Pecados
15 Capítulo 15
Notas iniciais
Aquela memória veio de forma praticamente espontânea na cabeça de Naruto, e antes que ele percebesse, aqueles dias haviam dominado sua imaginação. Anos atrás, devido a inconsistências no comando da CEDEF e da Varia, um antigo membro da ramificação de elite da Vongola tentou tomar o poder a força. O plano dele foi simples e eficiente, usurpou o comando da Varia, colocou um peão de sua confiança em cada posto importante da CEDEF e pressionou a Vongola.
Itália, alguns anos atrás
Estado de sitio não era algo novo para a Vongola. Por mais forte que a família fosse, estava acostumado a famílias poderosas subitamente opondo-se a ela. Essa, no entanto, era a primeira vez em quase duzentos anos que ela era empurrada e encurralada na sua própria casa: a Itália.
Embora Jiraya soubesse que sua posição como Octavo era incômoda a muita gente, jamais imaginou que sua maior concorrência viria justamente, da Varia. Jiraya era o primeiro estrangeiro em séculos a portar o anel do céu, e embora grande parte da Vongola nem mesmo pensasse nisso, já que o anel foi legitimamente confiado a Jiraya pelo Vongola anterior, haviam pequenos focos de resistência na família. Com a mesma ainda enfraquecida pelas campanhas na Guerra Fria, a Vongola perdera o controle sobre várias famílias mundo afora e em meio a silenciosa guerra da máfia, Jiraya havia perdido o controle da Varia. Viu Orochimaru escapar por pouco de um atentado que lhe custara longos meses hospitalizado e vira Tsunade perder o único irmão na tentativa de lhe tirarem o comando da CEDEF.
Por mais contraditório que pudesse ser, o maior oposicionista de Jiraya, era outro estrangeiro. Uchiha Madara, chefe de um pequeno braço da Yakuza que fora recrutado para a Varia pouco antes das famílias mudarem seus comandos. Madara fora cruelmente frio e calculista, a lei da família não permite que um opositor cometa homicídio contra a futura geração para assumir o anel livre. Por isso ele se livrara do jovem irmão de Tsunade antes que Jiraya pudesse abdicar do anel e obrigar a Varia a recuar. Em caso de renúncia do anel, tanto Varia quanto CEDEF são obrigadas a retornarem para a Vongola e auxiliar a transição da liderança, que pode durar anos. E nem mesmo Madara ousaria ir contra a lei da máfia, nem mesmo a própria Vongola passa por cima das leis que escreveu.
Ao destruir o único possível herdeiro a escolha de Jiraya, Madara encurralou o Octavo, obrigando-o a recorrer às pressas ao mais novo de seus guardiões. Minato era o herdeiro do anel do Sol na época e o único com uma família que pudesse sucedê-lo. Se o próximo Vongola já tivesse uma linhagem estabelecida, Madara nada poderia fazer. Agindo de forma rápida, ele pulou várias etapas para tornar Minato o Nono. Mas se ele soubesse que o comando de seu pupilo fosse durar pouco mais de alguns meses e terminar de forma trágica. Talvez ele nunca o tivesse feito.
Ninguém jamais imaginou que Madara iria contra a lei, que ele ignoraria tudo que as regras da família diziam. Ninguém imaginara que ele sequestraria o jovem filho de Minato, e usando-o como isca, conseguiria atrair os pais do garoto para fora da Itália. E ninguém jamais acreditaria que toda a estabilidade da Vongola, cairia sobre a jovem filha do guardião da chuva.
A estratégia de Madara fora simples, porém arriscada e ousada. Usar Naruto como isca para atrair Minato e Kushina para fora da Itália, dessa forma, teria tempo para obrigar Minato a renunciar o anel em sua presença. Sem a presença de outro guardião, apenas um membro da própria Vongola, Varia ou CEDEF poderia carregar o anel de forma provisória antes da decisão dos guardiões. Uma vez que ele conseguisse o anel do céu, precisaria apenas usar sua autoridade como chefe da Varia para ter o apoio da mesma. Já ordenara a morte dos demais guardiões, com a Vongola sem votos, a CEDEF em suas mãos, não haveria oposição.
Com o jovem Naruto em sua posse, Madara conseguiu atrair Minato e Kushina, como os dois já previam que não sairiam vivos daquela jogada, ordenaram que todo o efetivo da Vongola permanecesse na Itália. O que nem eles, nem Madara, nem ninguém esperava, era a aparição de uma nova peça naquele jogo.
