Pecados
7 Capítulo 7
Notas iniciais
Por um instante, Naruto sentiu o próprio sangue congelar em um misto de repulsa, pena e tristeza. Tentando continuar firme, ele desviou o olhar de Hanabi e com um gesto calmo, segurou a mão dela, trazendo de volta para a caixa, o revolver que lhe fora oferecido. Sem esperar por outras palavras vindas dele, Hanabi simplesmente afundou a cabeça no travesseiro, ajeitou o cobertor e deu as costas a Naruto.
Ele ficou parado na cadeira por longos minutos, até finalmente ter certeza de que conseguiria se controlar até chegar em seu apartamento. Deixando Sasuke e Gaara como responsáveis pela segurança dela, ele apenas entrou em seu carro e foi embora.
A viagem foi algo particularmente difícil. Ver Hanabi naquele estado fora algo devastador para ele, e embora ninguém entendesse o porquê, as memórias daquela garotinha feliz e animada que não desgrudava dele e de Hinata, estavam ali, gritando na sua cabeça. Exigindo serem ouvidas. Tudo que ele conseguiu fazer, foi segurar a própria raiva e frustação até chegar em casa, e uma vez sozinho, não se importou com o que seria quebrado naquele lugar.
Foi a primeira vez em quase dez anos, que ele se permitiu chorar, gritar e dar vazão a cada um daqueles sentimentos que um líder da Vongola jamais deveria demonstrar. Ele quebrou todos os móveis da sala, destruiu tudo o que foi possível em um acesso de fúria e pesar como a muito não sentia. Por que ela? Hanabi era de fato, a única inocente em toda aquela história. E aquelas memórias faziam questão de deixar isso claro na mente dele. Conhecera Hinata e a família Hyuuga pouco antes da mãe das garotas falecer, naquela época, seus pais também ainda eram vivos e Hanabi não deveria ter mais que dois ou três anos. Enquanto a amizade dele e Hinata foi quase instantânea, afinal seus pais eram membros da Nona Generazione, e eles como herdeiros, não levavam a vida de crianças normais. Ter a companhia um do outro transformou a vida de ambos e também, a da pequena bebê que vivia perseguindo os dois a todo lugar.
Por quase cinco anos, Naruto viu Hanabi crescer. Compartilhou com Hinata os sentimentos conflitantes acerca da decisão de Hiashi em não deixar Hanabi seguir como membro da Vongola. Decisão essa que se intensificou quando os pais de Naruto e vários outros membros da Nona Generazione foram assassinados. Ainda estava terrivelmente fresco na memória, o dia em que Hanabi fora enviada para o internato nos Estados Unidos com apenas sete anos. Isso foi um choque para ele, ainda mais para Hinata.
Foi apenas na ausência de Hanabi, que ambos perceberam o quanto a pequena fazia falta. De repente, os filmes, as brincadeiras, as horas em frente à TV, as fugidas pela fazenda na Itália, até mesmo os treinamentos, tudo parecia morbidamente triste. Cientes do futuro que teriam, de tudo que precisariam fazer e sacrificar, os dois nunca haviam percebido que as cores leves e alegres dos dias da infância, eram graças a tudo que a única pessoa, verdadeiramente boa e inocente, fazia. Hanabi sempre fora um ponto de luz e tranquilidade, até mesmo para ele. Vê-la partir, ver Hinata ter que se isolar da irmã e até mesmo ele não poder corresponder os contatos da garota, fizeram ambos se fecharem cada vez mais para tudo que a Vongola representava.
E agora, justamente por tudo que a Vongola representava, a única pessoa que não merecia nenhuma chaga, fora obrigada a carregar as piores. E isso, era algo que ele jamais aceitaria, não importa quantas vezes destruísse o próprio apartamento. Sangue é pago com sangue, e a Akatsuki sentiria o peso do crime que cometeu.
Sakura foi quem chegou justamente no momento em que Naruto partia. Sasuke havia a mandado até lá para se certificar que o Cielo não fizesse nenhuma loucura. E antes que ela pudesse tentar impedi-lo, sentiu aquele velho e poderoso olhar congelá-la ao chão. Era sempre assim com os anéis, até mesmo com ela acontecia.
