Pecados

17 Capítulo 17


Notas iniciais
Boa leitura e atenção a nota final!

A chegada a Escócia foi apressadamente desgastante. Após horas de voo, por mais que Hinata tenha conseguido um bom descanso, o corpo ainda dolorido e a mente sobrecarregada dela não tiveram tempo suficiente para estarem aptos a correria. E ela começou assim que o jato pousou no aeroporto de Inverness, mal ouve tempo para o avião taxiar, um carro já esperava os dois próximo ao hangar e em um intervalo de dez minutos, Naruto já dirigia em demasiada pressa pelas estradas da cidade.

— Por que tanta pressa? – ela perguntou ao perceber que estavam acima do limite de velocidade.

— Por mais que a Escócia ainda seja “neutra”, eu precisaria me identificar como Cielo da Vongola as autoridades para ninguém nos incomodar. Eu não posso fazer isso. Seria fácil demais sermos localizados. O governo apenas sabe que um Vongola desembarcou aqui, mandei que trinta membros fizessem o mesmo por outras cidades da Escócia e da Noruega, isso vai dificultar sermos rastreados.

— Então os governos sabem disso tudo?

— É claro que sabem. – ele riu – Hinata, a influência que a Vongola tem é algo absurdo. Eu poderia por exemplo, simplesmente entrar na Casa Branca e tomar um café com o presidente dos Estados Unidos se quisesse. Pais nenhum no mundo tem força para impedir qualquer ação nossa.

— Como isso é possível?

— Primeiro, a fortuna da Vongola é de longe, a maior do mundo. A família tem muito mais dinheiro do que qualquer pais sonha ter. Grande parte dessa fortuna está avaliada nas peças históricas que temos, peças que podem provar e desmentir teorias mundo afora que você nem imagina existirem, e uma parte, algumas dezenas de bilhões de dólares, apenas em informação. Não existe político, militar, apoiador ou o que seja relacionado a qualquer governo, que não tenha toda a sua vida em nossos bancos de dados. Originalmente, usávamos essas informações como moedas de troca no mercado negro e ocasionalmente, para destituir alguns governos prejudiciais a nós.

— Se vocês têm tanta informação e poder assim, por que não fazem as coisas sem matar ninguém?

— Por que a corrupção se prolifera mais rápido que um casal de coelhos. É tão difícil você ver um político preso, quanto ver um militar honesto que comande uma ditadura na África.

— Então por que alguém com tanto poder na mão, precisa da aprovação dos seus subordinados?

— Pois eles têm o poder de se unirem e requisitarem a CEDEF e a Varia que seus líderes sejam depostos. É raro, mais já ocorreu de os anéis serem retirados dos líderes pela rejeição da família. Não posso tomar atitudes unilaterais, mais do que já tomei aliás, em situação de guerra como a que estamos.

— Eu ouvi comentarem sobre essa guerra com a tal de Akatsuki. Não é um pouco covarde da sua parte deixar a família em uma hora como essa?

— Sabia que as vezes você consegue ser bem abusada? – ele riu – Sim é. Mas no meu atual estado, sou inútil. Esse tempo longe das obrigações de Cielo pode me ajudar a voltar aos eixos. E não, isso não vai afetar o moral da família, pelo contrário, meus guardiões e chefes auxiliares são mais que capazes de lidar com os problemas que podem surgir.

Após alguns poucos minutos de silêncio, Hinata reparou que haviam saído da estrada principal e pego uma pequena estrada que serpenteava por algumas montanhas. Ela não fazia ideia do lugar para o qual estavam indo.

— Para onde vamos?

— Uma propriedade minha ao norte de Inverness. Você vai ver quando chegarmos.

— Hum... – ela segurou a pergunta e ele resmungou em reclamação.

— Pergunte logo!

— O que são essas CEDEF e Varia que tanto ouço falar?

— CEDEF é a Consulenza Esterna Della Famiglia. Originalmente era um grupo criado por um dos guardiões para regulamentar as ações da família, hoje em dia é uma família secundária com a mesma função. São uma espécie de auditores da Vongola. A Varia era um dos antigos esquadrões de assalto da família que também foi elevada ao status de família secundária. Ambas são na prática, partes da Vongola que possuem autonomia quase total, mais são incorporadas novamente a família em caso de emergências e crises. Foi essa manobra que meus pais usaram, ao morrerem após passar os anéis, a Vongola entrou em um estado de dormência. Como Madara foi associado aos atentados que mataram seu pai e vários outros guardiões, ele perdeu o comando da Varia e seus peões na CEDEF foram eliminados, assim como os da Varia. Quando as duas famílias secundárias retornam para a Vongola, uma regência temporária é feita entre os chefes das duas famílias secundárias. Caso aja herdeiros, o comando temporário deve seguir os passos para treinar e capacitar a nova geração. Caso a geração antiga não tenha deixado nenhum herdeiro ou apontado os candidatos, cabe aos chefes temporários escolherem os mesmos. Esse é o processo mais demorado e complicado, pois os dois precisam concordar na tentativa, e precisam da aprovação majoritária das famílias. Do contrário, a Vongola pode ficar até décadas presa nesse estado.

