Pecados

18 Capítulo 18


Notas iniciais
Boa leitura!

Inverness, Escócia, alguns dias depois

O tempo havia corrido de uma forma mais rápida do que Hinata esperava. E embora o primeiro dia dela com Naruto naquele lugar tivesse sido intensamente bom, os restantes não se mostraram tão receptivos e, por vezes, acabaram trazendo para fora discussões ríspidas. Ela não conseguia aceitar o caminho dele, ao mesmo tempo que não conseguia mais ver a sua vida, isolada da dele. E isso acabava sempre levando as discussões entre eles para o papel dele na Vongola. Após dois dias de um silêncio irritante, ele havia pego duas bicicletas – havia um porão embaixo da cozinha – e decidira mostrar a ela um pouco do lugar onde estavam. Pedalar pelo lugar havia se tornado o refúgio dela nos picos de nervosismo entre eles, assim como explorar a pequena montanha as costas da cabana. Embora a subida inicialmente fosse íngreme, não era difícil nem demorado de subir e no topo, havia uma bela clareira antes de um desfiladeiro. A vista dava apenas para diversas outras montanhas e para o oceano ao fundo.

Embora Naruto tivesse garantido a ela que não haviam animais perigosos pelo entorno, após a sua quarta ida a clareira, Hinata notou que diversas raposas costumavam passar por ali, e embora no começo elas evitassem o lugar quando ela estava presente, logo passaram a ignorar a presença dela. Em pouco tempo aquele lugar havia conquistado ou reconquistado, como ela suspeitava, um lugar no seu coração.

— Algumas coisas parecem não mudar nunca.

Ela deu um pulo quando ele apareceu ao lado dela. A mania dele de ser sempre silencioso costumava pegá-la desprevenida a todo momento.

— Do que está falando?

— Logo após o nosso Agogê, nós pegamos bastante dinheiro da Vongola, algumas armas, passaportes e identidades. E simplesmente fugimos para a nossa própria aventura. Como iriamos assumir os anéis em pouco tempo, decidimos gastar o resto de liberdade em uma viagem pela Europa. Passamos por muitos lugares, só que esse aqui, foi o mais especial e o mais complicado de dizer adeus. Ficamos aqui por três semanas. Comprei a propriedade pouco depois do seu acidente.

A briga mais recente dos dois ainda fervia na cabeça de Hinata, mas naquele momento, a última coisa que ela queria era dar continuidade a discussão.

— Me conte sobre o Agogê.

— Hum... – ele sentou um pouco afastado, encostado em uma das árvores – É um treinamento dividido em fases. A primeira costuma ser a mais fácil, somos deixados em algum pais, de preferência um cuja língua vá dificultar as nossas vidas e que a segurança não seja boa. Como eu já disse, para nós foi a Albânia. Ficamos lá por três semanas. Depois que conseguimos nos adaptar, fomos forçados a ir para o Kosovo. Foi quando começou a segunda fase. E essa foi a mais complicada. Tivemos pequenos preços fixados por nossas cabeças para dificultar tudo e bem... Foi lá que as coisas realmente desandaram.

Prizren, Kosovo, alguns anos atrás.

Eles haviam enfim, cruzado a maldita floresta. Embora soubessem que haveria uma janela de tempo longa, comprada pela Vongola, para que eles cruzassem a fronteira da Albânia com o Kosovo, foi particularmente estressante cruzar aquelas montanhas a pé, com poucos suprimentos e aquelas roupas que mal os aqueciam do frio. Havia ainda, a preocupação de Naruto com o estado debilitado de Hinata. Aquela maldita febre ia e voltava, e por mais resistente que a garota fosse, uma hora ela ficaria sem energia. Esse era justamente o medo dele, seria difícil mantê-los seguros em um território desconhecido, perigoso e cuja única arma deles era um canivete que Naruto conseguira roubar dias atrás.

