Paredes de ar

9 Do asfalto molhado...


Do asfalto molhado subia o mormaço. Com os fones no ouvido e o tédio no rosto, Martin olhava a água caindo no asfalto. Água fria despencando sobre o cimento ardido de sol, líquido penetrando o chão e subindo em forma de mormaço. Era quente, cheiro de cidade, cheiro de pressa, de vidas inquietas — que por um momento paravam para lavar o asfalto que vira muitos carros e pés descalços de crianças. Respirou devagar, esquecido da pressa das cidades; havia a beleza naquela água fria em contato com o chão quente, naquele vapor que o aquecia em mesma medida que acalmava seus pés apressados. Desejou manter-se ali por horas, esquecido da pressa, esquecido dos dias. Mas a mulher que lavava a calçada o olhou, os olhos vivos de um ser que viveu uma vida inteira sem de fato ter enxergado. Martin estremeceu, a pressa voltou ao peito e estalou como fogo em palha. A mulher nada disse, e em seu olhar não havia nada. Havia apenas a curiosidade de uma pessoa que vivendo por cinquenta anos invejava as vidas curtas dos que viveram apenas quinze — transformando a inveja na crítica ácida dos frustrados. Mas ela, naquele instante, não pensava coisa alguma de Martin, porque a calçada estava limpa e os netos brincavam na sala de estar. Mas Martin não sabia que ela pouco se importava com ele; sentia apenas aqueles olhos vivos olhando-o e em sua cabeça era os olhos de quem acusa. Porque o olhar dos seres vivos era assustador; assustador pois eram outros seres com outras mentes e outros pensamentos que Martin nunca saberia — nem desejava saber. Por isso, embora a vida lhe pulsasse nas veias e essa vida lhe dissesse para apreciar aquele momento mísero porém belo em que a água fria caía no asfalto quente, o medo o tomou e ele seguiu a passos rápidos, apressados, quase numa fuga covarde. Deixou a mulher que suspirou cansada, queixando-se das costas doloridas.

E a água? A água caía fria no asfalto quente, subindo em forma de mormaço.