Pecados

2 Capítulo 2


Eram em situações como aquela que Hinata odiava a etiqueta feminina. Perseguir alguém pelas ruas de Tokyo em plena manhã, usando salto, era a pior experiência que ela poderia pedir.

A polícia verificava mais uma cena criminal, dessa vez nos arredores da cidade, em Adachi. Após isolar a área, Hinata fora a única a perceber que um homem permanecia estranhamente interessado no trabalho da polícia, não era um curioso comum e estava lá antes da própria polícia. O único problema foi Hinata seguir seus instintos. Ela viu o suspeito começar a se misturar entre os curiosos quando percebera ela o observava, e em poucos segundos, o que seria uma simples abordagem, virou uma perseguição a pé.

— Pare!

Por mais rápida que ela fosse, mesmo com os malditos saltos, o homem que corria dela parecia simplesmente se divertir com a perseguição. Ele mantinha distância suficiente para não entrar na mira dela, mas tratava de não se afastar a ponto dela perde-lo de vista. Quando a distância percorrida já era o suficiente para deixar Hinata sem fôlego, ele simplesmente virou uma esquina e desapareceu. Intrigada pelo sumiço do homem em um beco, ela simplesmente ignorou os arredores e curvou o corpo para respirar. Sentia pontadas no abdômen e as pernas pareciam em chamas.

— Uma detetive pode ser tão descuidada assim?

Os reflexos de Hinata gritaram em alerta, mas antes que ela conseguisse levantar os braços e mirar, sentiu um golpe na mão e a pistola foi parar a vários metros. De imediato, o homem tentou derrubá-la e para a surpresa dele – que soltou uma risada – ela conseguiu escapar e permanecer de pé. O erro dela aconteceu ao tentar golpear o homem, foi o suficiente para ele desviar, ganhar suas costas e derrubá-la ao trançar uma perna a dela. Antes dela atingir o chão, sentiu ele agarrar seu braço direito e rodá-lo para trás, um estalo forte e doloroso no ombro praticamente a fez ignorar o impacto do seu tórax com o chão.

— Deveria prestar mais atenção, senhorita Hyuuga. Não é sábio simplesmente desviar a atenção durante uma perseguição. Muito menos, atacar alguém que claramente, tem mais habilidade que você.

Tudo que ela pode fazer foi observar o homem se afastar sem pressa dela. Ele não fez questão de esconder o rosto, deixou que ela observasse os cabelos vermelhos e olhos verdes, além da tatuagem vermelha no rosto, antes de pegar a arma dela e simplesmente deixar o lugar.

— Você perdeu o juízo?!

— Eu estava fazendo meu trabalho.

— Seu trabalho é investigar crimes. Não ser surrada por um suspeito! O que diabos passou pela sua cabeça para simplesmente perseguir alguém, em tempos como esses, sem reforços?

— Eu me descuidei, desculpe! Mais eu não deveria estar sozinha! Haviam dezenas de detetives e policiais aqui, eu não tenho culpa se a maioria dos seus subordinados são um bando de hipócritas que se recusam em ajudar!

— Se você está incomodada por ser tratada como uma novata inexperiente, coisa que você é, cresça e não dê motivos para desconfiança.

— E como sempre, lá vamos nós outra vez, tudo que o senhor sabe fazer é fechar os olhos em relação aos seus “amiguinhos” e –

— Basta! – ele socou a porta da ambulância, fazendo tanto Hinata quanto o paramédico que a examinava pularem com o susto – Não pense que sou um velho senil. Todos os outros serão sim repreendidos, e punidos, por deixarem você agir sozinha quando minhas ordens são para ninguém andar sozinho! Agora chega dessa conversa. Você está suspensa até segunda ordem. Ficará em casa até eu decidir o que faço com você.

— O que?! Suspensa? P –

— Sem discussão. É minha palavra final. Vá para casa assim que terminar de ser atendida. Não quero te ver pelas próximas quarenta e oito horas.

Não bastasse a dor de um ombro deslocado, o rosto ralado e as costelas doloridas, os gritos de Danzou só serviram para deixa-la pior. Ver o velho inspetor sair de perto dela vermelho igual uma pimenta não ajudou em nada a situação dela.

