Paraíso Sombrio
14 Marcas do corpo, feridas da alma
Notas iniciais
Sakura caminhava apressada pelos corredores do hospital, o jaleco branco balançando-se em seu corpo a cada passo que avançava. A expressão da rosada era cansada e ao mesmo tempo vincada de seriedade.
Desde o enterro de Sasori, Sakura havia se afundado no trabalho, tentando esquecer de tudo o que havia acontecido. Não queria ter de pensar na dor pela qual seus amigos estavam passando, nem em sua família desmoronando. Não queria pensar que, apesar de todo aquele sofrimento, ela estava sendo inútil. Não queria pensar no que quer que fosse o motivo que levava Sasuke a agir daquela maneira. Nem em Gaara abandonando seus amigos, na dor e solidão que Ino devia estar sentindo. E a rosada conhecia bem aquele sentimento de abandono...
Entrou em seu consultório, fechando a porta, caminhando até sua mesa, que estava repleta de papéis, laudos que ainda precisavam de sua assinatura, pilhas e pilhas de possíveis diagnósticos e, no meio de toda aquela confusão, dois porta-retratos. Uma das fotos era do dia de seu aniversário, no ano passado. A surpresa que seus amigos haviam feito para ela, o bolo decorado por Ino, o braço de Naruto enlaçado em seus ombros, sorrindo como um menino, enquanto Sasuke segurava sua mão discretamente. Entre os dois garotos, rodeada por seus amigos, Sakura sorria, feliz.
O pingente em seu pulso cintilou, reavivando as memorias daquele dia. O presente de Sasuke, que até hoje ela carregava consigo: a pulseira com o símbolo da família Uchiha, atrás, as palavras “Minha Sakura” gravadas. A rosada usava aquele presente todos os dias desde então, até mesmo quando ele abandonou a todos, e sempre que se encontravam, ela tinha esperanças de que, ao vê-la usando aquele símbolo, Sasuke compreendesse que ela ainda era dele, e que esperaria o tempo que fosse necessário.
Mas depois de tudo o que havia acontecido recentemente, ela já não tinha tanta certeza se aquilo valia de alguma coisa.
A rosada jogou-se em uma cadeira. Como se já não bastassem todos os problemas em sua vida pessoal, estava aflita por ter três pacientes em estado tão grave que ela sabia ser impossível salvá-los. E mesmo que suas habilidades estivessem além da medicina tradicional, existiam limites que nem mesmo seu poder conseguia ultrapassar, o que fazia com que ela se sentisse ainda mais frustrada e impotente.
Olhou para a outra fotografia. Nela, Sasuke exibia um meio sorriso ao seu lado, em uma festa na casa de Naruto. A rosada suspirou. Tudo era tão diferente naquela época! Sasuke, Naruto e Sakura eram inseparáveis. As vezes, a rosada se perguntava se Naruto estaria magoado pelo fato de que a Haruno mal aparecia em sua casa desde que Sasuke filiara-se à Akatsuki. Mas Sakura sabia que o loiro tinha Ino e os outros para lhe fazer companhia, e que ele entendia como ela se sentia. Mesmo assim, as lembranças despertadas por aquela fotografia fizeram com que a rosada se afundasse ainda mais em tristeza.
Sakura amargurava o dia em que havia deixado Uchiha Sasuke entrar em sua vida – e em seu coração, diga-se de passagem.
Obviamente, ele nunca havia sido do tipo sentimental. Nunca foi de demonstrar o que sentia, ou de grandes gestos de amor. Mas naquele tempo, Sakura achava que ele sentia algo por ela. E mesmo que ele nunca tenha dito “Eu te amo”, mesmo que nunca tenha falado para ninguém sobre o relacionamento que mantinha com ela, — embora todos soubessem – nos momentos em que estavam sozinhos, Sakura sentia que Sasuke a queria ao seu lado. A pulseira, para ela, era uma prova disso. Ele a marcara como sua. E aquilo era difícil de esquecer.
Mas das vezes em que se encontraram, depois que tudo havia mudado, ele simplesmente parecia não notar que Sakura usava a pulseira. Talvez aquilo não fizesse mais diferença alguma. E isso fazia Sakura pensar que havia se enganado durante todo o tempo em que estiveram juntos. Bastava se lembrar de que ele sempre havia sido frio, distante, como se não fosse capaz de se apegar a ninguém. Será que tudo o que viveram era uma mentira?
