Pecados
13 Capítulo 13
Notas iniciais
Tokyo, um mês depois
As últimas semanas tinham sido um verdadeiro inferno para Hanabi, por mais avisada que tivesse sido, ela nunca imaginou o quão espartano o treino da Vongola era. Jiraya era o professor mais frequente, embora tivesse tido treinos com Orochimaru e alguns dos guardiões. Em pouco tempo ela foi obrigada a enfiar na cabeça um conhecimento absurdo sobre armas de diferentes tamanhos e calibres, aperfeiçoou suas artes marciais e foi testada várias e várias vezes em treinos simulados. Por melhor que ela tenha sido, até mesmo Orochimaru reconhecera que ela tinha talento, a melhor parte foi o fim. Foram cinco semanas dormindo pouco mais que quatro horas por dia e tendo quase vinte horas com algum treino diferente. Não sobrava tempo para pensar em outras coisas, não conseguiu nem mesmo desfrutar um pouco da sua súbita volta a Itália.
Com a saída de Sakura do posto de guardiã, o anel da chuva acabou caindo no colo de Hanabi mais cedo que o esperado. Naruto até tentara adiar a situação e manter o anel com Sakura por mais tempo, mas os ferimentos dela estavam longe de qualquer melhora, assim como a mente dela, no final, Naruto decidiu que o melhor para ela no momento, seria ficar em Torino no coração da família.
Por ser filha de Hiashi, um antigo guardião, e igualmente habilidosa, Hanabi foi bem aceita e a cerimônia de posse para o anel da chuva correu sem problemas. Pela primeira vez ela agradeceu já saber falar italiano graças ao pai, aprender um novo idioma em meio aqueles treinos, seria demais até para ela.
— Lembre-se, mesmo tendo esse anel no dedo, você ainda é uma novata. Estará subordinada aos outros guardiões quando pisarmos no Japão.
— É a quinta vez que você diz isso desde que entramos nesse avião, Jiraya.
— Bom, ao contrário do seu pai e da sua irmã, você é teimosa e tem esse gênio competitivo. Você conseguiu irritar Gaara e Sasuke durante os treinos, não quero saber de problemas entre os guardiões por que você não seguiu ordens.
— Eu as sigo quando é a opção correta.
— Dio mio. Escute bem Pioggia, você vai ver que missões de campo são totalmente diferentes dos treinos controlados e simulados que você fez. Pessoas são fáceis de se ler até certo ponto, comportamento incomum é uma variável desagradável e que sempre acontece em campo. Seu treino foi ótimo é verdade, e sim, você é uma ótima aprendiz, mas você não está pronta. Naruto e os outros tiveram anos de treinamento, e na primeira missão quase fracassaram, só saíram vivos por um verdadeiro milagre. Gaara e Sasuke podem ser dois fios desencapados quando estão perto, mas eles deixam as diferenças de lado quando estão em missão, por mais que a decisão deles possa parecer errada para você, segui-las pode ser a diferença entre viver e morrer.
— Eu sei, Jiraya. Você e Orochimaru martelaram na minha cabeça durante essas semanas que eu não tenho experiência. Não precisa repetir isso outra vez.
— Sim, eu preciso. O atual estado da Vongola é frágil, estamos perdendo poder aos poucos e isso me preocupa, embora as operações no Japão estejam perto do fim, sem aliados no país é quase certo de que você vai ir a campo duas ou três vezes. Por tradição, Pioggia e Tempesta são sempre os que estão próximos ao Cielo, a segurança de Naruto é responsabilidade sua e de Sasuke enquanto estiverem em campo.
— Sabe, até agora eu não entendi isso.
— O que?
— Por que diabos o Cielo entra em missões? Ele é o chefe, não seria normal ele apenas delegar?
— Sim, seria. Praticamente todas as famílias fazem isso. Vongola, CEDEF, Varia, Giglio Nero e outras duas são as únicas onde os cabeças são responsáveis pelas missões mais perigosas. É um risco, já aconteceu de termos líderes que ficaram no cargo por poucas semanas e morreram na primeira missão, mas é assim que deve ser. Líderes que ficam presos atrás de uma mesa perdem o seu senso, ficam cegos e por vezes não pensam nas baixas, apenas em completar a missão. Não existe espaço para vaidade entre os detentores dos anéis Vongola exatamente por isso, cada um deles arrisca a vida várias vezes por esse anel.
Por alguns minutos, o silêncio reinou no pequeno jato. Ainda faltavam poucas horas para pousarem no Japão e por mais que Jiraya insistisse em não falar nada sobre a situação, a ansiedade quase devorava Hanabi.
— Fale logo, Jiraya. Como estão as coisas no Japão? Como está Hinata?
— Você não vai desistir enquanto eu não contar, não é? – ela concordou e ele deu de ombros – Que seja, sua irmã está presa.