Para completar toda a desgraça, o joelho inchado e sensível de Hinata deixava a garota devagar, assim como o pulso inflamado dele diminuía suas opções de defesa. Estavam em um beco sem saída justamente no momento mais perigoso do Agogê. Por mais singelo que o preço fixado pelas cabeças deles fosse, seria difícil simplesmente se ocultar três semanas na floresta e torcer para ninguém rastreá-los. A vida tinha a péssima mania de dificultar seu caminho, principalmente quando tudo estivesse mais calmo.

Levou quase uma semana para conseguirem achar uma cidade boa para se manterem. A primeira coisa que Naruto fizera, foi dar uso ao dicionário que roubara de uma pequena livraria dias atrás. Hinata precisava urgentemente de remédios, e descobrir o nome de antibióticos em sérvio não seria uma tarefa fácil.

A sorte deles começou a terminar poucos dias após Hinata esboçar uma melhora. Fosse lá o que viesse causando as febres nela, os antibióticos pareceram ter amenizado. O problema começou, justamente por ser apenas Naruto a ter condições de mantê-los. Não levou muito tempo para a aparência dele ficar conhecida nos arredores da cidade e após tanto tempo sob aquele forte stress, a habilidade dele de se camuflar havia piorado drasticamente. Pouco a pouco, ele começou a esquecer os horários a serem evitados e os passos a serem ocultados. Esse era um dos maiores testes do Agogê. Quando feito para duplas, principalmente casais, as situações tendiam a ficar extremamente perigosas quando alguém ficava incapacitado. Naruto sentia isso na pele, a simples possibilidade de algo errado acontecer a Hinata o deixou apavorado. E completamente exposto.

Tudo deu errado no final da segunda semana, a saúde de Hinata piorava outra vez e quando a mente de Naruto estava prestes a colapsar, tudo aconteceu. Um pequeno grupo mafioso da Albânia havia os seguido e agora com o estado desleixado de Naruto, rastrear os dois foi fácil. Dominá-los, ainda mais fácil. Antes que pudesse entender como, foram levados para uma velha fábrica na fronteira da Albânia. Por mais que a Vongola monitorasse o Agogê, Naruto sabia que eles levariam no mínimo, um dia para acha-los e resgatá-los. E muita coisa poderia dar errado nesse dia. Haviam pelo menos uma dúzia de homens naquele lugar. Lutar para fugir era praticamente impensável.

— Vê, Aurel? Eu disse que seria fácil achar esses pequenos ratos. E embora eu esteja tentado a lhes desfigurar pelo maldito corte no meu rosto, uma boa surra não vai diminuir tanto o valor de vocês.

O homem que falava era aparentemente, o líder daquele grupo. Sabia que era um dos vários grupos de tráfico humano da Albânia e sabia também, que ele havia feito um corte de quase vinte centímetros na cara daquele homem.

— Vou ter um bom lucro com vocês. Faz um bom tempo desde que a última vez que vendi uma garota oriental. E esse corpo bonito junto com esses olhos diferentes vão aumentar bastante o preço. E você – ele encarou Naruto – embora garotos não sejam tão lucrativos, não será difícil vender um europeuzinho loiro de olhos azuis. Agora, Aurel, Roman, levem a garota para a sala, embora eu duvide muito que ela seja virgem, quem sabe não tiramos a sorte grande?

Assim que levaram Hinata para uma sala atrás de Naruto, Aurel parou ao lado dele e sussurrou.

— E é claro, caso ela não seja virgem, pode ter certeza que eu vou provar cada centímetro dela.

Levou pouco mais de dez minutos para a gritaria começar. Naruto sabia que ela resistiria de as formas e sabia que isso apenas pioraria a situação. Ele só não sabia que ouvir ela gritar e chorar, mexeria com os sentimentos dele de uma forma totalmente diferente. Embora nunca tivessem conversado sobre namoro, os dois eram um casal. Faziam meses desde que o relacionamento entre eles tornou-se um fato. Ela era dele. A alma dele, o coração dele. Tudo que restava de bom, cada pequena gota de luz que ainda vivia em Naruto, era por ela. Exclusivamente por ela. Por ela, ele sempre se segurou. Por ela, ele havia poupado diversas vidas. Apenas por ela, Naruto ainda não era um monstro. E agora, por ela, ele se tornaria um verdadeiro monstro.

