Pecados

3 Capítulo 3


Notas iniciais
Atenção as notas após o capítulo e uma boa leitura!

O dia de Naruto teve um começo extremamente irritante. Após a visita de Gaara na noite anterior, sua cabeça passara horas e horas maquinando pensamentos e remoendo antigas lembranças. Sentimentos que há muito ele julgava estarem mortos, retornavam lentamente. Tinha se embebedado para conseguir dormir e agora o abuso do álcool cobrava seu preço. Acordara com o estômago embrulhado, a cabeça latejando e uma dor infernal nas costas por ter dormido todo torto no sofá e ainda por cima, sobre a garrafa vazia de uísque. Assim que levantou, ele ligou a cafeteira antes de seguir para um longo banho.

Dando-se conta de que já era quase noite e que tinha dormido por no mínimo dez horas, Naruto preparou uma boa quantidade de café, encheu a maior caneca que tinha e sentou no sofá. Ligou a TV para ver as notícias como sempre fazia enquanto começava a checar o celular em busca dos relatórios diários que recebia da Vongola. A surpresa veio quando o primeiro jornal que ele encontrou, noticiava um dos ataques. Ao contrário das desculpas e especulações de antes, agora a imprensa divulgava quantas pessoas foram mortas, além de quantos atentados como aquele já terem acontecido, jogando a culpa da omissão dos fatos totalmente para cima do governo.

Com um sorriso satisfeito, ele confirmou que seguir a estratégia de Tuono fora o melhor, agora a imprensa não continuaria a aliviar os ataques para proteger o governo e isso apenas colocaria mais pressão na polícia, facilitando seus planos. Enquanto ele dormia, um ataque fora programado para ser feito a luz do dia, em um lugar aberto e com testemunhas suficientes para inviabilizar a ideia do governo de suprimir o assunto.

Agora, com todos os jornais do Japão exibindo matérias derivadas de testemunhos do ataque, o governo iria pressionar os grupos da Yakuza, forçando-os a aumentar sua segurança. Teoricamente, isso dificultaria os ataques. Mas na prática era totalmente diferente, pois grupos mais unidos representavam apenas alvos maiores e um número menor de ataques. Uma vez que a Yakuza se retraísse para se defender, seria possível matar mais de um general de uma vez. Outra boa notícia veio dos relatórios em seu celular. Cada um de seus guardiões tinha terminado suas respectivas missões e agora se juntavam aos três que já acompanhavam Naruto. Com os seis à disposição, ele poderia focar sua atenção nos futuros ataques fora do Japão.

— Até quando você vai ficar escondida aí, Pioggia?

Deixando a varanda e entrando na sala, ela ficou encostada na porta de vidro.

— Desculpe a invasão. Estava preocupada.

Os olhos verdes de Sakura estavam diferentes, sem brilho e mergulhados em tristeza. Os cabelos rosados estavam presos em um simples rabo de cavalo e um tanto quanto maltratados.

— O que aconteceu? Você está pior...

— Obrigada pela parte que me toca.

Assim que ela sentou no sofá e descruzou os braços, ele reparou que não usava o anel e tinha alguns curativos no pulso. Ele respirou fundo e coçou a cabeça por alguns segundos. Sabia que ela tinha piorado nas últimas semanas, só não fazia ideia do quanto.

— O que você fez, Sakura? Onde está o anel da chuva?

— Não aconteceu nada... O anel está guardado.

— As ordens são para usar o anel. Mesmo você não estando ativa, ainda é uma guardiã.

— Aquela maldita matança na Rússia não foi suficiente para você?! Eu já não aguento mais isso! Estou cansada disso tudo, desse maldito anel, dessa maldita família!

— E o que você quer que eu faça? Que eu simplesmente te tire o anel da chuva? Que eu te tire da Vongola?

— Sim!

— E então quem vai proteger você?! – ele a agarrou pelos pulsos, apertando os cortes. – Quanto tempo você acha que aqueles caras vão levar para te encontrar quando você não estiver mais sobre a proteção da Vongola? E você acha que eles irão simplesmente te matar?

O silêncio dela só o irritava ainda mais. Ela era sempre assim, perdia o controle após as operações em que participava e simplesmente esquecia todos os problemas que teria se deixasse a Vongola. Esquecia também todos os problemas que traria não apenas a ela, mas também a Sasuke.

— Nós não somos santos, Sakura. Eu não espero por coisas como um perdão divino quando eu morrer. Eu apenas quero ter a certeza de salvar quantas pessoas eu puder enquanto estiver vivo.

— Matando outras pessoas!

— Certo, então vamos ver isso pelo seu ponto de vista. Vamos supor que eu desista disso tudo, que use o poder da Vongola para os mesmos propósitos egoístas que os chefes anteriores. Em poucos meses, toda essa podridão vai estar de volta. Políticos corruptos que compactuam com todo tipo de criminalidade. Grupos que se aproveitam da pobreza pelo mundo para comprar crianças e as usá-las para exploração sexual. Assim como aconteceu como você, não é? Ah não, eu esqueci, nenhuma daquelas garotas têm o direito de descobrir a vida. Eu tenho apenas que ficar aqui sentado, ignorando tudo isso, por que a minha Guardiã não tem coragem de sujar as próprias mãos?!

