Pecados

14 Capítulo 14


Notas iniciais
Boa leitura!

Após quase quatro horas, Danzou havia finalmente cedido ao cansaço. E embora ele tenha confirmado que Hinata realmente não tinha nenhuma ligação útil com a Vongola, não passava pela cabeça dele deixar um peão importante como aquele simplesmente escapar. Precisava reconhecer também, que deveria dar um descanso a mulher e um pouco de reconhecimento, afinal, mesmo após horas de tortura, ela não deixou escapar nem mesmo um grito. E ele tinha feito um bom trabalho.

O rosto de Hinata estava inchado e marcado, provavelmente quebrara algumas costelas, respirar era uma tarefa dolorosa. Qualquer leve movimento da boca era suficiente para abrir os diversos cortes e ela tinha quase certeza que algum osso do seu rosto estava quebrado. O pior, no entanto, era o ombro porcamente suturado. Um dos poucos momentos de deboche dela havia lhe rendido um tiro a queima roupa no ombro.

— Tenho que admitir. Você é mais resistente do que aparenta. Não acha isso estranho? Um simples detetive ter tanta resistência a dor? Ter uma força de vontade tão grande a ponto de irritar seu torturador? Isso é bastante bizarro para mim. Sabia, que sua irmã se juntou a ele?

O espanto foi tão grande, que ela esqueceu a dor por um momento.

— Do que você...

— “Hyuuga Hanabi, de acordo com as Leis da Máfia, em comum acordo com as famílias internas e filiadas, receberá seu direito de nascença e de agora em diante, é uma protegida da Vongola Famiglia. De acordo com a vontade Uzumaki Naruto, Decimo Vongola de la Famiglia, ela também será, la Pioggia da Decima Generazione.” Agora eu acho que você é a vítima disso tudo.

— Como isso é possível? Hanabi, ela... Não. Isso é mentira!

— Acredite se quiser. Porém, que provas você tem? O que realmente sabe sobre seu pai, sobre sua irmã, até mesmo sobre você mesma?

O discurso de Danzou fora mais que efetivo e ele percebera isso com um sorriso satisfeito. Hinata não tinha nada. Não sabia nada sobre a sua família nem sobre ela mesma. Não entendera a razão de todos os sentimentos por Naruto existirem de forma tão saudosa e calorosa, não entendera os olhares distantes e por vezes, dolorosos dele. Não entendera toda a fúria e raiva da irmã, a distância do primo e do tio, muito menos cada uma das pequenas particularidades dela. Era boa em artes marciais, tinha um corpo extremamente flexível, do tipo que se conquista com muitos anos de treino, sabia montar, desmontar e manejar com maestria praticamente todas as armas que passavam pela sua mão. Sua mira, seus reflexos, até mesmo aquele instinto que surgia de vez em quando, haviam muitas coisas que ela não entendia. Muito que ela desconhecia.

— Sabia, que foi eu quem colocou essa cicatriz na sua testa?

Ele deu uma risada pela cara incrédula dela.

— Você e seu namoradinho estavam tentando escapar, infelizmente para vocês, na época nós da Akatsuki sabíamos que vocês tomariam uma rota mista para tentar escapar de emboscadas. Tudo que precisei fazer foi esperar pacientemente em um cruzamento. Quando vocês passaram, eu simplesmente empurrei vocês penhasco abaixo. Infelizmente fui atrapalhado e não consegui terminar o serviço, mais é a vida.

— Namorado?

— Ah, perdão. Você e Uzumaki Naruto se conhecem desde que usavam fraldas. Na Vongola, é comum que a família “principal”, ou seja, o líder e seus guardiões, convivam intimamente. Quando eles têm filhos, é normal que as crianças cresçam lado a lado e são encorajadas a formarem casais. Namikaze Minato, era o Nono Vongola enquanto seu pai, Hyuuga Hiashi, era o Nono Pioggia. Sim, seu pai, o policial perfeito dos sonhos, era um Vongola. Eu não sei os detalhes, sei apenas que você e Naruto foram um casal por muito tempo. E que ele te descartou após o acidente. É compreensível, quem vai querer um peão quebrado, afinal?

A meia verdade de Danzou caiu como uma pedra no estômago dela. Ela não tinha nada, nada que pudesse desmentir aquilo. Nada que pudesse indicar a ela as meias verdades que ele havia cuspido.

E o pior, era o absurdo sentido que aquela explicação dava para tudo. Por mais ridícula que fosse, cada um daqueles detalhes trazia uma sensação de verdade para ela que chegava a ser irritante.

— Será que –

Danzou foi interrompido quando a porta da sala de interrogatório foi, subitamente, aberta. Com uma calma assustadora e uma presença avassaladora, o homem da máscara preta e dourada entrava novamente naquela delegacia. Naruto voltara para o jogo. Antes que Danzou pudesse pensar em uma reação, um tiro foi dado e ele desabou no chão, ainda vivo, mais com um joelho destruído.

