Pecados
4 Capítulo 4
Notas iniciais
O final de outro dia chegara, e apenas nesse momento, Naruto conseguia acordar. Participara de uma operação particularmente difícil e conturbada, não estava nos seus melhores momentos, por mais prazeroso que fosse passar uma noite com Hinata, esses momentos sempre cobravam o preço: ele não tinha tempo de se preparar mentalmente para as operações da Vongola. Juntando isso a dificuldade da missão, o estado debilitado dele era compreensível, até mesmo Gaara teve dificuldades em criar as tradicionais aberturas na defesa e isso tornava tudo mais lento. Os snipers tinham que agir mais vezes e perdiam sua eficiência, toda a rotina criada pelos seguranças era quebrada, eles deixavam suas posições em busca de abrigo e isso atrasava o avanço. No entanto, o maior problema veio com o fim da última missão.
Aquele tom, todo aquele torpor voltara a sua vida. A culpa por matar alguém havia voltado. Era desagradável e pesada. As imagens pipocavam na sua mente e ele via sangue onde não havia. Mesmo que isso não o desesperasse mais como antes, ainda sentia um aperto no peito ao olhar para suas mãos e vê-las manchadas com aquele sangue ilusório. Observando melhor a sala, viu que não eram apenas suas mãos. O tapete, a mesa, o sofá. As paredes e as portas de vidro, tudo estava tingido com manchas de sangue.
Até mesmo o cheiro estava lá e ele era o pior. Você se acostuma com os cadáveres, com a aparência deles, não importa o quão brutal seja a morte, uma hora ela se torna rotineira. Mas o cheiro do sangue ainda trazia náuseas. Quando seu estômago revirou, ele correu até a pia da cozinha. Só então lembrou de que não havia nada para vomitar além da bile que subiu queimando sua garganta. Tudo que ingeriu desde que chegou, foi uma garrafa do seu melhor uísque e nada mais.
Depois de lavar o rosto, as mãos e tomar um pouco de água para tentar tirar aquele gosto da boca, ele percebeu que suas mãos estavam trêmulas. Não era pela falta de comida, não era uma reclamação do seu corpo pelo excesso de bebida. Era aquele sentimento voltando, o desespero de ver o mundo manchado com um sangue que ele não conseguia limpar. Por alguns minutos ele cedeu, tentou por diversas vezes tirar o sangue dos seus braços. Então a raiva assumiu. Os pratos ainda por lavar, os copos e as garrafas empilhadas ao lado da pia foram jogados ao chão de uma só vez espalhando os cacos pelo chão. Um deles foi esmagado em sua mão, cravando alguns cacos palma a dentro.
A dor e o toque frio do anel em seu peito serviram como um despertador, clareou seus pensamentos, sua visão, e o trouxe de volta de todo aquele torpor. Ela, pensou Naruto. Era ela o motivo de tudo aquilo. O envolvimento com Hinata lhe trouxe novamente tudo aquilo, o fez regredir para aquele estado deplorável.
— Gaara estava certo. Ela é perigosa.
Testando os reflexos de Naruto, Sasuke ficou satisfeito ao ver que mesmo em meio a àquele triste estado, ele ainda conseguia reagir e apontar uma arma de forma decente. Percebendo que era apenas Sasuke, ele travou a pistola e largou-a sobre a pia enquanto resmungava alguma coisa. Já Sasuke apenas observou Naruto que encarava a própria mão vendo o sangue correr pelos cortes fundos em sua mão.
— E esse perigo não faz o seu coração bater? – ele começou a tirar os cacos da mão. – É diferente do perigo que corremos nas missões. Será que ela vai ser inteligente o suficiente para descobrir quem eu realmente sou? Vai chegar a hora em que vou ter que matá-la, ou que ela tentará me matar? Eu não tenho as respostas... E isso apenas deixa o jogo mais interessante.
Aquele pequeno diálogo trouxe recordações a Sasuke, Naruto já tinha feito aquelas perguntas antes.
— No passado, você me perguntou se ela valia a pena. Se Sakura valia a pena, lembra?
— Sim.
— Eu ainda não tenho uma resposta para isso, Naruto. Talvez eu nunca venha a ter, seja pela relação complicada que tenho com ela, seja pela vida que levamos. E você? Essa garota vale todo esse risco?
