Pecados
6 Capítulo 6
Notas iniciais
Com uma súbita explosão de adrenalina, Hanabi sentiu uma única e espontânea pontada de esperança. Ela não era uma garota frágil e normal. Não, ela não era, os anos naquele maldito internato, as humilhações acumuladas desde a infância, a vida solitária e odiosa, tornaram-na boa com artes de defesa pessoal. Ela ignorou a quase que completa nudez, ignorou o olhar repugnante daquele homem e a inicial desvantagem entre forças. No momento em que Sasori ficou próximo o suficiente, ela acertou um chute forte e certeiro nas costelas do homem. Deu um meio sorriso ao sentir os ossos trincarem, mas não se iludiu, logo em seguida ele agarrou a perna dela e a jogou do outro lado do cômodo.
— Então a boneca ainda pode se mexer. Isso está ficando cada vez melhor!
Minuto a minuto, golpe após golpe, tudo que Hanabi sentiu além da dor, foi sua coragem diminuir pouco a pouco. Não importava quantas vezes ela golpeasse Sasori, quantas costelas quebradas ele tivesse, quantas vezes ela torcesse seus membros ou quase quebrasse seu pescoço. Ela arrancou um pedaço de seu braço com uma mordida quando ele tentou imobilizá-la, tentou acertá-lo nas bolas, até o fazer e descobrir que alguém já havia arrancado-as antes. Talvez ele mesmo. Ela lutou até ele fazê-la cuspir sangue após vários golpes no abdômen, ela lutou até ele quebrar-lhe uma mão, o nariz e alguns dedos. Ela lutou até ele começar a rir dos seus golpes, até ele começar a lhe cortar a cada esquiva.
Ela lutou até a dor a vencer, até um corte no pulso encharcar os restos da sua roupa com sangue. Ela lutou até Sasori finalmente vencer ao conseguir subjugá-la. Tudo aquilo foi, aos poucos, gravado na sua alma com ferro e fogo. O tempo que ele levou para tirar a própria roupa, o tempo que levou para violá-la. Cada movimento, cada palavra, cada toque repugnante ficou gravado na memória de Hanabi. O cheiro daquele cômodo, o mofo, a podridão, sangue e suor. A aparência do colchão onde fora violentada. Cada pico de dor que, por vezes, quase a fez perder a consciência. Ele não demonstrou nada além de uma dose quase infinita de sadismo e raiva.
Por horas a fio, Hanabi simplesmente desejou que tudo aquilo acabasse e aquele homem finalmente a matasse. Ele, no entanto, continuou a estuprá-la, seguidamente, até conseguir o que queria. Tudo culminou no mais humilhante momento, quando ele finalmente, quebrou aquele pedaço de inocência alojado no fundo da sua alma. Quando ele a deixou jogada naquele colchão, com tantas feridas que ela não saberia dizer qual a pior, o mundo pareceu parar por milênios enquanto ela ficou sozinha naquele lugar. Ela não recebeu água, não recebeu comida, não foi checada nem mesmo uma vez para verem se ainda estava viva.
Quando a porta tornou a abrir, Sasori entrou acompanhado do parceiro, Deidara, que deixou claro na própria feição o quão repugnante considerava os gostos de Sasori. Isso, no entanto, não o fez mover um dedo se quer em favor dela, por mais nua e machucada que ela estivesse.
— Você sabe que um dia, esses seus gostos ainda vão nos causar problemas, não é?
— Quantas vezes você já repetiu isso inutilmente? Será que finalmente terei que abrir essa sua cabeça para ver se há um cérebro aí dentro?
— Sinta-se livre para tentar, seu sádico.
— Qual o problema em ser sádico? Seria um crime não aproveitar uma boneca tão interessante quanto essa.
— Trate de se controlar. Em breve o Decimo Vongola estará por aqui. É melhor você estar atento, não sabemos que tipo de reação ele pode ter. Por mais que ele tenha quebrado o tratado, duvido que ele terá uma reação amigável após você destruir tanto a garota.
— Q-Quem é esse décimo?
Com uma clara surpresa por Hanabi ainda ter forças para escutar a conversa e formular uma pergunta, Sasori deu um sorriso debochado para Deidara.
— Viu? Acho que no final ela não está tão quebrada.
Poucos minutos depois, Hanabi voltou a ouvir passos vindos da escada. E ela não poderia ter surpresa maior ao ver o rapaz loiro que entrava no lugar. Mesmo conhecendo-o apenas de vista e vagas lembranças, sentiu um misto de desespero e raiva ao vê-lo ali. A diferença de porte e visual, no entanto, fez ela achar ser apenas uma alucinação. Ele usava um terno completamente preto e alinhado, a calça, o sapato e a gravata na mesma cor. A mudança na atitude, no entanto, era o mais marcante. A postura mais séria e o olhar frio e indiferente transformavam ele em uma outra pessoa.
