Paraíso Sombrio

47 O mar da vida


Notas iniciais
Yo, minna! Tudo bem com vocês? Feliz natal atrasado xD Olha que autora-san boazinha postando capítulo rapidinho xD (Isso ae de dizerem que sou uma autora-san malvada é tudo calúnia, hein? Kkkkkkkkkk) Não tenho muito a falar sobre o capítulo, apenas que ele é bastante revelador. Hoje, a última ponta solta de Paraíso Sombrio será atada. Claro que ainda tem muita coisa para acontecer, mas a partir de hoje, os personagens podem se libertar do passado e finalmente vislumbrar o futuro. Se sobreviverem, é claro. xD A trilha sonora de hoje é uma das mais importantes de PS, e contém músicas que eu pensei em utilizar para este momento desde quando a ideia da fic surgiu (assim como o caso de High Hopes para a morte de Jiraya). Então peço que, por favor, não deixem de escuta-las, porque essas músicas transmitem todos os sentimentos que coloquei neste capítulo enquanto o escrevia. A primeira música é do Blood Red Shoes, uma das minhas bandas preferidas. Ela se chama The Silence And The Drones, e é importantíssima para a cena em que irei utiliza-la. www.youtube.com/watch?v=-zFbvjgGsA8 A segunda se chama I Hate Everything About You, da banda Three Days Grace, e acredito que muitos aqui já a tenham ouvido alguma vez na vida. Ela será utilizada em uma cena com Shikamaru e Temari, e é perfeita para eles dois, transmite bem a relação conturbada que eles tem. www.youtube.com/watch?v=BpwCJzPlz8k A terceira música é crucial para este capítulo. Se chama O’Children, do Nick Cave, e é uma das canções mais bonitas que conheço, além de carregar uma grande dor em suas palavras. Não sei se todos sabem da história que essa música conta, se gostarem, podem ver a tradução depois. Bom... Ela traduz muito do que Sasuke e Temari viveram durante os anos em que foram obrigados a passar longe de sua família. Se eu tiver conseguido acertar o tempo, essa música deve durar pelas últimas cenas do capítulo. www.youtube.com/watch?v=Q9dNZZVnO8k Nunca me esforcei tanto pra tentar encaixar as músicas de um capítulo no tempo certo, tomara que funcione xD Espero que gostem! Boa leitura, e nos vemos nas notas finais!



Memórias de um passado distante



Os dois amigos observavam, distraídos, os empregados andando de lá para cá com grandes vasos cheios de lírios nas mãos. Ao redor deles, as mesas já estavam arrumadas no grande salão de festas da ORDEM, e as cortinas de seda branca já balançavam com o vento. O pano branco que cobria as mesas contrastava com a grama que rodeava o salão, e as flores já estavam sendo postas em seus devidos lugares.

Sentado sob a sombra de uma das árvores do lugar, Sasori bocejou. Itachi repousava tranquilamente ao seu lado, em silêncio, os olhos negros fixos na movimentação dos preparativos para o casamento de Kurenai.

–Você acha que a Kurê gosta mesmo do Asuma? – Sasori perguntou, coçando a cabeça.

Itachi suspirou. Já havia perguntado aquilo a si mesmo umas mil vezes, e a resposta óbvia ocupava seus pensamentos desde o dia em que Kurenai e Asuma começaram a namorar.

–Se eles estão juntos, se vão casar... É claro que ela gosta dele, Sasori. – o Uchiha respondeu, apático, sem desviar os olhos do salão. Pensou no pequeno Sasuke, e em como ele aproveitaria o dia de seu aniversário comemorando ao lado dos amigos. Por que inferno tinham de ter marcado aquele casamento para o mesmo dia do aniversário de seu irmão mais novo?

–É... – o rosado murmurou, o olhar distante – Sempre achei que vocês iam ficar juntos.

“Eu também.”, Itachi pensou, mas não diria aquilo à Sasori. Deixaria as lamentações misturadas à outras abstrações que entorpeciam seus pensamentos, já que não havia nada que pudesse fazer a respeito daquela situação.

–Tem certeza de que não quer que a gente exploda esse casamento? – Sasori perguntou, vendo Itachi revirar os olhos – É sério, cara, é só você dar a ordem e eu falo com o Deidara, aquele garoto adora explodir as coisas, vai ser moleza pra ele.

–Deixe o casamento da Kurenai em paz, Sasori. – o Uchiha bronqueou, os olhos estreitos na direção do amigo. Cansado daquela conversa, ele se levantou, preparando-se para voltar para casa, que ficava à uma quadra da sede da ORDEM – Este é um dia especial para ela... Kurenai é parte da nossa família. Ela precisa do seu apoio, e não da sua falta de noção.

Sasori suspirou.

–Certo, certo... – o rosado respondeu, percebendo o nervosismo do amigo. Aquele era um assunto delicado para Itachi, e não era a intenção de Sasori irritá-lo – Você vem, né?

De pé, Itachi olhou novamente para a movimentação no salão, sentindo seu coração se agitar de forma desconfortável dentro do peito.

–Itachi? – Sasori insistiu, esperando por uma resposta.

O moreno alisou a testa, tentando ordenar os pensamentos confusos que tomavam sua mente.

–Ainda estou decidindo. – o Uchiha respondeu.

–Qual é, Itachi, você acabou de dizer que hoje é um dia importante pra Kurê! Ela vai querer ver a gente aqui, cara! – Sasori argumentou.

–Eu não disse que não venho. Só disse que ainda estou me decidindo a respeito. – o moreno piscou inocentemente.

–Como se eu não conhecesse essa cara de bunda que você faz quando tá querendo fugir da responsabilidade. – Sasori resmungou, chutando levemente a perna de Itachi.

O Uchiha riu e deu às costas ao rosado, encaminhando-se na direção da saída.

–Se você não vier, eu vou contar pra ela! — Sasori gritou, vendo Itachi encará-lo por cima do ombro, sem parar de andar — Vou dizer à Kurê que você ficou em casa porque não queria ver ela vestida de noiva!

–Caralho, Sasori, eu venho pra porra desse casamento! – Itachi se rendeu, a voz soando entediada enquanto o moreno saía pelo grande portão da ORDEM.

Sasori se acomodou novamente sob a sombra da árvore, vendo a figura do amigo desaparecer pela rua, mas logo se distraiu ao ver Naruto e Sasuke arrastando Gaara pelo gramado, forçando o ruivinho a juntar-se a eles em suas brincadeiras. Com a mesma expressão apática de sempre, o Sabaku se recusava a acompanhar os amigos, mas Naruto e Sasuke não desistiam. Sasori riu sozinho, perguntando a si mesmo por que as coisas tinham de ser tão complicadas para sua família. Esperava que a tempestade de problemas que os rodeava naquele momento se dissipasse o mais rápido possível.

Quando a cerimônia que selou a união entre Asuma e Kurenai acabou, e a festa pôde, enfim, começar, Sasori tentou evitar o olhar interrogativo de Deidara. O loiro queria saber onde estava Itachi, mas ele também não sabia do paradeiro do amigo. Provavelmente, o Uchiha decidira ficar em casa e não ter que ver Kurenai subir no altar e se casar com outro. E embora lamentasse pela ausência de Itachi, Sasori compreendia que, talvez, não presenciar aquilo fosse melhor para o amigo.

A festa seguiu animada e, de longe, Sasori ouvia as felicitações de todos à Sasuke, afinal, aquele também era o dia do aniversário do Uchiha mais novo. Procurou por Gaara, que estava perto da mesa dos doces encarando a comida com uma expressão impassível, embora o brilho em seus olhos revelasse a fome que sentia. Sasori se aproximou do discípulo.

