Parfaite

1 Capítulo 1 - Pleasure.


Notas iniciais
Bem, o começo da fanfic é mais para explicar o que levou o Aoi a estar como está. Depois, lá pro meio do capítulo, ele é apresentado ao Uruha e aí a história começa de verdade.

Bem, o restante eu falo lá embaixo.

Espero que gostem e... Eu tô sem beta, desculpa qualquer erro ;;

Mais uma briga, mais portas batendo, gritos e aquela expressão nervosa que me lembrava tanto a mãe dele. Ultimamente tinha se tornado uma comparação inevitável. Eram os olhos dela, o sorriso dela, os traços delicados da boca, a cor acobreada dos cabelos. Não vou mentir, ainda não sabia lidar com isso. Não sabia lidar com nada disso.

Sequer cogitei a idéia de ser pai de um adolescente sozinho. Tinha a falsa idéia de que, independentemente do que acontecesse, Ayame estaria ao meu lado. Ela nasceu com aquela habilidade natural de ser mãe. A maternidade sempre lhe caiu maravilhosamente bem, mesmo que tenha sido completamente não premeditada e num momento errado.

Mas ela não reclamou, em momento algum. Ficou grávida aos dezesseis anos, deu a luz aos dezessete e encarou aquilo com uma maturidade que eu nunca teria, mesmo que ela fosse quase dois anos mais velha do que eu.

Pai, com quinze anos, definitivamente, eu não esperava por aquilo, principalmente em meu primeiro namoro sério, entretanto, aconteceu. Aconteceu e eu não fugi disso. Tive sorte, em certos pontos, por minha família ter uma condição financeira, digamos... Absurdamente boa. Foi mais fácil enfrentar uma gravidez precoce, aceitar que estava jogando o restante de minha juventude para cuidar da infância de uma nova vida.

No final das contas, não me arrependi de nada. Não me arrependi de ter casado com ela, de ter criado meu filho ao lado dela, de ter aprendido a trocar fraudas e a acordar no meio da noite enquanto ainda cursava o ensino médio. Ou mesmo, ter de ir a reuniões escolares no entre meu trabalho e a faculdade.

Por dez anos, tudo correu bem, tudo foi exatamente como deveria ser. Um pouco rápido demais, entretanto, como deveria ser.

Conseguimos passar pelo preconceito em relação a nossas idades, conseguimos amadurecer o suficiente para acompanhar e educar uma vida que tínhamos trazido ao mundo cedo demais. Admito, eu e Aya éramos perfeitos como casal, como cúmplices, como parceiros, como amantes.

O tempo só servia para aprimorar o que já estava muito bom.

Também não nego a participação de meus pais, que nos deram uma casa, cederam motoristas quando nenhum dos dois tinha idade para dirigir, bancaram os gastos, o parto, o estudo... Tudo, até que tivéssemos idade de andar com nossas próprias pernas. Eles foram bem mais do que eu poderia pedir.

Entretanto, como qualquer período de felicidade, uma hora, a tristeza vem nos colocar a prova, nos fazer ficar mais fortes, ou nos ver cair, caso sejamos fracos demais para suportá-la. E assim, Aya adoeceu. Em seis meses, a leucemia a levou de mim, a levou de nosso filho e me deixou ali, sozinho.

Eu, que nunca tinha aprendido a lidar com nada sem ela, tive de levantar, seguir em frente, sem saber ao certo com o que iria lidar, sem saber que dificuldades iriam dar as caras. Vinte e cinco anos... Com vinte e cinco anos a maior parte das pessoas estava concluindo a faculdade ou começando uma carreira, eu tinha um filho de dez anos nas costas, era chefe de família, gerente de uma das empresas de meu pai e estava viúvo.

Não minto, em primeiro momento eu caí. Caí e quis ficar com o rosto no chão para o resto dos meus dias. A idéia de estar sem ela me destruía mais do que qualquer outra coisa. Ter enterrado-a levou um pedaço de mim, levou muito de meus sonhos, de minhas esperanças e principalmente de minha vontade.

