos ainda temos o terreno alto. -Fala Marcius.

—Guerreiros, atacar!! -Ele fala avançando.

Arthanna parte em cima de seu cavalo. Logo, os exércitos se chocam. Arthanna dispara nos inimigos com o arco curvado huno, acertando-os todos com precisão. A artilharia huna também atira incontáveis flechas sobre seus cavalos, mas os arqueiros dos gépidas também o fazem com eficiência semelhante, já que o rei conhecia todas as técnicas de guerra hunas. Gunnar, estava correndo com seus homens com toda a fúria, colidindo com alguns inimigos hunos a pé, acertando todos com sua massa. Aurel atira um dos seus machados no peito de um huno, que voa longe. Ela corre direto até um huno, acertando uma machadada nas suas costas. Ela continua a dar machadadas nos hunos que encontra. Arthanna continua em seu cavalo, acertando um huno a cada flecha que disparava. Gunnar entra muito fundo no exercido inimigo e vários inimigos seguram seu braço e lhe tomam sua massa. Um ia atacá-lo com sua espada, mas Gunnar segura suas mãos e o faz enfiar a lâmina no seu próprio peito. Ele dá uma cabeçada em um, depois em mais um, depois em outro. Logo, ele toma um corte no peito e com um soco na cara, cai no chão.

—Ótimo, estou pronto para aceitar meu destino e ir para Valhala. -Ele fala.

Até que o huno que ia matá-lo é perfurado por uma lança e cai no chão. Arcmênidas aparece atrás. -Acho que sua hora não é agora, amigo. Gunnar ri. Arc e seus homens matam todos os hunos próximos que o estavam prendendo.

—Falange, homens. -Ele fala, e com seus escudos, eles formam uma mini-falange com lanças saindo para fora. E acertam todos os hunos que chegam perto.

—Uau, uma parede de escudos, gostei. -Fala Gunnar.

Aurel é cercada por hunos, mas na hora que ia ser atingida pela espada de um, este perde a cabeça. Kawada aparece ali! Os hunos cercam ele, prontos para atingi-lo com sua espada, mas ele acerta cada um deles, com apenas um movimento em cada, sem ser atingido por nenhuma lâmina. Marcius aparece lá também, e arremessa uma lança em um huno, matando-o. Aparece um huno a pé com escudo e um machado. Kawada reflete o escudo arremessado com sua katana e avança para cima do huno, cortando seu escudo em dois com apenas um corte e depois, cortando sua barriga e fazendo seus órgãos caírem no chão. Em seguida ele vê cavalos correndo em sua direção e, com sua espada, corta as pernas dos cavalos, fazendo-os caírem. Os hunos atiram flechas, e Marcius aparece para defender Kawada com seu escudo. Gunnar ainda lutava em meio ao exército inimigo com seus homens. Ele se vem subitamente em uma grande desvantagem numérica, mas não temem por um segundo. Um huno atira flechas em um viking que corre em sua direção. A flecha acerta em seu peito, mas ele não para. O huno fica assustado e começa a correr enquanto atira flechas, mas o escandinavo continua correndo muito mais rápido, e logo o alcança desferindo uma machadada na sua cabeça, antes de cair morto no chão, com oito flechas cravadas em seu tronco.

—Puxa isto dará ótimas canções de batalha em nossa terra. Com certeza ele será muito bem-vindo em Valhala por Odin. -Fala um nórdico.

Alguns se protegiam das flechas com seus escudos. Gunnar tenta fugir pois não possuía um escudo. Alguns hunos o seguem empolgados com aquilo, mas em um ataque de fúria súbita, Gunnar se vira e corre atrás de seus perseguidores. Surpresos, os hunos se desesperam com o homem de repente correndo em direção a eles, mas não tem tempo de dar a meia volta e logo são todos trucidados com o machado e a massa do viking. Apesar de toda a bravura, eles são logo todos mortos pelos hunos ao redor e Gunnar sobra como o último nórdico vivo.