Enquanto tantas outras perguntas brigavam na sua mente para decidir quem seria respondida primeiro, um súbito sentimento deixou Hinata brevemente sufocada. Saudade e alegria inundaram seu coração e seus pulmões, ela sentia que conhecia aquele lugar, sentia que já estivera ali antes e antes que pudesse perguntar a Naruto o que aquele cenário significava para ela, as lágrimas encontraram seu caminho sem resistência.

Eles haviam acabado de chegar ao destino. O lugar era um terreno, no mínimo, imenso, pelo que ela conseguia perceber, e no meio do lugar, encrostado no sopé da montanha, um belo chalé dava as caras por entre as árvores. Levou alguns minutos para Naruto cumprir todo o ritual de abrir os portões do lugar, colocar o carro para dentro, trancar tudo e checar se estavam realmente sozinhos. Somente após isso, ele voltou ao carro – Hinata fora obrigada a esperar no mesmo – e deixou o veículo em um pequeno caminho atrás do chalé, de forma que ninguém de forma o veria.

O lugar, por mais aconchegante que fosse, era de uma simplicidade incompatível com a Vongola. Nas últimas horas, ela sempre viu móveis e imóveis caros, imponentes e luxuosos, carros de status semelhantes, até mesmo o Aston Martin que Naruto dirigiu na última hora parecia um objeto estranho aquele cenário simples. As paredes e o chão eram inteiriços de madeira, haviam algumas janelas, pelo menos uma por cômodo. A sala era grande, dividida entre um espaço mais reservado onde ficavam os sofás, a TV e lareira, o restante era dividido com a cozinha e mantinha uma mesa de jantar e um bar cheio de bebidas no canto das paredes. A cozinha era igualmente grande, uma antiga geladeira ficava no canto, ao lado de um fogão a gás e outro a lenha. Havia ainda um único quarto e um banheiro com uma curiosa banheira aquecida a lenha.

Apenas naquele momento, Hinata percebeu que o carro estava atolado de malas e sacolas. Haviam diversas malas cheias de roupas e sapatos, e as sacolas que ele começou a tirar do carro estavam abarrotadas de comida.

— Quanto tempo ficaremos aqui? – ela esperou sentada no sofá até que ele acabasse.

— Não sei. Você provavelmente ficará mais tempo, se eu conseguir me recuperar, provavelmente Hanabi será sua companhia em breve.

— Se recuperar do que?

— De algo que por enquanto, não é da sua conta.

Embora o fora tivesse a deixado levemente ressentida, ela já havia percebido que ele não estava exatamente bem. Talvez fosse apenas stress, cansaço e sono, mais provavelmente tinha algo a mais. E por hora, ela decidiu que era melhor não abordá-lo sobre o assunto.

Após um estranho, longo e relaxante banho naquela banheira de difícil regulagem, ela quase se queimou diversas vezes por se esquecer de colocar mais água fria, Hinata revirou o armário que ele havia arrumado para ela na procura de algo quente e confortável para usar. Acabou encontrando um conjunto de moletom que para a sua surpresa, fora tirado do seu apartamento, assim como parte das roupas ali presentes.

Com uma passada na cozinha, guiada pelo cheiro de um café forte e diferente, ela encheu uma caneca com a bebida e seguiu em busca de Naruto. Encontrou ele sentado nos degraus da varanda enquanto observava as árvores. Sentando ao lado dele, ela precisou admitir que a beleza do lugar era acima do normal. Uma grama baixa e grossa cobria o chão por todas as partes, haviam dezenas de árvores grandes e antigas demais para ela identificar, as copas eram largas e altas, deixando a casa em uma espécie de lareira. O portão ficava em um declive, cerca de uns cinquenta metros à frente. Além da montanha as costas da casa, haviam outras tantas ondulando e colorindo o horizonte. Para onde ela olhasse, haviam campos recheados com flores de uma coloração mais avermelhada ou uma grama mais amarela, que com o fraco sol, parecia ouro.

— Eu simplesmente não acredito nas coisas. – ele falou quase que para ele mesmo, em um tom tão baixo que ela precisou se concentrar para não deixar nada escapar – O mundo é cheio de tanta hipocrisia e leis sem sentido que irrita. As pessoas dizem que as necessidades de muitos, sobrepõem a de poucos. Mas o que mais vemos é o contrário disso. Religiões pregam o quão errado é tirar uma vida, mas outras tantas dizem que até o menor dos animais tem uma alma. Então, matar um boi para o consumo, não seria o mesmo que matar uma pessoa? Não, todos dizem, animais são irracionais. E mesmo assim cientistas gastam anos e anos pesquisando cachorros e gatos, tentando impor que os sentimentos dos animais são “instintos”.

Ele fez uma pausa, pegou um pouco do café dela, encostou na pilastra ao seu lado e a encarou.