Ele levantou, vestiu a primeira camisa limpa que encontrou, pegou seu anel, sua arma e as chaves do carro.

— Já vai fugir de mim? – ela o desafiou. – É sempre assim, você sempre vem com os seus discursos programados. Você só sabe usar o meu passado, tentando usá-lo como desculpa para me tornar uma assassina. Você não tem ideia de quantas garotas eu vi serem assassinadas porque se recusavam a se deitar com os clientes. Quantas outras eram espancadas e torturadas até cederem. Já passou pela sua cabeça que é por saber como é a morte, que eu me recuso a matar alguém?

— Não. Nunca passou pela minha cabeça por que você prefere se torturar. Eu nem ao menos vejo meus alvos como pessoas. Para mim, são piores que animais. Simples assim.

— É fácil falar. Você nunca passou por nada parecido!

A reação dele foi instantânea. Com um movimento rápido, ele virou e a agarrou pelo pescoço empurrando-a contra a parede. Por um momento ela não teve nenhuma reação, apenas o encarou apavorada. Sempre se esquecia o quanto ele mudava quando colocava o anel. Era em momentos como aquele que ela o achava idêntico a Gaara, o anel era como um catalisador, um indicador que naquele minuto, ele poderia matá-la sem nenhum remorso. Tentando se soltar da mão dele, ela apenas sentiu seus dedos fecharem ainda mais em volta do seu pescoço.

— Você não sabe o que eu vi. Não tem ideia das coisas que carrego comigo, das decisões que fiz ou o que me levou a aceitar o anel do céu. Você não conhece os meus arrependimentos, não conhece nada sobre mim, Sakura.

Ao largá-la, ele a ouviu ofegar no chão tentando respirar novamente. Sem dizer uma palavra sequer, ele deixou o apartamento. Por isso não gostava de estar responsável por Pioggia, sentia as mãos trêmulas e um certo desespero ao perceber que se continuasse daquele jeito, em breve não seria mais capaz de se segurar.

Aquela noite foi um verdadeiro inferno para Hinata. Bastou apenas um ataque para jogar todo o trabalho que a polícia teve nos últimos tempos ralo abaixo. Afinal de contas, quem poderia imaginar que, de uma hora para outra, aqueles homens atacariam um dos restaurantes mais caros de Tokyo para matar um dos chefes da Yakuza e os seus seguranças? Havia mais de cinquenta pessoas naquele lugar, todos viram a facilidade com a qual os homens entraram no recinto e usando algum truque eletrônico, desligaram toda a energia do quarteirão inteiro. Em pouco menos de cinco minutos, doze homens estavam mortos e os clientes no lugar só perceberam quando a energia retornou. Logo chegaram tantos carros da imprensa que a polícia não conseguiu isolar o local a tempo: Imagens, gravações e reportagens sobre os atentados vazavam em todos os meios de comunicação possíveis.

E o pior de tudo, ainda estava suspensa e sabia que mesmo com a bagunça no departamento, Danzou não revogaria as horas restantes de sua suspensão. A surpresa veio quando ela atendeu a campainha e deparou-se com Naruto de pé na porta do apartamento.

— Naruto?! O que? Como você?

— Aparentemente – ele mostrou uma mensagem de texto no celular dele – sua irmã pegou o meu número no seu celular enquanto você dormia. É incrível como ela frisou o fato de que ficaria fora por essa noite e eu deveria vir te fazer companhia.

Incrédula com a situação, ela apenas riu. Aparentemente, nem mesmo seu celular estava imune as espiadas de Hanabi.

— Já que é assim, entre.

Logo que ela fechou a porta, percebeu que ele havia simplesmente parado atrás dela esperando que ela virasse para ele. Antes que ela pudesse dizer algo, ele a puxou para um beijo lento e demorado, para em seguida, observar a extensão dos machucados que a pequena aventura dela tinha gerado.

— Eu fico longe de você por algumas horas, e os problemas já te perseguem.

— Danzou te contou algo?

— Se ele me contou? Ele praticamente cuspiu tudo que você falou em mim e depois me “ordenou” a enfiar algum juízo na sua cabeça. Só não sei se ele me pediu isso já prevendo que há algo entre nós, ou se é apenas por termos idades parecidas.

— Espero eu que a segunda opção.

A voz de Naruto era uma das coisas que ela tinha esquecido durante aquelas longas horas. Com um sorriso contido, ela passou a ignorar a TV e deu atenção ao copo quase vazio de café a sua frente. Com uma rápida encarada, ela percebeu que ele aparentava cansaço, além de estar mais inquieto do que o normal.

— Aconteceu algo, Naruto?

— Noite difícil... – respondeu ele antes que ela fizesse outra pergunta. – Mas, e agora, o que o governo fará? – finalizou apontando para a TV.