Por ser a percursora da ideia de “máfia”, a Vongola era naturalmente, a família mais antiga e poderosa da mesma. Os registros mais antigos da família marcavam a fundação dela ainda no começo da Idade Média, como um grupo de cavaleiros responsável pela proteção de um reino.
A medida que o tempo passou, a Vongola deixou de ser uma irmandade de cavaleiros, tornou-se um grupo de vigilantes, de revolucionários, até chegar no topo da máfia mundial nos dias de hoje. Uma coisa, no entanto, continua presente desde os tempos antigos: os sete anéis carregados pelo líder e seus guardiões. Joias tão antigas e valiosas que foram obrigatoriamente passadas de geração em geração.
E embora a máfia esteja na décima geração, a Vongola já teve muito mais que dez líderes. Reza a lenda passada pelos próprios membros da família, que após tantos mestres, após tantas vitórias, derrotas e tragédias presenciadas, os anéis retiveram para si todos os sentimentos negativos, que mais davam força a seus mestres.
E fora justamente isso que Sakura viu por de trás daquela máscara preta e dourada. O anel do céu parecia brilhar com força na mão de seu mestre e realçava tudo que o mantinha focado naquele momento: sua raiva, seu ódio. Tudo que Sakura pode fazer, foi observar aquela figura estranhamente ameaçadora desaparecer corredor a fora.
— Sasuke – ela ligou para ele – temos um problema. Um dos grandes.
Não foi preciso procurar muito. Recintos da Yakuza ainda eram normais no Japão, principalmente agora que a Akatsuki estaria se vangloriando por ter atingido um ponto fraco da Vongola. Naruto sabia muito bem que Madara jamais perderia a mania de se vangloriar por cada pequena ação vitoriosa. E ele estava terrivelmente agradecido por isso. Foi preciso um único momento de hesitação dos Yakuza que guardavam a rua, para que tudo começasse.
Confusos por ver um homem perfeitamente vestido com preto e dourado, assim como a máscara, eles levaram tempo demais para chamar a atenção dos companheiros mais atrás. Tempo suficiente para Naruto sacar duas pistolas e sem um pingo de hesitação, começar uma verdadeira carnificina. Sem diminuir o passo nenhuma vez, ele descarregou as armas duas vezes, matando pouco mais de uma dúzia de homens, sem ligar nem um pouco para o tanto de atenção que chamava.
Com toda a barulheira na rua, todos os Yakuza do clube no final da mesma, começaram a sair do lugar aos montes, com armas em punho e gritando ofensas que Naruto nem mesmo se deu ao trabalho de tentar entender. Surpreso pela idiotice dos homens, que saiam aos montes pela única porta do lugar, sem nem saber onde ele estava, mais seis homens morreram baleados antes que eles fossem buscar refúgio no clube. Observando que só tinha mais dois pentes para usar, ele guardou as armas e puxou dois punhais.
Era a hora de entrar no lugar.
A chegada de Hinata na delegacia, foi às pressas e de uma forma totalmente inesperada. Por mais que o prazo da sua suspensão já tivesse acabado, nunca esperaria que Danzou chamaria justo ela, para ser parte de um time de busca feito no improviso. Haviam seis detetives, alguns poucos policiais e o próprio Danzou no time. Ele nem mesmo se lembrou do ombro lesionado de Hinata, com um olhar sério, mandou todos vestirem os coletes, se armarem e seguirem para as viaturas.
Um ataque estava sendo realizado naquele exato momento, e eles fariam de tudo para capturar ao menos um suspeito.
Antes que pudesse perceber, Naruto já tinha praticamente dizimado qualquer vida naquele lugar. Não se importou se eram homens da Yakuza, garotas de programa contratadas por eles para movimentar o clube, clientes ou quem fosse. Ele cortou, decepou, perfurou, quebrou e incapacitou tantas pessoas, que os ainda vivos e capazes de resistir, começavam a se amontoar nos cantos ou procurar outras rotas de fuga enquanto gritavam “demônio” a todo momento. E ele de fato, poderia ser um nesse momento.
