Paraíso Sombrio
46 Flor do deserto
Notas iniciais
Temari procurava o banheiro já fazia quinze minutos. Por que aquela maldita casa tinha que ser tão grande?
Desnorteada, ela continuava a andar pelo corredor mal iluminado da mansão, tentando identificar onde poderia encontrar um banheiro. Havia deixado seu grande leque apoiado em uma das paredes do salão, pois achou que não iria precisar dele até que ouvisse o sinal de que Orochimaru estava na mansão. As luzes por ali estavam escassamente acesas, já que a maior movimentação se concentrava do lado de fora, onde acontecia a festa. Enquanto a Sabaku passava pelas inúmeras portas daquele lugar, as sombras das paredes e das luminárias elegantes dançavam sobre sua pele, formando estranhos desenhos em seu corpo a cada passo que ela avançava.
Caminhando distraidamente pelo corredor, os pensamentos fixos nas palavras e expressão duras de Shikamaru, Temari quase não percebeu o barulho baixo que deixava evidente a presença de alguém ali. Ela olhou para trás, de onde parecia vir a movimentação, mas viu apenas a curva do enorme corredor.
Sem deixar-se enganar pela aparente calmaria, a loira concentrou chakra em uma das mãos e continuou a caminhar pelo corredor vazio, atenta a qualquer sinal de perigo. Seus sentidos estavam em alerta. Nada lhe passaria despercebido.
Porém, ainda havia algo que seu vento não poderia cortar ou descobrir, e para o qual ela não estava tão desperta. Antes mesmo que pudesse perceber, antes mesmo que pudesse esboçar qualquer reação, a Sabaku sentiu as sombras das luminárias ao seu redor prenderem-lhe as pernas e empurrarem-na com força contra uma das portas do corredor.
Com o baque, a porta se abriu, fazendo com que Temari fosse jogada para dentro do cômodo completamente escuro.
Em pânico, seus olhos tentaram se fixar em algo que lhe indicasse um interruptor, para que pudesse ascender a luz, mas antes que tivesse a chance de se concentrar naquilo, ouviu a porta sendo fechada com força e passos pesados avançando em sua direção.
–Quem está ai? – Temari perguntou, mantendo a voz baixa, agora concentrando chakra nas duas mãos. Se sentisse que aquela presença suspeita estava se aproximando, ela atacaria sem hesitar.
Mas, como resposta, tudo o que ela ouviu foi o silêncio, cortado apenas por um pesado e impaciente suspiro.
–Caso não se identifique, irei mata-lo sem me importar. – a loira ameaçou.
Mas, novamente, havia apenas o silêncio.
–Sasuke? – Temari perguntou, lembrando-se que aquele tipo de atitude idiota era bem a cara do Uchiha quando queria se comunicar com ela – Se for você, apenas pare com essa palhaçada e apareça logo se não vou acabar cortando sua garganta.
Silêncio.
Temari então concentrou o chakra nas mãos com mais intensidade, separando um pouco as pernas, preparando-se para se defender ou atacar.
–Que seja. – ela murmurou, concentrando-se na presença estranha naquele quarto. Acabaria logo com aquilo e voltaria para a sua busca pelo banheiro, para em seguida ir aproveitar a festa.
Mas a Sabaku logo sentiu mãos fortes segurando firmemente seus pulsos, imobilizando seus braços.
Ela tentou a todo custo se libertar, e vendo que estava realmente com os pulsos presos, tratou de enterrar o salto que usava no pé do inimigo, mas ele desviou, atirando-a com força em algo estofado e macio que parecia ser uma cama. Era difícil dizer, já que as sombras envolviam o local em completa escuridão, impedindo Temari de enxergar um palmo sequer à sua frente.
–O que diabos você quer?! Se identifique! – ela exigiu, apavorando-se ao sentir um corpo subindo na cama e movimentando-se sobre o seu, novamente agarrando seus pulsos e grudando-os ao colchão, um de cada lado de sua cabeça – O que está pretendendo, desgraçado?! – perguntou, sacudindo o corpo em relutância ao sentir os lábios do inimigo grudarem-se à sua orelha.
–Não achei que você se esqueceria assim tão facilmente das minhas sombras. – a voz masculina familiar soou em seu ouvido, fazendo-a arfar.
–Shikamaru? – Temari perguntou num fio de voz, suspirando de alivio – Que diabos você pensa que está fazendo? Por que envolveu o quarto com seu jutsu, tá maluco?
–Eu sei a verdade. – o Nara respondeu, ainda segurando os pulsos da Sabaku com força de encontro ao colchão — Por que não me contou?! Por que deixou que eu te acusasse durante todos esses anos?! – ele perguntou, a voz soando rouca de irritação e revolta.
Temari estreitou os olhos na escuridão, sentindo a raiva invadi-la. Não era possível que aquele assunto fosse atormentá-la pelo resto de sua vida. Maldita hora em que concordara em guardar o segredo daqueles Uchihas miseráveis!
–Não preciso dar explicações sobre nada. – ela sibilou com raiva, agitando-se sob o corpo de Shikamaru, tentando a todo custo se soltar – Me solte!
–Por que não me contou?! – Shikamaru esbravejou, parecendo profundamente irritado – Por que me deixou acusar você daquele jeito, durante todos esses anos?!
–Você escolheu não confiar em mim antes que eu pudesse fazer qualquer coisa a respeito, Nara! – Temari rebateu, enfurecendo-se também – Saia de cima de mim! – rosnou, debatendo-se.
–Você não tinha o direito de fazer isso! – ele protestou – Eu me obriguei a ficar longe de você, achando que você havia traído seu mestre, traído nossa família, ME traído! Eu era apaixonado por você, inferno!
–Eu também era apaixonada por você, mas você escolheu NÃO acreditar em mim, NÃO me deixar explicar! Eu não tinha o direito de revelar um segredo que não era meu, mas você escolheu NÃO confiar em mim! – a loira rebateu, sem parar de se agitar sob o corpo de Shikamaru na tentativa de se soltar.
–Eu não tive escolha! Você optou por ficar sozinha nessa situação! – o Nara tentou se defender das palavras furiosas de Temari – Eu passei dias, anos me torturando, tentando achar uma explicação, uma brecha nessa história, mas eu não consegui! Você não podia ter deixado isso acontecer sem ter me dito nada! Eu tinha o direito de saber!
–É tarde pra essa discussão, Nara. – ela sibilou, sentindo os olhos umedecerem com as lágrimas que se acumulavam. Sua voz não demonstrava arrependimento, porque, no fundo, Temari não se arrependia de nada. Para ela, as coisas haviam sido exatamente como tinham de ser – É tarde pra você me dizer tudo isso, porque eu estava mesmo disposta a deixar tudo pra trás e recomeçar, mas você não conseguia esquecer essa maldita história e me deixar em paz, você não conseguia parar de me lembrar o tempo todo do que aconteceu, mesmo que eu tivesse passado todos esses anos tentando esquecer... – murmurou, a voz trêmula pelo choro que fechava sua garganta. Temari então sentiu Shikamaru apoiar a testa em seu pescoço, fungando. Não tardou até que ela sentisse também os pingos que caiam do rosto do Nara em sua pele – Você escolheu insistir nisso e, no começo, eu até entendia, porque o grande Shikamaru não pode lidar com algo que não consegue compreender, não é mesmo? – ironizou entre as lágrimas, ainda sentindo o pranto silencioso de Shikamaru molhar seu pescoço – Você fez sua escolha. Você é o inteligentíssimo Nara Shikamaru, afinal! – debochou, tentando fazer sua voz parar de tremer – Não há nenhum mistério que você não possa desvendar... Tenho certeza de que, um dia, você vai conseguir compreender que há coisas que não podem ser entendidas, porque nem tudo se controla com a racionalidade, Shikamaru!
–Eu sei disso, Temari. Que droga, eu sei! Mas você não pode se isentar da sua parcela de culpa nisso... Não pode me negar o direito de reaver o tempo perdido, de entender o que aconteceu. – ele argumentou.
Temari havia tentado. Quando recebeu o telefonema de Shikamaru, pedindo por sua ajuda, ela imaginou que o Nara estivesse perto de descobrir a verdade, e que em breve tudo se esclareceria. E, contrariando todas as promessas que havia feito para si mesma, ela voltou, na esperança de conseguir uma nova chance para recomeçar sua vida e que sua família pudesse, enfim, aceita-la de volta, mesmo com todos os erros que havia cometido no passado.