–Se não comer logo essa droga, vou enfiar tudo pela sua goela. – o rosado falou, esperando pela reação do Sabaku.

Gaara estreitou os olhos para o mestre, mas sem conseguir resistir aos doces, pegou um punhado de brigadeiro e comeu todos de uma vez. Sasori sorriu.

–Onde está sua irmã? – o mestre perguntou.

–Quem? – o ruivo questionou, parecendo confuso.

Sasori suspirou. Gaara ainda não havia se habituado completamente à nova vida, e isso tornava escassa a já curta paciência do rosado.

–Temari. Onde ela está? – Sasori perguntou novamente. Ainda não havia visto a loirinha naquele dia.

–Ah, a Temari... Na última vez em que a vi hoje, ela havia ido ajudar Sasuke a se arrumar na casa do Itachi. Acho que ela se arrumou lá também. – Gaara respondeu, pegando outro punhado de doces.

–Vai devagar com o brigadeiro ou vai acabar tendo dor de barriga. – o mestre repreendeu ternamente, apoiando uma das mãos nos cabelos ruivos de Gaara. O Sabaku o fitou com a expressão surpresa de quem ainda está se acostumando a ser tratado com carinho. Sasori era estranho. As vezes parecia um maluco furioso, as vezes parecia um pai carinhoso e preocupado, e Gaara percebia que, aos poucos, um sentimento desconhecido passava a ocupar seu coração. Amor? Talvez. O ruivo não conseguia entender por que Sasori cuidava dele, assim como ainda tentava assimilar as esquisitices daquele homem, mas seu coração parecia, finalmente, conseguir ceder algum espaço para o rosado.

Interrompendo os pensamentos de Sasori e Gaara, Sasuke passou pelos dois correndo com um prato cheio de bolo nas mãos.

–Devagar, pestinha, ou você vai derrubar esse bolo em cima do vestido de alguém! – Sasori segurou o moreno pelos ombros, obrigando-o a parar de correr – Mas, se você for mesmo derrubar isso, pode ser no vestido da Kurê? Se ela perguntar, você diz que foi o Deidara quem mandou.

–Tio Sasori! – Sasuke repreendeu o adulto, rindo.

O rosado riu também.

–Tô só brincando! – Sasori falou, e em seguida se abaixou para ficar da altura de Sasuke – Feliz aniversario, pestinha! Espero que você não pegue a mania do seu irmão, que há uma década não sai dos vinte e três anos. Como foi que o Itachi te convenceu a usar essa gravata?

–Ele me obrigou! – Sasuke respondeu, indignado.

Sasori riu. Ele sabia bem o quanto o pequeno Uchiha era avesso àquele tipo de roupa.

–Itachi entregou o presente que eu te dei? – o rosado perguntou.

–Entregou! Espada bacana! Obrigado! – Sasuke respondeu, sorrindo ao sentir as mãos de Sasori bagunçando seus cabelos com carinho – Onde você a conseguiu?

–Na verdade, aquela espada pertenceu ao seu pai, mas acabou se perdendo quando vocês se mudaram para cá... Consegui recuperá-la, mas deu muito trabalho e custou muito dinheiro, então cuide bem dela! – Sasori recomendou.

–Pessoas normais não dão espadas de presente para crianças, dão brinquedos. – a voz de Tsunade interrompeu a conversa.

–Mas eu não sou uma pessoa normal. Sou uma pessoa legal. É diferente. – o rosado rebateu, levantando.

Tsunade revirou os olhos.

–Claro, claro... – ela resmungou – Você não vem comer, não? – a loira chamou Sasori – Tá quase na hora de o Jiraya ficar bêbado e achar que sabe dançar.

–Eu não perderia isso por nada. – o rosado sorriu – Vou daqui a pouco.

Tsunade deu de ombros, já um pouco embriagada também, e se encaminhou na direção do salão.

–Sasuke, você viu a Temari por aí? – Sasori perguntou ao menino.

–Temari tá procurando o leque dela! Acho que ela tá com medo de você brigar caso ela tenha perdido. – o moreno explicou.

–Não vou brigar com ela, vou ajudar a procurar. Será que ela não esqueceu na sua casa enquanto se arrumava lá?

–Isso! Ela deve ter deixado lá. Você pode dizer a ela pra ir lá em casa pegar? Não posso ir atrás dela agora, porque estou indo levar bolo pro Itachi. – Sasuke falou, a testa franzida em preocupação – Acho que ele tá chateado pelo casamento da tia Kurê, e por isso não quis vir...

–Pode deixar, eu falo pra ela. Diga ao Itachi que mandei um abraço. – o mestre disse, dando espaço para Sasuke passar. De onde estava, ele observou o menino voltar a correr com o bolo nas mãos, rezando pra ele tombar aquele confeito no vestido bonito de alguém. Suspirou, tentando afastar de si o pressentimento ruim que fazia seu peito apertar de forma desconfortável. Olhou uma última vez para Gaara, certificando-se de que ele estava entretido com os doces, e se afastou na direção do salão, esperando pelo show de embriaguez de Jiraya.

Quando chegou ao jardim de sua casa, Sasuke arregalou os olhos para o rastro de sangue que tingia a grama de vermelho e se estendia até a porta de entrada. Já não se atentava mais ao bolo em suas mãos, e derrubou-o no chão tão logo começou a correr, os olhos arregalados, o coração repentinamente acelerado. Abriu a porta, quase escorregando na poça de sangue que dava à Sasuke a sensação enjoativa que lhe atingia os sentidos de forma violenta. Já suava quando seus passos desequilibrados pelo sangue no piso escorregadio alcançaram a sala, onde Itachi jazia encharcado pelo líquido vermelho que esvaia das feridas em seu corpo. Sentado no chão, tendo as costas apoiadas em uma pequena estante, o Uchiha mais velho ergueu os olhos com dificuldade, enxergando vagamente a figura do irmão que se aproximava.

–ITACHI! – Sasuke gritou, atirando-se de joelhos no chão, escorregando até onde o irmão estava – Itachi, o que aconteceu?! Itachi!

“Itachi...”, o eco de seu nome podia ser ouvido, mas Itachi não conseguia responder. Sua boca estava repleta pelo líquido quente que escorreu pelo queixo quando tentou abrir os lábios e responder ao gentil chamado do irmão. Fracamente, ele franziu o cenho, estranhando a expressão de Sasuke. Por que ele parecia estar tão preocupado, por que o chamava tão baixinho que ele mal podia ouvir a voz do Uchiha mais novo?

–ITACHI! – Sasuke berrou novamente, as mãos tateando debilmente o corpo ferido do irmão. Que diabos estava acontecendo? – Itachi, fale comigo... O que aconteceu?! Fale comigo, por favor!

–Sa... Sasuke... – o mais velho murmurou fracamente. A imagem de seu irmão começava a duplicar, triplicar, sob a visão de seus olhos embaçados pelo torpor que começava a se apoderar de seu corpo. Tudo parecia tão escuro ao seu redor... Já havia anoitecido? E havia aquela dor... aquela dor infernal que não cessava nunca... – Sasuke...

O pequeno limpou as lágrimas que rolavam por seu rosto, sem se importar em manchar a própria pele com o sangue de Itachi, que agora se espalhava também por suas roupas e mãos. Sasuke já soluçava, atirando-se sobre o corpo do irmão, abraçando-o com força, as pequenas mãos apertando a pele machucada de Itachi, recusando-se a acreditar no que estava vendo. Ele apertou os olhos, sacudindo a cabeça em negação, o pranto dolorido misturando-se ao sangue que agora se espalhava por toda parte.

–O que tá acontecendo?! – Sasuke murmurou entre as lágrimas – O QUE TÁ ACONTECENDO, ITACHI?! ITACHI?! ITAAAACHIIIIII!!! – berrou, apoiando a testa no peito ferido do irmão.

