Paraíso Sombrio
44 Paraíso Sombrio
Notas iniciais
Quando três carros pararam em frente aos portões da mansão, Shikamaru, que aguardava na entrada, viu Temari descer de um dos automóveis, acompanhada de Gaara, Sasuke, Sakura, Deidara e Sai. O Nara fitou o exagerado decote da Sabaku, praguejando mentalmente a respeito daquela mulher problemática.
Enquanto via Temari caminhar de forma sedutora em sua direção, os olhos de Shikamaru desciam pelas curvas perfeitamente modeladas sob o tecido preto do vestido, percebendo a pele exposta de uma das pernas da loira. Seus olhos se estreitaram ao perceber o tamanho dos saltos que ela usava. A franja arrumada de lado caia delicadamente sobre um dos olhos dela, emoldurando os orbes verdes que o fitavam com ironia ao perceber a expressão boquiaberta do Nara.
Temari exibiu ao moreno um sorriso debochado, fazendo-o revirar os olhos.
Céus, ela não mudava nunca.
–Gosta do que vê, Nara? – a loira perguntou, implicante – Admita, você tem a acompanhante mais gostosa de toda a festa.
–Você não é minha acompanhante. – Shikamaru murmurou, ainda de olhos estreitos.
–Quem vai ajudar você a achar o tal do Orochimaru? – ela perguntou, cruzando os braços.
–Você. – o Nara admitiu, a contragosto.
–Então teremos que ficar juntos durante a festa, não é? – Temari questionou.
–Sim. – Shikamaru resmungou, cada vez mais emburrado.
–Isso quer dizer que, você querendo ou não, eu sou sua acompanhante. Agora deixe de ser irritante e me dê a mão, Nara. – a Sabaku ordenou, esticando o braço para o rapaz, o sorriso irônico ainda estampando seu rosto.
O moreno revirou os olhos. Merda de festa problemática, inferno de mulher problemática, droga de plano problemático. A contragosto ele enlaçou o braço de Temari, trazendo-a para perto de si.
–Ainda não confio em você. – ele falou, encarando-a seriamente.
Por um instante, o sorriso de Temari desapareceu e os olhos verdes piscaram, dominados por uma sombra de tristeza que ela logo tratou de disfarçar. Seus lábios logo voltaram a se curvar em um sorriso torto, os olhos assumindo um brilho irônico.
–Eu sei. Não importa. – a loira respondeu, e em seguida, suspirou. Realmente, ela não se importava. Tudo estava perto do fim, mesmo.
Aquele momento de fraqueza não passou despercebido à Shikamaru, mas ele resolveu ignorar aquilo, pelo menos por enquanto. Precisava focar seus pensamentos no plano que iria se desenrolar no decorrer da festa, e precisava que Temari o ajudasse com aquilo – por mais que não confiasse nela, o Nara sabia que não poderia descobrir o que estava por trás das atitudes de Sasuke sozinho.
Quando enfim entraram no salão, a loira ao seu lado imediatamente atraiu os olhares masculinos dos convidados que já estavam ali. Involuntariamente, ele apertou o braço de Temari, puxando-a um pouco mais para perto de si.
–Você não podia ter usado um vestido menos decotado, não? – ele perguntou, e seu tom de voz era de acusação.
–Está com ciúme, Shika? – Temari murmurou baixinho no ouvido de Shikamaru, sentindo-o recuar imediatamente para longe dela.
–Não me chame assim. – ele rebateu, soltando o braço da Sabaku. Odiava quando Temari o chamava pelo apelido que ela usava quando ainda eram namorados.
A loira revirou os olhos. Aquelas reações irritadiças de Shikamaru estavam começando a irritá-la.
–Respondendo à sua pergunta de antes, Nara, — ela começou, encarando-o seriamente – o corpo é meu, e se eu quiser andar nua por ai, ninguém irá me impedir. Se está com ciúme, o problema não é meu. – falou, virando-se na intenção de se afastar dali.
–Aonde você vai? – ele perguntou, sufocando o impulso de arrasta-la para si.
–Vou procurar o Sasuke. – Temari respondeu, sem perceber o olhar confuso de Shikamaru.
Ele franziu o cenho, sentindo seus pensamentos ficarem alertas para a atitude da Sabaku. O que ela tinha a tratar com Sasuke?
Mas antes que pudesse questioná-la a respeito, viu a garota se virar novamente para ele, encarando-o com uma expressão furiosa.
–E antes que eu me esqueça, — ela falou, as palavras que dizia carregadas de mágoa – eu também não confio em pessoas que não conseguem enxergar a verdade, mesmo que ela esteja estampada bem diante de seus olhos. – disse, para em seguida se afastar. Pegou uma taça da bandeja de um dos garçons que circulava pelo grande salão e, sem se importar para onde ia, entrou na grande mansão. Precisava achar Sasuke o mais rápido possível, afinal, antes de seguir o plano de Shikamaru, precisava saber quais estratégias norteariam as atitudes do Uchiha naquela noite.
Confuso, o Nara ficou paralisado, vendo Temari se afastar dali rapidamente. Quando a viu sumir dentro da mansão, ele massageou as têmporas, fechando os olhos. Que diabos estava acontecendo ali? O que Temari queria conversar com Sasuke? Por que ela lhe dissera aquelas coisas sobre “a verdade”?
Shikamaru suspirou, tentando ordenar os pensamentos.
Pensou no passado, em como expulsou Temari de sua vida e nos motivos que o levaram a manter distância dela. Pensou nos planos misteriosos de Sasuke e em como ele insistia em agir como se fosse, de fato, um traidor. Pensou em como, no passado, as vidas da Sabaku e do Uchiha se entrelaçaram, mas na época, Shikamaru achou que nenhum dos dois estivesse ciente disso. Será que ele esteve errado esse tempo todo?
Pensou em Orochimaru, e na obsessão daquele homem em se apoderar dos poderes dos discípulos. Pensou nas mortes dos mestres e na misteriosa morte de Itachi. Pensou nas palavras de Temari, no olhar magoado com o qual ela o fitara antes de se afastar. Ele já havia visto aquela mesma mágoa, naqueles mesmos olhos, no passado, mas naquela época, tudo era confuso demais. As coisas ainda estavam confusas agora, mas de repente, algo pareceu fazer sentido na mente de Shikamaru.
Ele abriu os olhos, ouvindo a voz da Sabaku ecoar em seus pensamentos.
“Eu também não confio em pessoas que não conseguem enxergar a verdade, mesmo que ela esteja estampada bem diante de seus olhos.”
–Merda! — ele praguejou, finalmente compreendendo. Maldita mulher problemática!
Sentindo a verdade invadi-lo em ondas furiosas e devastadoras, Shikamaru cerrou os punhos. Como pôde ser tão cego, como pôde demorar tanto a perceber? Como pôde ter passado todos aqueles anos procurando por pistas que nunca o levariam à verdade?
Estava prestes a correr para dentro da mansão, quando ouviu uma voz conhecida e irritada vindo dos portões. O Nara revirou os olhos, suspirando.
“Até que enfim ele chegou.”, pensou. Precisava resolver um outro problema antes de ir atrás de Temari.
Sem parar de praguejar um instante sobre aquela situação, ele se dirigiu até a entrada da mansão, percebendo a pequena confusão que se desenrolava ali.
“Que saco.”, reclamou, apressando-se na direção dos portões.
Enquanto dirigia, Naruto procurava não fixar seus pensamentos no que estava prestes a fazer. Precisava deixar a mente livre para que as possibilidades de que tudo desse errado não o dominassem e o fizessem dar para trás. O motor do carro ronronava suavemente a cada vez em que ele acelerava, e mesmo que estivesse dirigindo acima da velocidade permitida, o tempo parecia se arrastar.
Enquanto Naruto se apressava sobre o asfalto, seus olhos fitavam o horizonte lilás à sua frente. Os últimos raios de sol daquele dia tingiam o céu com um tom perolado que dava a impressão de que toda a extensão acima de sua cabeça poderia facilmente confundir-se com o olhar de uma certa Hyuuga, como se ela estivesse por toda parte, observando-o chegar, esperando por ele.
Seu coração apertou. E novamente ele acelerou, como se nem a velocidade máxima daquele automóvel pudesse levá-lo rápido o suficiente de volta para os braços pelos quais ele tanto ansiava ser envolvido.
Quando enfim dobrou a última esquina, ouvindo os pneus cantarem em atrito com o asfalto, protestado contra a pressa de Naruto, ele diminuiu a velocidade, enxergando os vários carros que se encaminhavam sob as sombras das grandes muralhas cobertas por uma folhagem espessa. Finalmente parou o automóvel em frente à entrada da mansão. Seus olhos não se atentaram às luzes que se espalhavam pelos portões e pelas árvores que ladeavam a grande mansão, dando ao lugar um aspecto refinado e delicado, como se mil vagalumes dourados brilhassem apenas para iluminar aquela noite. Os orbes azuis de Naruto se fixaram na entrada da festa, onde um homem vestido elegantemente conferia os nomes dos recém-chegados em uma lista. O loiro bufou, praguejando mentalmente pela pressa com a qual saíra de casa, sem ter tempo para se lembrar de que precisava apresentar o convite quando chegasse à festa. Como diabos ele conseguiria entrar ali?
