Pecados
8 Capítulo 8
Notas iniciais
Para Hinata, o tempo pareceu simplesmente parar. A imagem estranha daquele homem ainda estava lá, gravada na sua cabeça, os detalhes da máscara preta e dourada, a roupa impecável mesmo em uma situação como aquela. Por diversas vezes ela jurou ouvir alguém gritar seu nome no rádio, mas por algum motivo desconhecido, seu corpo tinha paralisado. Seu emocional despejava sensações diferentes e por mais que sua mente tentasse acompanhar, nada fazia sentido. Faltava tudo, suas memórias, tudo que aprendeu durante os anos apagados. Conhecia aquele homem, aquela máscara e principalmente aquele anel, mas essa certeza não era suficiente para lhe fazer lembrar. Apenas para deixa-la ainda pior.
— Hinata! Por Deus, garota!
O grito veio de uma pessoa totalmente inesperada. Atrás dela, com um colete da Interpol, seu primo, Hyuuga Neji entrou quase sem fôlego no lugar. Movida pelo próprio instinto, Hinata girou nos calcanhares e apontou a arma para ele, que apenas parou levantando ambas as mãos. O desespero dela era claro e ele entendia o porquê, o anel da névoa escondido em seu bolso lhe dava uma noção do que ela viu. Ele sabia como era estar frente a frente com algo totalmente desconhecido.
É por isso que os portadores dos anéis Vongola jamais usam coletes aparentes. O visual excêntrico e nada prático para crimes, a máscara ocultando totalmente o rosto. É difícil ficar cara a cara com algo cujos olhos não podem ser vistos, é um medo natural, você perde as referências sobre a pessoa, você é incapaz de perceber se ela vai hesitar ou se vai te matar da pior forma possível. Graças a inexperiência de Hinata em situações como aquela e as emoções confusas pela perda da memória, seria um milagre se ela não tivesse travado.
Após ter certeza de que ela não atiraria por engano, Neji tirou a pistola das mãos dela e em seguida guiou-a para fora daquele lugar. Do lado de fora o caos era absoluto, haviam dezenas de viaturas pelo lugar, a polícia fora obrigada a fechar a rua às pressas, e por mais que tentassem, seria impossível afastar a mídia de toda aquela carnificina. Hinata ainda pode jurar que viu Danzou em uma áspera discussão com o secretário de segurança por ter barrado o apoio da força tática na última hora, embora alguns homens tenham desobedecido e ido até o local.
Por recomendação do próprio Neji, Danzou liberou Hinata do serviço, e uma vez na casa dela, Neji tentou ao máximo focar a atenção da prima em outros assuntos. Ele aparecer agora, era algo impensável, estragaria seu disfarce perante a Akatsuki, afetaria as conexões dele na Interpol e o flagraria perante os opositores da Vongola como um guardião. Mas nada disso importava mais, não quando Tsunade, com ordem de Naruto, havia lhe contado sobre Hanabi. A partir daquele momento, a obrigação dele não era mais com os planos da Vongola, e sim, com o que restou de sua família.
Do lado da Vongola, um verdadeiro caos havia se instalado. A súbita perca de controle de Naruto, desestabilizara todas as ações da família, enquanto Neji, Sasuke e Gaara foram obrigados a agir rapidamente para evitar maiores problemas, Sakura ficara sozinha e responsável pela segurança das propriedades da Vongola no porto. E isso fora pior que qualquer perspectiva negativa, a Akatsuki havia aproveitado a súbita desorganização da Vongola para atacar a família. Destruir propriedades, causar baixas e conseguir sequestrar Hanabi novamente foram as metas.
E embora eles esperassem que a defeituosa Pioggia fosse fracassar logo de início, o que encontraram, foi uma guardiã bem-disposta e perigosa.
O humor de Sakura era instável, totalmente imprevisível. Mas ela sabia, mesmo na maior de suas depressões, que tudo deveria ser guardado e trancado sempre que colocasse aquele anel. Era estranho acreditar na superstição dos anéis, estar em posse daquelas joias, era o mesmo que carregar consigo uma arma nefasta, presente em tantas batalhas ao longo dos séculos que seria impossível contar.
