Pecados
1 Capítulo 1
Notas iniciais
A primeira sensação de Hinata ao entrar naquele lugar, foi uma extrema repulsa. Chegava a ser injusto jogar uma novata direto naquela bagunça e ela percebeu que a maioria dos veteranos ali pensou nisso quando ela correu para fora do armazém e vomitou no primeiro lugar que encontrou. Sentindo uma leve tontura, o cheiro podre e intenso do lugar parecia ainda pior. Tentando se recompor e forçando a volta ao galpão, ela colocou um pano sobre o nariz e a boca e seguiu para o local outra vez, o lugar parecia um cenário de um filme de terror inacabado, haviam pelo menos duas dúzias de corpos em estado de decomposição já avançado, haviam manchas e poças de sangue seco por todo lugar.
Conforme ela acompanhava as conversas dos demais detetives, conseguia entender melhor o lugar, embora todos os cadáveres ali estivessem armados, não haviam cápsulas pelo chão, nem resquícios de tiros. Todos os homens ali morreram em sequência sem nem ao menos perceber a situação. Pelo estado de decomposição, era impossível afirmar como exatamente as mortes ocorreram, mais praticamente todos ali tinham as gargantas cortadas. Agradecendo por não ter mais nada no estômago, ela se aproximou de um dos cadáveres, Yakuza como todos previram. Essa era a vigésima cena descoberta nas últimas semanas, todos recintos conhecidos da Yakuza e sempre violentos indicando uma clara mensagem: guerra.
— Pesado demais para a novata?
Com um olhar irritado, ela olhou para trás. A última pessoa que queria ver naquele momento era justamente ele. O consultor da Interpol disponível para aquele caso era um homem na idade dela, mais ao contrário de Hinata, não parecia nem um pouco incomodado com tudo que via.
— Não seja indigesto a essa hora da manhã, Naruto.
Por mais japonês que o nome fosse, a aparência dele dizia totalmente o contrário, pelo que ela sabia, a mãe era japonesa e o pai europeu e embora ele usasse o sobrenome da mãe, era a cara do pai.
— Quer coisa mais indigesta do que toda essa bagunça? Isso já deixou de ser uma guerra e virou um extermínio.
— Alguma coisa nova na Interpol?
— Nada de relevante, está tudo quieto demais.
Isso era um dos motivos que mais colocava pressão na polícia, por mais intenso que fossem os crimes, não haviam pistas concretas. Tudo que sabiam até agora era o disfarce estranho e excêntrico dos assassinos. Sempre bem vestidos com ternos caros e trajando máscaras venezianas para esconder os rostos. Apenas duas vezes tinham sido flagrados e, mesmo assim, por puro capricho deles. A polícia não tinha a mínima ideia de como chegavam ou deixavam os locais, que tipo de veículos ou armas utilizavam. Tudo era um completo mistério e a imprensa tornava tudo mais difícil, a cada novo ataque que era noticiado, os jornais apenas colocavam mais pressão sobre o departamento de segurança e embora a vida em Tokyo ainda não tivesse sido duramente afetada, já começava a mudar. As noites já não tinham o mesmo movimento para o comércio e a população começava a evitar os transportes públicos quando podiam.
Investigar aquilo era como puxar um pedaço de linha de um carretel quase infinito, tudo o que a polícia conseguia fazer era continuar puxando, descobrindo cenas e recolhendo corpos. Desde os primeiros ataques, o governo já sabia que tinha uma possível bomba nas mãos, por isso, o efetivo das forças policiais foram quase dobrados após as primeiras cenas descobertas. A promoção de Hinata ter vindo tão cedo foi graças a essa decisão e embora os primeiros dias como detetive tenham sido de pura animação, nessa altura ela já começava a questionar a própria capacidade.
Ao final do dia, tudo o que a polícia de Tokyo havia feito fora limpar toda a bagunça e novamente, jogar aquele dia para baixo do tapete, torcendo para que a imprensa não descobrisse mais esse crime.
A noite de Hinata começara como tantas outras desde que se tornou detetive, em um modesto e reservado bar perto da sua casa, mesmo nunca sendo fã de álcool, ultimamente vinha tornando a cerveja amarga e gelada daquele lugar na sua melhor amiga. O bar era simples, haviam algumas mesas pelo lugar, mais o longo balcão era sempre o mais usado pelos clientes. Ela estava no mesmo lugar de sempre, quando ele chegou. Primeiro veio o perfume de almíscar tão usado por ele e em seguida, abraçou-lhe pelas costas. Deu um leve beijo no pescoço dela antes de lhe rodar o banco virando Hinata para si e, com um sorriso, beijou-a de surpresa.