Atrás dele, haviam mais pessoas. Ele viu uma mulher com uma máscara preta e azul e um outro homem com uma máscara preta e verde. Ignorando Hinata e o espanto dela em um primeiro momento, Naruto rumou em direção a Danzou e fazendo questão de exibir o anel do céu, tirou a própria máscara.

— Sabe, é surpreendente que um parasita como você tenha tanta informação. Acho que você realmente aproveitou, e muito, os anos de Varia. De certa forma, é uma pena que um homem com tantos recursos para espionagem, tenha preferido o lado errado da guerra. Isso tudo é o que? Ciúmes e inveja de Jiraya e Orochimaru? Ah! Não, perdão, eu esqueci. Sua picuinha era com o falecido Hiruzen, não era?

— Não ouse!

— Por que não? Te incomoda saber que mesmo após quinze anos de morto, ele continua sendo melhor que você? Hiruzen foi um dos melhores guardiões que a Vongola já viu e foi o melhor chefe da história da Varia. E você? Falhou em tudo que tentou e sempre foi preterido.

Quando estava prestes a matá-lo, ele ouviu uma pequena comoção atrás dele e não se surpreendeu ao ver que Hinata pegou a arma sobre a mesa. E apontava a mesma para ele.

— É verdade? Tudo que ele disse, é verdade?

— Algumas partes são. Outras não.

— Nós fomos realmente um casal? É verdade que você simplesmente me descartou depois do acidente?!

— Hina não é – a voz de Hanabi surgiu por de trás da máscara azul e preta.

— CALE-SE!

Em silêncio, ele ignorou Danzou e encarou Hinata. Ela estava no limite tanto físico quanto mental, era fácil ver quanta força ela fazia apenas para estar de pé. O olhar dela era confusão pura, haviam nuances de ódio e raiva, irritação, dor, solidão e remorso. Mais o que realmente machucou, foram as lágrimas que ela não conseguiu segurar. No momento em que ela soltou a arma e sentou novamente naquela cadeira, um choro sincero e desesperado surgiu. E aquilo machucou ele de uma forma estranhamente brutal.

— Sim, eu poderia ter te descartado. Poderia ter usado um dos seus pecados como desculpa. Só que eu não seria tão covarde a ponto de fazer isso. Fiz por você o que eu julguei ser o melhor.

— Melhor! Uma vida sem nada nem ninguém. Como isso pode ser melhor?

— Você saberia se lembrasse.

Antes que ela pudesse retrucar, o outro homem mascarado entrou na sala.

Cielo não temos tempo. Nossa janela está acabando.

— Certo. Vá na frente e prepare nossa partida. – ele encarou Hanabi enquanto Tuono deixava o local – Vamos Pioggia.

Enquanto Hanabi apoiava Hinata e tentava leva-la para fora da sala, Naruto parou, fez uma cara de quem se lembrou de algo importante e apontou a arma para Danzou.

— Normalmente, eu te levaria, te torturaria e tiraria cada pingo de informação de você. Só que eu não ando no clima, minha paciência já se esgotou com vocês da Akatsuki fazem alguns anos. Então, apenas vá para o inferno.

O tiro ecoou pela sala de interrogatório e corpo de Danzou caiu inerte no chão enquanto Naruto colocava de volta sua máscara.

A ida até Uenohara foi irritantemente silenciosa. Ao contrário do que Naruto esperava, Hinata não se opôs a entrar no carro com ele e Hanabi, e ele não sabia se isso era algo bom ou preocupante.

Uma vez de volta a mansão, Hanabi levou Hinata até um dos quartos e mesmo contra a vontade de Tsunade, que queria a mulher na enfermaria, pegou apenas um kit de primeiros socorros para algum cuidado imediato. Ela sabia que antes dos ferimentos físicos, ela teria que conhecer quão ferida mentalmente a irmã estaria.

— Eu não queria esconder isso de você. – ela começou a falar enquanto limpava os machucados.

— E mesmo assim você o fez.

— Não me orgulho disso. Eu preferi fugir a te contar tudo. Mas, antes que eu te conte o que aconteceu comigo, você precisa saber de toda a verdade, conhecer toda a história. Por mais que eu saiba do seu passado, muitas coisas eu descobri recentemente, não sou a pessoa certa para te contar tudo.

Com um silêncio absoluto no quarto, Hanabi fez o possível com o básico dos primeiros socorros, logo após, deixou uma muda de roupas limpas para a irmã e indicou que Naruto esperava por ela na porta em frente ao quarto dela.

Para a surpresa de Hinata, não havia mais ninguém no quarto. Apenas eles dois e uma pistola sobre a mesa. Machucada, dolorida, desconfiada e profundamente confusa, ela sentou em um sofá ao canto da sala e apenas esperou a reação dele, que demorou bastante para acontecer. Por quase vinte minutos, ele permaneceu parado feito uma estátua encarando algo na paisagem, enquanto ela, encarava aquele rosto confusamente perdido nos próprios sentimentos. Ao mesmo tempo, ela perguntava para si mesma que tipo de situações havia vivido com Naruto.