Ela sabia que além do resultado daquela empreitada e o infortúnio de ter a arma roubada, ainda ouviria uma das tradicionais, e nada agradáveis, broncas de Danzou. Só não contou que ele fosse perder a cabeça com a atitude dela e suspendê-la.

E logo que pisou em casa, percebeu que o dia ainda guardava mais estresses para ela. Hanabi quase tivera um ataque nervoso ao ver a irmã entrar em casa com o braço em uma tipoia e curativos no rosto. Respirando fundo para não perder a cabeça com a irmã, e evitar gritar, pois sabia que isso faria o ombro doer ainda mais, ela simplesmente tirou o blazer, os sapatos e sentou no sofá.

— Teve um ataque em Adachi, chegamos tarde como sempre. Tinha um homem estranho lá, ele ficou rondando o lugar por horas. Quando pedi que ele se identificasse, ele simples fugiu. Após alguns minutos correndo atrás dele, ele desistiu de fugir e me confrontou.

— E você perdeu? – perguntou ela sem entender.

— Se eu perdi? Eu não tive chance... Ele me desarmou em segundos e logo em seguida eu estava estirada no chão, ele me acertou na tão rápido que eu nem consegui reagir. E como se isso não fosse suficiente, ele ainda levou minha arma. Levei um sermão daqueles e ainda fui suspensa.

— E agora? O que acontece com você?

— Felizmente, o que não faltam são provas de que minha arma foi roubada, então não acho que ficarei muito tempo suspensa. Além disso, apenas Danzou sabe.

— Já que você está em casa, vá tomar um banho, vou fazer algo para você comer.

— Não precisa Hana. Você estava estudando, não se preocupe com isso.

— E se eu não me preocupar, quem vai? Você parece uma criança quando se trata da sua saúde. Não dorme direito, não come direito. Vive naquele bar se entupindo de álcool. E não adianta vir reclamar, só vai logo para o banho.

— Certo, mãe! – completou ela com um tom debochado.

Após quase uma hora, a comida estava sobre a mesa e Hanabi entrava no quarto da irmã a procura dela. Assim como esperava, ela tinha adormecido, estava com as roupas íntimas e o cabelo ainda molhado, ela simplesmente jogou-se na cama e caiu no sono.

O que impediu Hanabi de acordar a irmã, não foi a vontade de deixá-la descansar, foram aqueles velhos sentimentos que insistiam em não desaparecer. Era o que sempre acontecia quando via as cicatrizes da irmã. Desde as menores e difíceis de perceber por quem não a conhece, até a maior delas: uma linha fina, longa e curvada que começava na cintura e terminava acima do umbigo. Antes que ela ficasse depressiva e presa em pensamentos, sacudiu de leve a irmã e a chamou até que Hinata acordasse.

Depois de comer, Hinata dedicou sua atenção aos documentos que levara para casa. E, mesmo analisando a mesma coisa por horas, ela sentia dificuldade em entender o conteúdo dos documentos. Sua cabeça doía, assim como seu estômago e seu ombro, que quase fora deslocado. Tentando evitar preocupar Hanabi, ela guardou os documentos, ligou a TV e se esticou no sofá.

Do outro lado da cidade, era a primeira vez que Gaara se encontrava com outros guardiões por vontade própria em um longo tempo, sempre detestou ficar na companhia de outras pessoas. Por isso, quando Tempesta recebeu o convite da Nube para uma conversa, foi impossível recusar.

— Então, resumindo toda a situação, você me fez atravessar todo o Japão para me falar desta mulher? – chiou Tempesta.

A irritação de Gaara era tão eminente quanto a de Sasuke, portador do anel da tempestade. Os dois nunca se deram bem desde a primeira encarada, mas após o início das operações, a inimizade começou a beirar o insuportável. Gaara sempre repreendia o modo displicente de Sasuke e o fato de Naruto confiar parte de sua autoridade para Tempesta. Eram inúmeras também as desavenças entre eles graças ao comportamento fraco de Sakura e o motivo absurdo de Naruto manter o anel da chuva em posse dela. Já as reclamações de Sasuke eram compartilhadas por Tuono e Sole, por vezes a Nube era exagerado demais, fossem em mortes desnecessárias durante as operações, ou pelo frequente abuso de poder que ele cometia dentro da Vongola. Não era raro Naruto ter que se intrometer em discussões de Gaara com membros de classe inferior da Famiglia.