— Você mataria um gato ou cachorro para salvar alguém que ama? Sim. Você mataria uma pessoa para salvar quem ama? Sim. Então por que você não pode matar pelo bem de alguém que você não conhece? Eu preciso gastar vinte, trinta, cinquenta anos socializando com os bilhões de pessoas em dificuldades nesse mundo, para fazer algo por elas? Hinata, esse pensamento foi martelado na nossa cabeça. A vida de um traficante, de um ladrão, não vale a vida de uma criança, de um pai de família ou de uma mãe. Eu não vou abaixar a minha arma para prender e tentar corrigir os maníacos desse mundo.

— E o que você vai fazer quanto aos que ainda vão surgir?

— Isso é assunto para o futuro. Até lá nem eu sei como esse mundo vai estar. O que me importa, é limpar o mundo dos que já estão aqui, enraizados na podridão. Todo mundo adora falar da lei. Mas a maioria das leis já escritas, estão velhas demais, ultrapassadas demais. Moles demais. Eu já matei trezentas e setenta e quatro pessoas. E cada uma delas cobrou um preço em mim. Algumas eram tão nojentas e repugnantes que o preço foi ínfimo. Outras, eu precisei matar para salvar alguém e não mereciam isso, por isso, o preço foi alto.

— É disso que você precisa se recuperar?

— Quando eu estou perto de você, todos esses sentimentos, me enfraquecem. Quanto mais perto de você, menos Cielo eu sou, o peso do anel fica maior. É como mergulhar num oceano de tristeza, dor e sangue. Eu vejo várias coisas manchadas com esse sangue imaginário. Às vezes eu vejo tudo assim, as vezes vai embora. De vez em quando, os rostos das mortes desnecessárias parecem me observar de cada canto escuro. É uma vida complicada. É até um pouco parecido com os seus problemas. Sentir mesmo sem lembrar. Um caso raro como o seu médico disse, não é?

Incrédula por ele saber disso, uma conversa com um neurologista que cuidou dela anos atrás, ela estava prestes a fazer a pergunta, mas ele deu a resposta antes.

— Você acha mesmo que eu te abandonei todos esses anos? Eu nunca consegui realmente te deixar. Sempre tive olhos perto de você. Quando você acordou, os meses de fisioterapia e tratamento. Os anos de estudo, sua entrada para a polícia. Seus namoricos – ele frisou a palavra com um tom sarcástico – suas conquistas, suas derrotas. Eu vibrei com muita coisa que você conquistou. Me senti mal por tantas outras que você falhou. Eu –

O ato dela foi inesperado e confuso. Inclinando-se em direção a ele, Hinata o beijou. Um beijo simples, estático, carregado de dúvidas, hesitação e medo. Mas desesperado em ser correspondido, segurar aqueles sentimentos, era muito mais do que ela conseguia aguentar. E ela encontrou nele, a extensão de tudo que sentia. Sem hesitar, ele aprofundou o gesto, tomou para si aqueles lábios pequenos e macios que tanto lhe faziam falta e tinham lugar cativo no seu imaginário. Ele explorou o beijo até se sentir satisfeito, até aquele amor frequentemente acorrentado e preso, dar um tímido grito de liberdade. Ele a beijou como a muitos anos não o fazia, pois agora, não precisava esconder o passado, nem temer por ela descobri-lo. Tudo que ele queria era senti-la, seus lábios, sua boca, sua língua. Tudo misturado a uma revoada de intensos e defeituosos sentimentos, regados ao gosto de café.

— Por que você me deixou? Eu... – ela respirou fundo e fechou os olhos, as palavras fugiram.

— Eu te deixei por que você é boa. Pioggia é geralmente, a chuva que apaga e acalma os sofrimentos, os medos e as hesitações. Você era a Pioggia perfeita. Minha base. Eu não posso ser bom, não posso ser como você.

Quando ela abriu os olhos, viu que pela primeira vez, não haviam aquelas cortinas ocultando quem ele é. Ele aproximou a mão do rosto dela, mas parou outra vez e ela entendeu o porquê. Entendeu que naquele momento, tudo no campo de visão dele, estava mergulhado em sangue, tudo exceto ela. Estar com ela, quebrava todas as certezas dele, dobrava seus objetivos. Cegava sua resolução. Ele não era mau, não era um carrasco sádico. Ele sentia aquelas mortes, cada uma delas, e se arrependia por cada vida. De uma maneira doentia e ineficaz, é verdade, mas se arrependia.

Ela segurou a mão dele e com um gesto meigo, embolou os dedos dele em seus cabelos. E ela sorriu, um sorriso simples, verdadeiro e contido. Um sorriso forte o suficiente para vencer as últimas correntes no coração dele e fazer ele finalmente derramar as lágrimas que aquele amor a tanto pedia.

— Eu não posso simplesmente ir para o seu lado. – ela sussurrou – Não posso apagar os ideias que tenho hoje e ser como você. Só que também não posso mais negar. Eu te amo. Te amo tanto que chega a doer! O que será de nós, Naruto?

Notas finais
Bom pessoal, nos próximos 4~5 dias eu terei uma merecida "férias", não sei se vou escrever alguma coisa, (é bem capaz que eu escreva) o problema é que eu vou para onde não tem internet. Se o meu 3g funcionar, talvez eu apareça na quarta com o 18, vou ver se já deixo a postagem programada, então veremos. De qualquer forma, até a próxima!