E todos pareciam dispostos a fazer isso, exceto Shikamaru. Ele continuava sem confiar em Temari, e fazia questão de lembra-la disso todos os dias. Para a Sabaku, era impossível deixar o passado para trás, e ela havia compreendido isso no instante em que seus olhos reencontraram os de Shikamaru naquela igreja onde passaram tanto tempo juntos, tentando desvendar a misteriosa morte de Yahiko. Ele jamais a deixaria esquecer tudo o que havia acontecido. Principalmente porque o Nara era o único que sabia um pouco dos verdadeiros motivos que a fizeram partir, tantos anos atrás.
–Saia de cima de mim. Eu quero ir embora. – a loira falou, tentando soar firme o bastante para convencer Shikamaru de que não havia nada para conversarem.
–Não. – ele respondeu.
–Me. Deixe. Ir! – ela sibilou, sentindo as mãos de Shikamaru apertarem seus pulsos com ainda mais força.
–Não. – ele novamente respondeu – Dessa vez você fica. E não adianta espernear, Temari. – avisou, sentindo a loira se contorcer sob seu corpo.
–Me deixe ir embora, Shikamaru! – Temari rosnou, enfurecida.
O Nara ergueu um pouco o rosto, os olhos estreitos na escuridão, na tentativa de distinguir o brilho ferino e inconfundível do olhar da Sabaku. Ele roçou os lábios nos dela, ouvindo-a arfar.
–Nunca – ele murmurou de encontro aos lábios de Temari – mais. – completou, para enfim beijá-la com a vontade que o incendiava desde o dia em que ela partira de sua vida. Sua língua invadiu a boca da Sabaku sem esperar por permissão, sem esperar ao menos que ela tivesse tempo de reagir. Tinha sede, tinha necessidade dela. Não havia tempo a perder.
Temari não reagiu. Seus olhos, arregalados e incrédulos na escuridão, não se fecharam quando os lábios de Shikamaru tocaram os seus, pois ela tinha medo de se render às promessas vazias que ele lhe fazia. “Nunca mais”, o moreno dissera. Mas ela já ouvira promessas de Shikamaru antes, que se desfizeram com facilidade no minuto em que ele a acusou de ser uma traidora.
O Nara enfim afastou os lábios de Temari, sentindo a respiração acelerada da loira bater em seu rosto, o busto subindo e descendo de encontro ao seu peito, os pulsos ainda presos sob suas mãos que já não lutavam mais para se libertar. Ela estava entregue. Temari havia, enfim, parado de tentar confrontar o desejo que tentara sufocar desde o dia em que partira.
–Nunca... Nunca mais? – ela murmurou, sentindo as lágrimas quentes escorrerem de seu rosto. Será que poderia mesmo acreditar naquelas palavras?
–Nunca mais. – Shikamaru respondeu, a voz soando confiante – Quando tudo isso acabar... Vou levar você de volta pra casa. – prometeu, tocando o rosto de Temari com ternura – Vou faze-la minha mais uma vez, porque você nunca deixou de ser minha... E você vai dançar para mim... – murmurou, a boca alcançando o pescoço de Temari, sentindo-a estremecer – Como nos velhos tempos. E vai encher minha vida de problemas, porque não existe ninguém mais doida e problemática do que você. – falou, ouvindo o riso baixo e tremulo da Sabaku — E você me fará o homem mais feliz deste mundo. Em troca, eu te prometo... Jamais duvidarei da sua palavra novamente. Mesmo que eu não compreenda o que motiva as suas ações, mesmo que eu não concorde... Mesmo que você tenha que partir novamente....
–Não vou partir. – a loira interrompeu – Não vou partir nunca mais... Eu prometo. Chega de segredos, de sofrimento... Todo esse tormento está quase acabando, não é?
“Essa rosa do deserto
A cada um de seus véus, uma promessa secreta
Essa flor do deserto
Nenhum outro doce perfume me torturou mais do que isso
E quando ela gira
Dessa maneira se move na lógica de todos os meus sonhos
Esse fogo queima
Percebo que nada é como parece
Eu sonho com a chuva
Sonho com jardins na areia do deserto
Acordo em vão
Sonho de amor como o tempo escorre pelas minhas mãos
Sonho com a chuva”
Desert Rose – Sting
Shikamaru sorriu, soltando os pulsos de Temari, deslizando uma das mãos pela cintura da Sabaku até a coxa, que ele apertou e encaixou em seu quadril, sentindo-a erguer o corpo em sua direção. Logo as mãos de Temari estavam em seus cabelos, trazendo o rosto do rapaz para perto do dela.
–Quero ver você... – ela falou, mordendo o lábio inferior ao sentir a mão do Nara apertando sua coxa, os lábios dele em seu pescoço – Desfaça as sombras... – pediu, esforçando-se para não gemer com as carícias que agora alcançavam seus seios, ainda cobertos pelo tecido do vestido.
–Não consegue me ver agora? – Shikamaru murmurou, mordendo o queixo da loira – Porque eu nunca te enxerguei melhor do que consigo enxergar agora, Temari. – disse, aspirando o perfume do pescoço da Sabaku – Você ainda tem o mesmo cheiro... Minha... Minha flor do deserto...
Aquelas palavras fizeram os olhos de Temari se arregalarem na escuridão, a surpresa congelando seu corpo por alguns instantes. Há quantos anos não ouvia Shikamaru chama-la daquela maneira? Ela chegou até mesmo a pensar que o Nara havia se esquecido do apelido pelo qual a chamava na época em que namoravam.
Mas ele não havia esquecido. Temari ocupava cada centímetro dos pensamentos de Shikamaru desde o dia em que partira.
Com os lábios novamente unidos, os dois sentiam suas mentes serem invadidas pelas lembranças doces de um passado distante.
“Quando Temari abriu os olhos naquela manhã, vendo a luz que entrava pelos vidros da janela do quarto que não era seu, ela sorriu de forma involuntária. Notou o braço masculino que envolvia seu corpo nu sob o lençol e se virou devagar, tentando não acordá-lo, mas se surpreendeu ao ver os olhos de Shikamaru abertos, encarando-a. A expressão dele era serena, os lábios curvados em um pequeno sorriso de satisfação.
–Bom dia, flor do deserto. – ele murmurou, tocando o rosto de Temari.
–Não existem muitas flores no deserto... E não acho que eu seja, exatamente, tão delicada quanto uma flor. – ela rebateu, sorrindo com ironia.
Shikamaru riu.
–Você é rara como uma flor do deserto. Não existe nenhuma outra mulher como você, Temari. – o moreno explicou, sentindo a pele do rosto de Temari esquentar sob seus dedos. Aquilo era tão raro que ele ficou alguns instantes em silêncio, admirado. Mas logo voltou a falar — E, apesar dessa pose de durona, eu te conheço melhor do que qualquer pessoa. Uma flor, para sobreviver às ventanias e tempestades de areia no deserto, precisa ser forte, e muitas vezes, acaba endurecendo suas pétalas para sobreviver às dificuldades... Mas, quando a tempestade passa, e a ventania cessa... Quando a flor não precisa mais se esconder em baixo das pétalas secas é que se pode ver o quanto ela é forte e delicada, ao mesmo tempo... O quanto ela é linda...”
Temari rolou o corpo sobre o de Shikamaru, sentando sobre o quadril do rapaz, sentindo-o erguer o tronco para alcançar seu pescoço. Os lábios do Nara logo estavam em sua pele novamente, e ela fechou os olhos, abraçando-o.
–Shika... – a loira murmurou baixinho, esperando que ele a repreendesse por chama-lo daquela maneira, mas o que sentiu foi Shikamaru apertando sua cintura com mais força, trazendo-a para ainda mais perto.
E foi quando os dois ouviram as explosões que soavam do lado de fora da mansão, fazendo as paredes estremecer.
Eles se afastaram por um instante, arfando. Shikamaru e Temari sabiam o que aquelas explosões significavam.
–Ele está aqui. – a Sabaku murmurou, a voz trêmula de receio.
–Sim... – Shikamaru suspirou. Na escuridão, ele tocou o rosto de Temari – Mas, antes de irmos, quero te pedir uma coisa.
A loira também tocou o rosto de Shikamaru, os lábios curvados em um pequeno sorriso que ele não viu.
–Qualquer coisa. – ela disse, para em seguida ouvi-lo respirar pesada e profundamente.
–Quero te pedir perdão.
