Passado Esquecido
10 Capítulo IX
Notas iniciais
As minhas pernas estavam moles e eu queria voltar para casa, estava cansado, queria meu baixinho perto de mim, e por mais que eu não quisesse admitir eu estava com medo. Medo por que eu tinha achado um crânio humano largado alguns minutos atrás, e eu sabia que aqueles malucos deveriam está me procurando.
Minha cabeça latejava, e no final eu acabava sentindo medo do que poderia acontecer comigo, eu não sabia como eu tinha feito aqueles feitiços, se é que aquilo eram feitiços... Seria possível que eu fosse alguém como Kai? Ou um lobisomem como o Tsuki? Tudo bem, lobisomens não se transformam em coelhos...
Minha linha de raciocínio fica baixa quando estou nervoso.
Não julguem a minha inteligência.
- Venha... — Uma voz rouca ecoava em minha mente, alguém me chamando.
Alguém que tem uma voz semelhante a minha, só que bastante rouca... Como a voz de uma pessoa mais velha, ou de alguém que gritou muito, era como o meu antigo eu. No fundo eu sabia que era o ''eu do passado'' me chamando de algum lugar próximo de onde eu estava.
- Yuu... — Berrei, afinal eu ainda estava procurando aquele maluco.
- Venha... — A voz chamava.
- Yuu?
- Venha... Apenas venha... Deixe de ser retardado... — Grunhiu a voz.
- Quem é você?!- Gritei perguntando.
- Atrás de você... — A voz murmurou.
Um frio percorreu minha espinha, sua voz contra o meu ouvido fez com que eu me arrepiasse, suas mãos grossas e ásperas tocaram a minha nuca, cuidadosamente virei-me e fitei o homem bem vestido, seus longos trajes pretos, seus olhos escuros pareciam querer devorar-me.
Ele era idêntico a mim, apenas alguns anos de diferença, não sabia quantos ao certo. O homem sorriu para mim, os cantos de seus olhos se encheram de lágrimas, essas escorreram por sua face, molhando a faixa que ele tinha no nariz.
- Fogo... Quando achar que for a hora, grite pelo fogo... — Ditou em voz firme, eu assenti positivamente em resposta, embora eu não soubesse o que aquilo significava. — Somos uma pessoa só: Eu, Reita e você, Akira. O mesmo homem, a mesma pessoa, apenas fomos separados por um acidente.
Mantive-me calado, analisando sua expressão.
- Receio que você foi enganado, assim como eu fui. — Alertou.
- Como?
- Não posso explicar, não temos tempo, quando chegar a hora grite pelo fogo... — Respondeu, ficando de joelhos para mim. — Você nunca vai saber o que aconteceu, e ele vai perder a memória, não se lembrará de nada... Vai aparecer no seu quarto sem saber quem é. — Ditou.
As palavras que saiam de sua boca causavam-me dor de cabeça, eu não conseguia entender o que ele dizia só que eu me sentia na obrigação de dizer que ia ficar tudo bem e que chamaria pelo fogo quando chegasse a hora.
- Nunca saberá de minha vida... E ele se esquecerá da dele...
- Ele...?
- Takanori. — Declarou por fim. — Estou morrendo...
- Por quê? Digo você era imortal. — Relembrei.
O homem sorriu.
- Ninguém vive para sempre, meu caro, ninguém. — Murmurou. — Apenas o amor pode você não. — Continuou sua fala. — Eu não voltarei, lembre-se do que eu te disse, chame pelo fogo. — Findou finalmente o que dizia, fechando os olhos e sumindo de minha vista.
Aquela foi a última vez que eu o vi.
- Não! — Um grito desesperado pode ser ouvido.
Lá de longe, com as vestes e os cabelos completamente molhados, segurando uma vela pequena nas mãos, Takanori vinha correndo, seus olhos estavam vermelhos, revelando o quanto ele havia chorado. O pequeno lançou-se cuidadosamente em meus braços, dando um abraço apertado e beijando meus lábios.
- O que faz aqui, baixinho? — Perguntei. — Pedi para que ficasse com o Kou.
- Yuu apareceu, ele estava machucado, Kou resolveu levá-lo ao hospital. — Respondeu euforicamente. — Eu não podia ficar sozinho, eu senti que estava aqui, vim correndo... E vi o meu xogum verdadeiro morrer. — Sussurrou.
- Então sou um xogum falsificado? — Cortei.
- São a mesma pessoa, eu... Eu... Estou tão fraco... — Disse em um murmúrio.