Aquele era, sem sombra de dúvidas, o pior momento de sua vida. Não bastasse a confusão que fora as últimas semanas, aquela havia coroado tudo, Hinata tinha chegado ao fundo do poço. Pouco tempo atrás, ela era um dos melhores prodígios daquele lugar, agora estava sendo investigada e processada, dias atrás fora suspensa e em seguida, presa em seu próprio apartamento, algemada como uma criminosa e levada para a delegacia onde dedicou anos de sua vida. Agora ela estava do outro lado daquele vidro espelhado, um de seus antigos colegas fazia perguntas enquanto outros observavam tudo do outro lado do espelho.
Ficara três dias presa e isolada antes de finalmente ser levada para o interrogatório por Danzou. Depois de uma hora naquela sala, ouvindo várias e várias perguntas, a sua mente finalmente cedeu e por alguns momentos ela simplesmente riu. Riu de toda a desgraça que sua vida se transformou, riu da depressão que a transformou em uma bêbada relaxada na semana após Naruto desaparecer. Riu ao perceber que sua irmã tinha desaparecido sem deixar rastros e até Neji repetiu o gesto. Ela estava sozinha, terrivelmente sozinha, assim como naquele dia em que despertou do coma e não havia nada lá. Apenas aquela solidão irritante e intragável. Desde esse dia, ficar sozinha fazia sua mente navegar por dezenas de perguntas diferentes: quem era ela? O que ela deixou para trás naquele acidente? Quem ela deixou?
Todos os dias aquelas perguntas estavam lá, mais ultimamente elas vinham à tona com uma frequência assustadora. E tudo culpa dele, ele que roubou tudo. Durante dias ela revirou a internet, os bancos de dados da polícia e do governo atrás de qualquer coisa sobre ele, qualquer resquício de informação que pudesse dar a ela uma pista de onde ele estava. Aquela necessidade absurda em encontra-lo ia além daquela paixonite adquirida nos últimos tempos, eles tinham uma história e ela sentia que ele guardava as respostas para o passado dela e para esse estranho amor que sentia por Naruto.
— Muito bem. – foi a primeira vez que ela viu Danzou naquele dia, ele entrou na sala e sentou em frente a ela, jogando uma pasta sobre a mesa – Eu vou ser direto Hinata, me convença de que é inocente.
— Eu trabalhei com você durante todo esse tempo, Danzou. Não tente usar essas técnicas baratas para arrancar uma confissão de algo que eu não fiz.
— Belas palavras para alguém que está sendo acusada de ser cúmplice nessa bagunça toda.
— Por Deus, vocês nem ao menos tem uma acusação sobre mim! Você nem ao menos tem um nome! Ou você para de blefar e me diz por que estou sendo presa, ou para com esse teatro e me solta.
Com uma risada, ele folheou mais uma vez a pasta sobre a mesa, levantou, fez um sinal para que as pessoas do outro lado do vidro deixassem aquela sala e em seguida, desligou a câmera que vigiava a sala.
— O que diabos?
— Eu se fosse você, daria uma olhada nessa pasta. Não são arquivos policiais.
Sem entender toda aquela situação, ela apenas seguiu o conselho de Danzou e por um momento, ela apenas congelou. Havia um símbolo de uma nuvem vermelha no topo de cada folha, e cada uma delas estavam recheadas com nomes, fotos e detalhes que ela jamais conseguiria descobrir. Foi naquela pasta que ela descobriu o nome do ruivo que a derrotou duas vezes, Sabaku Gaara, Guardião do Anel da Nuvem da Família Vongola. Além disso, ela também estava naquela pasta, sempre acompanhada por Naruto, o detentor do Anel do Céu. Haviam fotos dos encontros deles, das vezes em que ele chegou ao prédio dela e das vezes em que deixou o local. E haviam fotos do dia em que ele a deixou naquela delegacia. Estava tudo ali.
— Satisfeita? Sabe, foi um choque para mim. Quero dizer, eu chego para mais um dia de trabalho e do nada o Cielo da Vongola para ao meu lado e me faz uma ameaça. Não tenho vergonha em dizer que eu quase me caguei, você teria a mesma reação se soubesse quem aquele moleque é e o que ele representa. Imagine a minha confusão ao descobrir quem o simples agente da Interpol era na verdade. E que de quebra, você era a namoradinha dele! Eu venho me segurando durante meses, afinal eu não podia encostar em você sem o aval do chefe. No começo, eu achei que você realmente era uma cumplice nisso tudo, depois que eu percebi, você foi só um brinquedinho dele, não é? Aposto que nem sabe no que se meteu.
Ele esperou uma resposta, mas gargalhou ao perceber que ela realmente, não tinha ideia de quem Naruto realmente era, ou do que ele representava.