Os movimentos da loira ficaram paralisados por um instante. Ela era Sabaku No Temari, afinal. Não demonstrava fraqueza, sentimentos, nunca se deixava abater. Não havia um único inimigo que ela não fosse capaz de derrotar, não havia um único poder que ela não fosse capaz de dominar.
Mas Shikamaru continuava sendo a única exceção à todas as regras que faziam de Temari o que ela era.
–Quando você partiu, eu sabia que a culpa era minha. – o Nara prosseguiu, mas suas palavras logo foram interrompidas.
–Eu parti porque senti que não havia mais lugar para mim nessa família. – ela explicou.
–Não. Você partiu porque eu fui o primeiro a te dar as costas, quando minha obrigação era ter acreditado em você, mesmo que todas as provas dissessem que você era culpada. Eu deveria ter acreditado em nós, mas quando você me disse aquelas coisas... Quando você me disse que era mesmo culpada, o amor louco e desesperado que eu sentia por você se tornou pequeno diante do amor e da responsabilidade que eu tinha pela minha família. Se você mesma me confessou que era culpada, se todas as evidências apontavam para você... O que mais eu podia fazer? – ele perguntou, as lágrimas silenciosas rolando pelos dedos de Temari em seu rosto – Eu fiz a única coisa que consegui: guardei o seu segredo e deixei que todos pensassem que você era apenas a desertora que havia se aliado à Akatsuki em busca de poder, como você mesma disse para qualquer um que quisesse ouvir, antes de partir. E eu acreditava nisso. Acreditava que você havia feito tudo aquilo e ido embora porque queria poder. Mesmo que o amor louco e desesperado que eu sentia por você me dissessem que eu estava errado. E quando você se foi, o amor louco continuou presente, mesmo que tenha sido este mesmo amor que tenha te mandado para longe.
Temari suspirou. As lágrimas também rolavam por seu rosto, mas seu silêncio não deixou que Shikamaru percebesse. Ela apoiou a testa na dele, os dedos ainda molhados pelas lágrimas culpadas que rolavam pelo rosto do moreno.
–Eu te perdoo se você me perdoar. – ela murmurou – Nós dois temos nossa parcela de culpa nessa história, afinal.
Shikamaru sorriu, os lábios procurando a boca de Temari mais uma vez naquela noite. Os fogos continuavam a estourar furiosamente lá fora, insistindo em alertá-los para o perigo iminente.
Os dois desgrudaram os lábios e o Nara acariciou novamente o rosto de Temari.
–Aproveitando que você está muito boazinha, hoje... – ele começou, mas logo sentiu a loira puxar seus cabelos com força.
–Não abuse da sorte, Nara. – Temari avisou, pressentindo algo estranho no tom de voz de Shikamaru.
–Apenas quero pedir perdão por mais uma coisa. – o moreno explicou, a voz soando com uma inocência exagerada que fez a Sabaku estreitar os olhos.
–O quê? – ela perguntou, curiosa.
–Por isso. – Shikamaru respondeu, os dedos apoiados no queixo de Temari girando a cabeça da loira para o lado. Um estalo ecoou pelo quarto, e o corpo da Sabaku desfaleceu em seus braços – Por favor, por favor, não me mate quando eu voltar... Se eu voltar... – ele se corrigiu, deitando o corpo desmaiado de Temari na cama e saindo do quarto a passos apressados, encaminhando-se na direção do salão.
Em um dos corredores da mansão Hyuuga, uma voz baixa e fininha se fazia ouvir, evocando o que parecia ser um jutsu. Não havia ninguém ali exceto a dona daquela voz abafada, que insistia em concentrar poder ao seu redor.
Logo a porta de um dos quartos explodiu, despedaçando-se de encontro à parede do corredor. Pelo espaço aberto, Hanabi apressou-se em sair, as veias ao redor de seus olhos destacadas revelando o byakugan desperto.
–KIIIIIBAAAAAAA, SEU CACHORRO MALDITO!
De mãos dadas, Naruto e Hinata chegaram até o salão. A energia sombria que se espalhava pelo lugar fazia com que o ar pesasse sobre suas cabeças e, repentinamente, as lembranças do dia em que ela conheceu o Uzumaki tomaram a mente da morena. Naquela ocasião, a energia de Naruto se impusera sobre ela de tal forma que seus pulmões haviam se espremido dentro dela em busca de ar para respirar. Hinata olhou para o lado, fitando Naruto. As vezes, ela se esquecia do quanto ele era forte.
Hinata também havia se tornado mais forte, afinal. A energia que se alastrava pelo lugar não lhe infligia medo e não lhe dificultava a respiração. O chakra sombrio e familiar era suficiente apenas para que um pressentimento ruim e nostálgico fizesse um arrepio lhe percorrer a espinha.
Não demorou até que Gaara e Ino se aproximassem do salão também, o que significava que Sai e Deidara já haviam assumido suas posições junto ao portão a fim de sustentar o jutsu da Yamanaka que impediria a entrada de qualquer um na mansão. Kiba já estava lá, ao lado de Neji. Shikamaru vinha logo atrás, olhando para os lados, procurando por Sasuke, mas não havia nem sinal do Uchiha.
Ino estreitou os olhos azuis, vasculhando o salão. Onde estavam Hanabi, Tenten, Sakura e Temari? A loira olhou para Hinata, percebendo no rosto da amiga o mesmo questionamento.
Mas elas não tiveram muito tempo para se deter àquele raciocínio. O barulho de alguém se aproximando e batendo palmas soou pelo salão, a energia sombria que se arrastava por ali ganhando maior intensidade.
–Meus parabéns! – a voz arrastada ecoou por entre as árvores.
As lâmpadas haviam misteriosamente estourado quando o chrakra desconhecido começou a se alastrar pelo salão, misturando-se ao barulho dos fogos de artifício, e a única iluminação era a da lua, que insistia em brilhar fortemente no céu noturno. Os olhos de todos vasculharam o local em busca do estranho que se aproximava, mas ainda não conseguiam distinguir de onde vinha aquela voz.
–Parece que vocês pensaram em tudo, não é mesmo? – o homem continuou, o barulho de seus passos se aproximando do salão – Resistiram bravamente enquanto viam seus mestres sendo despedaçados, um por um... – a voz arrastada soava carregada de veneno e crueldade – É incrível como vocês herdaram a teimosia irritante de seus mestres... Mas, se insistirem em se proteger de mim, terão o mesmo fim daqueles que morreram para proteger vocês...
Ninguém respondeu à provocação. Não estavam ali para protegerem a si mesmos. Cada um tinha consciência de que estavam arriscando suas vidas para protegerem sua família.
Hinata desprendeu os dedos das mãos de Naruto e deu um passo a frente, logo sendo seguida pelo loiro. Ele não a deixaria sozinha.
O chakra sombrio que se espalhava pelo salão agora assumia a forma de uma cortina de fumaça lilás que embaçava a visão de todos ali.
–Essa é a diferença entre nós e você. – a voz da Hyuuga soou confiante – Nós lutamos uns pelos outros, enquanto você só luta por si mesmo.
–Não, querida... – Orochimaru finalmente saiu das sombras das árvores, aparecendo bem diante de Hinata, envolto pela fumaça de chakra espalhada pelo salão. Com tanto chakra por todos os lados, ninguém havia percebido sua aproximação. Os cabelos lisos e compridos do homem balançavam com o vento, a pele pálida lhe dando um aspecto doente. Ele ergueu o dedo fino na direção do rosto de Hinata, acariciando levemente a pele branca da garota — A diferença entre vocês e eu é que seus amigos foram tolos o suficiente para trazerem minha presa até mim, e eu fui inteligente o suficiente para vir busca-la.
A morena deu um passo para trás, seus olhos se arregalando ao encontrarem os orbes de cobra do homem que a havia perseguido durante toda a vida. As memórias do passado a invadiram, enchendo-a do ódio que fazia seu chakra pulsar fortemente em suas veias, querendo despertar. Mas antes que pudesse fazer qualquer coisa, Hinata viu o punho fechado de Naruto se mover à sua frente e acertar em cheio o rosto de Orochimaru, lançando-o para o outro lado do salão por entre a nuvem de fumaça.
–NÃO TOQUE NELA! – o loiro berrou, os olhos assumindo um tom avermelhado que revelava o poder do Bijuu dentro dele.