— Quem sabe? – ele encarou Sasuke por alguns momentos – Como está Pioggia?
— Mal como sempre. Principalmente após a discussão de vocês – ele levantou as mãos quando Naruto fez menção de dizer algo – não gaste saliva. Eu sei que ela provocou, sei que ela falou o que não devia. Mesmo eu não seria idiota de te cutucar com uma vara tão curta.
Mesmo conhecendo Naruto melhor que os outros, Sasuke era obrigado a admitir que não entendia a maioria das atitudes dele. Por vezes ele agia de forma estranha e ignorava seu papel como Chefe da Vongola. E mesmo com essa instabilidade, era o único capaz de controlar Gaara e até mesmo limitar o poder da Varia. Entretanto, seus problemas eram outros. A chegada em seu apartamento foi tranquila, mas o silêncio terminou logo após cruzar a porta.
— Onde você estava?
Ele suspirou e continuou em silêncio enquanto fechava a porta. A pergunta dela usava um tom desesperado e ele sabia o que aquilo significava. Seria uma longa noite.
— Esqueceu que tivemos uma operação hoje, Sakura? Foi complicada e demorada.
— Mas você não estava escalado para essa missão! Apenas Nube e Tuono estavam escalados.
— É, eu sei. Sole também estava lá, e mesmo assim foi complicado. Sorte que todos decidiram ir, do contrário não daria certo. E você, como está?
Em silêncio, ela cruzou os braços e olhou para a janela. As crises de Sakura eram complicadas e vinham em momentos aleatórios, e a cada uma delas, era como abrir a Caixa de Pandora. Os belos cabelos rosados estavam opacos e mal cuidados. Os olhos verdes estavam inexpressivos e o seu rosto, marcado pelas intensas olheiras que denunciavam as noites em claro. Conviver com Sakura era difícil, por mais calma e gentil que a garota pudesse ser em seus melhores momentos, suas crises mudavam completamente as coisas.
O pior era justamente isso, sua instabilidade. Desde o dia em que fora resgatada, simples coisas desencadeavam mudanças inesperadas, uma palavra ou um gesto eram suficientes. Quando lúcida, Sakura era uma médica exemplar e uma das melhores a disposição da Vongola, conseguia manusear diferentes armas e era uma lutadora habilidosa. No começo isso compensou sua falta de filiação com a Vongola, mas quando a Vongola percebeu que sua Pioggia era desequilibrada e poderia estragar uma missão a qualquer momento, toda a aceitação que ela conseguira antes simplesmente desapareceu.
Para ingressar na família, o único requisito é a história. Desde a Prima Generazione uma infinidade de pessoas passaram pela Vongola, muitas delas criaram raízes na família, filhos, netos e bisnetos. Graças a isso, é muito difícil encontrar pessoas no mundo da máfia que não tenham tido um parente na Vongola. Ao mesmo tempo que isso tornava o ingresso na Vongola algo bem seletivo, também tornou os membros da Famiglia prepotentes e preconceituosos com membros que entram para a Vongola convidados. Justamente o caso de Sakura.
— Você foi confrontar Cielo, outra vez... – o tom dele foi frio.
— Sim, eu fui! Eu não aguento. Não quero isso, não quero esse anel, não quero essa posição!
— Ótimo. Então apenas tire-o. – ele apontou para o anel da chuva no dedo dela. – Deixe-o aqui e vá embora. Aventure-se no mundo que você tanta ama, junto dos homens que ainda te querem ver morta!
Com passos rápidos e clara raiva, ela caminhou até Sasuke. O tapa veio no calor do momento e o pegou de surpresa. Ela daria outro se ele não segurasse seu braço.
— Eu sou apenas isso, não?! Apenas um brinquedo quebrado que você gosta de ter por perto para alimentar sua ilusão de poder!
Por um momento ela achou que ele revidaria, e ele de fato quase o fez. Mas contendo a própria raiva e usando o resto de sua paciência, ele apenas jogou-se no sofá e passou a encarar o teto.
— Sim, você é apenas um brinquedo quebrado. É isso que você queria escutar? – ela não respondeu. – Nunca me senti culpado por aquela missão, por mais que o erro fosse meu. No fundo, grande parte daquelas garotas está melhor morta. É isso que te prende ao passado? Aquelas garotas? Ou são os abusos? Eu não sei, nunca consigo te entender.