A rosada se lembrava de quando tudo era fácil, e sua única preocupação era a de controlar o vício alcóolico de sua mestra. As coisas costumavam ser tão simples...
“O que é que está acontecendo com a minha vida?”, ela se perguntava, em meio a todo aquele caos.
Passou a mão pelo rosto, apoiando os cotovelos na mesa. Tudo aquilo parecia um pesadelo.
–Doutora Haruno Sakura, por favor, compareça com urgência à sala de emergência. – uma voz soou no auto-falante do corredor. Mesmo com a porta fechada, Sakura podia ouvir que sua presença era solicitada – Doutora Haruno Sakura, por favor, compareça com urgência à sala de emergência. – a voz no microfone repetiu.
A rosada suspirou profundamente, levantando-se dali. Precisava trabalhar e tirar aquelas ideias de sua mente.
Mas antes, havia algo que precisava fazer. Já era hora.
Tirou a pulseira de seu braço, jogando-a sobre a mesa. O presente escorregou pela superfície, parando próximo ao porta-retrato que emoldurava sua fotografia com Sasuke. Sem olhar para trás, ela saiu de seu consultório.
Se encaminhando para a sala de emergência, Sakura tentava esquecer-se do passado ao lado de Naruto e Sasuke, do amor venenoso com o qual o Uchiha a amaldiçoara, dos laços que ele rompera. Era essa tentativa que a impedia de visitar Naruto e seus outros amigos. Queria esquecer do sentimento desesperado que ganhava terreno dentro dela a cada dia em que tinha mais certeza de que Sasuke não voltaria.
Mas o tilintar da pulseira sobre sua mesa marcava as lembranças em sua mente, assim como o Uchiha havia marcado seu coração.
“Minha Sakura”.
Sakura saiu da sala com os olhos pesados. O cansaço a estava vencendo, e não havia como fugir daquilo. Sentia que as enfermeiras começavam a esconder as garrafas de café do hospital, pois a rosada passou a se alimentar somente delas, na tentativa de se manter desperta. Caminhando lentamente pelo corredor, seus lábios se curvaram num fraco sorriso, ao perceber a preocupação de seus colegas de trabalho. Ela sabia que aqueles cuidados não eram infundados. Sakura começava a sentir seus membros latejarem, e sua visão embaçar. Não lidaria mais com nenhum paciente, pois seria perigoso; Iria se deter à papelada acumulada em sua mesa.
–Doutora Haruno... – ela ouviu uma voz familiar chamando seu nome.
Sakura levantou seu olhar com dificuldade, a visão embaçada pelo cansaço tentando focar no homem de cabelos negros que estava a sua frente.
Ele exibiu à rosada um sorriso torto, cruzando os braços e se encostando na parede.
–Sa... Sasuke? – ela piscou, sem conseguir acreditar no que estava vendo.
Ele abriu a porta do consultório da rosada, esperando que ela passasse. Sakura entrou devagar, a surpresa pela presença dele ali a deixando levemente desperta. Ela se sentou, apoiando as mãos na mesa, forçando os olhos a ficarem abertos e focarem no rosto de Sasuke.
–O que há com você hoje? – ele perguntou, vendo o estado em que Sakura se encontrava.
–Só estou... cansada.
Ele estreitou os olhos negros para a rosada. Ela pensou ter ouvido ele murmurar baixinho um “Você não vai salvar o mundo.”, mas achou que fosse delírio causado pelo cansaço e sonolência que sentia.
–O que veio fazer aqui? – ela perguntou, a voz arrastada. Estava tão cansada, e sentir-se agitada pela presença de Sasuke ali era como ter ingerido um energético no limite da exaustão. Ela sentia-se levemente trêmula, como se estivesse preste a vomitar, ou algo do gênero, o choque entre o cansaço e a tensão de tê-lo em sua sala a deixando atordoada.