Naruto já se preparava para correr na direção de Orochimaru quando sentiu a mão de Hinata apertando seu braço, impedindo-o de avançar. Os olhos dela estavam fixos na sombra que se movia na fumaça lilás, e quando Orochimaru se levantou, os olhos dele encontraram os de Hinata, revelando a pele da bochecha que se desprendia de seu rosto pelo murro carregado com o chakra de Kyuubi que acabara de levar. No lugar da pele que caía surgiam escamas brancas que regeneravam a pele, e Orochimaru sorriu, revelando a língua sinuosa com a qual lambeu os lábios ao admirar sua presa.
Ino olhou, paralisada, a pele de Orochimaru se desfazer em escamas brancas que revelavam a aparência de um homem louco que já havia se apoderado do poder de milhares de pessoas. De forma doentia, o chakra sombrio e lilás se espalhava pelo lugar, alastrando-se pelo salão de forma mortífera, pesada, venenosa.
–Ino, vá! – Gaara gritou, percebendo que a Yamanaka estava imobilizada de pavor. Não permitiria que ela ficasse ali, nem que para isso tivesse que jogá-la para fora da mansão – INO!
Ela deu um passo para trás, a expressão aterrorizada fixa em Orochimaru. Seus olhos azuis estampavam o terror que sentia quando ela finalmente conseguiu voltar o rosto para Gaara.
A expressão do ruivo estava contorcida em uma súplica desesperada, e ele esperava, do fundo de seu coração, que Ino o escutasse.
–Não! – ela berrou, sua característica teimosia fazendo Gaara esfregar o rosto, impaciente. Teria que arrastá-la dali a força?
–Procure a Sakura, a Temari e a irmã da Hinata, leve elas embora daqui! – Gaara pediu, o rosto começando a desaparecer da visão da loira, escondido pela fumaça do chakra de Orochimaru – VÁ, INO! AGORA!
–Mas... – Ino tentou argumentar, porém, o Sabaku logo a interrompeu.
–Estaremos juntos, Ino. Não vou deixar você. Nunca. – ele prometeu, o brilho dos olhos verdes sendo completamente encoberto pela maciça cortina de chakra – Logo eu e os outros nos juntaremos à você. Por favor, vá e leve as garotas!
Sem conseguir mais enxergar o rosto de Gaara, tudo o que Ino pôde fazer foi confiar nas palavras que o ruivo lhe dizia. Sem parar para pensar no que estava prestes a fazer, ela deu meia volta, afastando-se do Sabaku.
–Mesmo que eu morra, nunca deixarei você... Eu prometo. – ele murmurou consigo mesmo. Seus lábios se curvaram em um sorriso torto, enquanto ele liberava toda a energia do Bijuu aprisionado em sua mente. Ouviu Shukaku se agitar, rugindo furiosamente – Está pronto, amigo?
“Vamos acabar logo com isso”, o Bijuu respondeu, antipático, como sempre, os pelos se eriçando de excitação.
O chakra sombrio de Gaara espalhou-se por todo o salão, dissipando parte da fumaça venenosa de Orochimaru, fazendo o homem-cobra fita-lo com uma expressão surpresa.
Já um pouco distante do salão, Ino interrompeu seus passos apressados, voltando-se para o lugar de onde podia ser visto um foco de energia vermelha irrompendo a escuridão.
Ichibi havia despertado.
“Começou...”, a loira pensou, sentindo o peito apertar-se em preocupação. Quem aquele Sabaku idiota pensava que ela era? Se Gaara achava que Ino o deixaria sozinho no meio do campo de batalha... Ele estava imensamente enganado.
O barulho de passos apressados interromperam os pensamentos da Yamanaka, fazendo-a desviar o olhar do salão e voltar-se para trás, vendo Sakura se aproximar.
–Sakura? O que está fazendo aqui? – a loira perguntou, surpresa.
–Aquele Uchiha desgraçado me nocauteou! – a Haruno respondeu, irada – Eu vou mata-lo!
Confusa, Ino estava prestes a perguntar do que a rosada estava falando quando ouviu uma voz irritada e conhecida atrapalhar seus pensamentos.
–EU VOU MATAR AQUELE NARA INFELIZ! – Temari rosnou, os olhos brilhando de fúria – ONDE ELE ESTÁ?!
–Calma, Temari... – Ino pediu, cada vez mais confusa.
–CALMA O CARALHO! – a Sabaku rosnou, enlouquecida de ódio – LEVEI MEIA HORA PARA CONSEGUIR DESFAZER AQUELE JUTSU DAS SOMBRAS RIDICULO PORQUE O NARA IDIOTA ACHA QUE EU NÃO SOU BOA O SUFICIENTE PARA ESTAR NESSA LUTA! EU VOU MOSTRAR PRA ELE... – esbravejou, erguendo o punho cerrado.
–Eu também quero matar um idiota! – Sakura falou, sorrindo de forma cruel e cúmplice na direção de Temari.
–CADÊ AQUELE CACHORRO INFELIZ?! – a voz de Hanabi ecoou pelo lugar, atraindo a atenção das garotas. Todas olharam para trás, vendo a Hyuuga mais nova se aproximar com uma expressão furiosa jamais vista em seu rosto – EU VOU FAZER PICADINHO DELE NA TÁBUA DE CORTAR CARNE! AH, SE VOU!
Ino teve que se esforçar para prender o riso. Nunca havia visto Temari tão furiosa, e lhe surpreendia ver a irritação de Sakura, pois a rosada era sempre tão calma... Sobre Hanabi, a loira não sabia o que pensar, mas pela irritação dela, Kiba teria problemas, mais tarde. Pelo visto, os homens daquela família tinham uma tendência a serem estúpidos.
–Se acalmem, tá legal? – a Yamanaka pediu, os olhos fixos nas duas amigas e na irmã de Hinata -Temari, você quer torcer o pescoço do Shikamaru?
A Sabaku exibiu à Ino um sorriso torto e cruel, os olhos verdes brilhando com ainda mais intensidade. Uma rajada de vento furiosa soprou pelo local, fazendo os cabelos das garotas se agitarem.
–Estou contando com isso. – ela respondeu, fazendo seu chakra se espalhar pelo local junto com o vento, transformando-o em lâminas mortais. O leque já estava nas costas dela, pronto para ser usado.
–E você, — Ino falou, voltando-se para Sakura – quer mostrar pra esse Uchiha idiota que você não é apenas uma curadora, e que pode estar nessa luta tanto quanto ele?
–Claro! – a rosada respondeu, concentrando chakra nas mãos. Os punhos cerrados se iluminaram com a energia maciça e esverdeada, os olhos brilhando de empolgação.
Por um instante, Ino pensou ter visto no rosto furioso de Haruno a determinação característica de Tsunade. Sakura aprendera muitas coisas com sua mestra, dentre elas, a ser explosiva e destruidora, quando queria.
–Hanabi, — a Yamanaka chamou – você quer estrangular o Kiba com uma coleira?
–Pode apostar que sim! – a Hyuuga respondeu.
–Ótimo. – Ino falou, encarando as mulheres à sua frente com uma expressão carregada de seriedade. Sem qualquer aviso, ela levou as mãos até a barra do próprio vestido, rasgando-o de uma só vez, deixando-o na altura dos joelhos. Em seguida, pegou um pedaço do tecido lilás rasgado e usou-o para amarrar os cabelos em um comprido rabo de cavalo, deixando, como sempre, a franja cobrir parte de seu rosto. Rapidamente, ela se desfez dos saltos e novamente voltou o rosto para o salão onde a batalha estava prestes a começar – Eu tenho um plano.
Os olhos de Orochimaru vasculharam o salão, deparando-se com Nara Shikamaru abaixado, aproveitando-se das sombras para ativar o Kage Mane No Jutsu. Em seguida, olhou para o lado, vendo Inuzuka Kiba de mãos apoiadas no chão em formato de garras, exibindo os dentes, rosnando em sinal de ameaça, dominado pelo espírito selvagem que dormia dentro dele. Akamaru havia despertado. Hyuuga Neji também estava lá, fitando-o com os olhos cercados pelas veias que revelavam o Byakugan desperto.
Sabaku No Gaara estava logo atrás, a energia mortífera de Ichibi sendo espalhada pelo salão em feixes de luz vermelhos que dissipavam a fumaça lilás de Orochimaru. Os olhos amarelos do ruivo encaravam o homem-cobra com o brilho de quem estava preparado para matar. Ou morrer.