— Como Danzou disse, a Vongola incentiva bastante a união de casais entre a família dos líderes. É comum os herdeiros casarem entre si. Isso ocorre devido a nossa posição, não é apenas o Chefe, o portador deste anel – ele exibiu a joia a ela –, que está sujeito as mazelas da traição. Cada um dos guardiões também está. Quando uma geração tem herdeiros com idades próximas, a tendência é que eles cresçam juntos e na maioria das vezes se tornam um casal, já que só podemos confiar nesse pequeno círculo.

Percebendo que apesar do claro interesse, ela se contorcia de dores ocasionalmente, ele interrompeu a conversa e entregou a ela um copo cheio de comprimidos, acompanhado de um copo d’água.

— São remédios indicados pela nossa chefe médica. Você não é obrigada a tomar, mais garanto que eles vão aliviar um pouco a situação.

Em silêncio, Naruto sentou perto da janela e só voltou a falar quando ela enfim venceu a indecisão e tomou os comprimidos.

— E onde eu entro nisso tudo? – ela perguntou.

— Danzou já lhe deu essa resposta. Hiashi era guardião do meu pai, um dos homens de maior confiança dele. Não me lembro do dia exato em que nos conhecemos, apenas que você sempre esteve ali. Ficamos separados por uns anos quando nossas famílias estavam aqui no Japão, quando nos reencontramos na Itália, nosso treinamento já havia começado, por isso, ter a companhia um do outro foi a melhor coisa que aconteceu. – ele percebeu que ela não entendeu – Ah, desculpe. Herdeiros, não podem ter a vida de crianças comuns. Não podemos ter amigos, mesmo entre as crianças da Vongola, se a geração tem apenas uma criança, ela crescerá sozinha e rodeada por adultos. Nós começamos a aprender de tudo um pouco aos cinco anos. Temos que falar obrigatoriamente, inglês e italiano de forma fluente, herdeiros com outra nacionalidade, como nós, costumamos falar três ou mais idiomas. Além disso, aprendemos artes marciais, esgrima, kendo e inicialmente, tiro esportivo. Fazer isso com companhia é infinitamente mais produtivo nessa idade.

— Então nós estamos juntos desde crianças?

— Não é bem assim. É difícil entender sentimentos como amor e paixão quando se vive em um mundo tão diferente. Nós só começamos a descobrir isso durante o Agogê.

— O que?

Com uma leve impaciência, ele suspirou, encheu um copo com uísque e foi puxar novamente na memória, todas aquelas explicações.

— Os antigos espartanos tinham um processo de treinamento chamado Agogê, era assim que formavam seus poderosos soldados. Naquela época, com uma certa idade, as crianças espartanas eram separadas de suas famílias e começavam seu treinamento. Era um processo brutal e intenso, mais que rendeu a Esparta um dos exércitos mais mortais da história. A Vongola copiou esse conceito após as Terceira e Quarta gerações morrerem rapidamente por causa do treinamento “comum”. O Agogê da Vongola consiste em um período de meses onde os herdeiros são deixados em algum lugar do mundo, com o único objetivo de sobreviver. E sim, – ele se adiantou antes que ela perguntasse – algumas gerações de herdeiros já faleceram durante o Agogê. Sempre que isso acontece, a Vongola fica em um “estado de suspensão” e é gerida pelas famílias secundárias até que uma nova geração seja escolhida, treinada e aprovada.

— O que aconteceu conosco?

— Fomos deixados na Albânia. Tínhamos quatorze anos na época. E aquilo foi, sem dúvidas, um verdadeiro inferno. Para começo de conversa, a máfia albanesa é uma das mais difíceis de controlar. Estão espalhados por toda a Europa e o governo fechado do pais dificulta a entrada até mesmo da Vongola. Felizmente, herdeiros não são oficialmente associados a família antes do Agogê, então a máfia não era o nosso problema inicial.

— Nós falávamos albanês?

— Não. Nem uma singela palavra. E é para isso que o Agogê serve. Nós precisávamos de comida, de um teto. Não tínhamos dinheiro, armas e nem mesmo roupas além das do corpo. Em menos de uma semana, fomos obrigados a roubar, fomos pegos e apanhamos. Dormimos na chuva, em um frio absurdo. Passamos fome e desespero antes de conseguirmos decidir qual o melhor lugar para sobreviver, e a melhor forma de o fazer. Infelizmente, as coisas não foram perfeitas e tudo ficou bem problemático antes da hora. Juntando isso aos seus medos e traumas, foi um verdadeiro desafio.

— Traumas?

— Fazia pouco mais de um ano desde todo aquele evento. Pouco mais de um ano desde que você matara meus pais.

Notas finais
Bom pessoal, não prometo o capítulo 15 na quarta. Essa semana foi totalmente improdutiva para mim e eu to no limite de capítulos prontos, então já sabem, se eu não aparecer aqui na quarta, o capítulo 15 só aparece no sábado! Obrigado pelos reviews no capítulo passado e por continuarem acompanhando, até a próxima!