Ele voltou a levantar e andou até ela, fazendo-a recuar até a parede.
— Brinquedo ou não, você continuará longe daquilo e debaixo das minhas asas. Se está quebrada, tudo o que eu preciso fazer é te consertar.
Segurando ambos os pulsos dela, ele a prendeu ali, ao seu alcance. Os cortes no braço não tinham cicatrizado e graças à força que ele usava, doíam ainda mais. Ele não ligou, apenas a beijou. A recusa inicial logo desapareceu e ela se entregou ao momento.
No apartamento de Hinata, o clima entre as irmãs havia subitamente piorado. Passar mais um dia totalmente reclusa em casa, com o ombro ainda latejando de dor e Hanabi lhe enchendo de perguntas, havia reduzido a paciência de Hinata quase a zero. Desde a promoção dela e o aumento de sua rotina, Hinata já mostrava sinais de exaustão e estava trabalhando a base de remédios para aliviar as fortes dores de cabeça e o cansaço. E esse descaso dela com a própria saúde estava fazendo Hanabi perder a paciência. Aquele dia que havia começado relaxado após as conversas dela com Naruto na noite passada, terminou com uma tarde de tonturas, fazendo a preocupação de Hanabi aumentar.
— Hinata, pela última vez, você precisa ir ao médico.
— Não preciso Hanabi. É apenas cansaço.
— Pode ser apenas o cansaço. Pode ser algo mais. E mesmo que seja apenas cansaço, é mais um motivo para você ir ao médico, você precisa de descanso! Hinata, você está há semanas trabalhando dobrado, semanas! Raramente te dão uma folga e eu já perdi as contas de quantos remédios você toma por dia!
Com um olhar surpreso por Hanabi saber dos remédios, ela levantou do sofá em silêncio e começou a caminhar em direção ao quarto.
— Ótimo. Fugir do assunto é uma ótima maneira de resolver as coisas.
— O que você espera? Que eu fique aqui para discutirmos outra vez? Tudo bem! – ela encarou a irmã – Vamos lá, Hanabi. Fale o que você tem para falar, abra o jogo. O que você quer dizer agora? Quer criticar a minha forma de viver? O modo como eu toco a minha vida?
— Por que você sempre age como uma criança mimada que tenta virar a situação a seu favor? Eu sou sua irmã! E caso você tenha se esquecido, eu fui a única nessa nossa maldita família que realmente se preocupou com você! Nosso tio virou as costas e pouco se importou. Quantas vezes Hizashi veio te ver Hinata? Uma vez por semana? Por mês? Neji também simplesmente desapareceu por semanas!
— E novamente voltamos a esse assunto. Por que você simplesmente não me largou de lado então?!
Ela se arrependeu no momento em que terminou a frase. Não era a primeira vez que aquele tópico era abordado e por mais que Neji tivesse contado a ela algumas coisas que Hanabi era contra, Hinata ainda desconhecia muito do passado.
— Porque eu te odiava!
Agora que as palavras tinham enfim escapado do controle de Hanabi. Ela sabia que não conseguiria manter o resto guardado. O choque em Hinata foi alto, mas mesmo assim ela manteve as aparências.
— Me odiava?
— Sim. Eu odiava a minha irmã imperfeita e irresponsável. Odiava o fato de que eu nunca consegui competir com você. Não importa o quão boas fossem as minhas notas na escola, ou o quanto eu me esforçasse naquele maldito internato. Desde criança eu sempre fiz de tudo para conseguir ao menos o reconhecimento dele, aprendi a cozinhar enquanto você não lavava nem mesmo um copo. Ajudava na casa, minha infância resumiu-se no sonho vazio de ganhar um pouco de atenção da minha família. E tudo o que eu ganhei foi uma passagem para um internato nos Estados Unidos! Você não tem ideia do que é para uma criança, não receber a autorização do próprio pai para viajar no Natal. Ou então nem mesmo uma ligação no aniversário. Foram tantos natais sozinha naquele lugar, vendo a felicidade passar bem longe de mim. Isso quando minhas amigas não sentiam pena de mim e me levavam para suas casas... O que apenas piorava quando eu via aquelas famílias felizes e sorridentes.
