Pecados

19 Capítulo 19


Notas iniciais
Boa leitura!

A medida que as semanas corriam, a maioria dos ferimentos de Hinata pareciam em fim, estarem curados. Os hematomas, o corte na boca, todos os machucados menos graves já haviam desaparecido, mesmo as costelas dela já não doíam com movimentos bruscos. O tiro no ombro, assim como os danos as juntas pelos consecutivos deslocamentos, já não incomodavam mais. E com isso, Naruto passou a impor uma dura rotina de treinos todas as manhãs.

A primeira prioridade dele foi melhorar os reflexos e a defesa pessoal dela. E foram precisos quatro dias com horas seguidas de derrotas e desarmes, para ela enfim, começar a pegar o jeito. Ensinar ela a lutar era complicado e exaustivo. Ao mesmo tempo em que a memória muscular e os instintos dela berravam a cada movimento errado, tirando sua concentração, os treinos policiais haviam criado vícios nela que eram difíceis de corrigir. Grande parte dos movimentos dela, dependia de uma arma, e isso era ineficaz contra o boxe ou o tae-kwon-do exibidos por Naruto na maioria dos treinos.

No quinto dia, fora a primeira vez que ela conseguira dominar o próprio corpo e os instintos confusos dela. Ficara tão feliz ao conseguir enganar Naruto com um movimento e lhe acertar um soco no queixo, que deixou a guarda completamente aberta. O resultado fora uma queda dolorosa no chão após um complicado golpe de krav maga.

Toda aquela rotina, havia criado uma intimidade entre eles, que ela julgava ser impossível de existir tempos atrás. Mesmo durante o “relacionamento” deles em Tokyo, Naruto jamais havia mostrado tantas facetas e particularidades. Por vezes, ele mostrou-se desastrado, distraído e preguiçoso. Outras vezes, ele era atencioso até demais. Uma coisa, no entanto, era praticamente fixa nele. Havia sempre uma melancolia sutil em tudo que ele fazia.

No dia seguinte, uma corrente engraçada de eventos colaborou para que, as horas restantes daquele dia fossem diferentes. O frio escocês havia dado uma pequena trégua e não nevava faziam dias, isso deu a eles, o treino mais longo de todos. Agora que o corpo de Hinata já havia se acostumado à rotina, ela conseguia sentir prazer em aprender os complicados e diferentes estilos que ele ensinava. E isso rendia a ela pequenos e prazerosos momentos de vitória.

— Você está ficando muito convencida, sabia disso? – ele suspirou, ela a terceira vez naquele dia que suas costas encontravam o chão.

— Bom, se eu consigo derrubar você tantas vezes, é sinal de que não sou tão fraca.

— “Tantas vezes”! – ele riu enquanto levantou – Depois dessa, não posso mais pegar leve com você.

— Não venha agir como se estivesse pegando leve comigo.

Antes que ela pudesse fechar as aberturas na sua defesa, ele deslizou uma perna por dentro das dela com tanta velocidade que lhe tirou qualquer reação. Sem nem mesmo entender o que se passava, ela sentiu seu corpo perder o equilíbrio e logo em seguida, estava no chão, com o braço dele apoiado no seu pescoço.

— É evidente, que eu peguei leve com você.

Usando alguns truques que ela não conhecia, ele pressionou um ponto no seu abdômen com um joelho e praticamente a imobilizou com aquilo, tentar se mexer inundava seu corpo com uma dor aguda.

— Isso é trapaça!

Sem dar sinais do que faria, ele simplesmente roubou um beijo. O beijo foi rápido e intenso o suficiente para lhe tirar o ar, principalmente por ele saber exatamente como provoca-la. Liberando a pressão que fazia com o joelho, precisava que os sentidos dela estivessem atentos a outra coisa, ele deslizou uma mão pelo pescoço dela. Ainda lembrava cada ponto sensível do corpo dela, por menor que fosse, e o sorriso estampado na cara dele quando ela segurou um gemido, denunciou que o corpo dela ainda era, território conhecido para ele.