Com o coração martelando o peito e os pulmões já sem ar, ela o afastou em meio a uma risada, como a muito já não fazia. Sentiu-se uma adolescente por um momento ao entender que era justamente o que ele queria: deixa-la encabulada. Por mais europeu que ele fosse, conhecia bem a cultura oriental e sabia que para ela, uma súbita demonstração de afeto como aquela a deixaria no mínimo envergonhada. E ele não demonstrava a menor intenção de disfarçar isso, queria distraí-la e conseguira.
— Às vezes eu acho que você lê a minha mente.
— Não seja boba – ele sentou-se ao lado dela e pediu a mesma cerveja – apenas sei que você anda muito sobrecarregada.
— E é incrível como isso não te impede de pegar no meu pé durante o trabalho. – ela soltou a frase da forma mais ácida possível, mais ao contrário do desejado, ele apenas gargalhou e tomou um gole de cerveja.
— Ora vamos! Quem foi que veio com o papo de manter as coisas separadas? Em horário de trabalho somos apenas colegas, nada mais. Foi você mesma quem impôs isso, então acho que posso tirar um pouco de sarro da minha colega novata.
— Não tem graça! Você sabe que aqueles velhos me entregariam para os corvos de bom grado se pudessem. Todo mundo me olha como se eu estivesse ali pelo favor de alguém, se do nada eu apareço aos beijos com você, aí mesmo que minha reputação vai para a vala.
— Nossa, eu sou um partido tão ruim assim?
— Não distorça minhas palavras, Uzumaki Naruto. Você é influente, até demais, aqui em Tokyo, todo mundo diria que eu estou dormindo com você pelos seus contatos. Você sabe como são os veteranos, não vão admitir que um novato, mulher ainda mais, tenha resultados melhores.
— É, eu sei, senhorita certinha. Só não concordo muito com você. Afinal, acho válido usar, quase, todos os meios possíveis para atingir um objetivo. Se você estivesse comigo por isso, seria um mérito por ser tão bonita e ter conseguido me fisgar, senhorita Hyuuga.
Satisfeito por vê-la corar, ele apenas continuou a rir e beber sua cerveja. Ela por sua vez, gastou um pouco do tempo apenas observando-o. Ele sempre deixava os cabelos loiros bagunçados, a barba por fazer e em momentos como aquele, vinha sempre com a mesma blusa branca. Evitava mostrar os braços graças as longas e variadas cicatrizes que carregava, assim como o pesado anel que estava sempre preso ao cordão no pescoço. Esses eram dois dos muitos mistérios dele, nunca conseguira ver o anel, nem descobrir o motivo das cicatrizes.
Percebendo que era observado, ele acabou fazendo o mesmo. Desde o primeiro dia dela como detetive, ele adotara o hobby de simplesmente observá-la. Gostava da beleza diferente dela. Os cabelos negros cortados um pouco acima do pescoço, a pele intensamente branca. Hinata tinha um rosto perfeito para ele, desde o nariz até a boca desenhada e de lábios carnudos, o que o atraia ainda mais nela, no entanto, eram os olhos. Os olhos de uma tonalidade raramente perolados, quase lilás, e que conseguiam guardar dele quase tudo.
— Sabe, eu estou tentado a te raptar de Hanabi por mais uma noite.
— Não ouse! – ela riu – Aquela moleca já está me deixando maluca com tantas perguntas, ela quer te conhecer.
— E qual o problema?
— O problema é que conhecer minha irmã, torna tudo oficial.
— Ainda não vejo o problema.
Por um instante, ela deixou escapar todos aqueles sentimentos que ele adorava desvendar. Hinata era uma mulher complicada até demais, tinha um humor volátil, por vezes ácido, embora insistisse em se calar e guardar o que realmente pensa. Desde que se conheceram há pouco mais de um mês, ela deixou claro que não queria nada sério, embora ele sempre sentiu que era justamente o contrário. E essa mesma sensação esteve ali, por breves momentos, quando ela deixou escapar aqueles sentimentos com um olhar intenso e terno. Ela desviou o olhar quando percebeu que ele a decifrara mesmo com aquele curto deslize.
— Você sabe que não é tão simples. Eu ainda tenho muito a provar.
— Que seja assim então.
Ele deixou um tom de desaprovação, de propósito, para instigar alguma reação nela. E deu um pequeno sorriso quando ouviu ela bufar. Antes que ela pudesse dizer algo, ele simplesmente chamou o garçom, entregou-lhe o valor da conta e uma gorda gorjeta e rodou o banco, ficando de frente para ela. Puxando o rosto dela com firmeza, deu lhe um beijo rápido e uma mordida no lábio.
— Já que minha dama não quer minha companhia, estarei me retirando.