—Não! Vocês foram grandes guerreiros, companheiros. Foi uma honra lutar ao seu lado. Agora eu aceito rever vocês em Valhala. Mas quando ele achava que ia ser morto, um grande exército gépida penetra pelo exército huno e salva Gunnar.

—Desculpe, meu amigo pagão, mas seu destino não irá se cumprir hoje. -Fala um soldado gépida a cavalo.

Cercados pelo exército aliado, os três gregos ainda estavam reunidos em uma falange. Um huno ia dar um golpe com a espada em Cassiodoro, mas Arcmênidas o defende com seu escudo e Nikos enfia a lança em sua barriga. Arcmênidas vê um huno prestes a atacar Aurel por trás, e dispara uma lança, que acerta o peito do huno em cheio, salvando a aliada.

—Essa não, você perdeu a lança. -Fala Nikos.

—Sim, hora de quebrarmos a formação para recuperá-la. -Fala Arc.

Eles desfazem a formação, e cada um vai para uma direção. Arc desembainha sua espada e vai em direção a um huno e o ataca, mas ele se defende com seu escudo. Ele ataca Arc, que tira a espada dele com a sua e o corta no peito. Ele lança seu escudo na cara de um huno, atordoando-o e depois avançando direto nele e cortando sua cabeça fora. Ele se abaixa e recupera seu escudo bem a tempo de se defender do ataque de outro huno e depois enfia sua espada na sua barriga. Ele corre até sua lança e um huno aparece e pisa nela. Arc fura seu pé com sua espada e ele tira o pé de cima enquanto grita. Arc então agarra sua lança e a enfia na barriga do inimigo. Ele olha para trás e vê Cassiodoro ser cercado por hunos e não consegue lidar com todos eles, sendo atingido por uma espadada na barriga. Arc fica surpreso com a aquilo e grita:

—NÃÃÃO!! -Então corre até ele. -Vamos Cassiodoro, não se vá! Eu prometo que se sobreviver eu te dou uma folga de um mês!

—Tudo bem, senhor, não se preocupe comigo. É isto que acontece quando se trabalha como mercenário. Se corre riscos, é parte da profissão. Adeus, mandarei um oi ao Phylagos por você quando encontrar com ele no Hades. -Ele fala, fechando os olhos.

Arcmênidas fica enfurecido e triste e se junta com Nikos e eles começam a matar vários hunos. Marcius vê que o exército inimigo era muito grande e matava muitos gépidas rapidamente, então ordena ao exército todo recuar. Os guerreiros ouvem e partem para o topo da colina recuando, aos poucos. Nikos se defende de uma espadada de um huno e é logo atingido por uma flecha também. A formação dos aliados começa a recuar e quando toda a esperança parecia perdido. Marcius avista um grande exército surgindo no horizonte por trás dos exércitos dos hunos. Ele pensa que é um reforço a estes, mas o exército ataca o exército huno, totalmente de surpresa, matando muitos guerreiros. Marcius vê aquilo e grita para seu exército, elevando sua moral e a sua formação volta a avançar. O exército que havia atacado os hunos era o de Dragomir e sua confederação de tribos veneti.

—Vocês nos desrespeitaram e agora, sofrerão nossa rebelião! -Grita o líder.

O exército com embalo imparável mata muitos hunos em um número alarmante. Leozir e Rekarius veem aquilo. -O quê? Não pode ser! Sofremos uma rebelião de um de nossos aliados! -Fala Leozir! -Sim! Tal qual da primeira vez, após a morte de Átila, agora os aliados estão se voltando contra nós de novo. -Fala Rekarius.

O líder dos veneti junto com o exército aliado de Ostrogodos, Gépidas, Alamanos, Turíngios e Lombardos conseguem recuperar a vantagem e derrotar o exército dos hunos e seus aliados, que começam a bater em retirara. Ao final da tarde, o líder dos Veneti vai com seu exército até os acampamentos de cada uma das tribos aliadas e começa a discursar para cada uma com o mesmo discurso.