— Não faço a mínima ideia. Um amigo que trabalha nesse meio me disse que amanhã, muitos dos canais vão jogar diversas matérias falando sobre os ataques que foram ocultados. Isso vai virar uma bagunça sem igual.

— Teoricamente, com essa maior “visibilidade” os ataques serão mais difíceis...

— Eu não acho.

A resposta direta dela chamou a atenção de Naruto que optou por apenas observá-la enquanto ela levantou e foi até a cafeteira.

— Essas pessoas, em momentos como esses, agem como animais acuados. Agora mesmo, eles devem estar abandonando sua rotina e reunindo-se em vários lugares na falsa esperança de que se estiverem juntos, vão sobreviver.

— Por que eu tenho a impressão de que você não acredita nisso? – perguntou ele.

— Eu não acredito. Naruto, eu enfrentei meses de um treinamento absurdo graças às novas diretrizes da polícia. Passei outros meses como uma mera recruta. Acompanhei desde casos como simples brigas de bairro, a perseguições a pé nas periferias. Posso ter pouca experiência nisso, mas são em momentos como esse que eu sou obrigada a parar e reconhecer que o inimigo é forte demais. Eles invadiram o sistema de energia de um quarteirão inteiro em plena Tokyo usando apenas um smartphone. Eles assassinaram doze homens em meio a cinquenta pessoas sem desperdiçar nenhuma bala, nenhum movimento. Eu duvido que algumas dezenas de seguranças farão alguma diferença.

Ele sorriu quando ela sentou ao lado dele, trazendo uma caneca cheia de café. Ela era afiada, tinha habilidade. Um policial comum precisaria de alguns anos de experiência para perceber coisas como aquela, ter em mente que em um terreno conhecido, as pessoas criam hábitos, seguem um padrão. Quando você descobre esse padrão, quando você sabe onde uma pessoa vai estar no horário “x”, não importa a quantidade. Em poucas horas ela tinha destrinchado o plano da Vongola com tamanha tranquilidade que era surpreendente. Ele sabia por experiência que os responsáveis pelas ordens, as cabeças por trás do governo, levariam dias ou até semanas para perceber esse fato. Dessa forma, quando eles pensassem em sequer alertar seus comparsas, já seria tarde. Ela era perigosa, talvez perigosa demais.

— Não sei. Isso não seria óbvio? – perguntou ele enquanto bebia o café.

— Sim, seria. E é por isso que está sendo efetivo. Ninguém espera o óbvio, nesse momento os governantes devem estar pensando em centenas de planos mirabolantes, tentando descobrir que plano milagroso esses terroristas vão usar para continuar massacrando a Yakuza. Eles nunca vão considerar um ataque frontal e obviamente não vão escutar ninguém que diga o contrário. Eu estou simplesmente enlouquecendo de tanto remoer isso.

— Posso te fazer uma pergunta, totalmente fora do contexto?

Ela manteve o olhar fixo no dele por alguns segundos. Estava tão estressada que não conseguia nem mesmo imaginar o que se passava pela cabeça dele.

— Sim.

— Você disse que não é boa com relacionamentos. Por quê?

Com o rosto corado, ela deu um sorriso desconcertado enquanto se forçava a não encará-lo.

— Eu sou péssima com isso. Ainda não vem ao caso contar esses detalhes. Sou péssima, apenas isso. Não tenho tato para isso e também não tenho tempo. Então depois de um ou dois encontros, as pessoas se cansam. Cansam-se de ouvir sobre crimes, assassinos ou ladrões. Outros tantos se sentem intimidados com o fato de ter uma arma na minha cintura. E além disso, não me sinto confortável com outras pessoas.

Pouco a pouco, a noite foi avançando sem ela perceber que cada uma das perguntas aparentemente desconexas dele, ajudavam Naruto a montar um velho e empoeirado quebra-cabeças. Assim foi até a noite ser preenchida por uma conversa mastigada entre a curiosidade dele e o sono dela, que simplesmente esticou-se no sofá e apoiou a cabeça no colo dele, enrolando-se em uma coberta para logo começar a se perder nos próprios sonhos.

E foi nesse momento, que ele percebeu o quão errado aquilo tudo estava. Ela era uma inimiga em potencial, e com as habilidades afiadas dela, não demoraria muito até ela ganhar seu espaço frente às operações contra a Vongola. Ele também não poderia esconder a identidade da família por muito tempo, uma hora alguém daria com a língua nos dentes e o nome da Vongola seria revelado. Quando esse dia chegasse, eles seriam inimigos.

Só que ele não se importava. Se tivesse que ser morto por ela, ou tirar a vida dela em algum momento, isso apenas o futuro diria. No presente, ele iria desfrutar do seu último resquício de liberdade e mergulhar fundo naquele erro, não importando as consequências que tivesse que pagar em seguida.

Notas finais
Bom pessoal, provavelmente postarei até o capítulo 5 essa semana. Como são capítulos de introdução, prefiro fazer dessa forma. Então, do capítulo 6 em diante, provavelmente a postagem será semanal!