— Isso, na teoria, é que é trapaça.

Envergonhada com a maneira como fora dominada, ela tentou controlar a respiração e esquecer cada um dos intensos estímulos que faziam seu coração entrar em frenesi. Golpe após golpe, ele a imobilizava e sem nenhum pingo de pudor, lhe mordiscava e beijava partes das suas costas e pescoço. Se divertindo com tudo aquilo, ele continuou a provoca-la até Hinata simplesmente desistir. Com as pernas bambas, tanto pelo cansaço, quanto pelas sensações que ele despertava repetidamente nela, Hinata simplesmente lhe fez um gesto obsceno com o dedo e saiu um tanto quanto irritada para dentro de casa. Não bastava ele ganhar dela, tinha que mostrar, e exibir, o quão superior ele ainda era. Isso a irritou mais do que demonstrou.

Ciente de que ela estaria bem mais irritada do que o normal, ele pensou em compensar com um bom almoço e algumas explicações. Mas quando estava praticamente terminando de cozinhar, ouviu um barulho alto no banheiro.

— Hinata? – ele gritou da cozinha e ao não ter resposta, foi até a porta do banheiro – Está tudo bem?

Sem resposta, ele sentiu por um momento, uma tensão absurda junto com toda aquela preocupação. Sem chamar por ela outra vez, Naruto simplesmente entrou no banheiro. E no instante que fez isso, se sentiu o maior dos idiotas. Ela agarrou o braço que ele usou para abrir a porta, aproveitando o corpo molhado e ainda levemente ensaboado, ela deslizou pelas costas dele. Em poucos segundos, ele estava de joelhos, com o braço perfeitamente preso e a ponto de ser deslocado em vários pontos. Bastava ele se mexer, a vitória era dela.

— Sua diabinha! Usar minha preocupação para conseguir uma abertura. Vou me lembrar disto, Hyuuga Hinata.

Soltando o braço dele e o empurrando no chão molhado, ela o deixou encostado na banheira e aproveitando a própria nudez, sentou no colo dele, lhe roubando um beijo, o ar e também os sentidos.

— Isso foi apenas o troco, querido. Acontece que – ela arrancou a blusa dele – não gosto de ser manipulada dessa forma. Agora é minha vez.

O sexo daquela vez foi algo diferente em tantos níveis, que ela não sabia por onde começar a pensar. Podia comentar a atitude dele, a forma intensa e prazerosa com a qual ele encarou cada minuto, poderia citar o olhar intenso e poderoso que encarava muito mais que a nudez dela. Por vezes, pensou que ele seria capaz de ver a alma dela. E por algumas vezes, jurava ter visto um pouco da dele.

Quando a exaustão finalmente os derrubou, ele ficou simplesmente ali, deitado na cama observando cada pedaço possível dela. Haviam tantas emoções naquele olhar, que era difícil ela colocá-las em palavras, talvez a mais surpreendente delas, fosse aquela pequena – mas intensa – felicidade. Embora suas personalidades entrassem em conflito a todo momento, levando ambos a discussões acaloradas e por vezes, carregadas com acusações e palavras embebidas em uma venenosa intenção de infligir dor, os momentos como esse, em que ele não fazia questão de lhe esconder nada, denunciavam cada pequena alegria que ele sentia.

Ela sabia que Naruto já havia se deitado com diversas mulheres ao longo dos anos. Grande parte delas, eram trabalhos para a Vongola, fontes de valiosas informações que precisavam ser gentilmente dobradas, até expor os segredos que ele precisava. Algumas, por simplesmente despertarem algum prazer nele. Um seleto número delas, no entanto, foram as responsáveis por parar a busca incessante dele. A busca por alguém que fosse como ela. Houve uma com a pele parecida, com o mesmo tom alvo e pálido, mas com a textura totalmente diferente. Houve uma com olhos parecidos, não na aparência, e sim na força e intensidade. Mas se mostraram incapazes de aguentar o que Hinata poderia aguentar.