–Existem coisas em seu apartamento que me pertencem. – ele falou, a voz pausada e inflexível, sem demonstrar nenhuma emoção. Por um momento, a rosada pensou ver ele estreitando os olhos novamente em sua direção, como se algo nela o tivesse chamado atenção. Mas novamente achou que aquilo era delírio seu. – Algumas roupas e papéis que deixei por lá ainda são meus. Preciso deles de volta.
Sakura ergueu uma sobrancelha. Já fazia tanto tempo desde que ele saíra de sua vida, por que aqueles objetos ganhavam importância logo agora? Que papéis eram esses? Será que tinham algo a ver com Itachi, ou com a Akatsuki?
Mas a rosada estava cansada demais para pensar ou tentar estabelecer qualquer relação coerente entre a presença dele ali e os documentos que ele deixara em sua casa – e nos quais ela nunca havia mexido. Tudo o que Sasuke esquecera em seu apartamento estava intocado em um canto isolado, para que ela não tivesse que olhar para aquilo, e lembrar-se constantemente de tudo o que havia acontecido. Já era difícil o suficiente sem ele ali; ela não precisava ficar se martirizando ainda mais com lembranças palpáveis da ausência dele em sua vida.
–Tudo bem. Me deixe apenas... – ela falou, levantando-se, para em seguida apoiar suas mãos na mesa, segurando-se para não cair com a violenta vertigem que a atingiu.
Sasuke sequer se moveu. Continuava a encará-la, sua expressão impassível.
–Há quantos dias você está sem comer ou dormir, Sakura? – ele perguntou, sua voz carregada de frieza.
–Desde que... você pediu que eu examinasse o corpo de Sasori. – ela confessou, sentando-se novamente. Depois de tudo aquilo, ele a havia arrastado até a boate de Deidara, e em seguida, após toda a confusão com Gaara, ela passara a noite em claro em um dos quartos da casa de Naruto. Havia ido direto de lá para o hospital, onde permanecera desde então.
Ele revirou os olhos e caminhou até onde ela estava. Enlaçou o braço da rosada em seu pescoço, ajudando-a a levantar.
–O que está fazendo? – Sakura perguntou, confusa, sentindo novamente seus sentidos se atordoarem.
–Tem coisas em sua casa que ainda são minhas, já disse. – ele falou, rebocando-a até a porta. Mas antes de girar a maçaneta, ele parou. Sua mão agarrou bruscamente o pulso da rosada que envolvia seu pescoço, virando-o de forma a poder constatar a ausência de algo ali.
–Ai! – ela arfou, tentando livrar o pulso da mão do Uchiha, que a agarrava com agressividade – O que está fazendo?
Os olhos negros do homem a sua frente a encararam, e Sakura fez um esforço para manter os seus abertos.
–Nada. Vamos embora. – falou, puxando-a sem delicadeza alguma.
–Minha bolsa! – ela protestou, querendo pegar seus pertences antes de ir.
Ele bufou, deixando-a junto a porta e voltando para a mesa, pegando a bolsa de Sakura. Seus olhos pousaram involuntariamente nos porta-retratos que ela mantinha ali, e algo o chamou atenção.
Apesar do cansaço, ela percebeu que o Uchiha havia detido seu olhar, mesmo que por meio segundo, na fotografia em que os dois estavam lado a lado, como casal.
–Você se lembra desse dia? – ela perguntou, se encostando na porta.
Ele passou a mão discretamente pela mesa, os dedos deslizando pela superfície, para logo em seguida colocar ambas as mãos casualmente no bolso.
–Não. Vamos embora. – respondeu, entregando a bolsa da rosada, e levando-a para fora do hospital.
Sem reagir à frieza do Uchiha, Sakura deixou-se levar, oscilando entre o sonho e a realidade por todo o caminho até sua casa.
A chegada ao apartamento de Sakura foi difícil. Durante os momentos em que Sasuke a conduziu até sua porta, a rosada não estava muito certa se conseguia distinguir o real do imaginário. Tudo o que ela percebia era que algo aborrecia Sasuke desde que saíram de seu consultório. Mas aquilo também podia ser fruto de sua mente exausta em busca de conforto.
Ao chegarem, Sakura encostou-se na porta, ameaçando a todo momento escorregar e cair no chão. Sasuke a fitou, o olhar de quem esperava alguma atitude.