Porém, ela tinha deixado mais do que a falta, mais do que a saudades, o desespero... Ela tinha deixado Touya. Que, com seus olhinhos acinzentados, apenas observou sua mãe perder e vida e seu pai perder a vontade de viver. Assim, ele se fechou. Acumulou toda a dor que poderia sentir, trancando-a para si mesmo. Eu só o vi chorar no dia do enterro da mãe, porém nunca o ouvi reclamar. Ele não era mais do que uma criança, no entanto, em momento algum perguntou sobre ela, não quis saber para onde ela tinha ido ou se estava olhando por nós. Ele não pediu colo, nem quis toda a atenção do mundo.

Ele não quis nada.

E não tenho vergonha de admitir que foi ele que me deu forças para sair do meu estado de auto-piedade. Porém, eu nunca mais consegui tirá-lo da dor. Porque ele não carregava mais a dor, a dor o carregava, porque ele a guardava para si, sem nunca pedir ajuda, sem nunca extravasá-la.

Até fazer quatorze anos.

Quando, não sei dizer ao certo o que, o fez explodir. E foram aí que as brigas começaram. Ele se esqueceu de toda a educação, de todos os conceitos de certo e errado, ele se esqueceu de tudo para poder ser o pior tipo de adolescente possível.

Não consegui acompanhar a mudança, foi rápido demais, tudo foi rápido demais. Reagi de maneira errada no começo, agora já nem fazia mais idéia de como começar a consertar tudo que estava errado. Nele, em mim e na nossa relação.

O cigarro nos lábios, o cheiro de álcool saindo de seus lábios, os piercings, o cabelo naquele corte irregular, com algumas partes descoloridas. Sim, meu filho era lindo, mas insistia em pegar uma imagem que não era dele. Aquilo não era ele. Era só sua revolta com o mundo, expressada de forma gritante. Acabando com a própria saúde e com a minha, porque eu nem sabia mais quantos calmantes estava tomando para não ter um ataque nervoso, em plenos trinta anos.

As horas passavam e ele não voltava para casa. Ele tinha saído depois da última briga, e eu deveria ter impedido, mas me sentia tão exausto que só a simples menção de ouvi-lo gritando por horas até se cansar e achar algo pra fazer dentro de casa. Era estressante ao ponto de eu, às vezes, desistir. Sabia que era errado, que iria acabar perdendo meu filho mais do que tinha perdido, entretanto, não conseguia evitar.

Meu celular tocou, o som parecendo formar um eco por todos os cantos do apartamento. Não queria levantar, não queria falar com ninguém. Era mais uma atitude infantil, porém meu cansaço psicológico finalmente estava se encarregando de acabar com meu corpo. De estripar minha vontade.

Não sei de onde tirei forças para me levantar, – provavelmente de achar que poderia ser meu filho – pegando o aparelho do aparador, no outro lado da sala.

- Alô? – Tentei fazer minha voz sair menos sonolenta.

- Alô., — E eu não reconheci a voz. – perdão por ligar tão tarde, mas, o senhor, por um acaso tem um filho chamado Shiroyama Touya?

Não foi necessário mais nada para que meu coração começasse a martelar em minha caixa torácica, ao mesmo tempo em que eu começava a buscar as chaves do carro com os olhos. Sabia que meu suposto sossego tinha acabado.

- Sou. O que aconteceu com ele? Quem é você? – Não sei se meu tom parecia tão desesperado apenas para mim mesmo, ou se eu estava assustando o homem do outro lado da linha.

