Parfaite
6 Capítulo 6 - Cry me a river.
Notas iniciais
“She just walked away
Why didn't she tell me
And where do I go tonight
This isn't happening to me
This can't be happening to me
She didn't say a word
Just walked away”
[ Last to Know ]
[Aoi’s POV ]
Não sabia ao certo o que esperar do encontro com Kouyou. Digo, não era um encontro, mas ele ter dito que não queria ter aquela conversa dentro do hospital me deixou invariavelmente ansioso.
Algo de grave podia ter acontecido com Touya além da bebedeira ou ele poderia estar apenas me fazendo ficar mais calmo, o que era bem do feitio do enfermeiro, pelo pouco que o conhecia.
Porém, independentemente de qual fosse à resposta que eu estava esperando, não a tive durante todo o jantar. Ele me falou várias coisas sem grande importância, comeu mais do que eu conseguiria em uma semana, mas se manteve o mais longe que conseguiu de assuntos sérios.
Até eu conseguia sentir seu cuidado com certas palavras, sua hesitação.
Depois que pagamos a conta e estávamos saindo do restaurante, eu já tinha perdido um pouco da calma. Estar sem informações me deixava em estado constante de estresse. E só não cogitei a idéia de ele estar dando em cima de mim porque... Obviamente ele não estava.
Segurei seu braço, fazendo-o olhar para mim, um tanto quanto assustado.
- Não me chamou aqui para isso. Estou vendo em seus olhos. Agora, pode ser sincero comigo? – Falei, numa voz calma, porém firme. Novamente, senti um temor passar por seus olhos, como se Kouyou tivesse feito algo muito errado e não quisesse me dizer, por medo de minha reação.
- Vem comigo até a praça que tem aqui na frente e eu te conto. – Kouyou ofereceu, soltando seu braço de meus dedos delicadamente, começando a andar em direção a tal praça, largando ambos os carros no estacionamento do restaurante.
O segui em silencio, remoendo-me internamente por não fazer idéia do que me aguardava, porém com plena certeza de que as notícias não eram boas.
Paramos em frente a um banco da praça, vazia há essas horas, e ele me obrigou a sentar antes de começar a falar, aparentemente, tentando achar as palavras que lhe faltavam. Meu coração só faltava sair pulando de minha boca.
- Yuu... Eu descobri o que fez Touya se afastar de você daquela forma. – Esperei que ele continuasse, porém, o loiro se calou.
- E o que foi? – Acho que minha voz não escondia a explosão de sentimentos em que eu tinha me metido. Saber o porquê. Saber por onde começar a consertar.
- Touya tem leucemia linfocítica aguda. Ele, em desespero, tentou fazer com que você o odiasse. Tentou ser o pior filho possível para não vê-lo sofrendo novamente caso ele morresse. – E eu agradeci por estar sentado.
Porque senti minhas forças serem drenadas.
Completamente.
O desespero que não sentia há mais de cinco anos voltou como um tiro para dentro do meu peito. Um segundo buraco se abriu em mim, ao lado do primeiro, me rasgando como se todo meu controle sentimental fosse feito de papel.
Não senti a primeira lágrima cair, nem a segunda, nem a terceira... Só me dei conta de que estava chorando quando vi Kouyou, desesperado, tentando me abraçar, tentando me consolar mesmo que tudo aquilo fosse inconsolável.
Eu tinha perdido Aya. Perdi meu norte e meu coração numa tacada só. Agora era Touya, a única coisa que me mantinha são. A simples idéia de não tê-lo mais ali num picar de olhos me paralisava.
Assim que consegui sair do meu choque, eu gritei.
Alto, desesperado, sem formar palavra alguma. Apenas para gritar, pra tirar aquele peso de dentro de mim o mínimo possível para que eu não enlouquecesse. Assustei o enfermeiro, assustei muita gente que passava pela rua, provavelmente alertei até as pessoas que estavam dentro do restaurante, mas nada disso me importava.
Os soluços que vieram depois disso fizeram meu corpo convulsionar, junto com um choro amedrontado, frustrado, sem máscaras.
Só depois de um tempo indefinido consegui controlar minhas lágrimas.
- Yuu... Eu sei que isso deve estar sendo horrível pra você... Mas ele precisa de você. Ele precisa ter a certeza de que você pode ser forte o suficiente para apoiá-lo. Ele já está há um ano sem tratamento e começá-lo agora vai ser difícil e abusivo, mas...
“Preciso de você forte. Preciso de você aqui. Para Touya. Eu prometo que vou te ajudar, no entanto, certas coisas só podem vir de você. Por favor, não se deixe cair agora.”
Ele estava certo, eu sabia. Sabia muito bem que meu filho só se fechou daquela forma porque tentou ser forte pelo pai que tinha caído. Precisava achar um ponto gravitacional para que conseguisse me manter de pé. Não fazia idéia se conseguiria, porém...
Tinha que tentar.
Mesmo com o pavor de perder mais alguém, me paralisando.
- O que eu posso fazer? – Perguntei num fio de voz, esperando que ele não me forçasse a repetir.