Em meio ao choro, Sasuke arregalou os olhos ao sentir um braço enlaçando seus ombros. Ergueu um pouco o rosto manchado com o sangue do irmão, e seus olhos encontraram os orbes avermelhados do mais velho, evidenciando o sharingan desperto.

Apesar da dor, Itachi sorria.

–Ele quer os olhos de um Uchiha, Sasuke... – o moreno murmurou, e suas palavras foram interrompidas pela tosse, fazendo mais sangue jorrar de seus lábios – Mas ele não terá. Não terá... – disse, suspirando cansativamente. Falar era doloroso, e fazia seu corpo latejar ainda mais pelo esforço.

–Ele quem?! – Sasuke questionou, confuso e assustado – Do que você tá falando, Itachi?!

O mais velho tossiu novamente, e outra lufada de sangue jorrou de sua boca. Devagar e com dificuldade, Itachi ergueu o braço livre, sentindo o corpo inteiro pesar com o movimento. Alcançou uma gaveta da estante onde estava encostado, abrindo-a. Seus dedos lentos e fracos tatearam o interior do móvel, vasculhando o que havia guardado ali na semana passada.

Encontrou.

A arma que Itachi havia escondido no dia do seu aniversário agora pesava na mão que já não tinha força para sustenta-la, mas mesmo assim, ele conseguiu traze-la para si. Respirou profundamente, cansado. Ainda não estava acabado. Não ainda...

–Eu vou chamar alguém! – Sasuke gritou, tentando se desvencilhar do abraço do irmão. A ORDEM não era tão longe dali, ele poderia correr e pedir por socorro – Vou chamar o tio Sasori e a tia Tsunade, eles podem ajudar, eles podem...

–N-Não... – Itachi se recusou a deixar o irmão sair de seus braços – Não há mais salvação para mim, entendeu? Não são só as feridas... Ele me envenenou... Não há mais salvação para mim... – repetia debilmente.

Itachi suspirou novamente. Havia feito a escolha certa ao ficar em casa, sua decisão norteada não somente pela dor de ver a mulher que amava se casando com outro, mas principalmente pelo fato de que ele estava sendo perseguido há várias semanas. Ficando distante, Itachi evitou que seus perseguidores estragassem o casamento de Kurenai. Com Sasuke entretido na festa, cercado por mestres, o Uchiha mais velho sabia que seu irmãozinho estava a salvo. Só não imaginava que ele fosse voltar para vê-lo. Não queria que Sasuke o visse naquele estado.

–Do que você tá falando, idiota?! Você não pode morrer! Não pode! Itachi, por favor! – Sasuke implorou, as mãos balançando com firmeza o corpo ensanguentado de Itachi, mas sua voz mal chegava aos ouvidos cansados do irmão.

“Seus olhos mostrando derrota

Um registro na repetição

Uma alma que nunca dorme

Seu coração cresce velho e fraco

Decai e não pode aguentar

A escolha em não falar

Isso só torna mais difícil

A luz acende

Você não vai me deixar, por favor, esquecer?”

The Silence And The Drones – Blood Red Shoes

Os olhos poderosos de Itachi se fixaram no rosto do pequeno Sasuke. Sim, o crápula que o perseguia queria os olhos de um Uchiha... Mas ele não teria. Como não teve os de seus pais, como não teria os seus... Como não teria os de seu irmão.

–Sasuke... Pode... Pode fazer um último favor para mim? – Itachi pediu, mostrando a arma em suas mãos.

O garoto levou alguns instantes para compreender a intenção nas palavras fracas de Itachi, mas logo seus olhos se arregalaram de pavor.

–QUÊ?! VOCÊ PIROU, ITACHI?! – Sasuke alarmou, aterrorizado.

–O veneno... dói... Por favor... – Itachi implorou, respirando com dificuldade – Já não aguento mais... Não aguento mais...

–NÃO! – Sasuke se recusou novamente – DE JEITO NENHUM!

–Escute... Quando eu me for, quero que você... Quero que você se desfaça dos meus olhos... Destrua meus olhos... Não os entregue para ele...

–Ele quem?! De quem você tá falando, Itachi?!

–Orochimaru... Ele... Ele quer o sharingan... Ele quer você... Ele quer o Naruto... E a menina Hyuuga... Mas ele não terá... Não terá... – o mais velho repetia, como se quisesse convencer a si mesmo de que aquele homem não se apoderaria dos dons de sua família.

–Quem é Orochimaru?! Que história é essa?! Quem é a menina Hyuuga?!

–Ele virá atrás de você... Como veio atrás dos nossos pais, como veio atrás de mim... Você não pode dar seus olhos a ele... Não dê seus olhos pra ele!

–Itachi, eu não entendo... Eu não entendo... – Sasuke resmungou, as lágrimas confusas escorrendo pelo rosto assustado do menino.

–Ele quer o nosso poder... Ele quer todo o poder que conseguir roubar... Ele quer o poder do Naruto e o poder da garota Hyuuga...

–Quem é a garota Hyuuga?! O que esse homem quer com o Naruto?! – Sasuke perguntou, cada vez mais desesperado e confuso.

–Prometa que... Prometa que você vai proteger o Naruto... – Itachi pediu novamente, os olhos vermelhos embaçados pelo brilho que começava a se esvair.

–Itachi... – o mais novo chamou pelo nome do irmão como uma súplica.

–Prometa! Prometa que vai proteger o seu irmão como eu te protegi... Prometa, Sasuke!

Sasuke encarava o irmão com uma expressão perplexa. Itachi deveria estar delirando por causa do veneno, ou qualquer coisa do tipo, porque nada do que ele dizia parecia fazer qualquer sentido. Tudo o que Sasuke sabia era que seu irmão estava morrendo em seus braços sem que pudesse fazer nada a respeito.

–Sasuke, o Sasori disse que o meu leque... – a voz de Temari soou, despreocupada, pela sala. As palavras da loira, porém, foram interrompidas pelo rastro de sangue que se espalhava por ali, e logo seus olhos se fixaram nas figuras de Sasuke e Itachi – Tio Itachi! Sasuke! – ela correu na direção dos dois.

–Proteja o Naruto... Proteja seu irmão como eu te protegi. Você entendeu? Não há nada mais importante do que a família, Sasuke... Proteja seus irmãos... Proteja Naruto... – Itachi repetia, já começando a perder a noção de tempo e de espaço. Seu corpo ainda ardia em chamas pelo veneno, mas o torpor também avançava sobre seus membros, tragando-o em vertigens violentas.

–Sasuke, o que tá acontecendo?! Por que o tio Itachi tá assim?! Do que ele tá falando?! – Temari questionou, assustada.

Mas o garoto não soube responder. O corpo ferido e o arquejar fraco do irmão mais velho eram as únicas coisas que prendiam a atenção de Sasuke naquele momento.

Trêmulo, o menino pegou a arma das mãos de Itachi. Seu irmão não merecia sofrer tanto...

–Sasuke?! – Temari chamou novamente, sentindo o próprio corpo tremer pela cena que se desenrolava diante de seus olhos. Ela já havia visto muito sangue e muitas mortes no período em que vagou sozinha pelo deserto, antes de ser resgatada por Sasori, mas ver a vida de alguém querido, que fazia parte de sua família, se esvaindo daquela maneira, era algo que sua mente de criança ainda não conseguia assimilar.

–Prometa... Prometa que vai proteger seus irmãos... Prometa que vai proteger o Naruto... – Itachi implorou, os olhos vermelhos fixos no rosto do irmão – Prometa...

–Sasuke, o que você tá fazendo?! – Temari perguntou, apavorada, os olhos fixos na arma que o garoto segurava.