Houve também, a que mais chegara perto, cuja boca se assemelhava a dela, cujo rosto tinha os traços quase perfeitos e o corpo igualmente belo. Só ela não tinha nem um décimo da essência que Hinata tinha.

As coisas que ela ainda não sabia, pois ele nunca traduzia aqueles olhares, era como ele amava a sensação que a pele dela despertava no corpo dele. A forma reservada, mas convidativa, que os seus olhos tinham. O que ela não conseguia entender completamente, era como ele amava pequena particularidade dela.

— Nós tínhamos algum plano?

— Sobre?

— O futuro.

— Falar do futuro é algo difícil nesse mundo. Evitávamos ficar pensando e sonhando com isso, viver o presente era mais fácil e garantido. É por isso que eu iria te pedir em casamento.

Com um pulo, ela o encarou surpresa.

— Casamento? Nós não tínhamos nem dezoito anos!

— E que diferença faz? Assim que chegássemos na Itália, se não tivéssemos sido emboscados, eu faria a proposta antes da cerimônia de posse dos anéis. Queria usar a cerimônia para o casamento.

— Você nunca falou dessa cerimônia.

Ele riu quando ela mudou de assunto. E foi preciso segurar a gargalhada quando percebeu que ela estava envergonhada.

— É o evento mais pomposo que temos. Geralmente, reúne milhares de pessoas de diversas famílias e grupos mundo afora. Por um dia inteiro, a sede da família em Torino é transformada em um senhor salão de festa. A posso em si não é muito demorada. Apenas os chefes das maiores alianças da Vongola podem comparecer, assim como apenas alguns membros da família. É feita toda uma cerimônia e centenas de juramentos antes que os herdeiros recebam os anéis. Depois disso são horas e horas de comida, bebida, música, e toneladas de mafiosos conversando sobre qualquer possível assunto.

O dia seguinte trouxe notícias um tanto quanto indigestas para ambos. Em um primeiro momento, o telefone para emergências que Naruto mantinha, havia tocado. A informação que Madara poderia estar escondido nos arredores da Escócia e Irlanda, deixou Naruto nervoso de uma forma inédita para Hinata. Pouco depois, ele informou a ela que ele iria se juntar aos outros guardiões em Nairn e que na ausência dele, Hanabi a faria companhia.

Preocupado e claramente ansioso, ele só deixou a cabana quando viu o carro de Hanabi começar a serpentear a estrada que dava acesso ao lugar. Só então, sem nem esperar a sua guardiã chegar, ele simplesmente entrou no seu carro e partiu.

Ter a companhia de Hanabi, foi mais relaxante do que ela poderia imaginar. Porém, também foi mais preocupante. A caçula exibia alguns hematomas feios nas pernas, e embora o braço quebrado já estivesse quase bom, ela vinha ignorando a tipoia e o gesso em prol da mobilidade. Claramente, ela já havia se envolvido em mais missões do que Hinata poderia adivinhar, e do que Hanabi poderia admitir.

— E então? – ela se jogou no sofá após um demorado banho – Como está a vida de casal com o Naruto?

— Não é uma vida de casal. – ela fez uma careta – Temos nossos momentos, não vou mentir. Mas não é para tanto.

— Então você não o ama? Ou ele não te ama?

— Não é isso. – ela resmungou alguma coisa e encarou a janela – É complicado, Hana. Ao mesmo tempo que ele consegue me fazer feliz, ele tem aquela maneira inexplicavelmente eficaz de me machucar. Me decepcionar. E eu não falo isso apenas pela maneira como ele vive.

— Isso não deveria ser algo bom?

— Como assim? – ela encarou a irmã, um pouco confusa.