O estalo de ossos se quebrando foi abafado pelos gritos de Hinata e pela confusão que ela fazia. Ninguém viu o momento em que Naruto quebrou os ossos da mão ao força-la para fora das algemas que o prendiam a cadeira. Não importa, o pulso já estava inútil, uma dor a mais não faria diferença. O pequeno momento em que a algema bateu no chão, fazendo o típico som de metal batendo no concreto, foi o último suspiro do homem que o vigiava. Antes que ele pudesse perceber como Naruto havia soltado as algemas, viu o garoto roubar a faca da sua cintura e com uma frieza extrema, lhe cortar a garganta.

Ele sumiu nas sombras da fábrica antes que os outros homens soubessem o que acontecia. Inexperientes e mal equipados, dois deles simplesmente correram e abandonaram o local. Os seis restantes, só viram Naruto quando ele se esgueirou em suas costas. Dois deles perderam os tendões, precisamente cortados, e despencaram contra o chão enquanto o terceiro teve a faca cravada na testa. O quarto homem ainda conseguiu puxar a própria arma, mas viu o corpo de Naruto se flexionar perfeitamente, o garoto agarrou seu braço e com um impulso, saltou. As pernas se fecharam no seu pescoço e antes que ele pudesse gritar, sentiu o movimento dos joelhos dele lhe quebrarem o pescoço.

Antes que qualquer aviso pudesse ser berrado, Naruto matou os dois homens no chão, o quinto também batera em retirada gritando algumas palavras em albanês enquanto o sexto, simplesmente caiu sentado e pressionando as costas contra a parede, implorou em inglês e em albanês para ser poupado, pouco antes de Naruto pressionar uma faca contra o seu peito e com um único impulso, empurrar a lâmina pelo coração.

Dentro da sala, o chefe do grupo tinha toda a sua atenção voltada a Hinata. Tirar as roupas da garota havia lhe rendido um chute nas partes baixas, um dente quebrado e diversos arranhões no corpo. Mas agora, havia finalmente subjugado a garota e enquanto tirava a própria roupa, nem mesmo percebeu a falta dos seus capangas na sala.

— Agora sua pequena vadia, pouco me importa se você ainda é virgem. Vai pagar por todo esse trabalho.

Ele só entendeu que algo estava errado, quando um sorriso debochado surgiu no rosto dela e em seguia, um chute forte e bem colocado lhe acerto no pé do ouvido. Ele rolou pelo chão enquanto o tímpano zumbia forte. Antes que pudesse dizer qualquer coisa, sentiu Naruto segurar um dos seus braços pelas costas e com um chute no ombro, quebrar o membro.

Confuso, tonto, ensanguentado e berrando de dor, tudo que Adrian conseguiu fazer foi rastejar até a parede e com um olhar amedrontado, encarar o garoto que poucos minutos atrás, seria uma fonte de dinheiro e agora, era a personificação de um demônio. Não havia sentimento nenhum naqueles olhos, nem mesmo ódio ou raiva. Nada. Não havia nada esboçado nele, tirando o sorriso sádico, Naruto não dera nada para Adrian sentir, a não ser o desespero.

Hinata nunca soube dizer por quanto tempo Naruto torturou Adrian. Como o homem se recusava a morrer, ele simplesmente continuou, quebrou todos os ossos possíveis, arrancou dedos, uma mão. Ela se recusou a continuar olhando quando ele começou a arrancar a pele do rosto do homem. Nua, machucada e esgotada, ela usou as suas últimas forças para abraça-lo e naquele momento, chamou seu nome.

