Passado Esquecido
2 Capítulo II
Notas iniciais
- Doushite?- Taka praticamente berrara aquela pergunta.
- Eu vou deixá-lo dormir em minha cama, mas já disse que não vai passar disso!- Resmunguei tentando fazê-lo me entender.
- Passei esse tempo todinho pensando em você, Aki-chan... — Ele murmurou.
Eu já ia dar um belo de um fora, só que aquele diabinho teve a ideia infeliz de tirar aquela yukata de seu corpo, revelando seu corpinho pequeno e delicado para mim. A pele alva com algumas marcas chamavam minha atenção, eram aranhões e uma cicatriz no peito, as coxas um pouco grossas... Etto... Tão lindo...
- Ah... -Suspirei, levando as mãos a cabeça.
- Nee Aki-chan... Awn, awn...- Gemeu pausadamente, as mãos pequenas indo em direção ao membro adormecido.
Eu não podia.
Eu queria, mas não podia.
Aquele garoto era louco, precisava de ajuda médica. Eu tinha que compreender que ele acha que é um kagema, que eu, que não consigo tomar conta nem de mim mesmo sou um xogum... Ele jura que morreu... E isso não é certo.
Como um maldito cientista eu tenho que acreditar no que tem lógica, no que a ciência explica. Não em coisas do além, coisas impossíveis. Ele devia ter esquizofrenia, ele deveria ter roubado a yukata em algum lugar... E provavelmente sua família está o procurando em cada canto de Tóquio.
- Chibi, pelo amor de Kami não faz isso. — Pedi sentindo minha consciência pesar... Eu ia mesmo dormir com um garoto doente?
- Eu sei que você quer isso. — Disse friamente, seus olhinhos brilhavam.
- Não importa o que você acha que fazia você não pode ter simplesmente renascido. Isso não existe. — Expliquei.
- Para! Eu sabia que você não ia se lembrar de mim, eu sabia... — Taka grunhiu, sentando-se no chão, levando as mãos ao rosto o escondendo.
Era um choro que me pareceu doloroso, carregado de mágoa. Era a segunda vez que ele chorava na minha frente, e assim como na primeira vez eu não aguentei vê-lo daquele jeito. Dessa vez ele estava nu, encolhido junto da parede, chorando loucamente.
- Meu Kami, por quê?- Indaguei mentalmente. — Chibi... Se eu dormir na cama com você... Então você para de chorar?
- Hai, mas depois eu vou fazer o que eu fui treinado para fazer, Akira. — Concordou, levantando a cabecinha.- Só por favor não me rejeite.- Pediu, caminhando para a cama.
- Ei! Vá tomar um banho primeiro!- Mandei, antes que ele sujasse meus lençóis.
- Tudo bem. — Falou com uma voz fraquinha, sem a animação de mais cedo.
- Fica assim não, Taka... Eu vou te ajudar a tomar seu banho e. — Comecei a falar mas fui interrompido.
- No banho? Eba!- Ele voltou a falar daquele jeitinho, rápido e divertido. — Vou passar água no corpinho do meu xogum e...
- Taka, você vai tomar banho. Eu apenas vou te ajudar a ligar o chuveiro.
- Chuveiro? O que é um chuveiro?- Ele indagou docemente, eu não pude deixar de sorrir de lado, enquanto o conduzia para o banheiro.
- Isso é um chuveiro. Agente o abre assim e a água sai. — Ditei pausadamente.- Então você fica debaixo dele e toma seu banho, depois passa o sham...
- Um troço de fazer água! Eu sempre soube que o meu xogum era o homem mais inteligente do império!- Exclamou.
Eu levei minhas mãos à cabeça, passando-as sobre meus fios loiros, sentindo-me fracassado por não conseguir explicar uma coisa simples daquela. Se bem que eu havia chegado a conclusão de que Takanori é um garoto muito difícil de se convencer.
- Apenas banhe-se, e passe o sabonete por seu corpo, depois você o tira, se enxuga com essa toalha branca e veste essa yukata. — Expliquei apontando para as coisas, agradecendo mentalmente por não ter jogado aquela yutaka no lixo no final daquela peça de teatro. — Qualquer coisa que precisar eu vou estar no quarto. — Conclui por fim, não ia ver aquela coisa linda tomar banho.
Sai daquele banheiro, jogando-me sobre os lençóis macios da cama, sentindo Koron lamber um de meus pés descalços. Eu observei o cachorrinho de pelos escuros, ele olhava-me com os olhinhos brilhantes. Eu passei minha mão em sua cabecinha peluda, ele apenas abanou o rabinho em resposta.
Foi quando ouvi a campainha tocar ao longe, Koron latiu em resposta, levantei-me rapidamente para abrir a porta. E se fosse alguém para avisar que a história do Taka é uma pegadinha? Eu temi que fosse algo assim, e ao ver Aoi parado na frente do apartamento, minha visão escureceu, tive medo que tirassem o baixinho de mim.