Observou mais atentamente a fila que se estendia por toda a entrada da mansão, percebendo a elegância com a qual todos os convidados estavam vestidos, mas não ligou muito para isso. Naruto achava que sua camisa branca e sua jaqueta preta, combinadas aos jeans que usava, serviam muito bem para aquela ocasião – ele nem pretendia ficar por muito tempo. Sua estadia ali duraria apenas o suficiente para que o loiro conseguisse arrastar Hinata de volta para os seus braços, para a sua vida.
Naruto saiu do carro sem se preocupar em estacioná-lo em um local mais apropriado, jogando displicentemente a chave do automóvel para trás, ouvindo-a tilintar nas mãos desajeitadas do manobrista que o fitava com estranhamento. O loiro caminhou até a entrada, passando por todos que estavam na fila aguardando por permissão para entrarem. Sem se importar com os olhares inquisidores e questionadores em sua direção, ele se aproximou do recepcionista.
–Boa noite. – Naruto cumprimentou o homem, exibindo a ele um sorriso torto. Já se preparava mentalmente para esmurrar o pobre homem caso ele lhe barrasse a passagem. Esperava que pudesse resolver as coisas pelo jeito mais fácil, mas estava disposto à arriscar-se pelo jeito difícil, se fosse necessário.
Nada nem ninguém ficaria em seu caminho aquela noite.
–Boa noite, senhor. – o recepcionista fitou o loiro com olhos estreitos, analisando-o de cima a baixo, torcendo os lábios em reprovação pelo que via. O rapaz desarrumado e de cabelo bagunçado não seria bem-vindo ali – Queira, por favor, encaminhar-se para o final da fila para que possa apresentar seu convite quando chegar a sua vez.
–Não tenho convite, mas posso apostar com você que sou convidado de honra. – Naruto rebateu, ainda sorrindo com ironia – Sou Uzumaki Naruto. Cheque a lista, meu nome estará nela.
O recepcionista respirou profundamente, e Naruto franziu o cenho para o nariz empinado daquele homem. Pelo visto, teria que fazer as coisas darem certo do jeito difícil.
–Senhor, vá para o final da fila e... – o recepcionista começou, mas logo foi interrompido pela mão de Naruto, que puxou sua gravata com força, aproximando seu rosto do dele. O homem tossiu, sentindo o nó em seu pescoço apertar-lhe a garganta de maneira sufocante.
Os olhos azuis do loiro não demoraram a ganhar um tom avermelhado ao encararem com fúria o homem à sua frente.
–Cheque logo a droga da lista. – Naruto sibilou, vendo o recepcionista estremecer de pavor.
–Tu-tudo bem! – o homem alarmou, apavorado, prestes a vasculhar os papéis em suas mãos em busca do nome do Uzumaki.
Os murmúrios de desaprovação e confusão logo preencheram a entrada da mansão, mas Naruto não estava interessado naquilo. Tudo o que ele queria era entrar na droga da festa. Por que aquilo era tão difícil de entender?
Impaciente, o loiro suspirou, fazendo com que as mãos trêmulas do recepcionista derrubassem os papéis no chão. O homem se encolheu de medo, juntando nervosamente as listas de convidados que agora se espalhavam pela entrada da mansão.
–Ele está comigo. – a voz familiar atravessou os portões, atraindo a atenção do recepcionista e de Naruto.
Os dois olharam para trás, vendo Shikamaru se aproximar de onde eles estavam.
–Deixe-o entrar de uma vez. – o moreno insistiu, e seu tom era de cansaço.
O recepcionista suspirou, afastando-se da entrada, dando passagem à Naruto, que lhe sorriu abertamente antes de atravessar os portões da mansão. O homem sentiu um arrepio de pavor lhe percorrer a espinha. Quem era aquele rapaz?
Com as mãos nos bolsos, em silêncio, o Uzumaki caminhou ao lado de Shikamaru, atravessando os portões que guardavam a mansão, e só então seus olhos se arregalaram um pouco ao perceber a decoração que iluminava o grande salão do qual se aproximavam. As árvores enormes tinham as copas iluminadas pelas pequenas luzes douradas que piscavam feito estrelas em um céu escuro, fazendo com que as sombras das folhas dançassem pela grama e pela pele de quem passava por ali. Alguns balões de papel azuis e lilases flutuavam pelo grande jardim e pela imensa piscina do outro lado da mansão, iluminados por pequenas lâmpadas que também piscavam, fazendo os balões arrastarem-se pelo ar como nuvens.
O loiro piscou, perplexo, ouvindo a música animada que vinha do salão, aos poucos, encher o ambiente. Estava tão pasmo que mal percebia Shikamaru caminhando ao seu lado, resmungando, mau humorado.
–Droga, não fique causando problemas logo na chegada. Que saco. – o Nara reclamou – E por que demorou tanto a chegar aqui?
–Estava me decidindo. – Naruto respondeu vagamente, sem dar muita atenção às palavras de Shikamaru. Os dois passaram pelas árvores iluminadas que ladeavam a entrada do grande salão, e o Uzumaki mal percebia que quase todos os olhares estavam voltados para ele.
–Você tem centenas de ternos na porcaria daquele seu guarda-roupa, não podia ter usado algum hoje? – o moreno insistiu em reclamar, dando-se conta de que a roupa de Naruto estava atraindo os olhares desgostosos dos convidados.
–Não. – Naruto resmungou, vagamente ciente dos murmúrios de Shikamaru. Não se importava nem um pouco com a opinião daquela gente que ele nunca havia visto na vida. Ansioso, o loiro vasculhava o salão com os olhos, procurando a única pessoa que lhe interessava ver.
Quando Hinata enfim chegou ao salão, não se importou com os olhares dos convidados em sua direção. Ela quase bufou ao ver os rostos desconhecidos que começavam a encher o lugar. Onde Hiashi estava com a cabeça, convidando toda aquela gente que ela nunca havia visto na vida?
Tentando não se deter à presença das pessoas estranhas, ela se virou para uma das empregadas que passava com uma bandeja nas mãos.
–Onde está Hanabi? – Hinata perguntou.
–Não sei senhori... digo, Hinata. – a mulher sorriu, envergonhada.
A morena suspirou. Já havia dito aos empregados da mansão que não gostaria de ser chamada de “senhora” ou de “senhorita”, mas aquelas pessoas eram afeiçoadas demais às formalidades e sempre acabavam esquecendo o pedido que a Hyuuga fizera.
Percebendo que ninguém parecia ter noticias de Hanabi, Hinata resolveu procurar por si só, na esperança de que pudesse convencê-la a afastar-se dali antes que toda a confusão começasse. Porém, antes que a morena pudesse sair do salão em busca de sua irmã, ouviu uma voz histérica e conhecida que fez seu coração aquecer-se de forma nostálgica.
–HINATINHA!
Ela olhou para trás, vendo Gaara se aproximar, caminhando animadamente em sua direção. O ruivo vestia terno e gravata, parecia elegante, mas desconfortável, e sorria abertamente. Seus olhos estavam fixos na figura de Hinata, enquanto ele percebia o rosto da morena se iluminar ao vê-lo chegar.
–Gaara! – ela alarmou, sentindo o sorriso se espalhar por seus lábios de forma involuntária.
O Sabaku a abraçou fortemente, envolvendo-a em um sufocante aperto, para em seguida agarra-la pelos ombros a afastá-la de si repentinamente.
–Epa. – ele murmurou, franzindo o cenho e estreitando os olhos verdes para ela – Eu não deveria estar abraçando você.
–E por que não? – Hinata se surpreendeu.
–Porque estou chateado! – o ruivo bradou, vendo a Hyuuga piscar, surpresa – Você agora está toda amiguinha do Sasuke, não lembra dos velhos amigos. Tô sabendo dessa história ai, de ele ser seu mestre. – ele disse, fitando-a com uma expressão falsamente ofendida – Fiquei um pouco enciumado. Achei que eu fosse seu amiguinho do coração.
Hinata riu. Havia se esquecido de como era bom estar com Gaara, e de como ele era um bom amigo. E, principalmente, havia se esquecido do quanto sentia falta dele.
–Você sabe que é. Mas... Bem... Sasuke é... – ela tentou encontrar a palavra certa, mas nada parecia ser apropriado o suficiente para definir a bagunça que atrelava o Uchiha à sua vida.
–É. – Gaara resmungou, fingindo grande desgosto – Bom, ele é seu mestre agora... – murmurou, parecendo um pouco incerto quanto aquilo, mas não se intrometeria. Hinata deveria saber o que estava fazendo, e ele confiava nela – Pra eu te perdoar, você vai ter que dançar comigo. – sugeriu.