Convencido de que tudo estava sob o seu controle, Madara havia cometido diversos erros em meio a sua euforia. Havia aprisionado Minato e Kushina em um quarto de uma velha casa na Grécia e no outro andar, ele mantinha Naruto próximo a ele. Minato e Kushina não reagiam mesmo diante da fraca segurança do lugar, apenas pelo fato de Naruto estar em posse do inimigo. Qualquer passo em falso deles e Madara mataria o garoto.
A surpresa veio, quando eles notaram um estranho movimento nos jardins e após alguns segundos de observação, Hinata abriu e pulou a janela. A garota suava frio e estava claramente em pânico sob o medo de ser descoberta.
— Hinata? – foi Kushina quem conseguiu falar diante do espanto – Como você?
— Não sei! Papai me deu a localização e me mandou apenas observar, como eu vi que dava para entrar, arrisquei!
Com um inocente sorriso de satisfação, a garota arrancou uma risada de Minato que deu um longo abraço na garota.
— Seu pai está por aqui? Algum guardião desobedeceu minhas ordens?
— Não, todo mundo ficou na Vongola, apenas a Giglio Nero está por aqui. Papai me disse que eu poderia vir por não ser um membro ainda. – ela abriu o casaco e puxou uma pistola que estava guardando – Só tem três pessoas lá fora, vocês conseguem sair.
Claramente tentados pela surpresa que a garota representava, os dois se olharam e pensaram, por um longo tempo, em realmente pegar aquela arma e terminar tudo aquilo. A negativa veio de Kushina, que com um ar sério e preocupado, expôs a Minato a sua visão de tudo aquilo.
— Querido, não podemos. Se matarmos Madara agora...
— Vai ser guerra. E a das piores, não sabemos o quão enraizado ele está na CEDEF. Se ele tiver o controle de outra família, talvez nem mesmo a Vongola consiga segurá-lo. E pelo que já ouvimos, ele já tem vários atentados a família em curso. Não podemos arriscar a hipótese de ser um blefe. Esse maldito já deve ter um plano b, aposto como tem diversos membros independentes prontos para assumirem caso algo aconteça a ele.
— O que vocês estão dizendo? Vamos pegar Naruto e sair daqui!
Com um sorriso caloroso e maternal, do tipo que Kushina sempre dava para Hinata, ela ficou de frente para a criança e com os olhos claramente segurando lágrimas, vieram as palavras que Hinata desejaria jamais ouvir.
— Ouça minha pequenina. Você pode ser nova, mais já sabe bastante do nosso mundo e das nossas leis. Madara já tem um poder indefinido sobre muitas famílias, uma vitória temporária aqui, pode custar muitas vidas a Vongola, pode custar a sua vida e a de Naruto. E você sabe que a Vongola está enfraquecida, se você, Naruto e a geração atual de herdeiros for perdida, a família corre o risco de desaparecer. Isso é algo que não podemos permitir, antes de sermos pais, somos os líderes dessa família. Ouça, eu vou te pedir algo desumano, algo que adulto nenhum jamais deveria pedir para uma criança ainda tão inocente como você.
Enquanto as lágrimas finalmente ganhavam espaço no rosto de Kushina, ela deu a ordem e pacientemente, repetiu e discutiu o ato com a criança a sua frente. Como ela disse, era algo desumano, destruir a inocência de uma criança em uma idade tão complicada era mais que um crime. Por mais treinamento que Hinata tivesse, por mais que ela conhecesse as trevas daquele mundo e já as tivesse presenciado, pedir que uma criança como ela matasse duas pessoas, duas pessoas amadas por ela, era uma crueldade que nem o mais duro dos Agogês conseguiria reproduzir.
— Hina, você sabe, você sempre soube que um dia assim chegaria! Você e Naruto devem proteger apenas a vocês mesmos, o futuro de vocês é liderar a família e por mais injusto que isso seja, é algo que não pode ser evitado, nem remediado. Se Madara sair daqui com o anel do céu, será o fim não apenas nosso, mais o de vocês também. Todas as coisas que vocês estão predestinados a fazer, todas as vidas que podem salvar, serão perdidas. Você deve proteger Naruto, apenas ele, querida! Minato e eu somos descartáveis agora, sua prioridade é Naruto!
— Kushina... – Minato se aproximou dela – Não faça isso. Somos capazes de tirarmos a vida um do outro e montar uma cena, vai servir. Jiraya saberá o que fazer.
