Parfaite
2 Capítulo 2 - Confession.
Notas iniciais
Capítulo 02.
[ Uruha’s POV ]
Shiroyama Yuu era... Um bom pai.
Perdido, com certeza. Desesperado, bem mais do que deveria. Porém, um bom pai e esse mérito eu não podia tirar dele.
Também não podia tirar o mérito do filho em conseguir enlouquecê-lo. Shiroyama Touya não parecia ser nenhum anjo, longe disso, entretanto, também admitia que ele parecia gritar por dentro; gritar desesperadamente e ninguém ouvi-lo. Aqueles olhos não conseguiam esconder tudo que ele sentia.
Quando o vi chegando saindo da ambulância com vômito cobrindo toda sua camisa e rosto, pensei em quem diabos teria deixado um menino tão novo sair e beber o suficiente para que algo assim acontecesse. Fiquei revoltado com os genitores dele, antes mesmo de saber quem eram. E cometi um erro.
Depois dos exames emergenciais, fiquei encarregado de limpá-lo, trocar suas roupas pela camisola do hospital e descobrir quem ele era.
Enquanto me livrava de toda aquela sujeira que os mais observadores chamariam de roupas, encontrei sua carteira em um dos bolsos e seu celular no outro. No RG, fiquei sabendo seu nome e idade, no celular, achei vários números que não importavam, um contato chamado “Pai” e... Duas fotos.
Na primeira a me chamar atenção, havia uma mulher, muito bonita, apesar de estar careca, sorrindo, abraçando um menino que, obviamente, era ele quando mais novo. Agora eu sabia que aquela era sua mãe, Ayame, se me lembro bem.
Na segunda, era apenas um homem, moreno, de cabelos um pouco compridos, trajando um terno, concentrado em uma pilha de papéis, sentado numa mesa de tampo de vidro. A foto tinha sido tirada sem que o homem percebesse. Acredito que aquele homem não sabia até agora que havia sido fotografado.
Ambas as fotos estavam numa pasta separada das outras. Não tinha nome, apenas um “ – “ para identificá-la. Seria totalmente antiético de minha parte estar bisbilhotando mais do que o necessário no aparelho celular do menino, entretanto... Não me arrependo. Porque foi assim que percebi, que apesar de ele ser, indiscutivelmente, um menino problema... Ele tinha coração.
Um coração quebrado, provavelmente, mas ainda assim, um coração.
Quando liguei para o tal contato chamado “Pai”, só pelo tom de preocupação, dei-me conta de que ele não era um pai tão ruim quanto eu havia pintado.
E admito que me impressionei muito quando vi um homem tão novo aparecendo na recepção. Ainda mais quando descobri que ele era o homem da foto. Achei que era alguma paixão do menino ou algo assim, mas não que era seu pai.
O Sr. Shiroyama era, de fato, muito bonito. E não falo só por mim, mas por todas as mulheres que deram ataquezinhos quando o viram entrar. Não era normal encontrar um homem daquele porte num hospital, principalmente um que estivesse vestido com um terno italiano.
Eu até podia não me importar com essas futilidades (apesar de conseguir reconhecer um Armani), porém, não podia dizer o mesmo de todas as outras enfermeiras.
Enquanto conversava com ele, fui percebendo o quanto os problemas que aqueles dois tinham eram fundos. A morte da mãe, a exclusão do menino perante a dor do pai... Quem via de fora como eu, conseguia analisar a situação como um todo, porém eles... Estavam dando cabeçadas na parede, sem saber para onde ir.
Pai e filho haviam se desencontrado, tentando se encontrar. Essa era a verdade. Por isso os machucava tanto.
- Estou te atrapalhando, não estou? – Ouvi Yuu perguntar, terminando de tomar o cappuccino que eu tinha pedido para ele, com um sorriso meio arrependido.
- Não, claro que não. – Sorri, tentando transmitir toda a sinceridade possível. – De madrugada, normalmente, não há muito o que um enfermeiro fazer no hospital. Os médicos, que nos enchem de tarefas já foram embora.
Ele riu, leve, passando os dedos pelos cabelos negros, que caíram ordenadamente em seus devidos lugares. Deus... Acho que aquela havia sido a primeira cena, em toda a minha vida, que vi em câmera lenta. O sorriso maravilhoso, a maneira como ele olhava para baixo, os fios caindo por seu rosto...
Certo, ele era absurdamente bonito.
Deveria ser proibido um homem de trinta anos e pai de família ser tão lindo.
Porém meu trabalho não era analisar o quão bonito o pai de um paciente poderia ser e sim, tentar ajudá-lo da melhor maneira possível. Eu amava meu trabalho, amava saber que poderia estar diminuindo o peso de alguém. Doía-me ver uma situação como aquela.
Meu BIP soou, forçando-me a pedir um segundo, vendo que era o quarto de Touya que estava marcado no visor do aparelho.
- Acho que seu filho já foi levado para o leito de observação. Vamos? – Convidei, com um sorriso nos lábios, vendo-o se levantar imediatamente, pagando a conta e começando a me seguir, até o terceiro andar, onde pedi informações sobre ele, confirmando minha teoria, de que ele já podia receber visitas.
O guiei até a porta do 412, batendo suavemente antes de entrar, encontrando o menino sozinho, porém acordado, encarando o nada, ligado a soro.