Sem permitir a ela iniciar a discussão, ele simplesmente deu as costas e acenou antes de deixar o bar. Com um sorriso desconcertado e levemente irritado, ela terminou sua cerveja e também deixou o local. Por mais tentada que estivesse em simplesmente ir atrás dele, obrigou suas pernas a seguir o caminho de casa. Naruto tinha esse péssimo e estranho efeito sobre ela, mexia com seus pensamentos, bagunçava o seu emocional com uma facilidade assustadora. Por mais que a fase de adolescente já tivesse passado, aquela sensação era nova para ela. Cada pedaço do seu corpo queria estar com ele, ver ele, encarar aqueles olhos azuis, beijá-lo. Perto dele, ela era uma pessoalmente totalmente diferente, alguém que ela não conhecia e isso ainda a assustava. Sabia que ainda era cedo para decidir o que sentia por ele, mais arriscava dizer que amor, não poderia ser riscado da lista.
Após um tempo considerável de estrada, graças ao trânsito principalmente, Naruto finalmente cruzava a porta do próprio apartamento. Era a primeira vez em muito tempo que se permitia ter uma “vida normal”, longe do seu complicado mundo original. E apesar da frustração por não ter conseguido passar mais uma noite ao lado de Hinata, ele não deixou de perceber que havia mais alguém no seu apartamento, alguém que não fora convidado. Ignorando a invasão, ele tirou sua arma do coldre e a deixou sobre o criado mudo ao lado do sofá, encheu um copo com uísque e simplesmente sentou-se, jogando longe os sapatos e encarando o teto.
— Não me lembro de ter autorizado essa vigília, Nube. – ele concluiu com um gole.
Uma silhueta ficou visível logo após. Um homem do mesmo porte e estatura dele, cabelos vermelhos igualmente bagunçados, olhos verdes e inexpressivos. Ele soltou um suspiro debochado enquanto ajeitava a gravata, exibia um terno completamente branco.
— Nunca pedi autorização, por que essa seria uma exceção?
— Você deveria estar em Moscou. Por que abandonou sua tarefa?
— Não abandonei, apenas cumpri as partes difíceis e deleguei para pessoas de confiança o mais fácil. Vim por que Tempesta já estava me enlouquecendo. Ele não acha prudente você ficar aqui com apenas dois guardiões.
— Pioggia também está aqui.
— Aquela garota incompetente? Ainda insiste em chamar aquilo de guardião? Não me importa se ela porta um anel, não considero ela uma guardiã e pelo jeito mesmo Tempesta pensa assim. Enfim, Jiraya também me pediu para vir, a CEDEF está preocupada, você adiantou as operações aqui sem avisar nem mesmo a Família.
— Sole e Tuono estão cumprindo suas tarefas, Nebbia está incomunicável por ordens minhas. A minha Família, meus guardiões, sabem onde estou e o que estou fazendo. Também deixei claro para a CEDEF que eles deveriam gerir a Vongola, ou seja, cumprir o papel deles na minha ausência.
— Você fala isso mais imagine a minha vergonha e a de Tempesta ao sermos avisados de que você simplesmente deixou Torino e partiu para o Japão sem avisar. A Família quase pirou nesse último mês.
— Que seja, não sei por que diabos eu deveria explicar cada passo que dou. Se a CEDEF quer uma explicação, mande Jiraya cumprir o dever dele, enquanto eu estiver fora, é responsabilidade dele manter a Vongola funcionando.
— Farei isso. Tenho dois últimos assuntos. Por que você está se arriscando ao usar apenas homens de baixa habilidade nas operações? E por quanto tempo pretende continuar dificultando a comunicação com seus guardiões trazendo aquela mulher para cá?
— Não usei vocês pois todos estavam ocupados. Agora que você está aqui, posso agir de forma mais rápida. E é sério? Por Deus, Gaara. Seja um pouco civilizado e use o telefone ao invés de ficar à espreita no meu apartamento. Pode ir, e um aviso, Hyuuga Hinata está fora da sua jurisdição. Qualquer busca sobre ela, pesquisa ou perseguição está proibida. Me desobedeça e não vou hesitar em lhe tirar o anel da nuvem.
Claramente contrariado, Gaara apenas coçou a cabeça revelando um grosso anel de prata com alguns símbolos nas laterais, uma gema violeta com o símbolo de uma nuvem gravado e por baixo da gema um brasão gravado no anel. Sem dizer mais nada, ele apenas se retirou. Naruto por sua vez, afundou o corpo no sofá e virou o uísque de uma vez só. Permaneceu calado por longos minutos até puxar a corrente, mostrando um anel um pouco mais largo que o de Gaara, onde havia mais inscrições e um brasão pequeno em cada lateral. No centro, uma gema amarela com a palavra Cielo escondia um brasão composto por um escudo, algumas palavras, uma bala em frente a duas armas cruzadas e mais abaixo a palavra Vongola. Ele encarou o anel por alguns segundos e o largou logo em seguida deixando o mesmo agora para fora da camisa. Por quanto tempo sua mentira com Hinata duraria, quanto tempo ela demoraria para descobri-lo quando as primeiras provas aparecerem?
Quanto tempo ela levaria, para entendê-lo e finalmente matá-lo?
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