— Se ele não fosse capaz de te machucar tanto, de te decepcionar, significaria que ele não está aí, nesse peitão. Não é? Eu aprendi bem nessa minha curta vida, que as pessoas que mais amamos, são as que mais nos destroem. São elas que tem a capacidade de entrar no nosso corpo, e nos destruir em pedaços pequenos demais para contar. Só que ao mesmo tempo, são as únicas que conseguem nos concertar, exatamente como éramos, e as vezes, nos deixando melhores e mais fortes.

Embora Hanabi estivesse claramente com uma tonelada de assuntos querendo ganhar destaque, o sono acabou derrubando a garota. Hinata simplesmente acompanhou ela em um rápido e leve cochilo. Que subitamente, terminou com uma chamada para Hanabi. A comitiva de Naruto não havia nem mesmo decolado de Inverness, foram emboscados assim que chegaram ao aeroporto e era questão de tempo até a Vongola não conseguir manter a confusão embaixo dos panos. Em pouco tempo pipocariam dezenas de notícias sobre um tiroteio e um possível atentado em Inverness e logo Naruto teria que usar sua identidade para acalmar o incêndio. Por isso, Hinata precisava ser levada para outro lugar o mais rápido possível.

As duas mal tiveram tempo para se trocar, tudo que conseguiram fazer foi trancar a casa e Hanabi já acelerava estrada abaixo.

A chegada ao aeroporto foi complicada. A Vongola conseguia controlar o lugar, mas manter os civis seguros e a Akatsuki afastada era uma tarefa árdua e ingrata. Naruto havia preparado um jato para que as irmãs Hyuuga deixassem a Escócia e seguissem para a Itália. Embora ele não quisesse expor Hinata a família ainda, o coração da Vongola era o lugar mais seguro para ela. Outros três jatos com pessoas disfarçadas como as duas, seriam despachados para cidades diferentes. Ele não daria a chance para algum maluco tentar abater o avião, e abater justo o correto.

A única falha na segurança da Vongola, a única pequena e mortal janela disponível para a Akatsuki, foi justamente a inocência deles em não revirar o aeroporto abaixo e procurar por infiltrados. Buscas rasas foram feitas e logo os terminais e saguões foram ignorados, a possibilidade de Hinata e Hanabi serem alvos naquela casa distante, havia deixado Naruto perigosamente distraído e com a visão limitada. E ter a presença de uma guardiã inexperiente, fez Sasuke, Gaara e os demais guardiões presentes, terem a mesma preocupação. E cometerem o mesmo erro.

Toda a cena pareceu transcorrer em uma velocidade anormalmente lenta, desde a chegada apressada do carro de Hanabi, até o momento em que as irmãs deixavam o veículo. Longe demais, ele pensou. Longe demais para fazer qualquer coisa. Longe demais, para que o grito dele surtisse algum efeito. Ele viu os pontos de laser pousarem no peito de Hinata, e antes que pudesse ter qualquer reação, ouviu os disparos.

Antes que ele pudesse perceber e compreender, tudo o que acontecia, algo dentro dele pareceu quebrar. Um pequeno estalo veio seguido do som de um vidro se quebrando, e antes que Naruto pudesse entender como caíra no chão, ele tentava desesperadamente entender, como Hanabi havia percebido que a irmã era o alvo. E como ela havia, aparentemente em tempo, conseguido usar o próprio corpo como escudo.

Subitamente, tudo ficou calmo, mergulhado em um profundo silêncio. Não havia a confusão e o desespero de seus guardiões, procurando os atiradores, nem mesmo o olhar perplexo de Hinata. Ele não ouvia nada, nem mesmo as batidas de seu coração. Tudo que seu corpo conseguia perceber, era o desfecho do seu maior erro.

Era o fato de que Hanabi, fora mortalmente baleada.

Notas finais
Pessoal, um adendo sobre o capítulo. Ele foi corrido? Sim, a transição de eventos foi rápida de propósito, vocês vão entender o por que disso em alguns capítulos :)!