— Hana eu... – ela tentou falar, mas foi interrompida pela caçula.
— Eu sei. Você não lembra, e tudo se resume a isso não? O passado. Infelizmente, eu não tenho como te dizer essas coisas. Nunca fomos próximas, mesmo quando morávamos juntas, você mal falava uma palavra... E é por isso que eu te odiei tanto. Eu sempre quis ser você, a bela e indiferente Hinata. O motivo de orgulho do nosso pai. Mas o pior, foi saber que eu pouco me importei quando recebi a notícia da morte do papai e que você estava por um fio. Afinal, como eu poderia me importar com um pai que eu mal convivi? Ou uma irmã que eu nem mesmo sabia qual era a cor preferida, ou a comida que não gosta? Eu me convenci a cuidar de você, apenas porque não queria ser como vocês.
Com passos apressados e pesados, Hinata foi até a irmã. Já abatida e com os olhos marejados, ela puxou Hanabi pelo braço e a olhou nos olhos.
— Então tudo isso é o quê? Um teatro?!
Esquivando-se das mãos de Hinata, Hanabi voltou a andar para longe enquanto encarava a irmã.
— Eu não sei! Às vezes eu me pergunto, o que diabos estou fazendo? Cuidando da irmã que por anos nunca nem mesmo me disse um bom dia. Me preocupando com você, com a sua saúde e com a sua felicidade! Para quê? Provavelmente você vai virar as costas para mim, assim como fez no passado e –
O tapa foi mais forte que o esperado. O suficiente para deixar o rosto de Hanabi marcado. Com um claro espanto, ela olhou para Hinata sem entender o porquê daquele tapa, muito menos o motivo das lágrimas no rosto da irmã.
— Isso não é justo! Você fica aí nesse seu posto de menina excluída e só por isso acha que tem o direito de me ofender dessa maneira?! Eu não me lembro do passado! Graças a Neji, eu sei que fui uma péssima irmã, e ao contrário do que você pensa, isso me deixa envergonhada sempre que eu olho para você! Apesar disso, eu não fico remoendo essas coisas e nem me afogando no passado, eu discuto com você porque eu te amo. Você deve achar que as coisas são mais fáceis para mim, apenas pelo fato da amnésia. Mas não é. Se eu tivesse minhas memórias, poderia me desculpar apropriadamente por tudo, poderia recuperar o tempo perdido e reconstruir minha relação com você da forma correta. Não saber o que eu fiz, ou o que você passou, é ainda pior!
A discussão como sempre, chegou ao fim antes de uma solução. Aquelas brigas com Hanabi eram sempre assim, pequenos assuntos que desencadeavam eventos passados. E o passado, era a única coisa que Hinata não poderia resolver. Ela sabia em partes, por todo o inferno que Hanabi passou, a rejeição de Hiashi, a infância isolada em um internato nos Estados Unidos e além disso, a indiferença dela. Essas poucas informações, foram as únicas que Hinata conseguiu arrancar de Neji após a primeira áspera discussão entre as duas, afinal ele não sabia de todos os fatos sobre o passado delas.
Ela queria poder cuidar da irmã, destrinchar os problemas de Hanabi e ajudá-la a superar o passado. No entanto, para isso, ela precisaria saber tudo sobre o passado, e Hanabi não iria revelá-lo tão fácil.
Após toda a discussão com Hinata, Hanabi optou por seguir sua rotina pós discussão: ir para a rua. Tokyo era extremamente diferente de Boston, fosse pelo próprio visual da cidade, pela diferença cultural ou étnica, mas uma coisa que não mudava, era o modo como a vida era abordada. Havia os empresários apressados, sempre com um celular ou fone agarrado à orelha e uma pífia atenção à sua volta. Havia também os trabalhadores comuns, apressados e cansados demais, sempre preocupados com as contas a pagar ou o que teriam para jantar quando chegassem em casa. Ocasionalmente ela passava por estudantes dos diversos tipos, desde os alunos modelo até os mais problemáticos. Ou então por casais que sempre mantinham a mesma postura, os adjetivos melosos e o tom bobo nas primeiras semanas de namoro, e os mais distantes e comportados, já afetados pela rotina e pelo casamento.
Mas onde ela se encaixava? Onde era seu lugar naquele mundo estranho e falso?
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