Segurei-o no colo cuidadosamente, seus olhinhos piscavam lentamente, sua respiração estava descontrolada, ficando cada vez mais fraca. Por fim ele encostou sua cabeça em meu peito, comecei a andar na direção da saída, tive medo de que Taka estivesse machucado.
- Vou levá-lo para casa. — Declarei, vendo um sorriso desenhar-se em seus lábios.
- Não, não vai. — Falou baixinho, voltando a fechar os olhos.
- Não diga besteiras, Taka, sabe que eu amo e que te levarei para casa. — O corrigi severamente.
Ele suspirou.
- Me promete uma coisa?
- Claro.
- Vá me buscar no cemitério, por favor, no domingo... — Pediu.
- O que vai fazer no cemitério, pequeno? — Resmunguei incrédulo.
- Promete? — Ralhou.
- Pro-prometo... — Assenti com dificuldade, sem entender o que ele queria dizer com isso.
Caminhamos, guiados pela luz da vela que Taka tinha nas mãos, chegamos ao início do túnel, na passagem exata que daria para o quarto, para a banheira. O loirinho parecia ter dormido em meus braços, estava quieto demais, todavia mantinha seus olhos abertos e atentos, provando-me o contrário.
- Aki, eu tenho que ir, adeus. — Meu pequeno ditou, fitando-me. — Me encontre no domingo, no cemitério, por favor, apareça. Eu sei o quanto você é dramático, então vou te explicar: eu não vou morrer, apenas irei para meu verdadeiro lugar. Se quiser me ver novamente vá ao cemitério no domingo, e muito provavelmente eu serei o seu verdadeiro Taka, não conte nada sobre o passado... Você tem o futuro.
E dizendo isso, como fumaça, ele desapareceu dos meus braços.
- Taka! — Gritei desesperado, procurando pelos cantos. — Chibi?
Minha visão ficou embasada, meu pequeno havia sumido, entretanto eu sentia que deveria ir ao seu encontro no domingo pela manhã, e seria exatamente isso que eu faria. Algo em mim dizia que ele voltaria que estaria em meus braços e que esse momento não demoraria.
Só que ainda havia coisas que eu não conseguia responder.
- Cacatua! — A voz cínica daquele moreninho sorridente tirou-me dos meus pensamentos. — Não fuja não te farei mal, por favor, me escute. — Pediu desesperado.
- O que você quer? — Fui grosseiro e direto.
- Tem o direito de me odiar, mas quero que saiba que eu lhe ajudarei. — Respondeu humildemente. — Durante anos tenho tentado inutilmente me vingar de algo que aconteceu anos atrás, não importa a você o que aconteceu, importa saber apenas que eu quero me vingar.
- De mim? — Arrisquei perguntar.
- Não, do Nao. — Explicou. — Desde o momento que soube que encontrou Takanori, vi você como minha ajuda. Juntos podemos matá-lo.
- E quem me garante que você não está armando para mim? Não quero matar ninguém, não quero briga, apenas quero voltar para casa, com o Taka. — Admiti.
- Você só vive por que o Nao quer. Não viu o que ele fez ao Aoi?
- Não confio em você.
- Não gosto de você, e estou aqui pedindo a sua ajuda. Acho que sabe que deve chamar pelo fogo, isso causará um incêndio, quando Nao vier lhe buscar você vai incendiar o hotel. — Ordenou.
- Isso vai matar pessoas que não tem nada a ver com isso. Recuso-me.
- Não seja besta, é claro que eu cuidarei para que os humanos não se machuquem. — Resmungou.
- O hotel vai ser prejudicado, isso vai afetar a vida do dono dele, dos funcionários... — Comecei meu discurso a favor da vida, eu era de fato uma pessoa que não tinha um instinto assassino.
- O dono do hotel foi alertado, ele é um de nós, assim como todos os funcionários daqui. Deixe de ser besta, Nao e os outros não sabem do incêndio, por isso eu estou aqui, para te alertar e pedi para que faça isso agora. — Explicou. — Vim escondido, e você sabe que seu namorado confiaria em mim.
- Maldição! — Praguejei, ele sabia meu ponto fraco. — Fogo! Fogo, fogo, fogo, fogo, fogo... — Comecei o meu ''feitiço mental'', sentindo o chão ardendo.
O cheiro de queimado invadiu as minhas narinas, eu via o fogo se espalhar pelo túnel, Kai havia feito um tipo de campo de força ao redor de nós dois, o fogo não nos queimava. Ele pediu minha mão, fiquei relutante, mas fiz o que ele pedia.