E a habilidade dela com planejamentos, fora assustadoramente precisa. Mesmo em desvantagem, tanto numérica quanto em matéria de habilidade, ela conseguiu segurar o ataque da Akatsuki, minimizar os danos, as perdas e principalmente, proteger Hanabi até a chegada dos demais guardiões. O preço cobrado, no entanto, fora quase alto demais.
Quando Sasuke e Gaara chegaram ao porto com reforços, despacharam os homens para resolver os cercos da Akatsuki do lado de fora dos galpões e seguiram direto para a ala médica onde Sakura deveria estar. E assim que entraram no lugar, foi a vez de Sasuke ter que manter o controle.
Haviam pelo menos uma dúzia de homens mortos no corredor de acesso e uma trilha de sangue corria até a porta do quarto de Hanabi. Prevendo o pior, ele correu em direção ao quarto, mais parou logo que abriu a porta ao perceber dois homens mortos na entrada. Mal ele entrou no lugar e um tiro passou perto de lhe matar. Levantando ambas as mãos, ele percebeu que era Hanabi quem atirava, ela estava aparentemente exausta, suja de sangue e trêmula. Sorriu de alívio e simplesmente desmaiou quando se lembrou quem Sasuke era.
Ao lado dela, Sasuke encontrou Sakura ferida e inconsciente.
Com uma pressa absurda, o carro da Vongola devorava cada quilômetro de asfalto entre Tokyo e Uenohara. Com o porto comprometido, o único ponto seguro para a família era a mansão nas montanhas de Uenohara e felizmente, Tsunade já tinha preparado todo um setor médico no lugar prevendo um ataque aos galpões no porto. Como a chefe médica estava fora do porto cuidando de assuntos da CEDEF, Sasuke tinha comunicado a ela todo o acontecido e seguia em disparado para a mansão com Gaara, Sakura e Hanabi. Por estar mais calmo, Gaara era quem dirigia, no banco de trás Sasuke segurava uma ferida e inconsciente Sakura com as roupas cada vez mais empapadas de sangue, denunciando quão grave a situação era. Havia um amontoado de ataduras e faixas no ombro e no abdômen da mulher, uma tentativa fútil de estancar os sangramentos que embora tenham diminuído com a pressão que Sasuke fazia, insistiam em não cessar.
Quando a propriedade da Vongola finalmente tornou-se visível, uma generosa mansão isolada da cidade, Gaara acelerou tudo que podia até ver os vultos dos portões indicarem que eles tinham enfim, chegado ao seu destino.
Do lado de fora, mal os carros pararam e uma pequena comissão veio de encontro, entre eles Tsunade e alguns enfermeiros e médicos da Vongola que traziam uma maca e vários outros equipamentos para estabilizar Sakura.
A surpresa do momento, ficou por conta da presença de Naruto na mansão. Já sabendo da situação de antemão, ele ficou calado, esperando a reação de Sasuke que não veio. Por um momento, Naruto tentou dizer algo a Sasuke, mas o que ele poderia dizer? Já esteve na mesma situação do amigo e sabia bem que nenhuma palavra aliviaria o ressentimento que o Uchiha estava sentindo. A reação, no entanto, veio quando Gaara avançou a largos passos até Naruto e com toda a força, acertou-o um soco no rosto.
Confuso com o gesto de Gaara, Naruto recuou enquanto o guardião o segurou pelo terno e o encostou contra o carro.
— É assim que você vai agir? Você sabia que Pioggia não tinha condições de encarar uma responsabilidade dessas! Você sabia que se pirasse, sobraria para mim e para Tempesta agirmos. Sabia que era ela quem protegeria Hanabi. Tuono e Sole não se apresentaram, Nebbia está incomunicável. Só restava nós três! É isso que somos para você agora? Peças para você descartar a todo momento?!
— Já chega Nube!
Quem chamava a atenção de Gaara, era justamente o sempre calmo e reservado Tuono. Shikamaru havia chegado a Uenohara no mesmo helicóptero que Tsunade e Naruto. Ele daria outro soco em Naruto, mas Sasuke e Shikamaru o puxaram para longe. Contrariado e irritado, logo ele simplesmente desapareceu perambulando pelo lugar.
— Quem diria que ele teria essa reação... – observou Shikamaru.
— Ele é assim. – respondeu Naruto – Faz essa pose de forte e frio, mas no fundo ele é um dos que mais se importa.