Por algum maldito motivo eu queria o ruivinho comigo.
Respirei fundo três vezes e hesitei, não queria que acabasse, queria tê-lo comigo, queria que aquilo fosse verdade que eu tivesse que protegê-lo de tudo... Ah! Não poderia estar apaixonado por uma pessoa que eu acabo de conhecer! Eu não deveria nem ter trazido ele até aqui.
Abri a porta finalmente, sentindo meu coração palpitar, eu estava completamente desesperado e estava suando frio. Tudo bem, Akira, calma você consegue... Respira... Respira... Pense na sua vida, suas pesquisas e... Raios! Não posso estar afim do cara!
- Eu sei que você sentiu minha falta, Aki-chan?- Ele perguntou enquanto entrava sem convite na minha casa. — Hum... Achei que isso aqui estaria cheio de caixas com suas coisas, não vai se mudar amanhã? Para a casa que era da sua avó? Eu acabei de deixar umas flores para o Uru, pensei em passar aqui para te ajudar.
- Você não viria aqui apenas para isso. — Cortei-o, fuzilando-o com os olhos.- Te conheço, Shiroyama, me diz logo em que você se meteu.
- Digamos que eu estou com fome... E que a Takashima-san vai me achar folgado se eu pedir para jantar lá sabendo que o Uru foi passar uma semana com os pais.
- Veio aqui para pedir comida? Tem certeza que não tem nada haver com o garoto do cemitério?!- Indaguei aliviado.
- Garoto do cemitério? Esse sou eu, meu xogum?- Uma terceira voz soou em meus ouvidos.
Takanori estava escorado na parece, seus cabelos estavam completamente molhados, ele segurava a toalha branca com uma das mãos. A yukata havia ficado um pouco folgada nele, isso deixava seu peitoral um pouco a mostra, seu rostinho continuava do mesmo jeito, só que aquela marca que ele possuía no peito era um pouco visível.
- Xogum é? Etto, eu não sabia que gostava desse tipo de fantasias, pensei que odiasse essa parte da história. — Aoi comentou, ele sorriu malicioso observando a minha expressão facial.
- Não é nada disso que você está pensando. — Rebati, eu estava começando a corar.
- É isso mesmo, eu sou o kagema do Suzuki-san. — Taka completou.
A risada alta e escandalosa do moreno invadiu o local, Aoi ria escandalosamente, eu apenas abaixei minha cabeça, sentindo o meu rosto queimar. Tanta coisa para ele dizer, podia ser um simples ''quem é esse?'', mas com aquilo eu não pude deixar de me sentir envergonhado.
- Kagema e xogum? Mas que cientista pervertido! — Aoi continuou com sua crise de risos. — Bonito, bonito, depois ele vira um anjo! Tem gente lá no centro de pesquisas que jura que você ainda é virgem! Faz ideia do que essas pessoas vão dizer quando eu chegar lá contando isso?!
- Você não está louco de sair por ai dizendo isso. — Grunhi.
- Akira! Você não quer mais que as pessoas saibam de nós dois? Tem vergonha de mim? Você vivia me mostrando para os seus amigos... — A voz fraca do Takanori me deixou louco.
Eu estava louco.
Louco por aquele garoto e louco para tirar o filho da puta do Aoi da minha sala.
- Não, não é isso! Apenas não é bom falar sobre o passado, entenda isso tenshi. — Pedi, tentando ser carinhoso.- Por que não vai para a cama, deita lá e me espera? O Koron está lá e eu notei que se dão bem.
- Hai, eu vou me deitar na substituíra do futon e vou brincar com o Ouji. — Ele assentiu, corrigindo-me.
Apressado ele correu até o quarto, eu pude ouvir o barulho da porta sendo fechada cuidadosamente, Aoi fitou-me curioso, suas sobrancelhas se ergueram em uma interrogação. Sabia que teria que explicar o que estava acontecendo.
- Longa história. — Gesticulei.
- Tenho muito tempo.
Fomos para a cozinha, lá Aoi colocou o resto do meu almoço no micro-ondas, e eu contei como toda aquela loucura tinha começado. Ele apenas escutava tudo atentamente, enquanto devorava o prato cheio de comida que estava a sua frente.
O tempo foi passando e o idiota não me deu um mísero conselho, apenas disse ''cara, você se fudeu. '' como se isso ajudasse bastante, como se eu estivesse precisando ouvir isso. Ele terminou o jantar, agradeceu pelo jantar e disse que adiaria a minha mudança, já que era amigo do dono da empresa de mudanças. Ele disse também que eu precisava descansar.
Voltei para o quarto onde avistei uma cena muito fofa.