Sasuke ergueu o cano na direção de Itachi, vendo o irmão mais velho sorrir em meio ao ardor do veneno. Pelo menos aquela dor ele não sentiria mais. Tudo estava perto do fim.

–Eu... Eu prometo! – Sasuke falou, os olhos cheios de lágrimas ficando repentinamente vermelhos, revelando o sharingan desperto pela primeira vez em seu rosto.

–Faça... – Itachi pediu, percebendo a hesitação do irmão. A arma balançava nas mãos trêmulas de Sasuke, os olhos arregalados do menino embaçados pelas lágrimas – FAÇA!

–SASUKE, NÃO!!! – Temari gritou. E em seguida, tudo o que a menina ouviu foram os três disparos que ecoaram por toda a casa.

Quando abriu os olhos, Temari viu Sasuke agarrado ao corpo do irmão, a arma jogada para o lado. Os olhos de Sasuke ainda estavam vermelhos e expressavam poder, mágoa, dor e uma saudade imensurável que já o consumia. O sharingan nascia em Sasuke através dor de presenciar a vida de seu irmão se esvaindo bem diante de seus olhos.

Os furos no tórax de Itachi revelavam a coragem que seu pequeno irmão tivera de livra-lo da dor infernal que o afligia.

–Obrigado... Pestinha... – Itachi murmurou, afagando o rosto de Sasuke pela última vez – Me perdoe...

Sasuke afundou o rosto no corpo ensanguentado do irmão, abafando os soluços de seu pranto dolorido.

–No dia do seu aniversário... – Itachi prosseguiu, os dedos fracos escorregando pelo rosto de Sasuke – Eu te dou de presente... a... minha vida... – murmurou, ainda sorrindo – Eu te amo, Sasuke... Vou te amar pra sempre...

Logo a mão que acariciava o rosto do pequeno Uchiha caiu no chão, e o sharingan nos olhos de Itachi perdeu o brilho.

–ITAAAAACHIIIIII! – Sasuke gritou, abraçando fortemente o corpo inerte do irmão.

O sorriso tranquilo de Itachi foi a última coisa que Temari viu antes de desmaiar no chão ensanguentado da mansão Uchiha.

Temari acordou assustada, abrindo os olhos repentinamente e reprimindo um grito de pavor. Ela respirou profundamente, tentando acalmar seu coração e convencer a si mesma de que aquilo não passara do pior pesadelo que já tivera em toda a sua vida, embora o aperto em seu peito dificultasse sua concentração. Esforçando-se para esquecer as imagens que atormentavam sua mente, Temari se assustou ao perceber uma discreta movimentação perto de onde estava. Ergueu um pouco a cabeça, vendo Sasuke sentado ao seu lado. O coração da loira novamente acelerou quando ela percebeu os olhos tristes do pequeno Uchiha a fita-la com pesar. No rosto de Sasuke não havia mais lágrimas, nem sofrimento, nem sharingan, nem nada. Havia apenas o vazio que denunciava o abismo desesperado no qual o coração do garoto começava a se perder. Sasuke era apenas uma criança, afinal.

Temari não estava mais no chão. Estava deitada na cama que reconheceu como sendo a de Sasuke. Ela ergueu o tronco, se sentando, novamente tentando convencer a si mesma de que todas as lembranças que teimavam em lhe assolar a mente não passavam de um sonho ruim.

–Foi real. – Sasuke respondeu ao questionamento mudo na expressão de Temari – Tio Sasori e os outros adultos estão lá na sala agora, levando o corpo do meu irmão.

A Sabaku piscou, abrindo a boca para falar algo, mas as palavras não vieram. Não havia nada que pudesse dizer naquele momento. As imagens do corpo ensanguentado de Itachi insistiam em estampar sua mente, fazendo com que Temari se afundasse na verdade daquelas lembranças. Havia sido real. Uchiha Itachi estava morto.

Fingindo não se atentar à expressão perplexa da amiga, Sasuke pegou uma pequena caixinha que estava sobre a cabeceira.

–O poder do Itachi está aqui dentro. – ele explicou, percebendo a expressão de Temari mudar de perplexa para apavorada – Eu disse ao tio Sasori que Itachi já estava morto e sem os olhos quando cheguei aqui. Eu enterrei a arma no jardim... Eles não sabem que eu peguei os olhos do meu irmão, e eu gostaria que você não dissesse isso para ninguém, tá legal?

A Sabaku olhava fixamente para a caixa, sentindo um misto de curiosidade e nojo invadi-la. Sasuke brincava com o recipiente, sacudindo o que quer que estivesse ali dentro. Ela engoliu em seco e se limitou a assentir, percebendo que o Uchiha mantinha-se impassível diante de tudo o que estava acontecendo. Pelo visto, a dor de perder Itachi havia endurecido o coração daquela criança.

–Eu não sei o que fazer com isso, Temari. Não sei o que o Itachi quis dizer quando me pediu para não entregar meu sharingan para o tal do Orochimaru... Se é que esse cara existe. Não sei o que ele quis dizer quando pediu que eu protegesse Naruto, minha família, todos os meus irmãos... Mas principalmente o Naruto... E falou de uma tal de Hyuuga... – Sasuke murmurou, o cenho franzido em sinônimo de confusão – Se tudo isso for verdade, se esse tal de Orochimaru vier mesmo atrás dos olhos do meu irmão... O que eu vou fazer?

–Você não vai mesmo contar a ninguém sobre isso? – Temari perguntou, sua voz soando pela primeira vez naquele quarto desde que acordara.

–Contar o quê? – O Uchiha rebateu, ainda mantendo-se inexpressivo — “Olha, galera, meu irmão disse que era pra eu proteger o Naruto e todos vocês, porque tem um tal de Orochimaru que tá na nossa cola e quer o poder de uma tal menina Hyuuga da qual eu nunca ouvi falar na minha vida.” Como é que eu conto uma coisa dessas pra alguém, Temari?

A loira suspirou. Não sabia a resposta para aqueles questionamentos.

–Não se preocupe... Nós vamos conseguir resolver isso. – ela tentou tranquilizar o amigo – Mas antes, precisamos esconder o sharingan do seu irmão. Você não pode ficar andando com... com isso pra lá e pra cá.

–Esconder aonde? – o garoto perguntou, como tivesse feito aquela mesma pergunta a si mesmo um milhão de vezes antes de Temari acordar.

–Não sei... – ela murmurou, hesitante. Não fazia a menor ideia de onde poderiam esconder algo tão valioso e perigoso.

Foi quando uma ideia insana passou pela cabeça de Sasuke. Ele olhou para Temari, a expressão ainda marcada pela seriedade que evidenciava o repentino amadurecimento do menino.

–E se você ficasse com ele? – o moreno perguntou, tentando assimilar mentalmente as consequências de tudo aquilo.

–Com ele? – Temari repetiu, confusa.

–Com o sharingan. – Sasuke esclareceu.

–Quê?! – a loira grunhiu, certa de que seu amigo havia perdido o juízo.

–Pensa bem... Não existe lugar melhor pra escondermos o poder do meu irmão do que nos olhos de alguém que saiba aproveitá-lo. – o Uchiha argumentou – Tudo o que Itachi queria era que os olhos dele não fossem parar nas mãos do tal do Orochimaru, mas se esse cara vier atrás de mim, ele vai tomar o sharingan do meu irmão. Ele só não vai poder fazer isso se os olhos do Itachi sumirem... Se já estiverem sob a posse de outra pessoa. Alguém de quem ninguém desconfie... Alguém que sabe de tudo.

–Você enlouqueceu, Sasuke. – a menina levantou da cama, dando às costas ao amigo, prestes a correr em direção à porta.