Uzumaki Naruto também estava ali, afinal, havia sido dele o murro que Orochimaru levara. Sim, ele reconhecia todos aqueles moleques, havia conhecido todas aquelas famílias, todos aqueles sobrenomes que Orochimaru havia feito questão de destruir. Naruto, em especial, havia sido alguém a quem o homem-cobra perseguira com muito empenho, e não fosse aquele sennin desgraçado que insistia em proteger o moleque Uzumaki com sua própria vida, Orochimaru já teria se apoderado do poder de Kyuubi há muito mais tempo. Afinal, quem não gostaria de se apoderar do bijuu mais poderoso de todos? Orochimaru tinha certeza de que Naruto sequer estava ciente do tamanho do poder que carregava dentro de si.
Não demorou até que os olhos de cobra se voltassem novamente para Hinata. Ah, ela sim era seu grande tesouro... Sem a Hyuuga, Orochimaru jamais conseguiria se apoderar dos poderes daqueles moleques insolentes que achavam que podiam desafiá-lo. Hinata era a única capaz de manipular e selar qualquer poder da maneira que desejasse. E como ela havia crescido... Havia deixado de ser a garota amedrontada que Orochimaru conhecera para se tornar uma bela mulher.
Ele novamente lambeu os lábios, sem se importar com o ardor que fazia a pele de seu rosto queimar.
–Minha joia preciosa... – Orochimaru murmurou, a expressão demonstrando fascinação em admirar o rosto de Hinata – Finalmente nos reencontramos.
A morena sentiu o estômago embrulhar. Tinha nojo daquele homem.
A mão de Hinata continuava a segurar o braço de Naruto com força. Ela havia contado a ele sobre parte do plano, — pois ainda não era seguro para ele saber de tudo o que Sasuke havia planejado — e esperava que o loiro não perdesse a cabeça e acabasse avançando em cima de Orochimaru antes do tempo certo.
Foi quando a Hyuuga ouviu Naruto arfar de repente e arquear o corpo de dor. O brilho avermelhado desapareceu dos olhos dele, como se o poder de Kyuubi estivesse sendo anulado. Ela olhou para trás, vendo, pela primeira vez naquela noite, o rosto de Sasuke a encará-la com frieza. Nos olhos dele, o sharingan desperto brilhava, iluminado pela luz da lua.
Naruto estava preso no transe dos olhos de Sasuke.
Semiconsciente, o loiro caiu de joelhos, recusando-se a ser dominado pelo sharingan. Ergueu o rosto, reprimindo o grito de ódio ao sentir as lâminas do transe atravessarem seu corpo, uma de cada vez, lentamente, experimentando o equivalente à mil anos de dor.
–Sa... Sasuke... – Naruto murmurou com dificuldade, as palavras abafadas pelos gritos de dor que ele se recusava a deixar sair.
Hinata estava prestes a protestar contra aquilo, mas logo sentiu as mãos do Uchiha agarrarem seus pulsos e puxar seus braços para trás. Ela tentou se mover, mas Sasuke colocou uma grande espada – que Hinata nunca havia visto em todo o tempo em que conviveu com o mestre – em seu pescoço, apertando a lâmina de encontro à sua pele com tanta força que logo um filete de sangue escorreu pelo metal afiado e brilhante.
–Sasuke, o que está fazendo?! Esse não era o plano! – Hinata sibilou, confusa.
–Sinto muito, Hyuuga. Sinto muito mesmo. Mas as coisas mudaram. – ele respondeu, os pensamentos fixos em Sakura e em sua filha que estava por vir – Tenho meu próprio plano agora.
Orochimaru sorriu e caminhou lentamente na direção onde estavam Sasuke e Hinata. Ao seu redor, o arquejar fraco de Kiba, Neji e Shikamaru lhe deu a certeza de que eles também estavam presos no sharingan. Sasuke era muito eficiente... Orochimaru sequer notou quando o moreno prendeu os companheiros de Hinata em seu poder ocular.
Do outro lado do salão, Shikamaru tossia uma lufada de sangue, suas sombras parando de se mover. Que merda estava acontecendo? Hinata não disse que Sasuke estava do lado de sua família? Então por que ele os estava atacando? Por que os havia prendido na porra do sharingan?
Na consciência de Kiba, Akamaru choramingou de dor. Sequer teve tempo para demonstrar seu poder. Antes que pudessem reagir, os dois já estavam presos no poder de Sasuke. Perto do Inuzuka, Neji também arquejava, sem entender o que estava acontecendo.
Enquanto caminhava na direção de sua presa, Orochimaru pareceu não se atentar ao brilho amarelado que se aproximava por trás.
–Quer saber uma coisa boa sobre ter bastante poder, Hyuuga? – o homem-cobra perguntou, a voz soando arrastada como o esgueirar de uma serpente venenosa — É que você pode comprar a lealdade de pessoas poderosas, como um Uchiha, por exemplo. Prometi a Sasuke que o deixaria livre se ele conseguisse aumentar o seu poder e a trouxesse para mim...
–Esqueceu de mim, cobrinha? – a voz de Gaara o interrompeu, soando bem ao pé do ouvido de Orochimaru.
O homem-cobra pulou de susto, a expressão apavorada, voltando o rosto para trás a fim de defender-se, mas não deu tempo. O Sabaku o atingiu com uma cabeçada, as testas se colidindo em um estrondo inumano. O chakra de Ichibi queimou o rosto de Orochimaru, e mais uma vez a camada de escamas brancas surgiu por baixo da pele que se desfazia.
Orochimaru tentou se afastar, prestes a fitar Sasuke com a severidade de quem repreende alguém que cometeu um grande erro. O que aquele Uchiha inútil estava pensando? Por que Sasuke havia deixado Gaara livre do jutsu?
Mas, quando olhou para trás, seus olhos de cobra se depararam com a figura de Hinata, livre das mãos de Sasuke. Ela sorriu com ironia para Orochimaru. Onde estava Naruto?
A resposta veio com a nova cabeçada violenta que o atingiu, e dessa vez, uma camada muito maior de pele em seu rosto se desfez, revelando a aparência escamosa de um monstro. Orochimaru tocou o próprio rosto, reconhecendo, à sua frente, o brilho cruel dos olhos de Naruto.
As sombras da noite, misturadas à areia embebida em chakra, agora agarravam os braços de Orochimaru, forçando o corpo do homem-cobra de encontro ao chão. Orochimaru caiu de joelhos, sentindo seus membros serem envolvidos pelos poderes de Shikamaru e Gaara.
Shikamaru, Neji e Kiba se reerguiam. Os três haviam, finalmente, entendido o plano de Sasuke. Mentalmente, o Nara reclamava pelo fato de o Uchiha ser um idiota tão problemático. Mas nunca, jamais um traidor.
Entendendo a deixa, Kiba correu na direção de Orochimaru, seguido por Neji. O rosnado selvagem que escapou de seus dentes fez com que um chakra feroz se alastrasse pelo salão, dissipando mais um pouco da fumaça lilás. O barulho de ossos sendo quebrados ecoou pelo lugar quando o Inuzuka atingiu o tórax do homem-cobra com as garras de Akamaru.
Kiba quase sorriu, mas antes que pudesse comemorar a vitória, a fumaça do chakra de Orochimaru embaçou sua visão, e ele se afastou, dando passagem para Neji, que atingiu os pontos de chakra no pescoço de Orochimaru, quebrando mais alguns ossos. Logo o Hyuuga também se afastou, abrindo espaço para Sasuke.
Gaara puxou os cabelos de Orochimaru com força, obrigando-o a erguer o rosto para fitar a expressão apática com a qual Sasuke o encarava. Os lábios do Sabaku estavam emoldurados em um sorriso cruel. Gaara queria ver o sangue do homem que matou seu mestre sendo derramado em suas mãos.
Mesmo tendo o rosto e o corpo tingidos pelo sangue que jorrava, farto, pela boca, Orochimaru sorriu quando seus olhos finalmente encontraram os orbes frios de Sasuke.
–Uchiha tolo... – Orochimaru murmurou, como se não sentisse nenhuma dor – Tolo como seu irmão, tolo como todos os Uchihas que eu matei... Você achou mesmo que estava me enganando durante todo este tempo? Achou que estava me usando? Não seja petulante, moleque! Era eu quem estava usando você!
A expressão de Sasuke não se alterou nem um pouco. Ele ergueu a espada, prestes a dar um fim na vida da serpente que corrompera a felicidade de sua família e a vida dos mestres de seus amigos. Inclusive do seu.
De longe, Hinata tentou não respirar de alívio. Ainda não havia acabado, ainda não... Mas estava tão perto... tão perto...