Os olhos acinzentados de Touya encararam a mim com indiferença, entretanto, quando o pai passou pelo portal, ele olhou para o outro lado, sem mudar a expressão. Essa relação... Estava completamente estripada.
- Touya-san, meu nome é Takashima Kouyou, serei seu enfermeiro enquanto estiver no hospital. Precisa de alguma coisa? – Tentei quebrar o clima ruim que tinha tomado conta do quarto.
- Preciso que tire ele daqui. Eu não quero receber visitas, de ninguém. – O moreno respondeu, com a voz inflexível, fria, mas algo me dizia que seus olhos estariam gritando uma coisa diferente, se eu pudesse vê-los.
- Touya, eu não vou embora. Por que fez isso? Podia ter se matado, eu... – Claro que o adolescente não deixou que ele prosseguisse.
- Não precisa se fazer de pai agora, certo, Yuu? Vai pra casa e faça de conta que eu ainda estou enchendo a cara em algum lugar por aí. Sei achar o caminho de volta, quando sair daqui. – O brilho de dor que passou pelos olhos do Shiroyama mais velho quase me fizeram sentir dor.
Touya não o chama de pai, não o tratava com o mínimo de respeito e sabia exatamente o que dizer para quebrá-lo no meio. Conhecia alguém assim... Essas ações eram só mais uma das milhares de máscaras que existem por aí para se esconder a dor, a solidão de cada coração.
Pousei minha mão no ombro de Yuu, apertando com carinho, tentando passar a força que ele tinha perdido. Fiz sinal para que ele saísse, que desse um tempo antes de tentar de novo e assim ele fez, fechando a porta depois de atravessá-la.
Andei até a cama, sentando-me numa poltrona que havia ao lado da mesma.
Passei a ponta dos dedos pelo cabelo parcialmente descolorido de Touya, que fez menção de afastar minha mão, porém parou na metade, não sei ao certo por quê.
- Dói, não é? – Ele me encarou em dúvida. Era a primeira vez que via sua expressão sair da indiferença. – Guardar tudo isso pra você. Gritar internamente e ninguém ouvir. Tratar mal, apenas para ver se a pessoa continuaria gostando de você. A solidão no meio de tanta gente é assustadora.
O menino abriu a boca, provavelmente querendo dizer alguma coisa, mas nada saiu durante vários segundos. E como se tivesse desistido, moveu quase que imperceptivelmente a cabeça, numa concordância muda, que levou um sorriso aos meus lábios.
Inclinei-me beijando sua testa, mesmo que não tivesse a mínima intimidade com ele. O que o garoto precisava era da certeza de que alguém estaria com ele. Era de carinho. Aparentemente, ele não se importava muito com a maneira que conseguiria isso.
Ele estava acabando consigo mesmo, procurando algo tão abstrato quanto um sentimento.
Ruim, mas aceitável.
Mal sabia que o pai estava na mesma situação. A única diferença é que ele queria o carinho, o amor, apenas de uma pessoa... Do próprio filho.
- Vi as fotos do seu celular... Da sua mãe e do seu pai. – Ele não pareceu bravo com isso, estava mais para... Envergonhado, por eu ter descoberto essa fraqueza. – Sente falta deles?
Estar vivo não era o suficiente para se estar presente. O pai dele estava vivo, entretanto, eles tinham se afastado tanto, que era perfeitamente normal, sentir saudades.
Touya voltou a menear a cabeça, em outra concordância.
Assim, percebi que ele realmente era fechado. Não costumava falar muito, porém, se perguntassem, se estivessem realmente interessados em saber, ele não se negava a ser sincero.
- Yuu-san também sente sua falta. – Confessei, deslizando os dedos por seus fios ainda, percebendo como aquilo o desarmava. – Deixa eu tirar isso.
Piercings e alargadores podiam atrapalhar, então, normalmente se tirava quando os pacientes davam entrada. Só tinham esquecido os dele.
Fui tirando, delicadamente, um por um, enquanto ele permanecia em silêncio, seus olhos tristes acompanhando meus movimentos. Apenas quando o último estava em minha mão, ouvi sua voz.
- Acha que meu pai ainda me ama? – Junto com essa pergunta, vi uma lágrima escorrendo por seu rosto perfeito, indo achar abrigo em seus cabelos, pela posição em que ele estava deitado. – Depois de tudo... Depois de eu ser a maior decepção da vida dele?
Limpei o rastro da lágrima.
- Tenho certeza de que sim. Vocês deveriam tentar tudo de novo... – Ele discordou.
- Não... Eu não quero que meu pai se apegue a mim de novo. Ele não saberia se reerguer se me perdesse amanhã. – E, pela primeira vez, eu não entendi o que estava acontecendo ali. Porém, aquilo foi claramente, um ponto final sobre o assunto.
O silêncio voltou a se instalar, entre minhas carícias em seus cabelos e o soro diminuindo enquanto entrava na corrente sanguínea de Touya.
Em certo ponto, ele fechou os olhos, me fazendo pensar que tinha adormecido. Levantei, querendo ir atrás de Yuu, no entanto, quando já tinha alcançado a porta, ouvi o menino falar.
- Você... A maneira como você age... Me lembra minha mãe. Obrigado.
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