— Chega. Você já fez o suficiente, eu estou aqui, não estou? Não precisa descer ainda mais nesse poço.

Inverness, dia atual

Narrar aquele dia, foi uma experiência diferente para Naruto. E embora ele soubesse que seria impossível dar uma visão clara dos momentos a ela, o olhar perturbado dela foi suficiente para ele parar a narração.

— O que houve com o homem?

— Ficou vivo por um tempo. A Vongola o eliminou algumas semanas depois.

— Ele... Ele conseguiu fazer algo comigo?

— Não restaria vida nele para a Vongola tirar se algo assim tivesse acontecido. – ele encarou a própria mão, haviam pequenas linhas esbranquiçadas que denunciavam os lugares que Tsunade abriu para reparar durante a cirurgia – Quase sacrifiquei a minha mão para não dar essa chance a ele.

— Nós já tínhamos... Você sabe. – surpreendentemente, ela ficou envergonhada, arrancado uma risada dele.

— Transado? Sim. E sim, nós éramos duas crianças. Mal tínhamos completado quinze anos, mas não importava, havíamos finalmente entendido que havia um amor mútuo entre a gente. E como isso é algo raro nesse nosso mundo, decidimos que esperar só daria chance ao tempo de colocar alguma tragédia no nosso caminho.

Com um suspiro, ela se deu por vencida, ele havia ganho o momento. Sentou-se ao lado dele e se aconchegou nas almofadas que ele havia trago, por fim, apenas apoiou a cabeça no colo dele, enrolou-se na grossa coberta que virou sua fiel companheira e encarou ele por diversos minutos. Pouco a pouco, ela sentia um arrependimento perigoso minar cada um dos pensamentos que ameaçavam julgá-lo e condená-lo, a cada lembrança que ele narrava, o amor que sentia por ele parecia ficar cada vez mais enraizado no seu peito, tornando cada pequeno pensamento doloroso e solitário. A cada minuto perto dele, ela era obrigada a admitir que trilhar os anos da sua vida sem ele, seria algo muito pior que qualquer crime cometido em nome da Vongola.

— Naruto.

— Hum? – ele estava totalmente distraído observando o pôr do sol.

— Quantas pessoas eu matei?

— Duas.

A resposta em um primeiro momento, soou como uma brincadeira de mal gosto. Mas notando a cara séria dele, ela exibiu cada uma daquelas dúvidas em um olhar claramente confuso.

— Como? E todas as situações que passamos? O Agogê, os treinos, os momentos antes do meu acidente? Eu nunca matei ninguém além dos seus pais?

— Não. Nunca. Ninguém. – ele voltou a encarar o horizonte – Eu peguei essa parte para mim.

Naquele momento, o sol havia pintado o céu escocês com um alaranjado forte, fazendo os gramados das montanhas dançarem com tons vermelhos e dourados.

— Como já te disse várias vezes, você era e é a única bondade que pode existir em mim. Sem você, a única coisa que resta nesse corpo, é a mesma coisa fria e indiferente que massacrou aqueles albaneses. Durante o tempo em que estivemos juntos, quarenta e quatro pessoas morreram para que pudéssemos sobreviver. Quarenta e duas vezes o gatilho foi puxado por mim.

— Por que? Isso é insano. Pegar todo o peso dessas decisões, apenas para si... É injusto.

— Não é. Nem mesmo ouse pensar nisso. Suas mãos não foram feitas para isso, você não foi feita para isso. E se um dia você precisar ser assim, nada vai mudar para mim. Eu vou continuar te amando do mesmo jeito, a única diferença, é que não vai ter ninguém para me segurar.

Notas finais
Bom pessoal, preciso dar um aviso a vocês. Vamos entrar em reta final. Eu não sei ao certo quantos capítulos Pecados terá, tenho vários finais prontos e ainda não decidi qual será o escolhido, muito menos o caminho que a história vai ter até ele. Arrisco dizer que teremos algo entre 30 a 35 capítulos no máximo. No mais, até a próxima!