— Você sabe que não dá! A casa está sendo vigiada, provavelmente alguém vai ver os registros de vídeo em pouco tempo. Se nos matarmos, o anel do céu irá para a seleção outra vez! Você precisa passar o anel para Hinata. Por mais que ela não seja um membro oficial, tem a exceção dela ser filha de Hiashi. E justamente por ser de fora, ela pode fazer isso sem invalidar a transferência. É a única forma de manter Madara longe do anel!
— Eu faço!
Com a voz trêmula e os olhos já vermelhos pelo choro, ela tentou ao máximo não mostrar a quão desesperada estava.
Dois tiros ecoaram pela casa e com um súbito espanto e uma dose de desespero, Madara correu pelo imóvel. Arrastando Naruto pelo braço e totalmente confuso, ele entrou abruptamente no quarto e antes que pudesse entender o que se passava por ali, viu Minato e Kushina mortos no chão, a pirralha Hyuuga em choque enquanto segurava uma arma e segurava os anéis do Céu e da Tempestade.
— Sua! O QUÊ VOCÊ FEZ!
Antes que Madara pudesse chegar a Hinata, ele viu o telefone da garota na mão de Minato, viu o nome do chefe da família Giglio Nero na chamada e antes que pudesse pensar no que fazer, viu Naruto se atirar a frente de Hinata e pegar a arma das mãos da garota. Com dois disparos não muito certeiros, Madara sentiu o braço e o ombro queimarem. Fora obrigado a fugir antes de reagir, alguns tiros começavam a serem efetuados do lado de fora e era possível ver os homens da Giglio Nero se aproximarem. No momento em que conseguiu fugir, ele entendeu tudo. E amaldiçoou a si mesmo por ser tão idiota.
Levou apenas uma hora para Jiraya chegar no lugar. Acompanhado de Konan, Yahiko e Kabuto, ele se juntou aos homens da Giglio Nero em busca de uma explicação. Quem veio falar com ele foi o filho de Hiruzen, Sarutobi Azuma.
— Me desculpe pelas súbitas notícias, Jiraya. Mas fui igualmente surpreendido. Hiashi enviara um pedido de ajuda através da filha por saber das nossas operações na Grécia. As crianças estão bem, mais infelizmente, Kushina e Minato estão mortos.
A notícia caiu como uma bomba na cabeça de Jiraya.
— Eles confiaram a Giglio Nero a missão de testemunha. Ambos abdicaram seus postos para a próxima geração. Temos o discurso de Minato gravado para confirmar.
Embora aquela não fosse a única opção, ele foi obrigado a reconhecer que foi a correta. Renunciar os anéis com a morte, obrigaria Varia e CEDEF a devolver seus bens e poderes para a Vongola enquanto a nova geração não fosse apta a assumir. Com isso, o comando da família cairia no colo de Jiraya, Orochimaru e Tsunade por serem os líderes mais velhos em atividade. O problema de tudo aquilo, foi o preço pago por Hinata.
Quando chegou no lugar onde as crianças estavam, por um longo tempo as palavras fugiram da cabeça. O choro de Hinata era tão carregado e intenso que por um momento, Jiraya desejou que Minato e Kushina tivessem deixado a Vongola acabar a destruir a vida de uma criança daquela forma.
Uenohara, dia atual
— Além do discurso de transferência deixado pelo meu pai, eu vi e ouvi a gravação das câmeras espalhadas pela casa. A morte não era a única saída para eles, e eu não tenho vergonha em dizer que meus pais foram um tanto negligentes. Por serem órfãos, a Vongola significava para eles, algo muito maior do que significa para mim. Era inadmissível para os dois não usar qualquer meio que fosse, para deixar a família intacta. Mesmo que isso custasse a sua mente e a vida deles.
Antes que ela pudesse dizer ou ao menos sentir qualquer coisa, ele pegou uma mochila que estava nas gavetas da mesa e após tirar um notebook da mesma, colocou o mesmo em frente a Hinata e mostrou o vídeo a ela.
Ela vomitaria se tivesse algo no estômago para fazer isso. Sentiu a bile lhe queimar a garganta enquanto um desespero e pesar sem iguais apertavam o seu coração com força. Ver aquilo, ver a cena dela pequena matando duas pessoas que aparentemente eram tão importantes para ela, fez Hinata afastar bruscamente o notebook enquanto lágrimas que ela não entendia, insistiam em continuar correndo. Por mais que as memórias tivessem desaparecido e os pensamentos daquele dia não fossem mais acessíveis, os sentimentos ainda estavam lá, gravados a ferro e fogo na sua alma, machucando seu coração de uma forma que ela jamais imaginou ser possível.
— Embora eu tivesse prometido jamais te mostrar isso, acabei guardando essa cópia para momentos como esse.