Entrar no clube foi fácil, o terno que sua família usava não era uma roupa comum, entre as camadas de tecido simples, haviam soluções de kevlar unidas a blindagens experimentais produzidas por fios de aranhas. Era uma tecnologia militar ainda em testes, mais que a Vongola já usava em ação faziam anos, era extremamente resistente contra tiros de baixo calibre até à queima roupa, e de alto calibre à distância. Não era tão resistente a facas e armas cortantes, mais dificilmente alguém teria perícia maior que um membro da Vongola em uma luta corpo a corpo. Graças a roupa, a os tiros de 9mm recebidos na entrada não causaram danos significativos, e antes que os homens pudessem dar outra seção de tiros, as lâminas nas mãos de Naruto começaram a fazer estragos. Braços, pernas, troncos, pescoços e cabeças. Ele cortou tudo o que estava no seu raio de alcance, avançando calmamente em meio à multidão de pessoas.
Pelo clube ser estreito e longo, era difícil um grupo grande conseguir se movimentar, e Naruto já tinha matado metade deles antes que percebessem isso. Pessoa após pessoa, passo após passo. Ele matou e aleijou sem contar, sem se importar. Sem nem mesmo sentir algo ou se importar com quanto sangue estava coberto. Toda aquela fúria continuou a queimar enquanto ainda houvessem mortes a serem efetuadas.
Para a raiva de Danzou, homens do ministério da defesa haviam, inesperadamente, chegado ao local do atentado primeiro. E após isolarem a área, impediam até mesmo a polícia de passar. Irritado pelo fato de ser barrado por dois homens, um dos quais nem mesmo se prestava ao trabalho de encará-lo, Danzou sinalizou para que Hinata se preparasse para correr. Antes que ela pudesse entender o que aconteceria, viu o velho inspetor gritar para os homens que avançassem, obrigando os dois agentes – que na verdade eram Sasuke e Gaara disfarçados – a tentar segurar os policiais. Hinata correu o mais rápido que as suas pernas permitiram, precisou agir tão rapidamente que nem mesmo percebeu que o homem que a atacara dias atrás estava bem ali, encarando ela com uma ferocidade quase mortal.
Ignorando a visão dos corpos espalhados por todo lugar. Ela correu em direção ao clube, checando o colete e a própria arma, ela só parou quando estava ao lado da entrada. Deu uma última olhada para trás, tentando inutilmente contar os corpos na rua, e observando que mais agentes haviam aparecido para conter a polícia, um deles inclusive, começava a correr na direção dela.
— É agora ou nunca. – pensou ela antes de entrar, com arma em punho, no clube.
A ordem dela ecoou pelo lugar. O grito de "Polícia!" saíra tão alto que machucara a garganta no ato, mais ela não conseguiu se importar, tudo que sentia, era a repulsa por toda aquela barbárie.
Haviam corpos, membros e órgãos em meio a mortos e feridos, o sangue era tanto que empapara completamente o carpete, quase grudando os sapatos dela ao chão. No momento em que viu o causador de tudo aquilo, Hinata recusou-se a acreditar que tantas mortes e atrocidades foram causadas por apenas uma pessoa. Uma única pessoa. Ela ganhou a atenção daquele homem após o último Yakuza ser morto, com uma facada na testa, e embora tivesse em mente que precisava guardar qualquer detalhe dele, Hinata sentiu que toda e qualquer convicção havia deixado o seu corpo.
O homem usava terno e blusa social preta, grava dourada para contrastar com a máscara de carnaval veneziana também preta e dourada. Os cabelos eram irreconhecíveis, estavam repuxados para trás, pretos após tanto sangue seco agarrado. Ela não conseguia ver os olhos por de trás da máscara, e isso fez o seu coração quase explodir.
— Não se meta, policial, você não está entre os culpados.
A voz saiu distorcida pela máscara e tomada pelo pavor, Hinata se viu em uma situação totalmente desfavorável. Alguma coisa nela indicava que aquele homem era perigoso demais para ser confrontado, algo gritava para que ela soltasse aquela arma e corresse.
— Quem é você?
Ignorando a pergunta dela, e até mesmo a arma que ela empunhava, Naruto seguiu adiante, sem ligar para o sangue ou para ela. Atravessou estreito corredor do clube, até desaparecer pelas várias portas do lugar. Ela queria segui-lo, algemá-lo e prendê-lo, mas algo nela a impedia até mesmo de se mexer. Era como se conhecesse aquele anel e aquela máscara, como se os conhecesse tão bem que seu corpo se recusava fazer qualquer coisa contra aquele homem.
Mal sabia ela, o quanto sua vida começaria a desabar após aquele dia.
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