—Escutem amigos! Eu sou o líder da confederação veneti, a tribo que se rebelou contra Leozir e lhes digo, que os hunos estão fazendo vocês de escravos. Ele os prometeu terras nos lugares conquistados, mas era tudo mentira para que ele atingisse seus objetivos de vingar Átila. Mas como os hunos não são mais poderosos o suficiente, ele resolveu usar vocês como ferramenta de conquista, sob a promessa de que seriam seus aliados e iguais, quando na verdade eles só veem vocês como vassalos inferiores indignos de qualquer terra. Mas eles não querem que vocês saibam disso. Não querem que vocês saibam que eles são fracos e incapazes e que dependem de vocês. Foi por isto que eu me rebelei. O discurso inflama todas as tribos e elas resolvem se revoltar, eles vão até o acampamento huno. Os hunos avistam os exércitos rebeldes à distância e fogem de seu acampamento às pressas, abandonando muitas coisas. Leozir é morto por uma flecha e Rekarius foge das tribos rebeldes até sumirem no horizonte do leste. De volta ao campo de batalha no reino gépida, o rei Gundoric se reencontra com sua filha Aurel.

—Ah, minha filha! Você estava certa no final das contas. Tudo que disse era verdade e por isto você salvou a vida de milhares de pessoas ao mobilizar esta aliança contra os hunos.

—Obrigada pai! Eu fiz o possível.

—E você é o general romano que liderou nossos exércitos para a vitória! -Fala o rei se voltando para Marcius. -Se não fosse por você, duvido que teríamos vencido esta batalha.

—Obrigado, senhor.

—Como sinal de gratidão aos dois, eu rei Gundoric dos alamanos, decreto a paz e que não mais invadiremos o Império Romano e devolveremos o imperador Rômulo Augusto.

—Puxa vida, não tenho palavras para agradecer o quão feliz de ouvir isto! -Fala Marcius.

O rei vai embora com suas armas e cavalos recebidos dos hunos feliz, junto de seus exércitos. O rei Ardarico vai até os nossos heróis também os agradecendo e prometendo lhes dar abrigo e novas carroças para a comitiva e muito ouro. Eles todos agradecem. O rei Teodorico dos Ostrogodos sela uma trégua com os Gépidas e os dois reis se abraçam.

—Acha que pode voltar a liderar um exército e que sua honra foi restaurada, Marcius? -Pergunta Arcmênidas.

—Acredito que sim, amigo! Estou me sentindo em paz e com o espírito limpo novamente.

—Que bom. Pena que não possa dizer o mesmo. Perdi Cassiodoro e Nikos nesta batalha. -O quê? Puxa vida! Não acredito! Sinto muito por isto, Arc.

—Está tudo bem. Eles conheciam os riscos da profissão.

—Sim, tenho certeza de que estão em um lugar melhor agora. -Fala Marcius.

—Pois eu perdi todos os meus companheiros também. E eu tinha bem mais. -Fala Gunnar. -Mas está tudo bem! Eles morreram lutando. Com certeza estão festejando em Valhala agora!

—Pelo menos, você cumpriu sua missão, Arc. Receberá o ouro que lhe foi prometido, mais o ouro dos gépidas, será o suficiente para compensar sua perda.

—Está caçoando de mim? Esta batalha significou mais do que ouro para mim. Foi para salvar o nosso mundo e por lutar ao lado de vocês, meus novos amigos. É, mas talvez o ouro me deixe feliz mesmo.

—Ótimo! -Fala Aurel. Agora é hora de voltarmos à minha aldeia, recuperar o imperador e voltar a Roma com a notícia de que recebemos paz do meu povo.

—Você irá conosco para Roma? -Pergunta Marcius.

—Sim. Nós seis somos uma equipe poderosa. Não podemos nos separar. Estaremos até o fim lutando um pelo outro!

—Sim. -Fala Kawada.

—Ei, eu não disse nada! -Fala Arthanna. -Mas talvez eu queira passar na companhia de vocês por mais um tempo.

-Eu também. Prefiro viver aventuras com novos amigos aqui no sul do que voltar para a minha terra onde meu rei procura por mim disposto a me matar.

—Fala Gunnar. Pois bem! Então é isto. Somos uma nova equipe e vamos até o fim da nossa missão! -Fala Marcius.