–Que foi? – a rosada perguntou.
Ele suspirou.
–Onde estão suas chaves, Sakura?
–Ah... – ela revirou a memória cansada – Minha... bolsa. – conseguiu balbuciar.
O Uchiha revirou os olhos, e vasculhou a bolsa de Sakura. O tilintar das chaves logo se fez soar, e rapidamente ele destrancou a casa, e girou a maçaneta. Sakura, que estava encostada distraidamente na porta, quase caiu para dentro da casa, mas sentiu a mão de Sasuke agarrar sua cintura, impedindo a possível queda.
Mas ela estava cansada demais para protestar ou se animar com aquela atitude, de modo que apenas continuou deixando-se ser conduzida para o quarto. Ele a sentou na cama, ajoelhando-se aos pés dela, de modo a fita-la nos olhos.
–Sakura? – chamou, querendo despertá-la da nuvem de torpor sonolenta na qual ela parecia estar imersa – Sakura, olhe para mim. Onde estão minhas coisas?
–Ahn... o quê? – ela falou, estreitando os olhos, confusa.
Sasuke bufou, impaciente.
–Minhas coisas, Sakura. Tem coisas em sua casa que ainda são minhas.
–Sim... estão... no armário, nos fundos. Eu... não queria ter que... ficar olhando para elas. – ela falou sem pensar, o sono impedindo-a de medir as palavras.
Sasuke apenas assentiu. Fez menção de se erguer, mas deteve-se por um momento, fitando os olhos entreabertos de Sakura. Ela parecia realmente cansada. Será que se lembraria que ele esteve ali?
–E você, Sakura? Ainda é minha?
Os olhos verdes que antes estavam quase fechados pelo sono agora se abriram um pouco. Ela ainda não estava totalmente consciente do que se passava, talvez sequer tivesse ouvido o que ele dissera.
O Uchiha tirou algo do bolso, que reluziu contra a luz do quarto. Com a visão embaçada, a rosada pensou ter visto sua pulseira nas mãos de Sasuke, lembrando-se vagamente de quando ele fitava as fotografias sobre sua mesa, no hospital, onde ela havia jogado o presente. Lembrava-se também de vê-lo deslizar casualmente os dedos sobre a superfície plana, para em seguida colocar as mãos no bolso...
Sasuke observava o objeto, e sua expressão era quase de fúria.
–Por que você não a usa mais? – ele sussurrou, mais para si mesmo. Não esperava que ela o estivesse ouvindo, afinal.
Sakura franziu o cenho, tentando manter suas pálpebras firmes. Ela queria abrir os olhos, queria falar. Sentia a cafeína esgotando-se em seu sangue – não restava ali mais nada que a forçasse a seguir desperta.
A mão do Uchiha ergueu-se até o queixo da rosada. Ele forçava o rosto de Sakura a encará-lo, mesmo que os olhos dela estivessem quase fechados.
–Por que você não usa mais a pulseira? – ele sibilou as palavras. Seus olhos agora estavam vermelhos de raiva. Sasuke sabia que ela não podia ouvi-lo, e talvez sequer o estivesse vendo. Sentiu o sangue ferver. Será que ela tinha outro homem em sua vida? Será que o havia esquecido? Por que ela jogara a pulseira em um canto qualquer de sua mesa de trabalho?
Apesar de nunca ter falado nada a respeito, apesar de sempre se manter frio e distante, ver Sakura usando a pulseira com a qual ele a havia presenteado era um sinal de que nem tudo estava perdido para ele. Era como se, ao vê-la usando aquele símbolo, ele pudesse compreender que ainda tinha um lugar para onde pudesse voltar, quando tudo acabasse. Ele achou que ela esperaria por ele, que tudo voltaria ao normal, quando finalmente tivesse atingido seu objetivo. Sabia das consequências de sua escolha, e achava que podia suportar perder o amor e respeito de seus irmãos, de sua família, mas jamais a dor de perder o amor daquela mulher.
–Droga, Sakura! – ele novamente sibilou, e a mão que antes estava no queixo de Sakura agora movia-se para o pulso livre da rosada.
–Sa... Sasuke... – ela tentou reagir, ao perceber que ele apertava seu braço.
