Parfaite
8 Capítulo 8 - Something about him.
Notas iniciais
[ Aoi’s POV ]
A madrugada mal tinha acabado de cair.
Sem nenhum grande acontecimento, o hospital começava a se apagar. Alguns médicos e enfermeiros permaneciam por ali, calmamente. Os pacientes dos outros quantos dormiam em sono solto, com as portas fechadas.
Mas não no 412.
Não, aqui, um médico loiro e três enfermeiros tentavam estabilizar meu filho, que teve seu primeiro caso de hemorragia.
Não seria nada grave, um sangramento pelo nariz, mesmo que com um fluxo assustadoramente alto, mas no caso de Touya – notavelmente abaixo do peso normal, com uma anemia acentuada e todo o corpo tencionado ao limite para aguentar a quimioterapia – a perda de sangue o fez perder a consciência e ter um grave problema para manter a respiração por si só.
Ele foi automaticamente entubado por Akira, enquanto os outros três enfermeiros se revezavam entre estancar o sangramento, preparar o sedativo e buscar roupas e lençóis limpos.
Depois de trazer a situação para a normalidade, resolveram sedá-lo para que sequer acordasse do desmaio e pudesse passar pelo menos as próximas vinte e quatro horas descansando, sem chances de acordar. Ele precisava disso... E eu queria poder pedir o mesmo.
O médico, Suzuki, tirou as luvas manchadas de sangue, respirando fundo enquanto seus olhos analisavam os aparelhos que mediam todas as funções de Touya. Não sabia se estava satisfeito ou não, porém, em alguns segundos, ele desviou o olhar das máquinas, parecendo dar o assunto por encerrado.
Dois dos enfermeiros saíram, deixando apenas Kouyou para trás, que ainda terminava de colocar as roupas limpas no meu filho, com um pouco de ajuda de minha parte.
- Bem, o show acabou até amanhã, se tudo der certo, então, eu estou indo pra casa. Sati não sossega quando eu não durmo em casa. – Akira anunciou. – E, Kou, você já estourou, em muito, o limite de horas extras que pode fazer no mês nas ultimas três semanas. Vá logo pra casa antes que alguém te obrigue a isso.
- Tudo bem, Rei-chan, eu pego carona com o Yuu. – O loiro afirmou, arrumando os cobertores de Touya. Abri a boca para dizer que eu não iria para casa, porém, ele acabou sendo mais rápido. – Você vai sim. Precisa estar forte para o seu filho e não com essa cara de acabado. Até amanhã ele só vai dormir.
O médico deu de ombros e saiu do quarto, se despedindo com um aceno e eu fiquei encarando o enfermeiro, sem saber ao certo o que lhe responder.
No meio dessa minha indecisão, Kouyou se aproximou estendendo uma mão para que eu a pegasse. Um sorriso delicado parecia ter se desenhado em seus lábios.
- Vem. Você pode ir lá pra casa se não quiser ficar sozinho com as coisas do seu filho. – Seus olhos não esboçaram nenhum traço de malícia, mas eu acabei meio que maliciando a frase. Quer dizer, em plena madrugada... Não era um convite muito normal. Entretanto, tinha que admitir que Kou não era o tipo de pessoa que falava coisas assim com segundas intenções.
Ponderei sobre a oferta enquanto me levantava, segurando sua mão na minha.
- Não vou mesmo atrapalhar? – Perguntei, por fim, meio que desistindo de passar a noite sozinho com as minhas dores.
-Deixa de ser bobo. – Ele abriu um sorriso sapeca, que quase me fez ter vontade de rir, se a situação ao redor não fosse tão crítica.
Andei até a cama, inclinando-me para dar um beijo no topo da cabeça já sem cabelos de meu filho, saindo em seguida, acompanhando o enfermeiro pelos corredores.
Paramos em frente à ala de funcionários, onde ele entrou sozinho e saiu com roupas diferentes e uma mochila presa em um dos ombros, despojadamente.
Aquela era a primeira vez que eu o via sem uniforme e... Admito que parei como um retardado e fiquei lá, olhando.
Uma calça jeans escura, levemente justa em alguns pontos, uma blusa branca de gola em V juntamente com um colete preto, um cachecol fino, solto pelos ombros e coturnos, com o cano baixo solto por suas canelas.
Sempre fui muito seguro de minha sexualidade, nunca tinha parado para olhar um homem duas vezes, mas era meio... Difícil não colocar os olhos nele e ignorar uma beleza tão gritante quando ela está há um metro de distância.
É... Acho que passar cinco anos sem nenhum tipo de companhia, seja sexual ou sentimental estava mexendo com a minha cabeça, definitivamente.