–Você sabe qual é o castigo para traidores, Sasuke? – Orochimaru sibilou, os olhos disparando pelos rostos de Naruto e Hinata. O loiro caminhava para onde ele estava, os dedos em formato de garras, prestes a ajudar Sasuke a desferir o golpe final. De longe, a Hyuuga apenas esperava – Sabe o que é pior que a morte? – Orochimaru prosseguiu — A dor de ver um dos seus morrer, bem diante dos seus olhos, sem que você possa fazer nada... Assim como foi com Itachi.– disse, para em seguida abrir a boca, revelando a rajada de veneno que jorrava de sua língua como uma lâmina liquida e mortal. O veneno cortou o ar em alta velocidade, voando na direção de Naruto.
Sasuke olhou para trás, vendo que Hinata estava bem atrás do Uzumaki e que também seria atingida pelo ataque.
Naruto estava prestes a se defender do golpe. O poder de Kyuubi não deixaria que ele se machucasse, e o loiro protegeria Hinata também, Sasuke estava ciente disso. Porém, seu corpo se moveu de forma automática para proteger o irmão e a discípula do golpe que Orochimaru disparava, colocando-se na frente do Uzumaki e recebendo o veneno no próprio corpo, que atravessou a pele do lado esquerdo de sua cintura.
O Uchiha apertou os lábios, ouvindo o tilintar de sua espada no chão. Suas mãos agora estavam em sua cintura, por onde o sangue jorrava, farto. Não iria gritar, lamentar, ou resmungar de dor. O ardor infernal que queimava seu corpo afetado pelo veneno não era pálio para o alívio em ver os corpos intactos de Naruto e de Hinata.
–SASUKEEEEEEEEEE! – o grito da Hyuuga ecoou por todo o salão. Ela correu na direção do mestre, mas antes que pudesse alcança-lo, ouviu o Uchiha reunir as forças que lhe restavam. O veneno estava agindo rápido e o ferimento fazia com que perdesse muito sangue.
–NÃO! – ele ordenou, o corpo caído no chão, as mãos sobre o ferimento em sua cintura tentando, inutilmente, estancar o sangue que jorrava ininterruptamente – NÃO VENHA!
–NÃ... – Hinata estava prestes a protestar.
–AINDA SOU SEU MESTRE! OBEDEÇA, HYUUGA! – Sasuke a interrompeu, tentando conter o próprio corpo, que teimava em se contorcer de dor.
Shikamaru, Neji, Kiba, Gaara e Naruto fitavam o corpo de Sasuke no chão, paralisados. Os olhos de Naruto eram os mais perplexos, os mais incrédulos. Inadmissível. De jeito nenhum ele iria perder outro dos seus, bem diante de seus olhos. Já bastava que tivesse deixado Jiraya morrer em seus braços. O mesmo não aconteceria com Sasuke.
–Só para que você não morra sem saber... – Orochimaru sibilou no ouvido de Sasuke, agora livre dos poderes que antes o prendiam. Os jutsus de Gaara e Shikamaru haviam se desfeito no instante em que Sasuke fora atingido, tão perplexos todos estavam com a atitude repentina do moreno – Eu não pretendia deixar você livre. Sempre quis os olhos de um Uchiha para mim...
–Eu os esmago antes de você se apoderar deles! – Sasuke conseguiu gritar, a voz entrecortada pela dor. Quanto mais se agitava, mais o veneno se espalhava, ele sabia disso. Inferno... Teria o mesmo fim infeliz de Itachi?
–Então terei que arrancá-los de você antes disso, não é mesmo? – Orochimaru rebateu, o sorriso irônico estampado em seu rosto. Os dedos venenosos do homem estavam prestes a atingir os olhos de Sasuke quando alguém o puxou pelos cabelos e o atirou para o outro lado do salão.
Enquanto voava de encontro à parede, Orochimaru atirou três agulhas venenosas na direção onde estavam Kiba, Neji e Shikamaru, atingindo cada um no pescoço. Os três se livraram das agulhas tão logo foram atingidos, mas quando estavam prestes a correr, perceberam que o veneno agia mais rápido do que haviam imaginado.
O ponto de chakra do pescoço deles estava obstruído, impedindo a circulação de poder pelo restante do corpo. Shikamaru, Neji e Kiba caíram de joelhos, inutilizados.
Gaara aparou o corpo que Naruto havia arremessado para longe, envolvendo Orochimaru no chakra de Ichibi. Paralisado, o homem-cobra observava a expressão de Naruto, enquanto o loiro se aproximava com o punho cerrado.
Um murro. Dois. Três. Dez. Naruto atingia Orochimaru com força, sem ouvir um rosnado sequer de Kyuubi em sua mente. O Bijuu estava quieto, e seu chakra não circulava mais pelo corpo do loiro. Orochimaru parecia um boneco de pano, sendo atingido pelos golpes de Naruto sem jamais deixar de sorrir, como se não sentisse nenhuma dor.
E, como se pudesse ter se desprendido de Gaara desde o começo, Orochimaru liberou uma grande quantidade de chakra na direção do ruivo, obrigando-o a se afastar, ou a energia venenosa o queimaria. Interrompendo os golpes insanos de Naruto, Orochimaru agarrou o loiro pelo pescoço, o veneno em suas garras penetrando a pele do Uzumaki, fazendo-o arquejar de dor. Um pouco atrás de Orochimaru, Gaara arfou, sentindo o próprio corpo queimar.
Rodeada pelos amigos machucados, ajoelhada perto do corpo de Sasuke, que já beirava a inconsciência, Hinata chorava.
Com as mãos venenosas agarradas ao pescoço de Naruto, Orochimaru se aproximou da Hyuuga.
–Vamos... apenas um toque e você pode acabar com tudo isso... – ele incentivou, ansioso – Sele-o para sempre, e todo esse pesadelo irá acabar. Eu irei embora, deixarei seus amigos livres... Se você selá-lo e vier comigo.
Os olhos de Orochimaru brilhavam de satisfação, fixos em suas presas. Tinha em suas mãos um poder tão grande que agora ele se perguntava se seu corpo suportaria ter todo aquele chakra dentro de si. Estava tão perto de conseguir o que queria... Bastava que a Hyuuga lhe obedecesse e, em breve, ele seria dono de todo aquele poder. Seria, enfim, dono dos poderes que ele mais cobiçava: o Bijuu de nove caudas e a energia capaz de selar e reviver qualquer poder.
Hinata suspirou em meios às lágrimas. Estava cansada. Já não suportava mais ver as pessoas ao seu redor morrerem por sua causa.
–Se eu fizer o que você está dizendo, tudo irá acabar? Você terá piedade dos meus amigos? Eles poderão viver em paz? – ela perguntou, se levantando. Ouviu o arquejar fraco de Sasuke, que parecia querer dizer um “não”, mas ignorou aquilo. Já não importava mais.
–Pessoas insignificantes não merecem piedade. – Orochimaru murmurou no ouvido da morena, a voz soando como o chiado de uma serpente prestes a dar o bote – Com você ao meu lado, depois de obter os poderes que quero, não precisarei mais dos seus amigos... Nós seguiremos nosso caminho... Basta que você sele a Kyuubi para mim.
Hinata respirou profundamente. Ergueu a mão na direção de Naruto, vendo-o arregalar os olhos azuis.
–HINATA! – o loiro berrou, sem acreditar no que ela estava prestes a fazer – VOCÊ ENLOUQUECEU?!
Mais lágrimas rolaram do rosto da Hyuuga. Ela mal podia encarar Naruto sem sentir todo o seu corpo tremer.
–Prometo... Prometo que não vai doer... – ela murmurou para o Uzumaki.
–Não é disso que estou falando! – ele rosnou, incrédulo — Não vou deixar você ir com ele, mesmo que isso me mate!
–Não... – ela falou baixinho, a voz soando como um sussurro – Isso tem que terminar. Tudo começou por causa do nosso poder, não foi? – ela riu, amargurada – Então é pelas nossas mãos que tem que acabar.
Orochimaru arregalou os olhos, percebendo as intenções nas palavras de Hinata. Ela estava tentando enganá-lo!
Mas antes que pudesse se mover na direção da Hyuuga, Orochimaru viu a garota colocar a mão sobre o peito de Naruto, os dois sendo envolvidos pelo chakra azul e luminoso que corria ao redor dos corpos deles como uma corrente elétrica, impedindo qualquer um de tocá-los.
Orochimaru soltou o corpo de Naruto, que cambaleou, equilibrado pelo poder de Hinata que o envolvia.
–HINATA! — o grito desesperado de Naruto ecoou por todo o salão. E em seguida, os olhos azuis do loiro ganharam um brilho que rapidamente o levou à inconsciência.