O Uchiha recolocou a pulseira no pulso de Sakura. Ergueu um pouco o corpo, puxando a rosada pela nuca, colando sua testa na dela. A Haruno parecia uma boneca, manipulada pelo homem a sua frente.
–Você não pode desistir de mim... você é a pessoa mais irritante que eu conheço, por nunca desistir de nada... você não pode desistir justo de mim. Você... é... MINHA!
Sakura fechou os olhos, sem conseguir mais conter a nuvem negra que teimava em levá-la para a inconsciência. Estava cansada demais, e finalmente deixou-se vencer pela exaustão. Seu corpo desfaleceu debilmente nos braços de Sasuke. Ele a deitou na cama, fitando-a.
Talvez, a escolha que havia feito tenha exigido dele um preço alto demais a ser pago.
–Eu odeio você, Haruno Sakura. Sua criatura irritante, persistente e ridiculamente bondosa. Eu odeio você... Minha Sakura. – sussurrou, olhando a pulseira que jazia novamente no pulso da rosada. E antes de partir em busca de suas coisas, um sorriso sádico formou-se em seus lábios.
Em sua mente, que por vezes ele percebia despertar pensamentos doentios, Sakura o pertencia, e ele mataria sem pensar duas vezes o homem que se aproximasse dela. Aquilo lhe soava repulsivo, e egoísta, mas para o Uchiha, as coisas eram assim. Sakura era dele. E mesmo que soubesse que aquilo beirava a psicopatia, não se conteve.
O sorriso se alargou em seu rosto.
Aproximou-se de Sakura, apoiando as mãos e joelhos na cama, sobre o corpo da rosada. Ela já parecia estar no mais profundo sono, e sequer se moveu quando o Uchiha aproximou o rosto de seu pescoço, os cabelos negros contrastando com o jaleco branco que ela ainda usava.
Uma das mãos de Sasuke afastou o tecido branco, e desceu a alça da blusa que ela vestia por baixo do jaleco. Os lábios do Uchiha roçaram a clavícula da rosada, a língua arrastando-se por todo o caminho até o queixo da mulher. Mesmo com o leve calor do corpo de Sasuke sobre o seu, ela não despertou.
Os dentes do Uchiha arranharam a pele de Sakura, e ele cravou um pouco as mãos no lençol, impedindo-se de forçar seu corpo contra o dela. O sabor da pele da rosada continuava o mesmo de que ele se lembrava.
A língua novamente passeou pelo pescoço dela, até o ponto em que ele queria chegar.
Sua boca sugou a pele de Sakura com força, fazendo a rosada se mexer um pouco, quase despertando pela dor causada. Quando o moreno ergueu o rosto para admirar sua obra, lá estava: um pequeno lembrete de que ela ainda o pertencia. Seu território marcado, seu rastro desenhado no que ele considerava sua propriedade.
A marca de sua boca na pele de Sakura lhe dava a certeza doentia de que ela o esperaria, não importava o que ele fizesse. Ela era dele.
Sasuke sorriu ao sentir seus pensamentos beirando à insanidade. Estaria ficando louco?
Não. Não era loucura ter certeza de que Sakura o esperaria.
Em sua mente obsessiva, Sasuke tinha essa convicção.
Ela era dele, e de ninguém mais.
A rosada despertou, os olhos abrindo-se lentamente para aquela madrugada. Virou-se preguiçosamente para o relógio em sua cabeceira. Quatro da manhã. Por quando tempo dormira?
Mas antes que pudesse reclamar pelo fato de que havia perdido seu plantão no hospital, sua mente foi tomada pelas lembranças embaçadas da noite anterior. Sakura ergueu o corpo da cama, o cenho franzido, tentando distinguir se aquilo havia sido sonho ou realidade.
Afastou os lençóis, saindo da cama e correndo para os fundos do apartamento. Viu que o armário onde guardava as coisas que Sasuke deixara em sua casa estava aberto. Não tinha mais nada dentro.
Não havia sido sonho. Ele estivera ali.
Ela se encostou na parede, tentando se concentrar. Vasculhou sua memória, tentando enxergar por trás das lembranças embaçadas. Não conseguia se lembrar direito de nada.