Hinata franziu o cenho, reprimindo o impulso de atirar-se no pescoço de Gaara e contar tudo a ele. Contar como estavam sendo aqueles dias, contar sobre sua “família”, sobre como estava sendo desesperador ficar longe de todos os seus amigos, longe do maldito Uzumaki. Queria contar sobre Sasuke, queria chorar no ombro de Gaara, queria bater nele para descontar a frustração que sentia por tudo que estava acontecendo. Aquele sentimento era estranho – era de se imaginar que Ino seria uma pessoa mais apropriada para falar sobre aquele tipo de coisa, e embora Hinata amasse a loira, confiasse nela e estivesse morrendo de saudade, era para Gaara que ela queria falar sobre tudo. Queria contar do maior ao menor problema. Queria falar sobre ter um pai, e sobre a cor das paredes de seu quarto. Queria contar sobre Hanabi, Neji e Tenten, e queria contar sobre sentir falta de Ino escolhendo suas roupas. Queria contar sobre seu poder, e queria contar sobre a comida estranha que serviam ali. Queria contar tudo a ele, porque a única pessoa que poderia convence-la de que tudo o que vivera havia sido, de fato, real, não estava ali. Gaara poderia fazer isso, no lugar de Naruto, simplesmente porque o loiro era idiota demais para aparecer, tentar desculpar-se, abraça-la, levá-la embora, ou simplesmente sorrir para ela. Sim, Hinata queria falar sobre tudo aquilo com Gaara, e ela sabia que o ruivo a entenderia, porque ele havia sido seu primeiro amigo de verdade, porque com ele dividira momentos de pavor e de alegria, porque sentira tanta a falta do sorriso acolhedor do Sabaku que era difícil controlar todos aqueles pensamentos.
–Hinata? – o ruivo a chamou, preocupado com aquele silêncio.
–Eu... – ela murmurou, tentando se concentrar no momento presente – Eu adoraria dançar com você. – sorriu.
–Certo... Apenas deixe que eu me prepare psicologicamente para isso. –Gaara falou, pegando-a pela mão e conduzindo-a até o centro do grande salão.
–Como assim?
–Bom... da última vez em que dançamos, eu fiquei com vários hematomas e...
Hinata bateu levemente no ombro do ruivo, indignada, rindo.
–Aquilo não foi culpa minha! – a morena se defendeu – Você que se deixou espancar por aqueles...
–Os maiores hematomas daquela noite foram os que você deixou nos meus pés, enquanto pisava neles, tentando dançar, Hinatinha.
A Hyuuga bufou, sentindo Gaara faze-la girar sobre si mesma, trazendo-a para perto, embalando-a no ritmo da música. Aquele gesto trouxe lembranças aos dois, memórias boas misturadas à memórias ruins, mas ambos não se importavam.
“Me leve para sair esta noite
Oh, me leve para qualquer lugar
Eu não me importo, não me importo, não me importo
Sendo levado no seu carro
Eu nunca, nunca quero ir para casa
Porque não tenho mais uma casa, não não não
Oh, eu não tenho mais”
There Is A Light That Never Goes Out – The Smiths
–Ei, você está melhor nisso. – Gaara se surpreendeu ao ver que Hinata se movia com segurança em seus braços, dando passos precisos – Sasuke andou ensinando você a dançar? Se é isso que vocês dois tem feito juntos, saiba que estão levando esse negocio de mestre e discípula pro lado errado da coisa. – debochou.
–Se esse é seu jeito bizarro de dizer que estou mais habilidosa do que antes, obrigada. – Hinata ironizou, sorrindo – Onde está Ino?
–Ah, bem... – Gaara suspirou, divagando – Você sabe como ela é, não é? – perguntou, exibindo um sorriso travesso.
Hinata o encarou, desconfiada.
–Eu sei? – ela murmurou, sem entender.
–Sim, você sabe. Ino quer salvar o mundo, a humanidade, os bichinhos e toda a porra que há no planeta. – o ruivo novamente suspirou exageradamente, sem perder o sorriso de quem estava aprontando alguma coisa – As vezes, ela pode ser muito persuasiva. – falou, lembrando-se de que Ino havia ficado para trás a fim de convencer Naruto a ir para a festa.
Cada vez mais desconfiada, Hinata estreitou os olhos para Gaara. Ela se lembrava de Ino o suficiente para saber que não havia nada que a loira não conseguisse fazer, Hinata só não sabia por que Gaara parecia estar falando de algo que ela ainda não compreendia.
–Não estou entendendo muito bem o que... – ela começou, mas o ruivo logo tratou de interrompe-la.
–Enquanto ela não chega – Gaara disse, sorrindo displicentemente – por que não me conta como está sendo morar numa mansão?
Hinata suspirou de forma desanimada.
–Tem empregados por todas as partes. E eles parecem ter medo de mim, ou algo do tipo, porque me chamam de “senhorita Hyuuga” e por algum motivo acham que eu não consigo fazer nada sozinha. Eles estão por toda parte mesmo! – ela contou, indignada.
–Hinatinha magnata. Quem diria. – Gaara debochou, vendo Hinata sorrir, envergonhada.
–Não tem graça, Areinha.
–Claro que tem. E como é conviver com o Neji? Aposto que está sendo divertido. – ironizou, sorrindo descaradamente.
–Neji é... – Hinata se interrompeu, procurando pela palavra certa para descrever o primo.
–Mauricinho? Petulante? Arrogante? Ridiculamente cabeludo? – Gaara perguntou, fazendo uma careta — Afinal, por que inferno ele não corta aquele cabelo? É algum tipo de promessa, ou vocês Hyuugas são obrigados a ter o cabelo grande?
–Certo, você não gosta do Neji. – Hinata concluiu, vendo Gaara sorrir abertamente e assentir, antes de fazê-la girar novamente.
Ele olhou para baixo enquanto a rodopiava, vendo os pés de Hinata se fixarem com habilidade ao chão, percebendo as pernas dela se moverem com gingado, acompanhando o ritmo da música.
O que havia acontecido com aquela garota?
Não demorou nem dois segundo para que Hinata completasse o giro e voltasse a fitar Gaara, e o ruivo tratou de disfarçar o espanto e a curiosidade em sua expressão. Ela pareceu não perceber nada, ou simplesmente ignorara aquilo.
–Shikamaru e Temari também estão aqui... Eles ficarão ofendidos se souber que você faz tanto pouco caso da presença deles. – Gaara falou, vendo a expressão da morena mudar repentinamente para ser estampada pelo nervosismo.
–Nã-não é nada disso! Eu ainda não vi nenhum deles! – ela rebateu, vendo o ruivo rir. Ela riu também, percebendo a brincadeira, e o som de sua risada ecoou pelo salão, fazendo Gaara encará-la com o cenho franzido em sinal de preocupação.
–Você está triste. – o ruivo disse, e suas palavras soaram mais como uma sentença do que como um questionamento. Mesmo que Hinata insistisse em sorrir, a expressão sombria nos olhos dela revelava a verdade.
Ela baixou o rosto, sem querer encarar o olhar preocupado de Gaara. O Sabaku a conhecia melhor do que ninguém, mas o único que conseguia ler suas emoções com perfeição era... ele.Mas ele não estava ali.
Percebendo que a Hyuuga não estava pronta para falar sobre o que quer que estivesse tingindo sua expressão de tristeza, o Sabaku resolveu mudar a direção da conversa.
–E o Kiba, hein? Ouvi dizer que ele tá sempre por aqui... O que tá rolando? – Gaara perguntou repentinamente, vendo Hinata fita-lo com uma expressão confusa.
–Tá rolando o que sempre rolou, ué. Kiba é meu amigo e está sempre por perto. Na verdade... – ela começou, sem saber exatamente como continuar.
–O que? – o ruivo pressionou.
–Bem... – Hinata murmurou, parecendo desconfortável – Acho que ele tem uma queda pela minha irmã. Ainda não sei como me sinto sobre isso.
–Não, espera. Você tem uma irmã? – Gaara perguntou, chocado – Apenas acho que se alguém aqui deveria ter sido apresentado à uma Hyuuga bonita, esse alguém era eu. Onde está a sua consideração, Hinatinha? Achei que fôssemos amigos. Pelo visto, eu estava enganado. – ele falou, fingindo-se indignado.
–Você já conhece uma Hyuuga bonita, não conhece, Gaara? – ela o encarou sugestivamente, segurando o riso.
–Você não conta. Naruto me mataria. – ele respondeu, sorrindo, mas imediatamente viu o sorriso de Hinata desaparecer.
–Não acho que ele se importaria tanto assim...
–Não fale bobagens. – Gaara interrompeu, encarando-a seriamente – Você deve saber que ele... Bem... – o ruivo divagou, sem ter muita certeza se poderia falar sobre aquilo.
–Eu sei. – Hinata falou – Pelo menos acho que sei. Mas isso não muda nada, muda?
–Acho que não. – Gaara admitiu.
Os dois ficaram em silêncio por um instante.
–E... E como ele está? – ela ousou perguntar.
Gaara suspirou, desgostoso.
–Ele não vem. – o ruivo respondeu ao verdadeiro questionamento nas palavras dela, reparando o brilho de tristeza pesar novamente nos olhos da Hyuuga – Sinto muito, Hinatinha. – murmurou, sinceramente.
–Eu já imaginava. – ela rebateu, sem se deixar abalar. Olhou para Gaara e voltou a sorrir – Mas fico feliz que você esteja aqui. Senti tanto a sua falta, Areinha... – disse, implicante – Se você não estivesse aqui, essa festa seria um saco.