Hinata olhou em volta, percebendo estar na consciência escura de Naruto. Seus olhos se voltaram para trás, de onde podia ouvir o arfar confuso do corpo imaterial do Uzumaki.
Imobilizado pelo chakra da Hyuuga, ele não conseguia mover um membro sequer. Seus braços e pernas estavam envoltos pelas correntes do poder de Hinata, impedindo-lhe os movimentos.
–O que está acontecendo? Como você conseguiu entrar aqui? – Naruto perguntou, confuso.
Hinata suspirou. Até Orochimaru havia descoberto suas intenções antes que ela conseguisse conectar-se à Naruto, mas o loiro era muito lento em se tratando daquele tipo de coisa. Sem responder às perguntas que lhe foram feitas, a Hyuuga voltou seu olhar para o lugar de onde vinha o suspirar pesado e animalesco cuja energia era tão forte que lhe dificultava até mesmo a respiração.
Involuntariamente, ela novamente se lembrou do primeiro dia em que sentiu aquele chakra pressioná-la, no escritório do diretor de sua antiga escola, quando Naruto a encontrou. Sorriu com a memória. Hinata considerava aquele o primeiro dia de sua vida. O dia em que começara a viver de verdade.
–Olá, Kyuubi... – ela falou, a voz ecoando na escuridão.
Aos poucos, o grande corpo da raposa saiu das sombras, mostrando-se para a visitante. Seus pelos se eriçaram com a visão da Hyuuga.
“Finalmente você chegou...”, o Bijuu falou, encarando a morena.
Percebendo as intenções de Hinata, Orochimaru compreendeu que seus planos poderiam ser arruinados. Pelo visto haviam ensinado à Hyuuga coisas sobre seu poder que ela não deveria saber. Voltou seus olhos na direção de Sasuke, perguntando a si mesmo se o moreno tinha algo a ver com aquilo.
Em meio à dor, o Uchiha exibiu um sorriso torto e irônico que confirmava as suspeitas de Orochimaru.
Tentando manter-se desperto, Sasuke fixou os olhos embaçados nas figuras de Naruto e Hinata, que tinham os corpos paralisados devido ao transe. Bem, as coisas não estavam saindo exatamente como o planejado – ele não deveria ter se deixado ferir. Naquele momento, seu papel era o de evitar que Orochimaru se aproximasse dos corpos de Hinata e Naruto, pois o transe os deixaria vulneráveis. Seu sorriso se alargou. A Hyuuga era esperta e poderosa, e sabendo que seu mestre não poderia defende-la, pensou em algo que pudesse proteger seu corpo e o de Naruto em meio ao transe. Por isso ela havia envolvido Naruto com o próprio chakra.
Hinata iria conseguir. Mesmo que ele morresse, ela completaria sua missão. Salvaria sua família.
Sasuke sabia que o chakra de Hinata não seria o suficiente para impedir Orochimaru por muito tempo, mas esperava que ela saisse do transe antes que o homem-cobra conseguisse quebrar a barreira. O moreno tentou pensar em algo que pudesse fazer para atrasar Orochimaru, na tentativa de dar mais tempo à Hinata.
“Pense, pense!”, ele ordenava a si mesmo, mentalmente.
E foi quando ele ouviu o grande barulho que fez todo o salão estremecer.
Seus olhos rapidamente se voltaram para Orochimaru, arregalados pela possibilidade de ele haver conseguido quebrar a barreira de Hinata, mas o que viu fez com que sua expressão fosse tomada pela surpresa.
O corpo de Orochimaru foi jogado de encontro à árvore que ladeava a entrada do salão, o barulho de ossos quebrados ecoando por todo o lugar. Uma cortina de chakra verde invadiu a visão do Uchiha, e seus olhos cansados se fixaram na figura da mulher que se aproximava de punho cerrado e erguido pelo golpe certeiro que acabara de desferir.
Respirando pesadamente, Sakura fitava o homem que acabara de arremessar para longe, o corpo posicionado para o combate, esperando que Orochimaru se reerguesse.
–Sakura?! – a voz incrédula de Sasuke soou num murmúrio desesperado. Ele não acreditava que ela havia voltado para o meio do campo de batalha, não depois de todos os seus esforços para mantê-la segura. Interrompeu seus pensamentos por um instante, analisando o corpo da Haruno, que agora se duplicava. Sua visão embaçada criava sombras de Sakura, e ele já não podia distinguir quantas dela conseguia enxergar. Estava fraco... fraco demais para se irritar, fraco demais para argumentar...
“Morto por Dentro
Meu coração e alma estão parando
Coloque sua boca na minha
E me traga de volta à vida
Morto por Dentro
Nada me satisfaz
Meu sangue corre seco
Pegue minha vida
Salve-me desta morte interior”
Dead Inside – Skillet
Orochimaru se levantou do chão, rosnando de ódio. Limpou o sangue que escorria de seus lábios, remexendo o pescoço a fim de colocar os ossos deslocados no lugar. Ele estava disposto a se apoderar dos poderes de todos ali sem faze-los sofrer demais, e dar a eles uma morte rápida, mas se era guerra que aqueles pirralhos queriam, então era guerra que eles teriam.
Os vários chakras dos quais já havia se apoderado durante sua vida se agitaram dentro dele, envolvendo-o de dentro para fora. Orochimaru urrou, fazendo o ar ao seu redor pesar de tal forma que era difícil até mesmo respirar naquele salão. Seus dedos se curvaram em garras e os olhos de cobra se fixaram em Sakura.
E quando ele estava prestes a lançar uma rajada de chakra na direção da rosada, sentiu algo lhe paralisando os movimentos.
Quando olhou para trás, Orochimaru viu uma sombra de belos contornos se aproximando, as mãos unidas formando um jutsu que ele desconhecia. Aos poucos o vulto ganhava forma, saindo das sombras, revelando a loira que caminhava em sua direção de olhos fechados.
Quando os olhos de Ino se abriram, ela pôde ver a expressão irada de Orochimaru, que a fitava com ódio fulminante.
–VOCÊ... – ele rosnou, percebendo que a feiticeira o havia prendido em uma armadilha. E quando estava prestes a concentrar chakra suficiente para conseguir se soltar, sentiu a lâmina de um grande leque sendo colocada em seu pescoço. Voltou a cabeça novamente para frente, vendo uma outra mulher loira encará-lo com um sorriso de satisfação nos lábios.
–Se mexa e eu arranco sua cabeça. – Temari sibilou, as palavras soando como um ronronar de um gatinho indefeso, mas seu olhar era ferino como o de uma leoa.
Orochimaru engoliu em seco. Seus olhos se fixaram em Naruto e Hinata, que continuavam um pouco distantes dali, ainda presos no transe. Ele lambeu os lábios, como uma cobra diante da presa mais saborosa de todas. Seu desejo doentio de se apossar dos poderes Hyuuga e Uzumaki era maior que seu medo da morte, e por eles, Orochimaru seria capaz de arriscar tudo.
Afinal, não havia chegado tão longe para ser parado por um bando de pirralhos.
–O que está fazendo aqui?! – Temari ouviu a voz de Shikamaru, que tinha o corpo jogado e imobilizado em um dos cantos do salão e a fitava com uma expressão tomada pelo pânico.
–Vim salvar esse seu lindo traseiro! – a loira respondeu, debochada, tirando os olhos de Orochimaru por um instante para fitar o moreno – Agradeça, Nara incompetente!
–Temari, cuidado! – Shikamaru gritou, percebendo que o inimigo estava prestes a se aproveitar do segundo de distração da Sabaku.
Sem perder tempo, Orochimaru impôs uma quantidade maior ainda de chakra, forçando o jutsu de Ino a ceder, fazendo com que Temari se afastasse rapidamente antes que a energia do inimigo a queimasse. Rapidamente, a Yamanaka fez outro selo com as mãos, reforçando o feitiço que prendia Orochimaru, mas ele liberou ainda mais chakra para obriga-la a soltá-lo.
Paralisado pela cena que presenciava, Gaara fitava, de olhos arregalados, o poder da mulher que ele amava.
Ino entrelaçou os dedos em um selo ainda mais forte, sentindo um filete de sangue escorrer por seu nariz. Estava indo longe demais, em breve não aguentaria mais segurá-lo.
–Solte... Ou vai acabar morrendo. – Orochimaru murmurou, sentindo sua pele se desfazer novamente. Uma nova camada de escamas surgia no lugar da pele que caia, revelando a casca já desgastada. Ninguém podia liberar tanto poder assim e não sofrer as consequências de tal ato, Ino sabia disso.
