Paredes de ar
8 Campos enevoados
Recobre-se de névoa, não o chão, não os céus: recobre-se meu coração. Num instante de silêncio absoluto os olhos se abrem e a tudo vejo — mas tão logo retorna a névoa e tudo se esconde. Perco-me, o desespero me toma, anseio rasgar minha própria carne e deixar-me inteira consumir pelos vermes: mas também o desespero é encoberto pela névoa, e a mornidão se apossa do terreno antes gélido. E num suspiro distraído há, outra vez, tão somente as brumas cinzentas.
Vivo neste campo enevoado, onde as noites perduram semanas e meses, o dia não passa de um raio de luz lançado sobre as sombras que logo se dissolve e deixa o preto reinar outra vez. Sento-me nesse gramado morno, assisto os dias passarem. Deixo-os ir, sem vê-los, até que se acumulem por demais e mesmo a névoa não possa mais ocultá-los. Sufoco ante o terror dos dias mal vividos, o coração dilacera e a certeza do fim é tão viva quanto o sangue que de repente se torna quente em minhas veias. É a chama da vida decompondo o frio estupor. Chamas, contudo, perecem, e tão rápido quando surgem se desfazem, esmaecendo sob o céu escuro e a fumaça. O crepitar do fogo é devorado pelo silêncio que impregna meu ser. A fumaça se une à névoa, e o calor se dissipa, deixando-me, outra vez, nos campos frios e enevoados de meu coração.
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