–Também estou feliz em ver você, Hinatinha. – Gaara respondeu, e realmente, se sentia feliz. A Hyuuga havia se tornado uma grande amiga, e ele sentira muita saudade dela — Ainda mais depois de saber que você agora é rica. Já pode me comprar um carro e tal... pra ver se eu começo a te perdoar por ter escolhido Sasuke como mestre.
–Não acredito que você ainda não esqueceu isso! – Hinata alarmou, dando um tapa no ombro do ruivo.
–Para referências futuras, eu NUNCA vou esquecer isso. Me sinto magoado. Rejeitado. Deixado de lado. Trocado. E logo pelo Sasuke. É, no mínimo, ofensivo. – Gaara choramingou, fazendo-se de vítima.
–Mas... Mas eu...
–Espero que pelo menos ele esteja cuidando bem de você. Tenho certeza de que eu cuidaria melhor, – chantageou, vendo Hinata revirar os olhos para aquele drama exagerado – mas você escolheu o Uchiha, né. Fazer o quê.
–Eu tinha esquecido o quanto você é manipulador. – a morena rebateu, vendo Gaara rir.
–Espero que Sasuke não tenha feito um grande estrago com você. – o Sabaku ironizou, tentando disfarçar a real preocupação em suas palavras.
Mas aquilo não passou despercebido para Hinata.
–Sou a mesma Hinatinha sem noção de sempre. – ela falou, tentando tranquiliza-lo.
Gaara estreitou os olhos, fazendo-a rodopiar novamente. Hinata estava diferente; ele podia dizer isso apenas olhando a maneira como ela se movia, parecendo estar plenamente ciente de cada parte de seu corpo, completamente diferente da garota desengonçada que havia dançado com ele na boate de Hidan. Somente alguém acostumado à rigorosos treinamentos e lutas era capaz de perceber aquilo, mas haviam outras coisas mais perceptíveis aos olhos de qualquer outra pessoa. Os traços no rosto de Hinata pareciam amadurecidos, os olhos demonstravam uma certa amargura que nem nos tempos em que ela era apenas uma garotinha amedrontada ele havia percebido.
–Não é verdade. Você agora é a Hinatinha magnata. – debochou, vendo a Hyuuga revirar os olhos.
–Não enche, Areinha. – ela rebateu, apoiando os braços carinhosamente nos ombros do ruivo – Obrigada por vir. Com você aqui, é como se finalmente eu conseguisse voltar a enxergar a luz.
–Tente se lembrar de que, mesmo quando você não consegue ver, a luz continua lá, brilhando pra você. Essa luz que ascendemos juntos nunca irá se apagar. Acredite nisso. – Gaara falou, encarando-a com carinho.
Hinata assentiu, apoiando o rosto no peito do Sabaku, tentando esconder a tristeza que embaçava seus olhos. O ruivo a enlaçou em um terno abraço, embalando-a no ritmo da canção que soava no grande salão.
“There is a light that never goes out...”
–E sabe do que mais? – Gaara sussurrou, os olhos fixos na entrada do salão – Seu presente acabou de chegar.
Hinata se afastou, encarando o Sabaku com uma expressão confusa.
–O quê? – ela grunhiu, sem entender do que ele estava falando.
Gaara apoiou as mãos nos ombros de Hinata, fazendo-a virar-se na direção da entrada.
–Feliz aniversário, Hinatinha. – o Sabaku falou, sorrindo.
A morena arregalou os olhos percebendo que Naruto estava ali, vasculhando o salão com os olhos, completamente desarrumado e com uma expressão séria que fez seu coração apertar.
Ela imediatamente virou de volta para Gaara, sentindo seu corpo estremecer dos pés a cabeça. Oh, céus, ele estava ali. Naruto estava ali!
–O que foi? – o ruivo perguntou, percebendo a expressão angustiada de Hinata.
–Pre-preciso de um minuto sozinha! – ela alarmou, dando um passo a frente na intenção de afastar-se dali.
Confuso, Gaara segurou o pulso de Hinata, impedindo-a de ir embora.
–O que você tem? – ele questionou, sem compreender a atitude da garota – Não quer vê-lo?
Hinata estava paralisada, sem conseguir olhar para trás, com medo de encontrar os olhos de Naruto a encará-la. Droga... o que havia de errado com ela?
Sem conseguir responder à pergunta de Gaara, a morena se desvencilhou da mão que segurava seu braço e se afastou na direção da mansão, recusando-se a olhar para trás.
E foi quando ele a viu.
Ela estava de costas, mas Naruto jamais confundiria o brilho negro dos cabelos que agora estavam presos em um rabo de cavalo, ou as curvas perfeitamente modeladas sob o tecido escuro do vestido que usava. As luzes que decoravam o lugar faziam com que as pedras azuis dos brincos cintilassem de encontro à pele do pescoço dela, e as aberturas que expunham as pernas da garota aos olhares maliciosos dos homens fez o loiro sentir uma pontada violenta de ciúme, mas estava perdido demais na imagem perfeita dela para se prender àquele sentimento. A simples visão de Hinata lhe enchia os olhos, a alma, o coração, lhe embriagava a mente – não havia nada naquele salão que brilhasse mais do que ela. Não havia nada naquele salão a não ser a visão da mulher que ele tanto sonhou em reencontrar.
Em pensamento, Naruto viu seu precipício novamente estender-se à sua frente, e ele sentiu o corpo inteiro vacilar. Deu um passo inconsciente para frente, como se aquilo fosse o suficiente para alcança-la, para faze-la sua, e uma forte vertigem o atingiu, fazendo-o hesitar. Ele iria cair, porque o precipício o chamava para mergulhar de encontro ao chão. Naruto não tinha certeza se Hinata estaria esperando por ele, no final, se os braços dela lhe amorteceriam a queda – seu precipício era um salto no escuro, eram as trevas e a luz que travavam uma batalha intensa em seu coração desde o dia em que conhecera aquela garota. Ele iria cair, porque não lhe restava nada mais que pudesse fazer a não ser se entregar, e esperar que antes de sentir a dor da queda lhe atingir, pudesse experimentar, pelo menos por um segundo, a sensação de estar voando.
Nenhum detalhe, nenhum movimento vindo dela passou despercebido aos olhos atentos e maravilhados de Naruto. Ele podia ver que a postura de Hinata havia mudado; a morena mantinha os ombros retos, o busto levemente arqueado para frente em uma posição que lhe dava certa imponência e elegância. Os cabelos estavam mais cumpridos, e mesmo amarrados em um rabo de cavalo ainda se estendiam até a base da cintura. À frente dela estava Gaara, que tentava pegar sua mão, parecendo argumentar enfaticamente sobre algo, mas ela logo se desvencilhou do ruivo e se afastou a passos firmes e apressados, entrando rapidamente na mansão sem olhar para trás.
Naruto deu outro passo para frente, sentindo seu peito apertar novamente ao vê-la desaparecer para dentro da grande casa dos Hyuugas. Ele tentava, a todo custo, fazer seu corpo se mexer e ir atrás dela, mas suas pernas pareciam não querer obedecer ao comando enfraquecido de seu cérebro.
–Naruto, você está me ouvindo? – Shikamaru perguntou, percebendo a expressão perplexa do loiro.
Como se despertasse de um transe, Naruto piscou. Ela havia desaparecido. E agora, no centro do salão, Gaara lhe encarava com uma expressão de quem se desculpava.
–Por que você não vai dar uma voltinha com a Temari, Shikamaru? – o loiro resmungou, sem prestar atenção nos xingamentos que o Nara cuspia em sua direção.
Ainda atraindo a atenção de quase todos os convidados, Naruto atravessou o salão, parando na frente de Gaara.
–Para onde ela foi? – o loiro perguntou, prestes a correr para dentro da mansão.
–Não sei... Não conheço o interior dessa casa, ela pode ter ido pra qualquer parte. Ela sabe que você está aqui. – o Sabaku falou, franzindo o cenho ao perceber a expressão de Naruto contorcer-se em desespero – Mantenha a calma, está bem? Não faça nenhuma estupidez.
–Eu já estou aqui, não estou? – Naruto rebateu, impaciente – Essa era a maior estupidez que eu poderia fazer, mas ainda assim, estou aqui. – disse, olhando novamente para a mansão – Vou atrás dela. – decidiu, já se virando para a entrada da grande casa.
–Naruto, espera. – Gaara segurou o braço do amigo, impedindo-o de se afastar.
O loiro olhou com fúria para a mão que o tocava, para em seguida encarar o Sabaku como se fosse mata-lo caso ele não o soltasse.
–Tome cuidado. Ela está... – Gaara hesitou, sem saber que palavra poderia usar – Diferente. – avisou.
A expressão de Naruto se transformou de furiosa para confusa.
–Diferente como? – o loiro perguntou, sentindo as batidas de seu coração acelerado martelando fortemente em seus ouvidos. Tinha medo, muito medo do que aquilo poderia significar.
–Não sei como explicar... Mas ela mudou, Naruto – o Sabaku garantiu – Mudou muito.
O medo começava a dominar os movimentos do Uzumaki, impedindo-o de ir atrás de sua morena. Mentalmente, ele se perguntava se ainda poderia recuperar tudo o que havia perdido. Esperava que não fosse tarde demais.