Tirei as chaves do carro do bolso, acompanhando-o em silencio até o estacionamento. Apertei um botão na chave e os faróis do meu carro piscaram, mostrando que a porta tinha sido destrancada.
Entrei ao mesmo tempo em que Kouyou, colocando a chave no contato, disposto a ir pra casa do loiro, de verdade.
- Me mostre o caminho, ok? – Pedi, vendo-o concordar, com um sorriso.
Os quinze minutos seguintes foram bem tranquilos, regados a uma música qualquer que tocava no rádio, ao passo em que ele ia me dizendo para onde ir até estarmos em frente de uma bela casa, num bairro de classe média de Tóquio.
Ao contrário do que pensei, não parecia uma casa de solteiro. Tinha um pequeno jardim na entrada e por dentro, ela era perfeitamente bem decorada, com porta retratos em todos os lugares, mostrando desde a família do loiro, até o médico Suzuki junto a um ruivinho e uma menininha que eu sabia se chamar Sati.
Não era grande, mas tinha um bom tamanho para até duas pessoas morar sem nenhum problema. A casa toda cheirava ao perfume dele, junto com sua personalidade, que parecia pipocar pelas paredes, em tudo que havia ali dentro.
- Não é muita coisa... Mas espero que se sinta em casa. – Kouyou disse, com um ar de constrangimento.
- Ei, não é porque eu moro em Ginza que só sei gostar de coisas grandes. Minha falecida esposa morava numa casa do tamanho da sua... Com cinco pessoas. E essa casa é bem sua cara, adorável. – Minha esposa era bem pobre, para falar bem a verdade. A conheci quando fui almoçar numa lanchonete perto da minha antiga escola, ela trabalhava lá como garçonete.
Ayame sempre foi simples... Ela não gostava da sustentação que morar em Ginza transmitia, mas meus pais queriam que eu morasse por perto, então, nos deram um apartamento lá e se recusaram a ouvir reclamações.
- Yuu... Posso te pedir uma coisa? – O assunto mudou abruptamente, porém, eu o incentivei a me pedir o que quer que fosse com um gesto de mão. – Enquanto estiver aqui, eu quero que esqueça completamente do mundo lá fora, ok? Só por essas horas, prometa pra mim que só vai pensar no que estiver aqui dentro.
Era um pedido... Complicado, só que...
- Tudo bem, eu vou tentar. – Prometi, dando de ombros, enquanto tirava o blaser, pendurando-o no encosto de uma cadeira.
E seu sorriso foi resplandecente.
- Certo, então vem aqui, me ajuda a fazer chocolate quente. – Acabei rindo. O lado infantil dele ainda era bem gritante, mesmo que eu soubesse de seus vinte e cinco anos.
Segui-o até a cozinha, onde ele começou a tirar o que iria precisar para fazer a tal bebida, que caía muito bem no inverno, mas que, para alguém viciado em chocolate, como eu e provavelmente como ele, também não era má idéia no verão.
Acabei assumindo o fogão, já que não sabia a quantidade de cada um dos ingredientes, me limitei a querer mexer o que ele colocava na panela.
Enquanto esperávamos o leite ferver, senti seus braços laçarem minha cintura e me assustei, porém, tudo que o enfermeiro fez foi amarrar um avental em minha cintura. Chutei-me mentalmente por pensar que ele poderia tentar alguma coisa comigo.
No restante do tempo, parecíamos dois adolescentes na cozinha, hora ou outra derrubando coisas no chão, ou quase queimando o pano de pia em uma das bocas do fogão. As risadas preencheram todo o tempo em que estivemos dentro daquele cômodo, o que me fez agradecer por ele não morar em um apartamento ou os vizinhos estariam reclamando.
Quando o chocolate quente estava quase pronto, eu, num completo descuido, coloquei os dedos no ferro do fogão, perto da boca acesa.
Tirei a mão rapidamente, praguejando ao me afastar e encostar as costas na parede.
Kouyou veio ao meu encontro, apagando a chama que fervia o chocolate quente para que o mesmo não queimasse no meio do caminho.
O loiro pegou minha mão, delicadamente, com preocupação escorrendo pelos olhos. Nessa distração nossos corpos se aproximaram até quase se tocarem, mas ele parecia não perceber.
- Deve ter doído... – Murmurou para si mesmo, levantando minha mão até a altura de seu rosto, encostando seus lábios em meus dedos recém queimados.
Seus olhos de ouro derretido se cravaram nos meus durante o beijo.
Meu coração deu um salto, a proximidade de seu corpo com o meu me deixando nervoso, seu lábio em meus dedos levando minha ansiedade a níveis absurdos, seu perfume invadindo cada célula de meu corpo.
E pela primeira vez desde que o conheci... Realmente não soube o que esperar do segundo seguinte.
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