–Eu tô sozinho nessa, Temari. E eu sou só um menino. – Sasuke falou, vendo Temari parar de andar e estancar perto da porta, ainda de costas para ele – Não posso carregar sozinho a responsabilidade de cuidar do Naruto, dos nossos irmãos, nem posso me proteger contra alguém que eu nem sei quem é. Preciso de ajuda. Preciso da sua ajuda. Por favor.

Temari suspirou. Se virou para Sasuke, sentindo seu coração apertar. A expressão do moreno era de súplica.

–Você não está sozinho... Eu vou... – ela respirou profundamente, preparando-se para o que estava prestes a dizer e fazer – Eu vou ajudar você.

Alguns anos depois



Quando Sasuke acordou naquela manhã, o corpo se agitando em um solavanco assustado, seus olhos rapidamente se voltaram para o corpo da garota que repousava ao seu lado. Sakura já estava acordada, e o encarava com uma expressão preocupada.

–Sonhou com seu irmão de novo? – ela perguntou, os olhos verdes fixos no rosto suado do moreno.

Sasuke suspirou, erguendo o troco e se sentando na cama. Droga... continuava tendo o mesmo pesadelo todas as noites, e aquilo começava a dificultar sua vida. Logo quando as coisas finalmente começavam a se acertar... Por que não conseguia esquecer aquilo?

Tudo estava, realmente, se encaixando perfeitamente na vida de Sasuke. Apesar de ser um rapaz um pouco apático, ele conseguira criar fortes laços com seus irmãos. Naruto, em especial, se tornara alguém com quem Sasuke sabia que podia sempre contar, embora achasse que o loiro estava começando a ser muito influenciado pelas loucuras de Jiraya. Em vez de se aborrecer, o Uchiha ria. Era realmente bom ver seu irmão loiro e desmiolado esquecendo-se um pouco do passado duro que teve e tentando recomeçar a vida ao lado da família.

O namoro com Sakura havia começado por insistência do próprio Naruto, que teimava em dizer que Sasuke deveria se dar uma chance de começar a ser feliz de verdade, pois, segundo o loiro, era óbvio que o Uchiha estava “de queixo caído pela curadora mais gata de toda a ORDEM”.

“Se você não for falar com ela... Eu vou!”, Naruto havia ameaçado. “Cuidado, Sasuke... A Sakura é discípula da Tsunade... Se você der uma de engraçadinho, é capaz de ela arrebentar a sua cara!”, o loiro dizia, debochado. Bom, Naruto não estava errado. Depois da morte de Itachi, Sasuke achava que não tinha o direito de descansar seu coração, afinal, a qualquer momento, a ameaça poderia voltar a se fazer presente em sua vida. Ele havia prometido que iria proteger seus irmãos, que protegeria Naruto, mas depois que foi obrigado a realizar missões ao lado de Naruto e Sakura – e as vezes de Gaara, o que ajudou a estreitar seus laços com o ruivo também — , os sentimentos de Sasuke pela rosada despertaram de forma avassaladora.

Que mal teria em tentar ser feliz, nem que fosse só um pouquinho?

O problema é que Sakura não o fazia só um pouquinho feliz. Ao lado da Haruno, — e também ao lado de Naruto – Sasuke conheceu a verdadeira felicidade, e reavivou dentro de si a sensação de pertencer à uma família. Ainda se lembrava do dia em que deu à rosada a pulseira que selaria oficialmente sua união com ela, o dia em que ele deixou claro que ela era sua Sakura. Ver o sorriso da Haruno reluzir como o brilho da pulseira que acabara de ganhar fez com que Sasuke fitasse, admirado, a beleza da garota mais incrível que já havia conhecido em toda a sua vida. E isso fez com que ele tivesse medo.

Sim, medo. Vez por outra, o Uchiha pegava a si mesmo com medo da felicidade que conquistara. Medo de perder tudo aquilo, medo de ver sua família se esvaindo em seus braços, como um dia aconteceu com a vida de seu irmão.

E talvez por esse motivo os pesadelos com Itachi voltaram a assombrar as noites de Sasuke, mesmo que ele fizesse de tudo para esquecer o dia em que vira seu irmão morrer.

Sasuke esteve até pensando em adotar os métodos de Gaara, que raramente dormia temendo ser aterrorizado pelas lembranças do passado. O Sabaku nunca falava nada sobre a vida que levara antes de ser resgatado por Sasori, mas Sasuke sabia que havia um motivo por trás daquilo. O ruivo já havia passado por maus bocados, afinal. Naruto também tinha suas esquisitices. O loiro insistia em dedicar parte de seu dinheiro a ajudar as crianças da cidade que viviam na rua e passavam fome. Naruto também não gostava muito de lidar com facas. Sasuke certa vez ouvira Jiraya comentar com Sasori que o Uzumaki havia sido torturado muitas vezes quando era criança por algum louco que queria tirar o poder da Kyuubi de dentro dele, e para isso, esfaqueou o corpo miúdo de Naruto até o menino quase morrer. Havia muita gente louca atrás dele, antes de Jiraya resgatá-lo. O loiro também havia sido apedrejado muitas vezes na época em que vagava sozinho, vivendo nas ruas, já que todos achavam que ele era um monstro.

Ninguém ali gostava muito de falar sobre o passado. E Sasuke não era uma exceção.

Respirando profundamente, tentando fixar seus pensamentos no momento presente, Sasuke passou as mãos pelo rosto, afastando as gotas de suor que escorriam de sua testa. Sakura também se sentou ao seu lado e tocou o ombro do Uchiha com delicadeza.

–Está tudo bem? – ela perguntou, o rosto ainda contorcido em uma expressão preocupada.

Sasuke a encarou, sentindo novamente o medo apertar seu coração. E se ele perdesse Naruto... E se ele perdesse Sakura?

Não. Sasuke prometeu a seu irmão – e si mesmo – que jamais deixaria aquilo acontecer.

–Na verdade... – ele hesitou, perdendo-se por um instante na beleza do rosto delicado de Sakura. Ele piscou, tentando se concentrar – Na verdade, tem algo que eu preciso falar... Você poderia... Poderia me ouvir? Por favor?

Sakura assentiu, os olhos verdes fitando atentamente o rosto de Sasuke. Finalmente ele se abriria com ela... Não fosse o tom sério do Uchiha, ela teria sorrido. Sasuke era um rapaz muito fechado, e apesar de já namorarem há algum tempo, ela pouco sabia sobre a vida dele. Sakura sabia apenas que, depois da morte de Itachi, dia após dia, Sasuke se esforçava para seguir em frente e esquecer o passado, mas a experiência que ele vivera junto ao irmão havia sido traumática demais para ser esquecida.

Naquele dia, Sasuke contou tudo à Sakura. Fingindo não notar o olhar apavorado da namorada, ele contou tudo o que vivera, desde o dia em que seu irmão morrera. Contou sobre as investigações que havia feito, e em como havia descoberto algumas coisas sobre a misteriosa garota Hyuuga. Contou que, em breve, talvez Jiraya enviasse Naruto em uma missão para encontrar aquela garota, sob o pretexto de resgatá-la – o que não deixava de ser verdade, dadas as condições em que a tal Hyuuga vivia. Contou sobre Orochimaru, e sobre ter descoberto que aquele homem comandava a famosa facção criminosa chamada Akatsuki, já bem conhecida pelos membros da ORDEM. Contou sobre ter sido obrigado a matar seu próprio irmão, sobre a responsabilidade de proteger sua família, sobre a promessa que havia feito, e da qual tentava a todo custo esquecer. Mas não conseguia.

Sasuke contou sobre tudo, menos sobre Temari. Já havia envolvido a Sabaku em problemas demais... Não precisava por a vida dela e de Sakura em risco, já que seria perigoso para a rosada saber onde estava escondido o poder de Itachi.