–Não faça essa cara de desesperado... – Gaara murmurou, apoiando uma mão no ombro de Naruto – Ela mudou mesmo, cara. Tá mais... forte. Mais... Sei lá... Mais madura. Não sei explicar. Talvez você precise ver por si mesmo para entender do que estou falando.
Naruto novamente desviou os olhos para a mansão, ponderando sobre as palavras que Gaara lhe dizia. Será que ela iria gostar de lhe ver? Será que ela ainda era a sua Hinata?
O loiro sentiu a si mesmo começando a cair, percebendo o final do precipício se aproximar cada vez mais. Os espinhos do caminho já começavam atingi-lo, a dor dilacerando-o em fortes e venenosas rajadas.
–Mas, ei. – Gaara cutucou o amigo, fazendo com que ele lhe encarasse novamente – Ela continua sendo a nossa Hinatinha. – garantiu, sorrindo, querendo encorajar o loiro.
Incerto, Naruto ainda não conseguia se mover. Talvez ir àquela festa houvesse sido um erro. Ele não precisava se torturar ainda mais teimando em ver Hinata apenas para em seguida perde-la novamente.
–Tá esperando o quê, mongol?! – Gaara bronqueou, impacientando-se e acertando a cabeça de Naruto com um tapa certeiro – Vai logo atrás dela!
Dormente pelos devaneios provocados pelo precipício onde se atirara, Naruto novamente olhou para a mansão, recordando-se do céu lilás que lembrava os olhos que ele gostaria de poder rever.
“O ruivo esquisito tem razão.”¸ Naruto o ouviu a voz impaciente de Kyuubi soar em sua mente. Ela estava quieta, apenas observando, mas aquelas histórias de insanidades e precipícios já estavam começando a lhe dar nos nervos “Se você não for, talvez o garoto cachorro ache ela primeiro.”
Naruto rosnou de forma ameaçadora, vendo Gaara dar um passo para trás.
–Que é? Foi só um tapinha inocente! – o ruivo se apressou em desculpar-se.
–Não é você. Kyuubi está enchendo o saco. – Naruto explicou – Você, por acaso, já viu o Kiba?
–Sasuke comentou sobre ele ter dormido aqui durante toda a semana para ajudar nos preparativos da festa... – Gaara murmurou, distraido, sem perceber os olhos de Naruto se estreitarem em fúria novamente.
A risada de Kyuubi ecoou misturada aos pensamentos desordenados do loiro, e ele revirou os olhos.
“Se quer a garota, é melhor se apressar.”, o bijuu recomendou, sem deixar de lado o tom irônico. Naruto só funcionava sob pressão, e Kyuubi já não aguentava mais aquela lamúria. Que seu jinchuuriki se atracasse de uma vez com a Hyuuga e lhe deixasse dormir em paz, pois se Naruto continuasse a choramingar por causa daquela garota, Kyuubi acabaria tendo que procura-la ele mesmo e pedir que ela o matasse.
–Você vai ou não? – Gaara perguntou, começando a se impacientar novamente.
Naruto suspirou, indeciso. Tinha medo do que estava por vir. Medo de que as palavras cruéis que disse a ela no dia em que a obrigou a partir houvessem criado raízes permanentes no coração de Hinata e que ela não o aceitasse de volta. Estava disposto a correr todos os riscos por ela, mas sabia que não poderia suportar que a morena o mandasse embora.
Vasculhando sua mente em busca de algo que o encorajasse a seguir adiante com aquilo, Naruto ouviu as palavras da carta de seu mestre ecoarem por sua mente.
“A única coisa pela qual vale a pena arriscar tudo, é o amor.”, Jiraya dissera. De alguma maneira, o Uzumaki achava que seu mestre sabia que ele faria alguma bobagem que o afastaria de Hinata. Jiraya, mesmo depois de morto, estava sempre lhe mostrando o caminho certo.
“Tudo nessa vida é recomeço.”, Naruto se lembrou. Jiraya sabia. Não havia dúvidas de que seu mestre sabia de tudo o que viria a acontecer depois de sua morte.
Sem conseguir manter-se distante de Hinata por mais tempo, o loiro correu na direção da mansão, abrindo as portas com força, fazendo-as bater uma na outra ao fecharem-se, ocultando-se dos olhares curiosos dos convidados e do olhar orgulhoso de Gaara.
“Eu fiz uma promessa para nós
Estou disposto a sangrar por você
Eu preciso de satisfação
Achei o que precisava em você
Por que você não me perdoa?
Não quero reviver os erros que cometi durante o caminho
Mas eu sempre acho um jeito
De deixá-la aqui esperando
Sempre acho as palavras pra falar,
Para deixá-la aqui esperando”
Right Here — Staind
Trêmulo, Naruto subiu as escadas, deparando-se com várias entradas que indicavam o caminho para alguns corredores rodeados de portas. Mentalmente, ele xingou os Hyuugas e sua maldita ostentação. Para que tinham que colocar tantas portas e fazer tantos quartos naquele inferno de mansão?
Entrou pelo primeiro corredor, disposto a derrubar todas as portas até que encontrasse Hinata, decidido a arrastá-la dali mesmo que ela não quisesse. Se fosse necessário, se ajoelharia aos pés dela, imploraria por perdão, suplicaria pelo amor que havia perdido, porque depois de chegar até ali, Naruto sabia que não poderia se conformar em voltar para a vida sem Hinata. Precisava agarrar-se à esperança de que os dias sombrios haviam chegado ao fim, que ela o abraçaria, que o acolheria, e que no colo dela, poderia chorar mais uma vez o pranto sofrido que havia segurado durante todos aqueles meses em que ficaram distantes. Seu coração acelerado martelava em seus ouvidos, mas ele não parou de andar, não parou de esmurrar as portas pelas quais passava, uma por uma. Aquela maldita mansão era como um labirinto, e Naruto sentia que estava se perdendo, não só por entre aqueles corredores, mas dentro de si mesmo. Sufocado pelas várias possibilidades que assolavam sua mente, ele prosseguiu, mal conseguindo respirar.
Sentia-se doente, como se estivesse esvaindo-se junto ao desespero que o dominava pela ausência dela.
–HINATA! – Naruto gritou, ouvindo o eco do nome dela atravessar seus sentidos, cravando-se como cacos de vidros em seu coração. O chamado reverberou pelas paredes do corredor, seguido pelo silêncio ensurdecedor que o distanciava da Hyuuga.
Esmurrou a décima porta pela qual passava, percebendo que era a última daquele corredor, e correu para o segundo, sem parar um instante sequer. As portas se despedaçavam de encontro aos seus punhos, e ele não se importava do prejuízo que causaria aos Hyuugas. Eles haviam lhe tirado algo muito mais precioso que mil mansões.
–HINATA! – gritou novamente, sentindo seu coração apertar-se em receio. Iria derrubar aquela mansão inteira se fosse necessário, mas não sairia dali sem ela.
Continuou vasculhando os corredores, seu rosnado furioso ecoando pelos quartos abertos onde Hinata não estava. Ela havia fugido dele. Havia se escondido, recusando-se a vê-lo, pois Gaara dissera que a Hyuuga sabia que Naruto estava ali. Enraivecido por aquela certeza, Naruto explodiu outra porta, sentindo que estava prestes a perder o controle. Sabia que era egoísta demais para admitir a possibilidade de deixa-la viver sem ele, portanto, não daria essa opção à Hinata. Ela ficaria ao seu lado, seria sua, ou ele se recusaria a prosseguir com aquilo. Morreria, mas não voltaria para o mar de dor que o tragava quando estava longe dela.
E foi quando ele parou, estancando ao recordar-se das noites infelizes em que quase enlouqueceu ao pensar que Hinata não voltaria para os seus braços, que ela o esqueceria. Naruto esfregou as mãos no rosto, o rosnado de dor ecoando pelos corredores novamente. Não poderia suportar tudo aquilo outra vez, não quando já havia se jogado no precipício que insistia em atraí-lo de encontro ao chão.
E Naruto tinha certeza de que o chão estava muito próximo, e que não tardaria até que a dor fatal o atingisse e o levasse à loucura completa.
–HINATAAAAAAAA! – chamou novamente.
Foi quando ele ouviu o barulho de passos sustentados por saltos ecoar por um dos corredores, interrompendo seus pensamentos insanos. Ansioso, ele abriu a porta do corredor de onde vinha o som, apressando-se em percorrer o comprido espaço que se estendia à sua frente, a fim de conseguir encontrar Hinata.
A cada passo que avançava, o loiro sentia que seu coração estava prestes a explodir. Sua mente já não era capaz de protege-lo da dor pela qual fora atingido durante todos os longos meses que passou sem a Hyuuga, e da qual ele tentou se privar durante todo o caminho até ali. A saudade voltou a chicoteá-lo na medida em que os passos que ouvira antes se tornavam ecos distantes e impossíveis de serem alcançados, e novamente Naruto se perdia pela certeza de que Hinata desaparecia bem à sua frente quando estava prestes a conseguir tê-la de volta.
O barulho de uma porta sendo fechada encheu seus ouvidos, dando-lhe força para apressar os passos na direção da porta recém-fechada. Parou diante da madeira, apoiando a mão na maçaneta, prestes a girá-la. Estava trancada.