Por alguns segundos ele observou Hanabi e a situação dela, tirando uma mão do bolso, revelou um grosso anel na mão direita e sem cerimônia, puxou uma pistola e apoiou o cano no pescoço de Sasori.
— O que isso significa, Sasori?
Com uma gargalhada fria e desinibida, Sasori fez a curta esperança de Hanabi voltar a ficar calada.
— Quer mesmo que eu descreva cada ato obsceno que fiz à ela?
— Seu desgraçado...
— Você não tem direitos aqui, Vongola. – foi Deidara quem falou – Você deu sua palavra no juramento de morte para Hyuuga Hinata. Você garantiu, apostou sua vida até, no fato de que ela jamais se lembraria do nosso mundo e que, jamais alguém da máfia colocaria esse trato em risco. Você ser amante da antiga Pioggia da Vongola não traz credibilidade alguma.
— E vocês, assim como toda a Akatsuki, são tão covardes a ponto de recorrer ao sequestro de uma garota, ao invés de virem atrás da minha vida?
Com uma clara revolta pelas palavras de Naruto, Deidara ameaçou sacar a própria arma, porém, sendo mais rápido, Naruto desviou a própria e acertou um tiro no ombro do homem. Percebendo que Sasori avançaria, ele fechou o punho livre e desferiu um forte soco contra a garganta dele, que caiu no chão sufocando.
— Parece que o frágil poder da Akatsuki lhes subiu à cabeça. Acharam que a Vongola não viria atrás de vocês, simplesmente por controlarem a Yakuza? Acharam que isso lhes daria poder para se opor?
Ouvindo os gemidos de Sasori, que provavelmente seriam mais ofensas do que qualquer outra coisa, ele simplesmente apontou a arma para a cabeça do homem e sem hesitar, disparou um único tiro. Hanabi viu o corpo de Sasori desabar de vez, com um buraco imenso atrás da cabeça, já que os restos da mesma estavam espalhados pelo cômodo, pelo colchão e pelo corpo dela.
— Considere hoje o seu dia de sorte, Deidara. Volte para sua tão querida Akatsuki. E diga a Madara que eu esperarei pessoalmente pelo momento em que ele terá culhões para me enfrentar.
Ignorando o homem que corria em disparada escada acima, Naruto seguiu em direção a Hanabi, que se encolheu contra a parede a medida que ele se aproximava. Ajoelhado diante dela, ele tentou formular alguma desculpa, ou tocá-la como uma forma vã de consolo, mais parou ao ver que ela se retraiu ainda mais.
— Naruto, já pedi a Tsunade para organizar a ala médica. – ele jogou um cobertor enrolado para Naruto e deixou a sala.
Tentando ao máximo controlar tudo que sentia, ele apenas colocou a coberta sobre Hanabi.
— Você provavelmente só me conhece de vista, não é?
Ela levou um tempo para formular a resposta, e com um tom baixo e esquivo, começou a focar a mente em algo que não fossem as últimas horas.
— Não. Eu lembro de você, do passado, dos feriados na Itália e aqui no Japão. Sei de tudo, meu pai, minha irmã, da Vongola, da Máfia.
Claramente surpreso, ele ficou calado por alguns segundos, buscando as palavras certas para continuar a conversa.
— Isso que eles disseram, é verdade? Foi por sua causa que aconteceu tudo isso comigo?
— Em partes. – ele adotou uma clara cautela – Não posso te dar todos os detalhes, não aqui. Mas a Akatsuki já planejava quebrar o acordo. Ela vem quebrando vários tratos com outras famílias em troca de qualquer poder, era questão de tempo até eles irem atrás de você e sua irmã para me atingir. No início, eu fiquei próximo a Hinata com a intenção apenas de mostrar que eu estava atento a traição da Akatsuki, mais admito que fui dominado pelos meus sentimentos. Ter Hinata tão perto de mim, fez eles recorrerem a pegar você. E eu lamento muito por isso.
— Você lamenta? Estou muito tocada. – ela segurou as próprias lágrimas enquanto colocava o máximo de sarcasmo nas palavras.
Antes que ele pudesse retrucar, percebeu que ela havia simplesmente apagado. Talvez finalmente sucumbindo ao cansaço de vinte e sete horas acordada, torturada e maltratada. Talvez fosse apenas a mínima sensação de segurança que ele trouxe a ela. Ou talvez, fosse simplesmente a desistência dela em continuar lutando.
O local designado pela Vongola como base de operações médicas, fora um antigo galpão portuário pertencente a própria família. Assim que os dois carros cruzaram a entrada do lugar, três enfermeiros já estavam à espera de Hanabi e logo desapareceram com ela pelas salas do lugar.