- Meu nome é Takashima Kouyou, sou enfermeiro do hospital Aiiku. Seu filho acabou de dar entrada no hospital, encontraram-no desacordado numa calçada, parece ser coma alcoólico, mas não temos certeza ainda. Peguei seu numero no celular dele... Teria como o senhor comparecer ao hospital? Precisamos que a ficha dele seja preenchida. – O homem nem precisou terminar a frase para que eu já estivesse pronto para sair, pegando meu blaser em cima de uma das poltronas, trancando o apartamento depois de passar pela porta.

- Já estou a caminho, muito obrigado por avisar. Quem devo procurar quando chegar? – Perguntei, afoito, descendo pelas escadas mesmo, esperar dentro de um elevador iria me matar.

- Pode procurar por mim, ficarei esperando-o na recepção. Se acalme, o estado de seu filho já é estável. – Estava destrancando o carro, no estacionamento do subsolo quando agradeci mais uma vez e desliguei.

Não sei quantas multas levei no percurso de minha casa, em Ginza, até Minato, onde ficava o hospital. Também, não queria saber. Meu filho podia ter feito todas as desgraças possíveis nesse ultimo ano e meio, porém nunca tinha ido parar no hospital. A situação se agravava cada vez mais e eu simplesmente estava ficando perdido no meio daquilo tudo.

Parei o carro no estacionamento do hospital, quase correndo para dentro do mesmo, varrendo o salão com os olhos, sabendo que provavelmente estava com uma cara de desesperado. Minha respiração ofegante não ajudado em nada para que esse quadro se amenizasse. Logo quem ia precisar ser atendido ali, era eu.

Senti uma mão em meu ombro e quase dei um pulo, assustado. O desespero estava me descontrolando.

- Sr. Shiroyama? – Encarei o rosto de um jovem, não mais que seus vinte e cinco anos, com olhos num tom de ouro derretido, cabelos loiros caindo por seu rosto e dono dos lábios mais bonitos que eu já tive o prazer de colocar os olhos na vida.

- Sim, sou eu. – Respondi, desnorteado, nem tanto pela beleza do homem, mas por meu filho ter dado entrada num hospital.

- Sou Takashima Kouyou, lembra-se? – O jovem, que só agora eu percebia estar usando roupas de enfermeiro, abriu um sorriso tranqüilizador. – Venha, vou te levar para preencher a ficha de seu filho e depois passamos na lanchonete para o senhor comer alguma coisa.

- Eu não quero comer, quero ver meu filho! – Retruquei, mesmo sabendo que isso meio ridículo, como uma criança fazendo birra.

- Seu filho ainda não pode receber visitas, mas assim que ele for levado para o quarto onde ficará em observação, eu garanto que irá vê-lo. Até lá, vou me certificar que você não precise de atendimento médico também. Muito estresse e pouca comida não são uma combinação muito boa, mesmo para uma pessoa tão jovem quanto o senhor. – E, colocando a mão em meu ombro, ele começou a me guiar até o balcão da recepção, onde rapidamente preenchi uma ficha com as informações de meu filho, as minhas, e a forma como pretendia pagar pelo tratamento.

Depois da parte burocrática devidamente preenchida, o enfermeiro voltou a guiar-me pelos corredores do hospital, parando em uma lanchonete, no pátio interno da construção. Sentamo-nos numa mesa vazia qualquer. Ele fez o pedido por mim, já que eu não fiz nem menção de querer comer.

- Não sei mais o que fazer... Com Touya. Ele não era assim... Eu tento de tudo... Já fiz de tudo... Nada parece melhorar a situação.

- Sabe... Não é comum um menino tão jovem vir parar no hospital por excesso de álcool. A principio, pensei que ele tinha pais ruins, porém, agora que estou vendo o senhor, tenho certeza de que a culpa não é sua. O senhor é um bom pai, apenas tem um filho passando por uma época... Extremamente complicada. Ser pai solteiro não deve ser fácil. – O encarei, pensando em como ele sabia que eu era solteiro. – Li na ficha enquanto você preenchia. Posso ser indiscreto e perguntar o que aconteceu com a mãe dele?