Certo de que estava no rumo correto, ele resolveu forçar a tranca da porta até que ela cedesse, e quando enfim ouviu o ferro da maçaneta trincar e arrebentar, não hesitou em entrar no quarto. Por um instante, tudo o que ele ouviu foi o som dos próprios passos ecoando pelo cômodo totalmente escuro.
E em seguida, percebeu a porta sendo fechada com força atrás de si, dando-lhe a certeza de que ele não estava sozinho.
–Quem está ai? – ele perguntou, receoso. Estava em perigo? Havia caído em uma armadilha? – Hinata? – testou, ouvindo sua própria voz falhar ao pronunciar o único nome capaz de bagunçar seus sentidos.
Mas tudo o que Naruto obteve como resposta foi o silêncio que se misturava à escuridão daquele quarto, dando ao ambiente uma aura sombria e sufocante.
–Está querendo brincar? – o loiro sibilou, a voz carregada de ironia soando em uma clara ameaça – Tudo bem. – falou, prestes a despertar Kyuubi em sua mente.
Mas antes que pudesse colocar suas intenções em prática, sentiu um chute certeiro atingir-lhe o estômago, fazendo seu corpo arquear-se de dor e de surpresa. Caindo de joelhos, ele ergueu o rosto, tentando concentrar-se em enxergar o quê ou quem o estava atingindo, mas não conseguia ver um palmo diante de si, tamanha era a escuridão que selava o quarto em total negror.
Vindo de um ponto que Naruto não conseguia identificar, os dois punhos do inimigo o atingiram nos ombros, fazendo-o voar para o outro lado do quarto e novamente gemer de dor. Ele tentou se levantar, para enfim concentrar-se em despertar o chakra adormecido em sua consciência, quando sentiu o corpo leve e ágil do inimigo montar sobre seu quadril e atingir seus pulsos com a ponta dos dedos, provocando-lhe uma dor que o fez gritar.
Naruto tentou libertar os pulsos das mãos do inimigo, mas seus braços não obedeciam aos seus comandos. O chakra não fluía em suas veias, não despertava em sua consciência. E por mais que chamasse, ordenasse, gritasse em pensamento, Kyuubi parecia não lhe ouvir.
Ele não demorou à reconhecer aquele torpor em seu corpo.
–Você...! – o loiro sibilou, lembrando-se do mascarado que o atacou no dia em que ele e Shikamaru estavam na cola do ruivo de piercings. Sua mente rapidamente traçou inúmeras possibilidades que pudessem explicar a presença daquela pessoa ali. Seria, o mascarado, Orochimaru? O inimigo já havia chegado até a mansão, então? Que motivos moviam as ações daquele homem? Ele iria, finalmente, mata-lo e se apossar do poder da Kyuubi?
Estava escuro demais para que o loiro pudesse ver o que se passava, mas ele podia apostar que o que estava por vir era a finalização do que o mascarado não pôde fazer no dia em que se encontraram pela primeira vez. A adaga que antes não o atingira dessa vez encontraria o rumo certo, Naruto tinha certeza. Se não reagisse logo, morreria sem saber de quem eram as mãos que lhe sugavam o chakra, a vida.
Porém, sem conseguir mover um músculo sequer, novamente paralisado por aquele estranho poder que lhe drenava todas as energias, Naruto fechou os olhos, esperando pela dor que em breve lhe atingiria e o levaria para a escuridão.
A morte se aproximou devagar, inclinando-se sobre Naruto, os cabelos compridos caindo ao lado da cabeça do loiro enquanto os rostos de ambos ficavam tão próximos um do outro que o Uzumaki podia até jurar que a morte tinha o cheiro mais fascinante e familiar que ele poderia imaginar.
Ele então franziu o cenho, confuso, percebendo que as mãos que antes agarravam seus pulsos agora afrouxavam o aperto, os dedos deslizando sobre a pele de seu braço como carícias, arrastando-se até seus ombros e finalmente dirigindo-se até seu rosto, tocando-o com doçura.
Ah, a morte tinha o toque mais macio, o cheiro mais fascinante... E tão, tão familiar, que fazia seu coração apertar de um jeito desesperador.
E foi então que ele percebeu o porquê de aquele toque lhe parecer tão familiar, e de repente, tudo passou a fazer sentido na mente de Naruto.
–Hi... Hinata... – ele murmurou para a escuridão, embasbacado e completamente confuso. Agora que estava livre do toque que lhe drenava as forças, Naruto podia sentir seu chakra circulando novamente, provocando-lhe uma violenta vertigem. Mas não havia nada que pudesse distrai-lo daquele cheiro tão familiar, daquele toque macio que envolvia seu rosto com a doçura da qual ele sentira tanta falta – Hinata...? – ele voltou a chamar, tentando ordenar os pensamentos que com a tontura se confundiam ainda mais em sua mente. Por que ela não respondia?
Foi quando Naruto pôde sentir o calor do rosto da pessoa que estava sobre ele aproximando-se do seu, colando os lábios em sua orelha.
–Gostou do presente que enviei para você? – a voz feminina soou baixinho, fazendo um arrepio percorrer todo o corpo do loiro.
Naruto sentiu seu coração falhar uma batida. Ele tocou o rosto dela, sentindo sob seus dedos as formas inconfundíveis da delicada face da Hyuuga.
–Você... – ele murmurou para a escuridão, tão surpreso que não conseguia falar nada. Os barulhos da festa lá fora se misturavam às batidas do seu coração, que insistia em martelar como se estivesse prestes a explodir.
Sua mente se negava a acreditar nas palavras que lhe estavam sendo ditas, mesmo que, no fundo, Naruto soubesse que elas faziam sentido. Desde o início ele desconfiou que o mascarado talvez fosse o responsável pela morte do ruivo de piercings, o problema agora era admitir que o mascarado era, na verdade, Hinata. Seus dedos tocavam o rosto da morena com insistência, como se ela fosse uma miragem provocada pela saudade enlouquecedora que sentia e estivesse prestes a desaparecer na escuridão a qualquer momento. A respiração dela batia em seu rosto, confundindo ainda mais as memórias que lhe remetiam à lembrança da Hyuuga meiga, doce, teimosa, corajosa, mas ainda assim, um tanto frágil, indefesa, imprudente. Não, ela não podia ter mudado tanto assim. Aquela voz firme, aqueles movimentos precisos, aquela força, aquele poder... era mesmo a Hinata? A sua Hinata?
–Achei que você não viesse... – ela murmurou, fechando os olhos sob o toque de Naruto, mas ele pareceu não perceber.
–Achei que eu já tivesse deixado claro que me importo demais para deixar você livre de mim. – o loiro resmungou, e Hinata sorriu ao se lembrar da noite em que estavam no carro à caminho do aeroporto para buscar Jiraya, e Naruto confessou que se importava com ela mais do que gostaria. Ah, aquelas lembranças faziam sua mente girar como se ela estivesse prestes a desmaiar e, silenciosamente, a Hyuuga se repreendeu por perceber suas bochechas esquentando. Pelo visto, não importava o quanto amadurecesse, seu corpo, de uma forma ou de outra, sempre entregaria os sentimentos imutáveis que ela tinha por Naruto.
–Isso é bom... – a morena falou baixinho, esforçando-se para não gaguejar. Sentia-se como a mesma menina que chegara à casa de Naruto, meses atrás. Sua concentração, aos poucos, reduzia-se à nada.
O loiro suspirou, sentindo o cheiro de Hinata lhe embriagar os sentidos. Seu coração pesava, apertado por um sentimento que ele não conseguia distinguir. Parecia que todo o turbilhão desesperado que ele tentara evitar sentir durante todos aqueles meses explodia com força em sua mente, como se estivesse prestes a morrer. Seus dedos ainda vasculhavam a pele do rosto da morena, como se tentassem reconhece-la por trás das palavras seguras que ela lhe dizia.
–Ascenda a luz, Hinata. – o Uzumaki pediu, e um pequeno sorriso involuntário curvou seus lábios ao perceber que a Hyuuga estremecia um pouco sob seu toque.
–Para quê? – ela perguntou, receosa.
–Preciso ver você. – Naruto falou, as palavras soando como uma súplica desesperada.
Hinata ficou em silêncio, e tudo o que o loiro ouvia era a respiração pesada e incerta da garota que ainda estava sobre ele.
–Talvez não seja uma boa ideia. – a morena disse, a voz fraquejando pela primeira vez naquela noite. Tinha medo de que Naruto não a reconhecesse sob as marcas de amadurecimento em seu rosto, em sua alma, mas tinha medo, acima de tudo, de enfim poder vê-lo e deixar seu coração se alegrar pela presença do Uzumaki apenas para sofrer tudo de novo se ele partisse ou, pior ainda, deixar-se iludir pela esperança de um futuro feliz ao lado dele quando poderiam estar prestes a perderem as vidas.
–Você não quer me ver? – a voz de Naruto soava cada vez mais baixa, mais intensa, os dedos ainda deslizando pela pele do rosto de Hinata. Sentiu o chakra de Kyuubi alastrar-se por suas veias, querendo roubar-lhe o controle de seu corpo. Por que ela não queria vê-lo? Seu coração apertou com mais intensidade, a mente vacilando rumo à insanidade.