Agora, Sasuke sabia que não podia mais fugir de seu passado. Precisava confrontar as lembranças que assombravam sua mente e suas noites, precisava resolver tudo aquilo, ou jamais descansaria. Não enquanto sua família corresse algum perigo, não enquanto Naruto estivesse na mira do inimigo. Não enquanto a garota que amava pudesse ser afetada por toda aquela confusão.

Com a mente inundada por todas aquelas informações, Sakura fitou o Uchiha com uma expressão perplexa quando ele enfim terminou de contar tudo. Ela se aproximou de onde ele estava, tocando gentilmente o rosto do moreno, fazendo com que ele a encarasse.

–Sasuke eu... Eu sinto muito... – a Haruno murmurou, fitando-o com pesar. Como alguém podia carregar um fardo tão grande como aquele sozinho?

–É... Eu também. – o Uchiha suspirou, colocando as mãos sobre as de Sakura em seu rosto, encarando os olhos verdes que o fitavam com preocupação – Acho que está na hora de partir.

–O... O que? – a rosada murmurou, confusa.

–Preciso cumprir a promessa que fiz ao meu irmão, Sakura... Só poderei ser feliz com você depois que tudo isso for resolvido. Só vou conseguir dormir tranquilo ao seu lado quando enfim conseguir eliminar o inimigo que ameaça a segurança da nossa família.

–Mas o que você vai fazer? – ela perguntou, sentindo o coração apertar.

–Primeiro, preciso despistar nossa família. Não posso deixar que algum mestre siga os rastros perigosos e traiçoeiros deixados pelo inimigo. – Sasuke falou, sem se atentar ao olhar cada vez mais confuso de Sakura – Se fizermos com que todos pensem que a própria ORDEM está por trás de tudo isso, talvez ninguém se dê conta de que o verdadeiro inimigo está à espreita. Preciso me aproximar da Akatsuki para chegar até o Orochimaru e enfim ter a oportunidade de acabar com tudo isso.

–Eu vou ajudar. – a rosada falou, fazendo com que Sasuke a encarasse com uma expressão impassível.

–Não vai, não. – ele rebateu, e seu tom era o de quem encerrava uma discussão antes mesmo de começa-la.

–Como é?! – Sakura grunhiu, indignada – Você não pode se arriscar dessa maneira sozinho!

–Se quisermos fazer isso dar certo, precisamos... – Sasuke se interrompeu, como se o que estivesse prestes a dizer fosse algo mais doloroso do que pudesse suportar – Precisamos aprender a viver separados, Sakura. Preciso me acostumar com a ideia de que não vou poder ter você comigo durante um longo período... Por favor, não torne isso mais difícil do que já é.

A Haruno suspirou. Sasuke tinha razão.

Sem parar para pensar no que fazia, a rosada se atirou nos braços do namorado, sentindo-o abraça-la de volta com força. Ele afundou o rosto no pescoço de Sakura, os lábios deslizando do pescoço até a orelha dela.

–Você vai esperar por mim? – ele perguntou, enrolando os dedos na pulseira com a qual a presenteara, e que ela nunca tirava do pulso.

–Sou sua, lembra? – ela respondeu, a voz abafada pela pele do peito de Sasuke — Claro que vou esperar por você.

Ele riu.

–Obrigado. – Sasuke murmurou, apertando ainda mais a rosada em seus braços – Eu te amo, minha Sakura.

A Haruno ficou paralisada por um instante, os olhos se arregalando repentinamente. Era a primeira vez que Sasuke lhe dizia aquilo.

Ela se acomodou um pouco mais nos braços do Uchiha, sorrindo ao perceber que as lágrimas rolavam fartas por seu rosto em um pranto silencioso.

–Eu também te amo, Sasuke...

Sentada em frente à penteadeira, encarando o espelho, Temari admirava o próprio rosto, piscando os olhos verdes na tentativa de assimilar quão rápido o tempo havia passado. Seu aniversário de dezoito anos havia acontecido algumas semanas atrás, seu namoro com Shikamaru já completava dois anos, e juntos, os dois haviam enfrentado muitas dificuldades. Temari continuava sendo uma pessoa de gênio difícil, e o Nara ainda tinha certas dificuldades em lidar com isso. Em contrapartida, seu convívio com Sasori melhorava a cada dia. A Sabaku havia confiado sua vida ao mestre desde o dia em que fora resgatada por ele nas areias de um deserto muito distante da cidade onde agora eles moravam. A ORDEM a havia recebido de braços abertos, mas eram os passos de Sasori que guiavam Temari para a promessa de um futuro feliz.

Porém, havia coisas a respeito de um passado sombrio que eram impossíveis de serem esquecidas. Temari tinha lembranças aterrorizantes dos anos em que viveu abandonada em terras árabes, mas não eram essas memórias que a mantinha acordada durante a noite. Enquanto via Shikamaru dormir, sereno, ao seu lado, a Sabaku sentia sua mente ser invadida pelo rosto ensanguentado de Itachi e pelas lágrimas de Sasuke. E aquilo nunca, jamais saia de sua cabeça.

Tentando se fixar no momento presente, Temari suspirou. Sorriu para o espelho ao se lembrar de seu namorado problemático, o único rapaz insistente o suficiente para aceita-la com todos os seus defeitos, que não eram poucos. A loira continuava sendo a mesma garota teimosa, geniosa, sarcástica e orgulhosa que sempre fora, mas ao contrário de todos os que viam naquelas características motivos para recuar, Shikamaru seguiu em frente, enfrentando a rejeição de Temari por varias vezes seguidas, sem nunca desanimar, como se seu maior objetivo na vida fosse conquistar o coração daquela garota. E, eventualmente, acabou conseguindo.

Temari piscou, vendo seu reflexo fazer o mesmo. Resolveu testar o poder que agora lhe pertencia, fazendo com que seus olhos assumissem o tom avermelhado que revelava o sharingan desperto. Ela vinha fazendo aquilo há alguns anos, pois era importante manter o chakra circulando em seu rosto para que o poder de Itachi não ficasse estagnado, assim lhe dissera Sasuke e assim ela fazia desde o dia em que concordara em guardar aquele poder que não era seu. Obviamente, ninguém além dela e de Sasuke sabiam sobre aquilo, e Temari era sempre bastante cautelosa quando despertava o sharingan. Não podia ser pega com aquilo em seus olhos.

Ainda de frente para o espelho, a Sabaku sentiu seus olhos vermelhos se perderem em lembranças de um passado que agora parecia tão, tão distante...

Naquela noite, chovia como se o mundo estivesse prestes a desabar. O céu escuro e encoberto de nuvens dava ao grande jardim da ORDEM um aspecto sombrio e fantasmagórico. Em meio às árvores, um adolescente moreno arrastava uma garota loira que se debatia em relutância, sem querer voltar para casa.

–Para onde inferno você está me levando, Nara?! – Temari gritou, irada.

–Cale a boca e venha comigo! – Shikamaru rebateu, irritado, arrastando a loira pelos pulsos de volta para o casarão da ORDEM enquanto ela se debatia em seus braços, fazendo a água da chuva espirrar para todos os lados. Os dois já estavam mesmo encharcados, então aquilo não fazia diferença alguma.

–Eu vou matar você, ouviu?! – A Sabaku ameaçou, ainda tentando se soltar — Não importa o que o Sasori diga nem o que ele fará comigo depois, eu vou matar você!

Shikamaru revirou os olhos. Por um breve instante, seu cérebro lhe alertou de que poderia ficar doente se ficasse por tempo demais em baixo daquela chuva, mas não se importou.