A voz trêmula dele chamou a atenção dela e por um curto espaço de tempo, Hinata conseguiu ver a alma dele de uma forma tão clara que chegou a ser assustador. A vida de Naruto era, no mínimo, trágica. Perdera os pais, em troca da sua vida, pelas mãos da garota que amava. Depois, pelo bem dela, fora obrigado a seguir o caminho sozinho, isolado de qualquer pequena felicidade que pudesse aparecer ao lado dela. E não bastando isso tudo, graças aquele desejo quase irracional de mudar o mundo, fora obrigado a retornar a ela. Para a vida dela, para o caminho dela. Ele foi obrigado por seus ideais a traí-la, usá-la, manipulá-la e descarta-la. E isso o abalava de uma forma tão densa que por um minuto, Hinata esquecera dos próprios problemas.
Ela não sabia o que sentir, nem o que pensar. Deveria odiar o homem a sua frente, ignorar o passado que batia a sua porta e simplesmente destruí-lo, ou deveria se entregar aquele deformado e intenso amor que sentia por ele? Hinata entendera o quão desesperado ele estava para pedir desculpas, implorar por perdão e que ela, de alguma forma, considerasse estar ao lado dele. E ela não conseguia entender por que ele não conseguia dizer isso de forma clara.
— O que aconteceu conosco durante o Agogê?
Ela jogou a pergunta no ar, na esperança de desviar o assunto. E sentiu um súbito alívio ao perceber que conseguira.
— Isso é um assunto para outro dia, quem sabe. Agora, que você já sabe basicamente dos pontos mais importantes do seu passado. Preciso que você entenda uma coisa.
— O que?
— Quando você sofreu o acidente. Quando me certificaram que seria impossível suas memórias retornarem. Eu firmei um acordo com Madara. Minha vida, em troca da sua. Se eu um dia voltasse a me aproximar de você, ele teria total liberdade para me matar. E eu não poderia resistir a isso. A única forma desse acordo ser anulado, é se você me matar.
— Eu não vou te matar. – ela quase gritou, e se encolheu quando as costelas arderam.
— Você precisa. Me recuso a morrer pelas mãos daquele desgraçado. Morrer pelas suas é a melhor morte que eu poderia pedir.
— Pois eu não vou!
Bufando de irritação, ele pegou a própria arma e apontou para ela. Com um movimento rápido, jogou a pistola que estava sobre a mesa para ela.
— Você conhece o peso de uma arma carregada. Por isso, sabe que essa ai está. É simples, por mais que me doa, ou você me mata, ou morre pelas minhas mãos. Eu não vou dar esse gosto aquele maldito. Jamais.
— Você está louco! – ela apontou a arma para ele, mesmo que de forma trêmula.
— Isso! Vamos Hinata! Lembre-se das últimas semanas, lembre-se de como eu te trai, de como te usei! Lembre-se de como se sentiu quando eu te deixei naquela delegacia! Atire! Acabe com isso, VAMOS!
Com o olhar vidrado pela confusão e pelas dezenas de pensamentos confusos que gritavam na sua cabeça, ela sentiu aquele velho e desconhecido sentido de sobrevivência aflorar. E antes que ela pudesse compreender a situação, seu dedo puxou o gatilho.
O disparo ecoou pelo cômodo. E enquanto um súbito desespero quase sufocava ela, um sentimento ainda mais forte de incredulidade lhe subiu à cabeça. Não havia sangue, não havia dano nenhum a Naruto. Sem acreditar no que via, era impossível ela errar um tiro aquela distância, Hinata rapidamente tirou o carregador da arma e no momento que viu a munição falsa de festim, sentiu os joelhos perderem a força. Ela desabou com tudo no chão e atirou a arma nele.
— Seu farsante maldito! Você quase me matou do coração!
Fazendo uma breve careta e com um olhar estranho, ele deu um suspiro aliviado e ficando diante dela, esticou a mão para lhe tocar o cabelo, mas parou antes mesmo que ela pudesse recusar o toque.
— Desculpe. Não seria natural se você soubesse que a munição era falsa. Não tenho a menor pretensão de respeitar o acordo que firmei com Madara, ele o quebrou quando colocou Danzou para te vigiar. E mesmo que não tivesse feito isso, eu jamais respeitaria tal acordo. Toda essa situação aconteceu por que aquele desgraçado desrespeitou a lei e causou toda essa merda. Só que, mesmo assim, eu preciso saber que você é capaz de me matar. Se você consegue puxar o gatilho para mim, consegue para qualquer um.
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