–Não. – ela respondeu, ouvindo Naruto suspirar de frustração.
Sem qualquer aviso, ele rolou o corpo sobre o dela, ficando por cima, percebendo Hinata mover um dos punhos em sua direção na intenção de imobilizá-lo. Porém, Naruto foi mais rápido, agarrando os pulsos da morena e grudando-os ao chão, um de cada lado da cabeça de Hinata – dessa forma ela não poderia usar aquele poder estranho em seu corpo. Ele sorriu no escuro, repentinamente bem-humorado, e aquilo o surpreendeu. Aos poucos, o simples toque de Hinata fazia com que ele voltasse a ser o que era, recobrasse a confiança em si, recuperasse as forças que achava ter perdido.
–Por que não quer me ver? – a voz de Naruto soou como um rosnado. Seus pensamentos se voltaram para a noite em que disse a ela coisas que não deveria, e repentinamente a lembrança de Kiba se fez presente em sua mente. Será que aquele cachorro tinha alguma coisa a ver com a frieza de Hinata?
A Hyuuga continuou em silêncio, sentindo Naruto apertar seus pulsos com força.
O loiro inclinou o corpo sobre o dela, colando os lábios na orelha de Hinata. Poderia suportar tudo, poderia lutar, poderia se despedaçar, mas não conseguiria ouvi-la dizer que não queria vê-lo, tocá-lo, senti-lo. Ele a levaria dali a força, se fosse necessário, porque Naruto tinha certeza de que nada poderia aplacar o que sentia por ela – nada exceto as palavras de rejeição que ela cuspia como ácido em sua direção.
–Por que não quer me ver, Hinata?! – ele insistiu, movendo os lábios sobre a pele da orelha da Hyuuga em um rosnado baixo e frustrado, enquanto percebia o busto da garota subir e descer num suspiro de agonia.
Os lábios de Naruto desceram até o pescoço da morena, deixando rastros de fogo pela pele pálida que ele não via, mas sentia. Somente aquilo, porém, não era suficiente, não mais. Os sentimentos de ciúme, loucura, desespero e saudade se confundiam em sua mente, envolvendo-o em uma nuvem de insanidade. Ele passou a língua pelo pescoço de Hinata, sentindo-a estremecer novamente.
–Porque não quero mais você na minha vida. – Hinata insistiu, mas suas palavras não soavam mais com tanta confiança. Respirar se tornara difícil desde que Naruto inverteu a situação, ficando sobre seu corpo, abalando as estruturas das certezas que ela havia construído durante todo aquele tempo. Ela se preparou para abrir mão de tudo aquilo, para se despedir, para dar a própria vida em troca da dele, mas Naruto dificultava tudo quando a tocava daquela maneira – Eu não quero você.
A risada irônica do loiro soou por todo o cômodo escuro, enquanto seus dedos apertavam os pulsos de Hinata com ainda mais força. Seus lábios desceram para o colo, vasculhando a pele exposta pelo decote que ele não via, mas Naruto não precisava da visão para auxiliá-lo naquele percurso. Ele conhecia todas as curvas e todos os caminhos do corpo da morena – os dias enlouquecedores que passou sem ela foram suficientes para imprimir em sua mente a imagem permanente da pele dela junto à sua.
Quando seus lábios arrastaram-se pelo colo de Hinata, Naruto a ouviu arfar novamente, os pulsos se movendo na tentativa de se soltar, mas ele não a deixaria livre tão facilmente.
–Os Hyuugas estão ensinando você a mentir? – ele acusou, irônico — Posso não estar te vendo, mas conheço seu corpo melhor do que você mesma... Principalmente porque não parei de pensar nele um dia sequer durante esses meses. Consigo sentir a fraqueza na sua voz. Consigo sentir que está mentindo, porque não posso admitir que essa distância e essa saudade também não estejam te matando.
Ela não conseguiu responder. Tinha medo de que sua voz denunciasse o desejo que crescia e fazia seu corpo inteiro ansiar pelo toque de Naruto.
Em sua consciência ecoavam as palavras que Sasuke lhe dissera tão logo ele teve a ideia de fazer aquela festa.
“-Se quer entrar nessa comigo, terá que estar preparada para o fato de que tudo pode acabar no dia do seu aniversário. E quando digo “acabar”, é porque essa pode ser a ultima vez que você verá Naruto. Você terá pouco tempo com ele, então, prepare-o. Caso o pior aconteça, faze-lo pensar que você não quer mais vê-lo talvez amenize a dor que ele sentirá se perder você de vez.
–Preciso mesmo fazer isso? – ela perguntou, receosa.
O mestre suspirou.
–Se você realmente o ama, precisa se preparar para perde-lo. Para entrar nessa guerra, precisamos estar dispostos a arriscar nossas vidas em nome daqueles a quem amamos.
Hinata assentiu, sabendo que Sasuke sabia bem do que estava falando. Afinal, ele havia aberto mão de tudo em nome daquilo que achava ser o certo... Em nome do amor...”
–Eu quase enlouqueci, sabe? – o loiro prosseguiu, as palavras soando abafadas pela pele de Hinata, da qual ele se recusava a se afastar — Cheguei a pensar em te arrastar daqui, porque já não aguentava mais sentir tanta saudade... E foi o inferno pensar que você talvez estivesse me odiando por causa de tudo o que eu disse, de tudo o que eu fiz...
–Eu odeio você. – Hinata interrompeu, esforçando-se para soar o mais confiante possível. Logo sentiu os lábios de Naruto afastarem-se de sua pele, e não pôde deixar de lamentar mentalmente por isso.
Ele ficou em silêncio por um instante, como se a fitasse através do véu escuro que envolvia o quarto.
–Mentira. – a voz incrédula do Uzumaki se fez ouvir novamente, falhando pelo súbito nervosismo que voltava a se fazer presente em seu coração.
Percebendo aquele momento de fraqueza, Hinata resolveu aproveitar-se da situação para tentar voltar a ter o controle em suas mãos.
–É verdade. – ela continuou, sentindo as mãos de Naruto afrouxarem o aperto em seus pulsos – Você me abandonou, como todos os outros fizeram. Traiu minha confiança, traiu os sentimentos que você mesmo ajudou a libertar. Você feriu meu coração, porque eu esperava ser abandonada por qualquer um, menos por você... E tudo o que eu aprendi a sentir se transformou no vazio que agora sustenta o meu poder. Você sabe, não sabe? Sobre você e eu... Sobre nossos poderes. Sobre como estávamos fadados ao fracasso desde o começo, sobre como estou destinada a matar você.
Naruto ficou em silêncio, assimilando as palavras duras que lhe estavam sendo ditas. Cada uma delas se transformava em uma dolorosa ferida em seu coração, mas ele não se importava. Desde que conseguisse fazer Hinata entender que seu coração não tinha mais forças para bater longe dela, nada mais importava.
Ele novamente viu o precipício se estender à sua frente, o chão aproximando-se rapidamente de seu corpo.
–Faça. – o loiro murmurou.
–O quê? – a Hyuuga grunhiu, confusa.
–Faça. – Naruto repetiu, soltando os pulsos da morena e deslizando as mãos até as de Hinata. Ele entrelaçou os dedos nos dela, sentindo-a ficar paralisada sob seu corpo – Me mate. Acabe comigo.
–Do que você está...
–Se magoei seu coração dessa maneira, se você realmente me esqueceu, se me odeia, não tenho mais motivos para continuar com isso. Me mate. Estou pronto.
–Na-Naruto...
–Ou você me mata, ou aceita que nasceu para ser minha e de mais ninguém. Não ligo para profecias idiotas, não ligo para o que dizem sobre nossos poderes. Se não me matar, nunca vai conseguir se livrar da minha insistência, porque não vou desistir de você Hinata. Não vou desistir de nós.
Hinata não respondeu. Ficou em silêncio, sem saber como reagir às palavras de Naruto.
–Não vou deixar você sair desse quarto antes de te ter mais uma vez, antes de te ouvir admitir que sentiu minha falta, porque eu já arrisquei tudo vindo até aqui. Minha sanidade, meu coração... Minha vida está nas suas mãos, faça o que quiser com ela. Não me importo. Mas não me mande embora, porque eu não vou, não mais. Também não vou deixar você ir. Estamos atados pelo destino, não estamos?
–Não. – ela finalmente falou, ouvindo-o suspirar pesadamente – Não estamos mais. Eu segui com a minha vida... Siga com a sua. Sou dona do meu destino, e tenho certeza de que você não faz mais parte dele.
Ele novamente estremeceu com a dureza daquelas palavras, sentido seu coração se preencher com a suspeita que o assombrava há tantos meses.
–Tem outra pessoa? – Naruto perguntou, receoso.
–E se tiver? — As palavras irônicas da Hyuuga o atingiram na escuridão.
Hinata então ouviu o rosnado furioso de Naruto ecoar pelo quarto, o som ameaçador aranhando seus tímpanos.
–Quem?! – ele gritou, novamente apertando os pulsos da morena. Ela tentou se reerguer, mas ele a empurrou de encontro ao chão – Quem?! – Naruto insistiu.
–Não interessa! – ela gritou em resposta, percebendo que o loiro estava prestes a perder o controle de vez.