–Mas que merda você pensa que está fazendo?! – ele parou de andar, soltando o braço de Temari e encarando-a com uma expressão impaciente — Seu mestre quase enlouqueceu porque você sumiu de novo! Pare de tentar fugir! Você vai acabar morrendo nas mãos de algum psicopata que esteja atrás do seu poder!

–E o que você tem com isso? – Temari perguntou, vendo Shikamaru estancar — Por que se importa tanto comigo?

O rapaz não respondeu. Apenas encarou Temari com a expressão de quem já havia feito aquela mesma pergunta a si mesmo inúmeras vezes, sem jamais encontrar a resposta.

Ela sacou uma pequena adaga que estava escondida no cano de sua bota, colocando-a no próprio pescoço. A água da chuva escorria pela arma, fazendo a lâmina brilhar.

–Temari! – Shikamaru gritou, percebendo que a Sabaku era realmente tão louca quanto os rumores diziam. Temari já era uma menina rebelde quando foi encontrada por Sasori, porém, depois da morte de Itachi, ela havia piorado bastante. Estava sempre tentando fugir e fazendo coisas perigosas que faziam com que seu mestre estivesse constantemente preocupado com ela, mas Temari parecia não se importar. E ninguém entendia direito o porquê de ela agir dessa maneira. Shikamaru, porém, conseguia ver além do que qualquer pessoa era capaz de enxergar. Ele conseguia sentir que aquela garota carregava consigo uma grande dor.

A loira sorriu com ironia. Os olhos verdes fitaram o rosto furioso de Shikamaru, sustentando uma expressão cruel.

–Você acha que pode me salvar do que eu me tornei? Quem porra você e o Sasori acham que são? Eu não posso ser salva! Não posso! – ela gritou, a voz ecoando por entre as árvores do grande jardim — Nem eu, nem o Gaara, nem ninguém aqui! Vocês não podem mudar quem nós nascemos pra ser! Nós somos monstros, Nara! É isso que nós somos!

–Cale a boca, Temari! – a voz furiosa soou pelo jardim, fazendo com que Shikamaru e Temari pulassem de susto. Um relâmpago iluminou o céu, revelando o rosto de Sasori entre as sombras.

O mestre, que já estava completamente molhado pela chuva, se aproximava a passos pesados, o rosto contorcido em uma expressão furiosa. Seus olhos, porém, deixavam transparecer o verdadeiro sentimento em seu coração: decepção.

Num gesto hábil e rápido demais para que os olhos dos dois adolescentes ali percebessem, Sasori lançou uma rajada de chakra por entre os pingos de chuva na direção de Temari, atingindo a mão que segurava a adaga, atirando-a para longe.

–Pode ir, Shikamaru. Muito obrigado por trazer minha discípula de volta. Seu mestre o aguarda lá dentro. – Sasori falou, sem desviar os olhos de Temari.

O Nara olhou uma última vez para a loira. Suspirou. Merda de garota problemática...

Em silêncio, o rapaz se afastou na direção do casarão.

Sasori e Temari se encararam. Os dois sustentavam uma expressão impassível no rosto, como quem espera o ataque de um inimigo.

–Não vai brigar comigo?! – a Sabaku foi a primeira a interromper o silêncio.

Mas Sasori não respondeu.

–Vamos! Me castigue, eu não ligo! – ela provocou o mestre, esperando por alguma reação — Qual a punição por eu ter tentado fugir mais uma vez? Estou pronta para o castigo!

Mas de Sasori, Temari conseguia apenas o silêncio e o olhar de um pai decepcionado.

–E então? – a loira insistiu, sentindo a mudez de Sasori penetrá-la de forma desconfortável.

O mestre suspirou. Seus olhos ainda traziam o brilho triste que revelavam sua decepção.

–Não estou aqui para castiga-la, Temari. Minha intenção nunca foi essa, e você sabe muito bem disso. – ele finalmente falou — Eu queria te mostrar que não existe motivo para uma garota como você guardar tanto ódio e tanto rancor no coração. Eu gostaria de mostrar a você como a vida pode ser bonita, quando estamos dispostos a vive-la intensamente. Minha intenção era ser o pai que você não conheceu durante a infância. Eu queria ensiná-la a controlar seu poder e faze-la entender que você NÃO É UM MONSTRO! Eu não quero mudar quem você é, Temari. Quero que você aprenda a aceitar seu próprio poder e entenda que ele só será uma maldição se você fizer com que ele seja.

Foi a vez da Sabaku ficar em silêncio, pois a verdade e a tristeza nas palavras de Sasori calaram sua voz.

–Mas se conviver comigo é tão difícil para você... Se não há motivos suficientes para você ficar... – o mestre prosseguiu — Não serei eu a pessoa que ficará em seu caminho. Se quiser ir embora, eu não a impedirei. Não mais.

–Vai me deixar ir? – ela conseguiu perguntar, embora sua garganta insistisse em se fechar pelo sentimento estranho que a invadia.

O rosado novamente suspirou. Ele tentava a todo custo não escutar as lástimas que seu tolo coração de pai insistia em alastrar por seus pensamentos, nem se deter à vontade de obrigar Temari a ficar.

–Faz parte do meu papel de mestre dar a você o direito da escolha. E faz parte do meu papel de pai deixa-la ir, se essa for sua vontade. – ele respondeu.

A Sabaku não conseguiu dizer mais nada. Sua expressão perplexa encarava o rosto de Sasori, que por sua vez se mostrava impassível diante da discípula. Percebendo que Temari não iria reagir, o mestre deu às costas à loira.

No jardim da ORDEM, ainda com a expressão paralisada, Temari viu Sasori partir na direção do casarão com o corpo emoldurado pela forte chuva que caía.

Assim que Sasori entrou na ORDEM, deparou-se com as expressões ansiosas de Shikamaru, Asuma e Gaara, que esperavam por notícias de Temari. O mestre se aproximou dos dois, apoiando uma das mãos molhadas na cabeça do Nara.

–Desculpe, rapaz. Eu falhei. – Sasori falou, os olhos embaçados pelas lágrimas que ele não deixaria cair.

–Não é culpa sua, Sasori. – Asuma tentou animar o amigo, mas Sasori não o escutou. Apenas caminhou na direção de seu próprio quarto, sem querer encarar Gaara, que se mantinha em silêncio.

O ruivo seguiu o mestre pelo corredor sem dizer uma única palavra, até que pararam diante de uma porta.

Sasori colocou a mão na maçaneta, mas não a girou. Ficou em silêncio, paralisado, encarando a madeira à sua frente, esperando que Gaara fosse embora. Mas o discípulo não se moveu.

–Asuma tem razão, pai. Não é sua culpa. – o Sabaku insistiu.

O rosado sorriu. Gaara havia mudado bastante desde que conhecera o nome de seu Bijuu, e Sasori desconfiava de que Ino também tinha grande participação naquela mudança. Vez por outra, o mestre tinha a satisfação de ouvir o Sabaku chama-lo de pai. Porém, naquele momento, Sasori achava que não era digno de ser chamado daquela maneira.

–Vá dormir, Gaara. Amanhã teremos um dia cheio. – o mestre falou, para em seguida sentir a mão do ruivo em seu ombro.

–Não foi sua culpa. – Gaara repetiu. Percebendo que Sasori não falaria mais nada, o ruivo se afastou dali, deixando o mestre sozinho.

Desanimado, Sasori entrou no quarto.

Seus olhos imediatamente se fixaram na janela quebrada, por onde Temari havia entrado. Lá estava ela, completamente molhada, tremendo de frio, encarando-o com uma expressão irritada. Sasori fechou a porta atrás de si, fitando a discípula com uma expressão impassível.

–Então é isso? – Temari perguntou — Você vai desistir de mim?

Sasori suspirou. Adolescentes davam muito trabalho.