O moreninho sorria sadicamente, revelando suas covinhas, seus cabelos voavam com o vento, as chamas se agitavam por trás dele. Ele guiou-me pela pequena passagem, paramos no banheiro em chamas da suíte, caminhamos pelos corredores e descemos a escadaria, a recepção estava se acabando.
De fato não vi ninguém, não ouvi gritos nem nada parecido, o que era esperado para um incêndio surpresa. Ele correu, e eu o acompanhei, e então chegamos à rua, estávamos fora do hotel. Procurei por Kai e nada vi, ele havia me abandonado.
Curiosos se aproximavam do lugar, posso afirmar que vi o correr no meio da multidão, tentei segui-lo com o olhar e falhei. Agora restava procurar o hospital onde meus amigos estavam eu queria logo voltar para casa, e meu coração dava pulos ao pensar no domingo.
Na verdade eu não entendia como Taka havia sumido, também não entendia direito o que eu era. Hoje penso que sou um telepata ou um bruxo, ou posso ser simplesmente um maluco.
- Akira! — Um grito no meio da multidão me chamava.
- Kou! — Gritei ao ver o loiro se aproximando.
- Vim assim que vi na televisão sobre o incêndio, você está bem? E o Taka? Aoi foi comprar nossas passagens de volta, ele recebeu um telefonema do Uke-san... Ele disse que a apresentação foi cancelada.
- Estou bem, Kou. — Declarei. — Preciso ir para casa, foi um dia cheio.
- Cadê o baixinho?
- É complicado, digamos que ele sumiu, e que volta no domingo.
- Como?
- Ele está bem e é isso que importa. E em relação ao Nao, acho que ele não volta a nos procurar nunca mais.
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Dias depois...
Era uma manhã chuvosa, e eu acabava de colocar algumas rosas no túmulo de minha queria avó, algumas lágrimas teimosas insistiam em rolar pelo meu rosto. A chuva molhava o meu corpo, e eu não ligava, afinal da última vez que eu vira Taka ele estava todo molhado.
Avistei uma figura baixinha e apressada correndo na minha direção. Um garoto, que rapidamente reconheci como o meu baixinho, vinha correndo na chuva, ele usava uma maquiagem forte, e trajava uma camisa regata e uma calça jeans, tinha as unhas pintadas de preto, e os lábios carnudos também.
- Takanori! — Exclamei, aproximando-me dele.
O baixinho olhou para mim seriamente, analisou-me da cabeça aos pés.
- Me conhece, senhor? — Indagou curioso. — Posso ajudá-lo em algo? — Continuou a indagar.
- Espera não se lembra de mim? — Cortei-o, o meu mundo acabara de cair.
- Desculpe-me, mas infelizmente não me lembro. Quem é você?
''Não conte nada sobre o passado... Você tem o futuro. ''
Lembrei-me das palavras de meu pequeno, talvez ele tivesse certo, eu não recuperei memória alguma... E nunca recuperaria, por mais que eu sentisse falta do baixinho que sabia tudo sobre mim, o melhor seria eu mesmo fazer com que ele se apaixonasse por mim.
Não por quem eu fui por quem eu só.
- Akira, eu te conheço há algum tempo.
- O senhor é meu cliente?
- Não, nem sabia que trabalhava... Em que trabalha?
- Vendo meu corpo. — Disse olhando para o chão, fitando os seus pés. — Não tenha nojo de mim, por favor... — Implorou.
- Não sinto, sei que não faz isso por que gosta.
- Obrigado... O que quer de mim?
- Aceita tomar um café? Comer alguma coisa? Meu apartamento não fica longe daqui. — Convidei.
- O senhor quer meus serviços?
- Não.
- O que quer de mim?
- Sua amizade, e talvez o seu amor... — Chutei sorrindo.
- Não posso me apaixonar, desculpe-me.
- E se eu disser que sou a pessoa que vai lhe tirar dessa vida? Acreditaria em mim?
Seus olhinhos brilharam, ele abriu os lábios para falar alguma coisa, parecia completamente surpreso.
- Por que faria isso? A maioria das pessoas não gostam de mim, meu pai mesmo nunca gostou de mim... — Revelou tristemente.
- Pequeno você é a coisa mais fofa que eu já vi em toda a minha vida. — Elogiei. — Não tenha medo, apenas confie em mim, prometo não te machucar.
...
Notas finais
Não foi betada.
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