Antes que Naruto pudesse dizer qualquer palavra, ele viu Tsunade caminhar na direção dele com uma raiva implacável.
— A irmã dela! – ela agarrou Naruto pela gola da blusa – Você tem noção do que fez? Do que colocou em jogo? Por que foi bater na porta do passado?!
— Eu não bati. Simplesmente aconteceu. Não vou negar que não pretendia vê-la, mas não estava nos meus planos me envolver com Hinata, não outra vez.
— Vê? É por isso que Jiraya questiona suas atitudes. Você está arriscando tudo por uma lembrança. Um sentimento velho e machucado. O que você quer? Machucá-la? Trazê-la para o seu lado? Morrer pelas mãos dela?
— Não tenho uma resposta.
— Então trate de encontrar uma. Você acabou de destruir a vida de uma das suas protegidas, parabéns por quebrar sua promessa a Hiashi e a própria Hinata. Você usou uma pessoa inocente. Tem noção do que acabou de sacrificar?!
— Não tenho que te responder isso –
A situação rapidamente mudou de lado e pela primeira vez em anos ela estava na guarda dele, uma adaga pairava sobre seu pescoço e um revólver apontado para o seu coração. Ela não tinha enferrujado com a idade e mesmo após tantos anos afastada das operações em campo, o olhar ainda era o mesmo. Assim como Jiraya e Orochimaru, a presença de Tsunade era pesada e absoluta. Mesmo após cinco anos de treinos com Jiraya, ele ainda hesitava quando ficava cara a cara com aquela força.
— Não ouse me tratar como uma mera subordinada. Eu te criei, e da mesma forma que fiz de tudo para te manter vivo, eu não vou hesitar em te matar se perceber que você está trilhando um caminho errado. Foi o sacrifício de sua mãe que deu mais algumas horas de vida ao seu pai para que ele pudesse te salvar. Eu não vou tolerar que você manche a memória dos seus pais.
Satisfeita com a pequena hesitação dele, ela suspirou e guardou suas armas. Em silêncio, simplesmente rumou para onde Hanabi estava.
Acordar foi um verdadeiro inferno para Hanabi. Estava em um lugar que não conhecia, com roupas que não eram suas e pessoas desconhecidas ao redor. E antes que ela pudesse simplesmente tentar entender o que acontecera a ela naquele dia, a tristeza e o ódio vieram como ácido misturados ao sangue. Cada minuto daquele maldito dia estava ali, sendo constantemente repetido na sua mente e por mais forte que ela fora, sentir as lágrimas pesadas que lhe corriam o rosto, pareceu doer mais que todos os abusos sofridos.
Extravasar aquilo, dar voz aquele choro, era como uma confirmação de que todas aquelas memórias não eram falsas. Era como gritar para si mesma que tudo aquilo fora realidade, como confirmar a fraqueza dela de acordo com as palavras do próprio pai. Ela sabia que tanto o pai quanto a irmã tinham carregado o fardo dela, para que ela pudesse ser feliz, por mais absurdo que isso soasse para ela. E isso só tornava tudo aquilo ainda mais difícil, sentia a raiva pela família queimar como brasa no peito, se Hiashi e Hinata não tivessem lhe afastado da Vongola, nada disso teria acontecido, ela teria força para resistir a abordagem daqueles homens. Teria força para ser algo além de uma simples vítima.
Os pensamentos dela pararam por um minuto quando o quarto ficou vazio e apenas Naruto entrou no lugar. Em silêncio, ele rumou até ela, puxou uma cadeira e sentou ao lado da cama. Antes que ela pudesse dizer qualquer coisa, ele colocou uma caixa de madeira sobre a cama. Era um objeto perfeitamente adornado com o brasão da Vongola sob a tampa. Assim que ele a abriu, um revolver prateado apareceu acomodado na almofada de veludo, logo abaixo, em uma espuma vermelha, havia dez espaços para balas, embora restassem apenas quatro.
— É lei na Vongola. Quebrar um acordo onde você deu sua palavra e vida como garantias, significa que a parte prejudicada tem o direito de reivindicar tal vida. – ele abriu o tambor da arma e colocou uma bala – É seu direito. É sua escolha. Você sofreu tudo isso pela minha fraqueza, pela minha própria idiotice. Nada mais justo que eu dar a minha em troca se isso te trazer qualquer conforto.
Com um olhar desolado e confuso, ela segurou o revólver, puxou o gatilho até ouvir o tambor rodar, indicando que a arma estava pronta para atirar. Apontou a mesma para Naruto, mas antes que pudesse pensar em atirar, simplesmente voltou o cano para a própria cabeça.
— E se eu pedir que você tire o que sobrou da minha, como compensação pela sua falha?
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