Quando Naruto se trancou no escritório, percebeu que aquele dia não o deixaria em paz por um momento se quer. Sentado em uma poltrona, com uma garrafa de uísque na mão e dois copos sobre uma pequena mesa, Jiraya o esperava. Com um suspiro, ele apenas tirou o terno sujo de sangue e sentou no sofá. Pouco depois ele ouviu Jiraya enchendo os copos e arrastando um na mesa até ele.
— Faz tempo que não temos uma boa conversa. – começou ele.
— É.
— Então eu vou perguntar antes, qual Jiraya você precisa hoje? Do seu padrinho, ou do Chefe da CEDEF?
Ignorando o copo a sua frente, ele continuou sentado sem encarar Jiraya. Prestava atenção apenas no sangue de Sakura já seco em seus braços e na roupa.
— Faça o que quiser, Jiraya. Jogue na minha cara que eu não estou pronto, que fiz tudo errado. Me compare com meu pai, diga o quão envergonhada minha mãe ficaria ao me ver.
— Sim. Eu poderia fazer isso. Mas de que adiantaria? Você não é mais um adolescente inconsequente que está voltando de uma viagem pela Europa com a namorada. Você é um homem agora, tem a mesma idade que Minato tinha quando recebeu o anel do céu. E está tropeçando da mesma forma que ele tropeçou no começo, é verdade que as suas decisões são mais drásticas do que as dele, mas isso não desmerece o fato de que você está usando o poder que tem da melhor forma possível. Só que eles não são apenas seus guardiões, Naruto. Não são apenas peões com um anel importante nos dedos. Dizer que você errou não vai mudar nada, então apenas reze para que Tsunade consiga salvá-la.
Ele pegou o copo e virou o uísque de uma vez. Encarando Jiraya, percebia que o padrinho tinha algo mais a dizer.
— O que você está escondendo?
— A Varia recebeu uma notificação da Akatsuki. O seu tratado com eles foi anulado. Hyuuga Hinata e Hyuuga Hanabi não estão mais sobre proteção. E agora, estamos finalmente em guerra declarada. A Akatsuki recuou e deixou Tokyo, provavelmente Madara juntou todos os braços da Yakuza em algum lugar para avaliar sua força.
— O que Orochimaru fará? Ele já cumpriu as tarefas que você designou?
— Sim. A força principal da Varia estará no Japão em poucos dias, embora ele já esteja aqui. Varia e Vongola devem ser mais que suficientes para acabar com a Akatsuki.
— Sim, deve. Mais eu tenho um pedido.
— Qual?
— Fique aqui até segunda ordem. Relegue o comando da CEDEF para alguém de confiança, afinal, o nosso coração em Torino não pode ficar desprotegido. Você e Tsunade são ótimos em recuperar pessoas, preciso de vocês aqui para ajudar Hanabi.
— Não sei se serei útil. Mais ficarei.
— E uma última coisa, você conseguiu rastrear Madara?
— Sim. A exposição de Deidara e Sasori abriu uma boa brecha. Nagato e Itachi estão perto dele. Uma vez que ele esteja morto, será mais fácil terminar essa guerra.
Com um suspiro de alívio, ele deitou novamente no sofá e cobriu os olhos com o braço, tentando disfarçar as lágrimas que o Cielo da Vongola jamais deveria mostrar. Apenas Jiraya entendeu tudo, o significado dele voltar. O por que dele optar por se render aqueles velhos sentimentos e se reaproximar de Hinata. Madara não resistiria a chance de ter algo de valor contra ele, ter a chance de pegar Hinata, faria o velho líder ficar distraído quanto a própria segurança. Justamente o que acontecera.
— Foi arriscado o que você fez, Naruto. Eu imagino o quanto está doendo saber que você está acabando com a vida dela outra vez.
— Será que valeu a pena? Olhe ao redor Jiraya. A vida de Hanabi foi destruída, Sakura está à beira da morte. E tudo que eu sinto por Hinata, só me deixa mais fraco e suscetível a erros, além é claro, de coloca-la novamente no centro da máfia quando eu prometi que jamais a envolveria nisso outra vez.
— Me desculpe garoto. Se eu tivesse matado aquele desgraçado quanto tive chance, nada disso seria necessário.