Taka havia dormido, ele estava todo enroladinho embaixo do edredom, apenas sua cabecinha podia ser vista. Koron estava deitado bem ao seu lado, o ruivinho tinha uma expressão suave, como se estivesse tendo um ótimo sonho. Eu sorri e deitei-me ao seu lado, beijando a sua bochecha.
- Boa noite, meu anjo. — Sussurrei em seu ouvido.
- Hum... — Ele murmurou baixinho.
As pálpebras pesadas foram se abrindo lentamente, dando lugar as íris douradas, ele me encarou por um instante, e sorriu ao notar que meus braços o mantinham num abraço. Ele levou os dedos ao lugar onde eu havia beijado, abriu um sorriso ainda maior dessa vez.
- Meu xogum. — Disse fracamente.
Eu não entendia o que se passava por sua cabeça, mas se o que ele falava fosse realmente verdade, se ele realmente tivesse morrido, se nós fossemos amantes de verdade em um passado distante. Se ele esperou por mim esse tempo todo, se eu até hoje nunca havia me apaixonado...
Era coincidência demais, era muito para mim, eu deveria acreditar na ciência... Eu não deveria acreditar num sobrenatural...
- Estou aqui, Takanori. Por favor, durma. — Voltei a sussurrar em seu ouvido, ele se encolheu novamente e adormeceu em meus braços.
Eu fechei meus olhos, para apreciar o cheiro tão bom que aquele garoto tinha, e acabei tento um sonho bastante estranho.
''Eu estava de volta a aquele cemitério, exatamente no lugar onde vovó havia sido enterrada, todavia não havia nenhum túmulo ali. Nem ali nem por perto, era como se ninguém houvesse sido enterrado ali. Apenas uma pessoa, por detrás de uma árvore eu avistei dois rapazes, tinham aproximadamente a minha idade.
Não hesitei em me aproximar deles, eles estavam vestidos com yutakas que me pareciam ser bastante caras, reconheci que um dos rapazes era Takanori. Os mesmos olhos dourados, os cabelos ruivos, a pele alva, a expressão surpresa... Aquele era Takanori.
O outro rapaz pediu para que ele se sentasse e abrisse sua roupa, o pequeno fez o que lhe era mando mesmo que estivesse chorando, o outro simplesmente puxou uma katana e a enfiou contra o peito de Taka, ele gritou, mas logo se calou. O outro rapaz continuou o corte, e por fim tirou o objeto do interior do chibi.
- Meu xogum... — Em um murmurou, essas foram suas últimas palavras. Ele havia morrido.
- Meu kagema. — O outro ditou, com uma voz semelhante a minha.
Foi quando por fim eu percebi o outro rapaz que estava com Taka era eu. ''
Acordei-me repentinamente, com as lembranças desse sonho na minha mente, sentei-me na cama esfregando os olhos. Numa tentativa desesperada de esquecer tudo que se passara na minha cabeça, eu não era um assassino, e não tinha me envolvido com aquele garoto. Porque ele está morto.
Olhei novamente para o ruivinho encolhido entre os lençóis, com a cabeça no travesseiro, eu sabia que ele tinha uma cicatriz enorme no peitoral, mas não tinha sido eu que havia feito aquilo. Eu jamais mataria uma simples mosca, não poderia ter sido um assassino, eu era tudo menos um psicopata.
Foi quando uma pergunta formou-se. Será que esse tal xogum tinha realmente se apaixonado pelo Taka...?
Kami! O que eu fiz para merecer isso? Eu precisava de uma companhia, isso eu tinha que admitir... Tinha que ser um garoto morto? Digo, eu estou afim de um cadáver ambulante? Droga! Eu podia dormir sem essa.
A minha vista escureceu, eu sentia alguma força me puxando para o travesseiro, meus olhos se fecharem sem o meu consentimento, e eu novamente estava dormindo. Tendo mais o sonho estúpido.
Desta vez eu apenas via o tal rapaz do cemitério, seus cabelos loiros chegavam até a cintura, ele era alto, tinha um pedaço de faixa cobrindo o seu nariz, muito semelhante à faixa que eu usava para esconder um defeito que eu tenho nessa parte do meu corpo.
- Cuide dele. — O tal ''eu'' ordenou.
- Demo... — Finalmente falei alguma coisa.
- Se não quiser ser amaldiçoado, é bom cuidar dele. — Firme, ele mandou.- Agradeça a Kami por você ter uma avó tão bondosa, pois se não fosse por ela eu já teria possuído seu corpo há muito tempo.
Então eu finalmente abri os olhos, mas o ''eu'' continuava lá, parado na minha frente com um sorriso cínico.
- Boa noite, meu descendente. Quando acordar a verdade será obvia.
E então eu finalmente voltei a dormir.
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