— Esta mulher é perigosa. E é uma distração enorme.

— E eu devo confiar em você apenas porque ela foi a única a ter coragem para te peitar, Nube? Faça-me o favor...

— Não! Ela foi a única a perceber, Tempesta! Todos aqueles policiais estão acostumados com seus crimes simples, basta perceber o quão perdidos eles ficam ao tentarem destrinchar nossas operações. Grande parte deles não tem nenhum faro para o trabalho, os poucos que tem, ou estão muito velhos e cegos pela experiência, ou simplesmente não dão mais atenção a intuição. A mulher não. Ela me percebeu desde o primeiro momento, ela é observadora demais, atenta demais! Ela é perigosa e Cielo é muito descuidado!

— E o que você espera que eu faça? Amarre-o encaixote e o despache de volta para a Itália?

— Apenas faça o seu maldito jogo. Você não é o preferido? O tão admirado Tempesta? O amado braço direito do Chefe? Então pelo menos uma vez nessa sua maldita vida use essa merda de influência e abra os olhos dele!

Durante alguns segundos, Sasuke apenas encarou Gaara enquanto tentava descobrir o por que dele estar tão aflito quanto a presença de Hinata. E com um suspiro nervoso, ele retomou a conversa.

— Não vejo o porquê de tanta preocupação. Ela é uma ótima policial? E o que importa? Todos têm seus casos por aí, por que tanta algazarra Nube?

— Eu não sei. – ele já havia perdido o resto de sua paciência. – Eu simplesmente não sei, porra! Você é retardado e se esqueceu do mundo em que vivemos?! As impressões são tudo, Tempesta! Nossa percepção das coisas e das pessoas, nossa intuição! Eu não sei o que essa mulher tem de tão perigoso, não sei o que a torna diferente das outras. Eu apenas sinto que se Cielo continuar vendo essa mulher, as coisas podem ficar feias.

Pouco após a noite cair, Hinata acordou com um susto. Um confuso pesadelo a fez acordar nervosa. Mesmo com a memória do mesmo desaparecendo pouco após ela despertar, aquela sensação desagradável permanecia. Olhando ao redor, ela percebeu que a luz da televisão era a única que iluminava a sala e que Hanabi dormia no outro sofá com um livro ainda na mão. Ainda um pouco tonta, ela levantou, tirou o livro da mão de Hanabi com todo cuidado e em seguida foi para a cozinha. Volta e meia ela observava a irmã dormir enquanto bebia um pouco de café: era estranho o fato de que mesmo sendo quase quatro anos mais velha que Hanabi, por vezes a caçula era mais madura que ela. Ultimamente a rotina de Hanabi se resumia a estudar para o vestibular durante o dia após arrumar a casa e durante a noite, fazer o jantar e o almoço que Hinata levaria para o trabalho no dia seguinte.

Por vezes, quando ela esquecia o almoço, Hanabi aparecia no distrito pouco antes da hora do almoço apenas para levar a comida e evitar que Hinata comesse besteira pela rua. Mesmo antes de Hanabi voltar para o Japão, ela estava sempre revirando sua rotina, ligava para a irmã pelo menos duas vezes por dia para cobrar que ela cuidasse da saúde. Era nesse ponto que Hinata se arrependia, jogava responsabilidades demais sobre a irmã e obrigava Hanabi a ser madura e responsável, quando tudo que ela queria era ver Hanabi sendo jovem pelo menos uma vez. O problema era a falta de tato de Hinata para abordar isso, sempre que começava uma conversa com Hanabi sobre isso, as duas acabavam se exaltando e as discussões sempre acabavam com a caçula.

Muito foi omitido entre elas, assuntos de antes do acidente e que agora viviam apenas na cabeça de Hanabi, outros tantos que vieram após a recuperação de Hinata. Muitas discussões foram abordadas em momentos nada favoráveis e várias criaram marcas em Hanabi... A verdade era nua e crua, naquele momento ela não era capaz de ajudar a própria irmã.