- Vir ao hospital comigo e autorizar o início da quimioterapia. Em seguida, vamos ver se você é compatível com Touya. Ele precisa de um doador, e você tem a maior chance de compatibilidade. E principalmente... Pode voltar a ser pai dele. – Kouyou limpou as lágrimas de meu rosto com a ponta dos dedos e eu suspirei, destruído, me pondo em pé com um aceno de cabeça.
- Tudo bem. Eu vou conseguir. É mais uma batalha e por Deus que essa termine com um resultado diferente da primeira. – Não sei o quanto meu tom denunciava meu pesar.
•••
Depois de irmos diretamente do restaurante para o hospital, assinei os papéis que dariam início a mais uma corrida desenfreada para salvar a vida de alguém que eu amava.
Os exames já estavam prontos e eles apenas esperavam minha ciência e concordância para que Touya começasse a ser tratado da melhor maneira possível. Ainda naquela madrugada eu faria o exame para ver minha compatibilidade com meu filho.
Quando entrei no quarto, para a primeira sessão de quimio, Touya não me repeliu, entretanto, também não falou absolutamente nada. Eu me dividia entre o sentimento de carinho e de vontade de xingá-lo por ser tão inconsequente. Mas só o simples pensamento de que eu poderia perdê-lo em breve, já me deixava desesperado por qualquer tipo de contato.
Segurei sua mão, sentido-o apertar meus dedos. Seus olhos buscaram os meus com tantas dúvidas transbordando, que me senti perdido. O silêncio pareceu responder bem mais perguntas do que qualquer conversa de horas a fio.
Um médico loiro entrou no quarto alguns minutos depois junto com Kouyou, que carregava um conjunto de agulhas e foi direto ao lado de Touya, começando a preparar uma de suas veias para receber o medicamento.
- Meu nome é Suzuki Akira, sou o hematologista responsável pelo caso do seu filho. – Ele me estendeu a mão e eu a apertei, usando a minha livre. – Vamos iniciar o tratamento intensivo a partir da quimioterapia para tentar regredir o caso da doença, enquanto esperamos por um doador, que, até o momento, representa suas maiores chances de uma recuperação. – Em seguida, ele se virou para meu filho, que observava Kouyou acertar sua veia calmamente. – Em relação ao tratamento, Touya...
“Você pode ter vários efeitos colaterais durante e depois da quimioterapia. Eles podem ser desde uma dor de cabeça, fadiga, ânsias, até a queda dos pêlos do corpo. Cada paciente reage de uma forma, então não há como prever. Caso haja a queda de pêlos, eles voltarão a cresces de quatro a seis semanas depois de encerrarmos o tratamento. Os outros danos colaterais cessam assim que cessamos o tratamento, já que a medicação age não só nas células danificadas, mas também nas células normais, infelizmente, não tem como evitar isso.”
“Pronto para começar?”
Touya não parecia nada confiante, mas se limitou a sacudir a cabeça, numa concordância muda.
Apertei mais seus dedos nos meus.
Depois de dosar o medicamento, Akira deixou Touya recebendo-o de maneira intravenosa. Sua expressão passou um pouco de dor no começo, mas com o tempo, o cansaço foi atingindo-o de forma tão aguda que sua pele perdeu a cor ainda mais do que o normal.
Kouyou ficou no quarto, sem abrir a boca, apenas observando as reações do meu pequeno durante e depois da primeira quimio.
Duas horas mais tarde, enquanto o sol começava a querer aparecer no céu, Touya tece uma crise forte de ânsia, vomitado no chão ao lado da cama sem que alguém tivesse tempo de evitar alguma coisa.
Chamaram imediatamente uma faxineira para limpar e Kouyou aplicou um medicamento na borboleta¹ fixa ao braço de meu filho.
Já conhecia aquilo... Não estava alarmado.
- É perfeitamente normal sentir enjôo, vomitar e essas coisas, está tudo bem, ok? – Touya suava frio, mas Kouyou pareceu calmo, tentando passar confiança a ele. Limpou seu rosto e o suor superficialmente, sempre falando algo, mesmo que sem importância. Sua voz parecia ter um efeito calmante.
Continuei sem dizer nenhuma palavra. Não achava que conseguiria agora, vendo meu pesadelo se repetir como num filme de extremo mau gosto.
Só que quando, o enfermeiro deixou o quarto, senti meu filho apertar meus dedos levemente. O encarei incerto.
- Me desculpa. Por tudo. Queria ter te protegido disso... Eu tentei... De verdade. Eu te amo, pai. – E era a primeira vez em mais de um ano que eu o ouvia me chamar de pai.
Não consegui segurar uma lágrima que caiu, teimosamente. Meu coração se apertou.
Inclinei-me, segurando suas mãos e colando minha testa na dele, depois de depositar um beijo ali.
- Eu também te amo, meu amor... Vou cuidar de você. Vai dar tudo certo... Dessa vez vai dar tudo certo. – Pareciam promessas vazias.
Mas eram tudo que eu tinha. E eu faria de tudo para que se tornassem verdadeiras.
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