- Ayame... Morreu, há cinco anos. Ele só tinha dez anos, a morte dela levou um pedaço dele junto. Admito que um pedaço meu também. Mas não sei como, ou porque, ele faz essas coisas... – Suspirei. – Posso não ser um exemplo de pai... Quer dizer, com a idade dele, eu o estava vendo nascer, estava cursando o ensino médio, chegando em casa e cuidando de um recém nascido, mas... Eu nunca fiz nada parecido, sabe? Nunca tinha visto alguém agir como ele com tão pouca idade. Não sei onde errei.

No momento em que falei aquilo, me senti um retardado por estar contando da minha vida para um estranho que, com noventa por cento de chance, não estava interessado nisso.

Sim, eu fui precoce, entretanto, acho que não existe uma idade onde as ações dele sejam aceitáveis.

Um cappuccino chegou, acompanhado de um salgado qualquer e eu comecei a comer, sobre o olhar do outro, que pareceu satisfeito em me ver colocando algo na boca. Só consegui pensar que ele nasceu para fazer o que fazia. Nasceu para ser enfermeiro e cuidar do bem estar dos outros. Ele parecia gostar, verdadeiramente, do que fazia.

- Não se culpe... Infelizmente, às vezes, adolescentes fazem muitas escolhas erradas. Talvez ele queira atenção, queira extrapolar alguma coisa que esteja guardando para si... Tem várias explicações para ações assim. Mas te aconselho a afastá-lo das amizades que tem. Alguém da idade dele não conseguiria comprar bebidas alcoólicas, ele não está fazendo essas coisas sozinho, porém, estão deixando-o sozinho quando a situação fica complicada. Touya-san foi encontrado, sozinho, caído numa praça, com as roupas cheias de vômito. Precisa estreitar os laços com seu filho, Sr. Shiroyama. – Aquele olhar, de preocupação genuína, de interesse real... Acabei abrindo um sorriso pequeno.

- Yuu. Me chame de Yuu. Me sinto tão velho quando me chamam se senhor. – Pedi, vendo um flash de surpresa passar por seus olhos antes de ele abrir um sorriso, me dando a visão de seus dentes infantis. Só pude achá-lo adorável. – Obrigado por ter me ligado, obrigado por me ouvir... Estava precisando ouvir alguém dizer que eu sou um bom pai. Acho que estava precisando de forças para começar tudo de novo.

- Não se preocupe, foi um prazer... Yuu. – Ele deu uma estagnada antes de falar meu nome, porém, eu acabei sorrindo. Há quanto tempo eu não sorria? Ainda que me sentisse culpado, por saber que Touya estava internado... Sorrir dessa forma me fez... Bem. – Seu filho ficará aqui por alguns dias, até termos certeza de que está tudo bem, provavelmente, já deve estar acordado. Aproveite esse tempo em que ele não pode fugir de você.

Kouyou piscou para mim, como se estivesse me contando um segredo. Ele sabia como tranqüilizar as pessoas, tinha de admitir. Em algumas horas, meu humor teve discrepâncias tão grandes que eu me sentia meio zonzo. A briga, o torpor, o desespero, a calmaria... Pelo menos, dessa vez, mudou para melhor.

E acho que devia essa melhora ao loiro de sorriso infantil.

Notas finais
##

Bem, uma amiga minha achou o Aoi novo demais quando teve o Touya, mas se você sair na rua, encontra pais até mais novos do que ele. E eu não queria deixar ele muito velho depois né ;;

De qualquer forma, os capítulos vão ser nessa ordem: um é POV do Aoi, o outro é do Uruha, sempre intercalando, ok?

Como essa história eu estou criando agora, como Koishiteru, eu gostaria da opinião de vocês para ir montando os próximos capítulos, meu msn está no profile, e eu ficarei feliz em falar com vocês ♥

Se alguém chegar até aqui, um review iria muuuuuito bem, tá?

Beijinhos :**