— Pare de se culpar, Jiraya.
Uma voz diferente apareceu na sala e embora Jiraya tenha se surpreendido, Naruto continuou quieto.
— E que opção eu tenho, Orochimaru?
— São tantas, meu caro amigo. – ele observou Naruto por um instante, e claramente irritado, se sentou na poltrona ao lado de Jiraya – Pare de remoer o passado, Jiraya, você acabou de dar esse conselho, então siga-o pelo menos.
— Insensível como sempre.
— Sim, como Tsunade sempre diz, eu tenho que ser insensível e ignorante para colocar juízo nessa sua cabeça idiota. Além disso... – ele olhou para Naruto – Garoto, você sabe que quando Jiraya e eu pusermos uma bala na testa de Madara, a Akatsuki vai atacar com tudo que lhes resta. Deixe Tsunade levar Hinata e Hanabi para a Itália.
— Não. Tsunade já vai ter bastante trabalho protegendo Sakura do que restou da Bratva, além disso, a Akatsuki não vai arriscar um passo em falso sem saber onde você está. E levá-la contra a vontade só vai dificultar. Jiraya, você cuidará de tudo referente a entrada de Hanabi para a família, infelizmente, é a única forma de protege-la. – ele olhou para Orochimaru – Quando a Varia chegar ao Japão, vá com tudo atrás de Madara. Você consegue matar aquele desgraçado?
— Dessa vez eu enterro aquele velho maldito, nem que eu vá para o túmulo junto. Agora vamos, Jiraya, chega de espalhar sua depressão por ai.
Claramente contrariado, Jiraya demorou alguns segundos até ceder aos conselhos de Orochimaru, mas quando ambos estavam prestes a deixar a sala, Naruto os chamou.
— Obrigado, vocês dois.
— Não agradeça ainda. Você nos deu uma tarefa simples enquanto pegou o mais difícil, Hyuuga Hanabi ainda está na linha de tiro, Hinata também. Agora que Hanabi fará parte da Vongola, você não pode mais esconder as coisas de Hinata, a guerra foi declarada, Naruto, você não pode deixa-la no escuro. Ela precisa saber sobre você, sobre ela. E o que vocês foram um para o outro. Você sabe que ela vai te odiar por tudo, principalmente pelo que aconteceu a Hanabi. Não vou mentir, isso vai te destruir.
Após a saída da dupla, ele ficou perdido em pensamentos por alguns minutos. Não tinha o privilégio de se trancar com seus sentimentos e esquecer do mundo, ainda era o chefe da família e nesse momento um de seus guardiões estava à beira da morte. Logo ele apenas calçou os sapatos e foi até a área hospitalar, era regra sempre ter os melhores equipamentos e médicos a disposição.
Assim que chegou no local, viu Sasuke sentado no final do corredor embaixo de uma janela, ele e as roupas ainda sujas de sangue. Gaara estava em um banco próximo a porta da sala de cirurgia e continuou calado, nem mesmo olhou para Naruto. Shikamaru foi o único que veio ao seu encontro.
— Muito bem, me explica o que diabos aconteceu lá atrás.
— Muitas coisas. Peça para Jiraya explicar tudo, e antes que você me encha de perguntas, só vai. Ele vai precisar de um selo de algum guardião para alguns assuntos.
Ele mal terminou a explicação para Shikamaru e Sasuke levantou, ganhou a distância entre os dois com passos rápidos e sem dizer nada, socou Naruto. Com a raiva fervendo em seus olhos, ele segurou Naruto pela camisa e o empurrou contra a parede. Shikamaru iria interferir, mas ele levantou a mão, indicando que Tuono deveria ficar de fora.
— Eu sei que falhei com ela e com você. Eu sei como é ter quem você ama a beira da morte, sei como é ter seu sangue nas mãos, você sabe que já passei por isso. Não espero que você me perdoe por isso, não espero que confie na pessoa que tem o sangue dela nas mãos.
Antes que Sasuke pudesse dizer algo, foi Gaara quem levantou e também em silêncio, segurou Sasuke pelo braço e logo o levou para fora daquele corredor.
— Shikamaru, por favor, após auxiliar Jiraya, me mantenha informado sobre Sakura. Vamos confiar em Tsunade e eu preciso ver Hanabi.
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