–Então morreremos juntos. – a Yamanaka respondeu, e em seguida sorriu, exibindo ao inimigo os lábios manchados pelo sangue que escorria do nariz.
–PIRRALHA DOS INFERNOS! – Orochimaru gritou, percebendo que a loira não iria desistir.
Ino já sentia suas pernas fraquejarem, sua visão embaçar. Não iria aguentar por muito mais tempo... estava chegando no limite.
Foi quando ela ouviu um novo urro de Orochimaru, e estreitou os olhos azuis a fim de ver o que se passava por trás da cortina de chakra sombrio do homem-cobra.
Reconhecendo os fios rosados que se balançavam ao redor do rosto furioso de Sakura, o sorriso da Yamanaka se alargou.
As mãos da Haruno, que estavam envolvidas em chakra curador, agora agarravam o pescoço de Orochimaru com força, levantando-o do chão.
O chakra do inimigo não podia queimar as mãos que foram feitas para curar. A energia verde da rosada lhe dava força e proteção suficientes para que ela pudesse tentar parar Orochimaru.
Percebendo a abertura que Sakura lhe dava, Temari se aproximou novamente, mas dessa vez ela não estava com o leque nas mãos. Sua arma agora eram os olhos que brilhavam com intensidade, tingindo sua expressão de vermelho.
Hanabi apareceu logo atrás de Sakura, os punhos erguidos, o Byakugan desperto em seus olhos. Ela ouviu, de longe, o sussurro fraco e irritado de Kiba resmungando “Por que você é tão teimosa?”, e apenas sorriu, prestes a golpear o corpo ferido que Sakura segurava.
–É de família! – Tenten respondeu à pergunta de Kiba, aparecendo perto de onde Neji estava caído.
–Por que você está aqui?! – o Hyuuga perguntou, a voz cheia de indignação.
Tenten estreitou os olhos, movendo o pé na direção do peito de Neji e atingindo-o com força. Hyuuga metido...
–Porque sou a porra da guardiã! – ela respondeu aos berros, ouvindo o arquejar do moreno com o peso do pé dela sobre seu peito.
Neji estreitou os olhos para a Mitsashi.
–Eu adoro essa sua delicadeza, Tenten. Sério mesmo, você é uma flor de pessoa, só que cada pétala sua é uma navalha.
–Se eu não fosse a droga da guardiã, te deixava aqui pra morrer, sabia? Só tô salvando a sua pele porque é minha obrigação! – ela argumentou, finalmente tirando o pé de cima dele para em seguida ajuda-lo a levantar.
–Você tá salvando a minha pele porque me ama, isso sim. – Neji rebateu, ouvindo-a bufar — E nem faça essa cara, você ainda me deve um beijo.
Tenten revirou os olhos, e antes que o Hyuuga pudesse falar mais alguma coisa, ela enfiou o que parecia ser um comprimido pela boca do rapaz, forçando o medicamento a descer goela abaixo.
–Engole! – ela mandou, ouvindo Neji tossir, engasgado.
–Que diabo foi isso?! O que é esse negócio?! – ele perguntou, sentindo o comprimido descer queimando por sua garganta.
–Um negócio ai que o Sasuke mandou a Sakura preparar alguns dias atrás... Parece que serve de antídoto contra o veneno do Orochimaru. – a Mitsashi explicou — Hinata me entregou isso alguns dias atrás, achou que eu fosse precisar, e acho que isso fazia parte do plano dela... Só que você teve a brilhante ideia de me nocautear, e se eu demorasse a acordar só mais um pouquinho, você ia acabar morrendo, idiota!
–Então você deveria dar isso para o Uchiha! – Neji protestou, mas a expressão desanimada de Tenten o interrompeu.
–Esses comprimidos só podem combater uma pequena quantidade de veneno, Neji... E pelo que estou vendo, parece ser tarde demais para o Sasuke... – a guardiã respondeu, estranhando o sentimento de tristeza que se apossava de seu coração. Aquele Uchiha era insuportável, mas não seria por isso que ela se alegraria em vê-lo morrer.
“Não me deixe só
Porque eu quase não vejo nada
Não me deixe sozinho, eu estou
Caindo no escuro
Deslizando através das fissuras
Caindo nas profundezas posso nunca mais voltar”
Falling In The Black — Skillet
Do outro lado do salão, Hanabi se preparava para golpear Orochimaru, até que percebeu a expressão apavorada do inimigo. Sem compreender o que estava acontecendo, a Hyuuga estancou. Do que ele parecia ter tanto medo?
Orochimaru gritou de dor, fazendo Sakura erguer uma sobrancelha, confusa. Ela apenas o estava segurando, mas não tinha força suficiente para machuca-lo, não quando já havia gastado tanto chakra. Porque Orochimaru se contorcia daquela maneira?
Também sem entender o que se passava, Ino tentava segurar o jutsu que prendia o inimigo o máximo que podia, mas quando seus olhos se fixaram em Temari, o susto fez com que ela desfizesse o selo que sustentava seu feitiço.
Ouvindo o arfar de surpresa da Yamanaka, Sakura, Gaara, Shikamaru, Kiba, Neji, Tenten e Hanabi olharam para Temari, a fim de saber o que estava acontecendo.
A Sabaku sorriu, satisfeita ao perceber que havia prendido Orochimaru em seu sharingan.
Os olhos de Hinata e Kyuubi estavam fixos nos rostos um do outro, os dois mantendo as expressões concentradas. Ambos sabiam que, através dos limites do transe em que se encontravam, o mundo desabava, as batalhas continuavam, mas sabiam também que ali, dentro da consciência de Naruto, não havia tempo. Passaram, então, uma eternidade ou milésimos de segundos se encarando – nenhum dos dois sabia dizer exatamente. Tudo o que sabiam era que aquele momento era demasiadamente importante para que hesitassem ou demonstrassem insegurança.
Kyuubi fitava aquela que seria sua aliada ou sua pior inimiga, esforçando-se para não rosnar. Precisava saber o que Hinata queria, o que ela pretendia, e tentava identificar traços de qualquer emoção no rosto dela que revelassem suas intenções, mas a morena mantinha a expressão indecifrável.
–O que está acontecendo?! – Naruto perguntou, confuso e irritado. Queria voltar, rasgar a garganta de Orochimaru, livrar-se do inimigo que o havia causado tanta dor, libertar o destino de sua família das garras do homem-cobra, mas a Hyuuga parecia não ter pressa alguma – Hinata?! – ele insistiu, em busca de uma resposta.
Finalmente desviando os olhos de Kyuubi, a morena novamente fitou Naruto. Ela tinha a expressão calma, tranquila, e seus olhos perolados tinham o brilho doce de que ele se lembrava, e aquilo amoleceu o coração acelerado e confuso do Uzumaki, fazendo-o acalmar-se um pouco.
–Antes de dizer o que vim fazer aqui, — Hinata falou, sua voz reverberando pelas paredes imateriais da consciência de Naruto – preciso contar a vocês uma pequena história.
–Não temos tempo para isso! – Naruto argumentou, mas a morena parecia calma. Calma demais.
–Temos tempo o bastante. – ela rebateu – Acredito que essa história seja do seu interesse, Naruto. Ela envolve você, a sua vida, a sua... a nossa família. – disse, caminhando para perto de onde o loiro estava.
Hinata parou diante de Naruto, tocando delicadamente o rosto dele com as duas mãos, fazendo-o fechar os olhos, aproveitando o calor da pele da morena na sua. Ainda com os membros atados pelo chakra da Hyuuga, ele não podia retribuir àquele toque gentil.
Os dedos de Hinata moveram-se para as têmporas de Naruto, e ele abriu os olhos, percebendo a intenção da garota.
–O que você quer me mostrar? – ele perguntou, os olhos azuis fixos no rosto tranquilo da morena.
–A verdade. – Hinata respondeu – Quero mostrar a verdade.
E sem qualquer aviso, ela invadiu a mente vulnerável de Naruto, fazendo-o revirar os olhos e desmaiar, induzindo-o a mergulhar em um outro transe, diferente daquele em que já estavam presos. Estar dentro da consciência dele facilitava o processo – não seria tão fácil fazer aquilo se ela estivesse do lado de fora.
Os olhos atentos de Kyuubi acompanhavam o mergulho de Naruto, enquanto observava, ansioso, Hinata mostrar aos dois lembranças que não eram dela.
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