— Tudo bem, eu vou explicar mais ou menos a situação para você. Sabe aquela velha história sobre a máfia italiana? Esqueça ela. A verdadeira máfia, é a Vongola. Não existe nenhuma máfia a não ser a Vongola. Ela controla tudo, as famílias russas, americanas, sul-americanas, africanas, asiáticas. Tudo. Todas. Nos últimos séculos, a Vongola foi comandada por pessoas que não ligavam muito para o estado do mundo, então a família passou a vigiar menos as suas associadas, a prioridade era a riqueza da família. Ultimamente, no entanto, a Vongola passou a combater com mãos de ferro tudo que julga “prejudicial” ao mundo. As famílias que se recusaram a despojar seu poderio e riquezas para seguir as novas diretrizes, foram esmagadas e destruídas. Como a Akatsuki, família que represento, tornou-se muito forte nos últimos anos, a Vongola deixou as operações aqui no Japão por último. Veja bem garota, enquanto você brinca de polícia e ladrão aqui, a Vongola tem toneladas de homens dizimando traficantes e criminosos mundo afora. Isso inclui até mesmo políticos, governantes e pessoas influentes. Enquanto você brincava de namoradinha com Naruto, a liderança da Vongola estava dizimando a Yakuza e nesse momento, as melhores forças deles, a Varia, está caçando a Akatsuki. Uzumaki Naruto sacrificou tudo, até os próprios pais pelo seu ideal de mundo perfeito. No entanto, ele fez de tudo para te manter segura, ele declarou sua posição, te colocou sobre a asa da Vongola e até mesmo efetivou sua filiação com a família para que eu evitasse colocar minhas mãos em você. Quem é você?
— Eu não sei. – ela resmungou.
— Não teste minha paciência. Quer que eu acredite que você está no olho do furacão por coincidência? Por que ele gostou do seu rostinho bonito ou adorou o seu corpo? Eu levei semanas esperando pela chance de te pegar sem deflagrar um conflito com um deles. Você sabia que se ele morrer agora, a linhagem reserva da Vongola é contra a atitude dele? Ele arriscou colocar tudo a perder, apenas para estar aqui com você. Para te proteger. Por que? Por que você é tão importante? ME DIGA!
— EU NÃO SEI! – ela socou a mesa – Caso você tenha esquecido, eu não tenho lembranças do passado! Eu não sei de nada seu velho desgraçado!
A reação de Danzou veio mais áspera do que o normal. O soco veio forte e atingiu o lado direito do seu rosto com uma força absurda, ela sentiu os dentes cortarem a pele e na mesma hora sua boca estava cheia de sangue.
— Recomendo que meça bem as suas palavras. Faz anos que eu cumpro o papel de chefe bonzinho e aturo as suas insubordinações. Felizmente, agora eu não preciso mais seguir a cartilha do bom patrão, e como esse lugar está no meu bolso, não vai ter ninguém para te impedir de perder uns dentes graças as respostas atravessadas. Vou repetir, quem é você? O que você é para Uzumaki Naruto?
— Eu não sei, merda!
Novamente o soco veio e dessa vez a dor foi ainda pior. Em silêncio, ele apertou as algemas dela e a prendeu a mesa.
— Lamento se não acredito em você, mais é difícil de acreditar nessa sua história de “amnésia”. E mesmo se isso for verdade, você ainda tem um alto valor, ter um refém como você vai deixar aquele cara alvoroçado.
— Você está louco se acha isso.
— Ele matou um dos líderes da Akatsuki para salvar sua irmã. Matou mais um que estava na sua cola no mês passado. Se Hyuuga Hanabi fez ele sair da toca, por que você não faria? – ela não respondeu, já não conseguia entender mais nada. – Bom, algumas horas com essas algemas apertadas, sem água e comida vão abrir a sua boca, mesmo que você esteja falando a verdade, um pouco de sofrimento seu vai fazer Naruto sair da linha. E na hora que ele perder a cabeça, eu mesmo mato vocês.
Não demorou até aquela situação toda começar a jogar no corpo de Hinata, uma carga que ela não conseguiria aguentar. Poucas horas após Danzou prendê-la naquela sala, seus pulsos já estavam em carne viva graças as algemas, juntando a dor que sentia graças a elas, com a desidratação começando e o stress que seu corpo já vinha aguentando, ela já estava prestes a ter um colapso quando Danzou entrou novamente na sala.
— Pronta para a segunda rodada?
— Você é apenas um palhaço não é? – ela riu – Um idiota qualquer tentando atrair atenção. Não importa o que você ache que eu sei, me torturar não vai me fazer adivinhar as respostas.
— Você me intriga. – ele sentou em frente a ela – Não bastasse você tentar me convencer de que apenas conheceu, por algum capricho do destino, um dos homens mais poderosos desse maldito mundo. Ainda debocha da minha cara sem saber o que eu posso fazer com você. Não sei se essa coragem toda vem do fato de você não conhecer esse mundo, ou se é apenas idiotice. De qualquer forma, eu vou me divertir muito com você. Quanto de dor será que você aguenta até quebrar? Vou até te dar uma vantagem. – ele tirou as algemas dela – Me mate e você está livre.
Sem nem mesmo hesitar, ela saltou pela mesa na direção dele, a atitude mais idiota que ela poderia ter tomado e reconheceu isso quando ele sorriu. Ela caiu no jogo dele, sem medir a força, ele mirou um soco em cheio no ombro que meses atrás ela havia deslocado e que ocasionalmente ainda doía com certos movimentos. A onda de dor foi tão intensa que ela nem mesmo conseguiu gritar.
— É um pouco decepcionante, não pensei que você seria idiota o suficiente para cair nessa armadilha tão facilmente. Espero que esteja pronta para as próximas horas.
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