Irritado, Naruto avançou na direção do rosto de Hinata, a fim de grudar os lábios nos dela, porém, mesmo na escuridão, ela percebeu a intenção do loiro e virou o rosto, sentindo-o estremecer sobre seu corpo.
–Quem mais tocou você, Hinata?! – ele sibilou de encontro à orelha da morena.
–Nã-não interessa... – ela respondeu fracamente. Por quanto tempo mais suportaria aquilo?
–QUEM MAIS?! – ele gritou, largando um dos pulsos de Hinata e socando o chão com força o bastante para fazer o quarto estremecer.
–Eu já disse, Naruto... – ela falou, a voz entrecortada pelos suspiros de desespero que lhe dificultavam a fala – Eu não quero mais você. Eu te odeio! EU TE ODEIO!
Hinata sentiu o Uzumaki desabar sobre seu corpo, atingido pelas palavras que ela gritava para ele. O loiro afundou o rosto em seu pescoço, e a Hyuuga sentiu sua pele sendo molhada pelas lágrimas que rolavam fartas dos olhos de Naruto.
–Não... – ele murmurou, atormentado. Não podia ser tarde demais, ele não podia ter estragado tudo. Naruto se recusava a acreditar que tudo estava acabado, que havia perdido a única pessoa capaz de despertá-lo verdadeiramente para a vida.
Não, aquilo não estava acontecendo.
Sem conseguir se conter, Hinata deixou escapar de seus lábios o soluço baixo que revelava o pranto dolorido que ela tentava a todo custo sufocar. Seu coração latejava, como se cada célula de seu corpo rejeitasse as palavras mentirosas que dizia, como se sua mente se recusasse a compactuar com o sofrimento de Naruto.
–Faça... – o loiro murmurou de repente, interrompendo os devaneios silenciosos de Hinata – Acabe com isso. – ele pediu baixinho.
Ainda sentindo-o pesar sobre seu corpo, Hinata novamente soluçou, as lágrimas rolando por seu rosto sem que ela pudesse controla-las.
–Vamos! Faça! – ele insistiu, impaciente. Se fosse para prosseguir sem ela, o Uzumaki preferia a morte, e que maneira melhor de partir se não pelas mãos de Hinata? Ela já o estava matando desde que partiu de sua casa, de sua vida – Faça! Me mate!
De repente, Naruto sentiu uma forte rajada de chakra atingir seus ombros, empurrando-o bruscamente de encontro à parede, obrigando-o a sair de cima de Hinata. Antes que ele pudesse levantar os olhos para a escuridão, a fim de entender o que estava acontecendo, um chute certeiro o atingiu no estômago, fazendo seu corpo arquear de dor.
Ele então caiu novamente de joelhos, percebendo outro golpe certeiro encaminhando-se em sua direção, e de forma involuntária, seus braços se moveram para agarrar o punho que iria acertá-lo, para em seguida empurrar Hinata para longe. Naruto ouviu o barulho de saltos deslizando pelo chão, para em seguida se dar conta de que a morena novamente avançava para onde ele estava.
Dessa vez, porém, Naruto ficou parado e fechou os olhos, esperando que a morte lhe viesse rápida, sentindo o impacto das mãos poderosas de Hinata, que agora agarravam seu pescoço, empurrando-o com força em direção à janela. Ele ouviu o barulho do vidro sendo estilhaçado de encontro à suas costas, mas não abriu os olhos, não importava mais. Conformado, ele esperou pelo golpe final. Estava entregue. As palavras de Hinata já o haviam matado. Não restava nada mais dele para continuar a viver.
Mas a morte não vinha.
O loiro suspirou, ponderando que a Hyuuga deveria ter sido misericordiosa, pois não sentia dor física. Em compensação, seu coração ainda pesava, e Naruto achava que, onde quer que tivesse ido parar depois que Hinata o acertara fatalmente, aquilo devia ser algo como o inferno, pois a dor da saudade ainda o queimava vivo.
Foi quando notou que havia algo errado e resolveu abrir os olhos.
“Você não pode me ouvir chorar
Veja todos os meus sonhos mortos
(...)
Quando você me disse que iria embora
Eu senti que não podia respirar
Meu corpo dolorido caiu no chão
Então eu chamei você em casa
Você disse que não estávamos sozinhos
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Agora dói muito mais”
So Cold, Ben Cocks
E a primeira coisa que viu foram os olhos de Hinata fitando-o com doçura, iluminados pela luz da lua que entrava pela janela quebrada atrás de si. O rosto pálido dela estava marcado pelos rastros das lágrimas que desciam e encontravam os lábios curvados em um pequeno sorriso.
–Naruto... – ela murmurou, vendo-o piscar, confuso.
Hinata não o matara. Ele ainda estava vivo, e seu coração agitava-se de forma desconfortável dentro do peito, voltando a martelar nos ouvidos de Naruto. O que estava acontecendo? Por que ela não acabava de uma vez com seu sofrimento?
Os olhos dela estavam fixos no rosto do loiro, e Hinata não podia deixar de pensar na ironia de ser obrigada a vê-lo. Naruto estava certo, seus destinos estavam entrelaçados, e ela sabia que não havia como fugir disso. Ela sabia também que encarar aqueles olhos seria fatal para a coragem que pensou ter construído para faze-lo ir embora de sua vida. O rosto de Naruto, iluminado pelas luzes que atravessavam a janela quebrada, estava marcado pela dor que suas palavras provocaram, e Hinata se arrependia por ter tentando magoá-lo, pois a agonia que atingia o loiro era a mesma que a tragava em ondas de saudade e desespero.
–Tolo... – ela murmurou, vendo-o piscar, confuso – Como pôde achar que eu poderia odiar você? Como pôde duvidar do que sinto dessa maneira?
–O que... – Naruto tentou falar, mas não conseguia. Não entendia. O que estava acontecendo?
–Eu amo você, seu loiro bastardo... Amo você mais que minha própria vida. Como pôde acreditar que eu poderia te odiar? Como pôde achar que as marcas que você deixou em minha vida, em meu coração, poderiam ter sido apagadas tão facilmente?
O Uzumaki piscou novamente, sentindo seu coração falhar uma batida. Novas lágrimas se acumulavam em suas pálpebras, embaçando sua visão. Se Hinata estava mentindo, aquela era a brincadeira mais cruel que ela poderia fazer.
Ele rapidamente a agarrou pelos ombros, encostando-a na parede ao lado da janela quebrada. A luz da lua iluminava um dos olhos de Hinata, enquanto o outro era coberto pela escuridão que ainda se alastrava por parte do quarto.
A morena não reagiu, sentindo as mãos de Naruto agarrarem-na com força.
–Por que está fazendo isso?! – ele gritou, descontrolado, inconformado, sem conseguir acreditar nas palavras que lhe estavam sendo ditas.
–Eu te am...
–Não diga isso pra mim! – ele interrompeu, socando a parede com força. – Não me engane desse jeito! – rosnou, com raiva e confuso. Talvez tivesse mesmo morrido, e estivesse em algum tipo de paraíso sombrio, onde Hinata continuava a enganá-lo, mas não se deixaria manipular daquela maneira. Talvez sua mente estivesse lhe tragando em uma cruel ilusão, mas ele preferia as trevas do que ter que ouvir aquelas palavras mentirosas.
–Naruto, me escute... – Hinata tentou, mas novamente sentiu os dedos do loiro cravando-se em sua pele como garras.
–Não! – ele interrompeu – Pare com isso!
Percebendo que o Uzumaki não a ouviria, Hinata ergueu os punhos, acertando o peito do loiro, fazendo-o cambalear para trás. Ele estava prestes a reagir, mas a garota foi mais rápida, empurrando-o de volta para a luz que entrava no quarto. Os olhos iluminados de Hinata fitaram Naruto com seriedade enquanto ela o segurava pelos ombros, forçando-o a encará-la.
–Escute, idiota! Eu te amo! – ela afirmou, as pérolas brilhando para Naruto como estrelas.
O loiro a encarou, perplexo. Seu corpo não se movia. Sua boca não expressava nenhum dos sentimentos confusos que apertavam seu peito. Sua mente não se agitava com pensamento algum.
Mas não havia como negar a certeza e a verdade estampadas nos olhos perolados que o fitavam com intensidade.
–Não sei lidar com isso... – ele enfim murmurou, transtornado, ainda sem conseguir assimilar o desespero que se apossava de seu coração, fazendo sua mente ser invadida pelo medo de estar apenas sonhando.
Hinata sorriu.
–Apenas seja meu... – a morena falou, repetindo as palavras que Naruto lhe dissera na primeira vez em que ela se entregara à ele – Isso é tudo o que você tem que fazer.
Ainda paralisado, ele apenas a fitava, maravilhado. Se estivesse morto, com certeza estava preso em seu paraíso sombrio particular. Se estivesse sonhando, não queria acordar.
Impaciente, desobedecendo todas as ordens de seu mestre, quebrado todas as regras, jogando o plano de Sasuke para o ar, Hinata agarrou o rosto de Naruto, trazendo-o para perto, e sob a luz da lua, ela o beijou.
O precipício se estendeu diante dos dois.
E eles voaram juntos.
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