Resolveu então ir até o banheiro, e na tentativa de clarear sua mente, abriu a torneira, jogando um pouco de água fria no rosto, e quando ergueu a cabeça para se fitar no espelho, reparou algo além das olheiras.
–Mas o que... – ela falou, levando a mão até o pescoço. Alí, claro como o dia que começava a nascer, estava a marca da boca de alguém. Mas aquela não era a única surpresa. Seus olhos se arregalaram ainda mais ao perceber que, no pulso que erguera para analisar a mancha em sua pele, estava a pulseira que Sasuke havia lhe dado.
Alguém a recolocara em seu braço.
Ela deu um passo para trás, a expressão cada vez mais confusa. O que havia acontecido na noite passada, afinal?
Sakura tentou se concentrar novamente em suas lembranças embaçadas. Nada parecia fazer sentido, e isso fazia com que a rosada se sentisse cada vez mais inquieta. Ela vasculhou sua memória mais uma vez, em busca de algo que lhe desse pistas do que havia acontecido.
Algo rasgou sua mente, as palavras de Sasuke soando como um sussurro em sua memória.
“Eu odeio você... Minha Sakura.”
A rosada sorriu com a lembrança. Havia esperança, então? Valeria a pena arriscar?
Ela começou a se despir. Ligou o chuveiro, deixando a água quente cair sob seus músculos tensos e cansados. Não queria pensar naquilo. Era melhor simplesmente apagar de sua memória o que ela considerava uma lembrança real.
No pulso, o presente do Uchiha cintilou contra a luz do banheiro.
“Minha Sakura.”
Afinal, mesmo que ela quisesse, não poderia se desprender de Sasuke. Ele já a havia dominado completamente.
No aeroporto, Naruto e Hinata aguardavam a chegada do ilustre mestre. A garota podia sentir o quanto o loiro estava ansioso. Ela estava sentada, enquanto Naruto andava de um lado para o outro, coçando a cabeça.
–Ele está atrasado. – o loiro resmungou.
–Seja paciente. Ele já deve estar desembarcando. – Hinata tentou tranquiliza-lo.
Ele assentiu, mas continuou de pé. Esfregou as mãos do rosto, impaciente.
Alguns minutos se passaram. O loiro olhou para o relógio em seu pulso pela milésima vez. Onde estava Jiraya?
–Yo, Naruto! – ouviram alguém chamar.
Hinata viu a expressão vincada do loiro se transformar. No rosto de Naruto se estampou um sorriso franco e aberto, como o de um menino, os olhos azuis brilhando de contentamento. Ele suspirou de alívio ao ver o mestre caminhando em sua direção, com o mesmo sorriso e o mesmo contentamento nos olhos.
–Ero-sennin! – ele respondeu ao cumprimento, abraçando o mestre. Jiraya o abraçou com a ternura de quem recebe um filho que não vê há muito tempo, envolvendo o rapaz num aperto quase sufocante. Logo em seguida, o mestre olhou para Hinata, sorrindo docemente para ela.
O coração de Jiraya se encheu de esperança. Ela estava ali. O futuro de seu discípulo. Enfim, o momento em que tudo seria decidido na vida de Naruto estava se aproximando, e Jiraya sentia o peso da responsabilidade pesando sobre seus ombros. Saberia conduzir o rapaz que considerava um filho até a liberdade e felicidade?
O sennin sorriu ainda mais, satisfeito. Apesar de todas as dificuldades, tudo estava se encaminhando como estava escrito no destino do Uzumaki.
Ao desvencilhar-se do abraço esmagador de Jiraya, os olhos de Naruto se estreitaram para a pessoa que caminhava logo atrás de seu mestre, a expressão se transformando de feliz para confusa.
Enquanto os dois se aproximavam, o loiro viu a expressão de Hinata mudar também. E não era por finalmente conhecer Jiraya. Ela encarava atentamente o rapaz que caminhava distraidamente junto ao mestre de Naruto com as mãos na nuca. E, para a surpresa do loiro, o rapaz sorriu para ela.
A morena se ergueu subitamente da cadeira, os olhos perolados arregalados de surpresa.
–Ki... Kiba?!
O recém-chegado sorriu para ela, encarando-a com um olhar divertido.
–Oi, Hinata!
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