–Garota tola... Eu jamais vou desistir de você, Temari. – ele respondeu, e seu tom de voz era firme — E você? Vai desistir de si mesma?

A loira não respondeu. Trêmula pelo frio que sentia e pelos pensamentos confusos em sua mente, ela não conseguia formular uma frase coerente o suficiente para rebater as palavras de seu mestre. Foi quando Temari se atentou a algo que havia lhe passado despercebido.

–Peraí... – ela murmurou, o olhar fixo na expressão confiante do rosado — Você sabia que eu voltaria, não sabia?

O mestre novamente suspirou. Percebendo que havia sido descoberto, a expressão carrancuda de Sasori cedeu lugar ao sorriso grande e travesso que agora estampava seus lábios.

–Você está atrasada, criança! – o rosado alarmou, soltando uma gargalhada alta – Achei que você fosse demorar menos para voltar!

–Seu... Você é uma raposa sádica, Sasori! – Temari gritou, indignada.

–Ah, não faça essa cara de ofendida... – o mestre murmurou, tentando apaziguar a raiva da discípula – Eu não tinha tanta certeza assim de que você voltaria. Mas eu sabia que, de alguma maneira, minha presença em sua vida mudou algo em seu coração, Temari. Assim como você mudou o meu. Você e Gaara me fizeram acreditar que, mesmo possuindo este coração artificial, — falou, colocando a mão sobre o peito, sentindo o martelar da pequena máquina atrelada aos nervos que o mantinham vivo – ainda posso ter sentimentos reais... Ainda posso sentir a vida. Vocês me ensinaram a viver de verdade, Temari. Tudo o que eu podia fazer era apostar que eu também pudesse ter ascendido a centelha de alguma luz no seu coração, nem que fosse apenas uma chama pequena, fraca... E eu estava certo. Ainda bem.

Os olhos da Sabaku se encheram de lágrimas, que ela lutou bravamente para não deixar rolar por seu rosto. Porém, seu coração de menina tinha medo e estava pesado demais para continuar a bater sozinho. Ela precisava de ajuda, precisava de alguém ao seu lado e, para isso, precisava parar de tentar enganar seu mestre, seu pai. Toda vez que Temari tentava fugir de Sasori, ela sabia que estava tentando, na verdade, fugir de si mesma.

Rendendo-se ao amor que lhe era oferecido, Temari se atirou nos braços calorosos de seu mestre, sentindo Sasori envolve-la paternalmente. Ela agora não sentia mais frio, nem medo, nem tristeza. Temari parecia, finalmente, ter compreendido que aquele poderia ser o seu lugar.

–Tive muito medo de você não voltar, minha filha... Muito medo... – Sasori murmurou, deixando algumas lágrimas silenciosas rolarem por seu rosto.

–Me... Me perdoe... Pai... – a loira pediu, sentindo o mestre abraça-la com ainda mais força.

–Está tudo bem, Temari. – Sasori a tranquilizou — Você está em casa, agora.

Algumas horas mais tarde, naquela mesma noite

Shikamaru quase pulou de susto quando ouviu a porta de seu quarto sendo aberta no meio da madrugada. Ascendeu a luz do abajur, vendo Temari sentar-se ao seu lado, na cama, encarando-o com seriedade.

–Você voltou. – o moreno falou debilmente, os olhos arregalados fixos na figura de Temari, que já estava muito bem acomodada ao seu lado.

–Não era você quem estava gritando no meio da chuva querendo que eu voltasse? – ela perguntou, sarcástica — Pois então, aqui estou.

Shikamaru não teve forças para rebater aquelas palavras. Paralisado, ele se limitou a encarar a Sabaku com espanto.

–Vim aqui pra te fazer uma pergunta. – Temari prosseguiu, fingindo não perceber a expressão embasbacada do rapaz – Por que insistiu tanto em me trazer de volta?

–Porque seu mestre pediu que eu fosse busca-la. – Shikamaru respondeu automaticamente, para em seguida ver Temari sacando o leque que ela utilizava como arma, abrindo-o sobre a cama.

–Está mentindo. – ela falou, fitando-o seriamente – Se não me disser a verdade, posso tentar abanar você com esse leque. Tá calor, né?

Shikamaru viu a lâmina do leque brilhar.

–Está querendo me matar? – ele perguntou, apavorado.

–Desde o dia em que te conheci. – Temari respondeu, sorrindo com ironia – E então? Por que insistiu tanto em me trazer de volta?

–Be-bem... Eu... Eu estava sem fazer nada e as coisas aqui estavam um saco e ai... – uma rajada de vento interrompeu as palavras de Shikamaru, e a lâmina de ar atingiu seu rosto, fazendo com que um pequeno filete de sangue escorresse da bochecha – Pa-pare com isso, Temari!

–Diga a verdade. – ela exigiu.

–Você sabe muito bem que eu gosto de você! Sabe que é por isso que não consigo desistir de você, sua doida problemática! Que saco! – o Nara admitiu, impaciente.

–Então por que não disse logo, idiota? – Temari debochou, para em seguida atirar o leque no chão do quarto e rolar o corpo sobre o de Shikamaru, finalmente grudando os lábios nos dele.

Aquele seria o primeiro beijo de ambos.

Quando enfim desgrudaram os lábios, Shikamaru fitou a garota com um olhar abobalhado. Respirando com dificuldade, ele tentava ordenar os pensamentos em sua mente a fim de conseguir falar algo coerente.

–Você vai... vai ficar? – o moreno perguntou, tocando o rosto de Temari com carinho.

Ela sorriu.

–Sim. – a Sabaku respondeu.

–Não minta pra mim... – Shikamaru pediu, angustiado.

–Não estou mentindo. Não vou mentir pra você nunca mais. Nem pra você, nem pro Sasori, nem pra ninguém. Prometo.

O Nara suspirou. Sem ter outra alternativa a não ser se render àquela garota perigosa, ele abraçou Temari, trazendo-a para junto de si. Ajeitou o lençol, enrolando os corpos abraçados a fim de protegerem-se do frio da madrugada.

–Você deve estar cansada. Hoje foi um dia difícil. Descanse. – ele recomendou, depositando um beijo na testa de Temari, ouvindo a garota bocejar.

Antes de fechar os olhos, a loira sorriu.

–É bom estar em casa com... com a família. – ela murmurou, sonolenta, nos braços de Shikamaru — Minha família...


“Eu odeio tudo sobre você

Por que eu te amo?

Você odeia tudo sobre mim

Por que você me ama?”

I Hate Everything About You – Three Days Grace


–Temari, você esqueceu seu leque no meu quarto e... – Shikamaru abriu repentinamente a porta, mas se interrompeu quando seus olhos se fixaram no espelho que refletia o rosto de Temari.

Os olhos vermelhos e assustados da loira piscaram, fazendo com que ela voltasse ao momento presente. Havia se distraído com as lembranças e a voz de Shikamaru a pegou desprevenida. Temari se apressou em fazer o sharingan desaparecer de seu rosto, mesmo sabendo que já era tarde demais para aquilo.

Ela encarou o namorado com uma expressão culpada.

–Não é nada disso que você tá pensan... – Temari tentou argumentar, virando-se para encarar o moreno.

–Os olhos... Os olhos do Itachi! – Shikamaru a interrompeu, horrorizado – Por isso o corpo do Itachi foi encontrado sem os olhos... Você está com o sharingan dele!

–Sim, mas me deixe explicar o motivo...

–Por que fez isso, Temari?! Será que você não mudou nada depois de tantos anos, não aprendeu nada do que Sasori te ensinou?!

–Shikamaru, eu...

–Você prometeu que não mentiria mais para mim! Você prometeu! Você... Você matou o Itachi! – ele acusou, vendo os olhos de Temari se arregalarem.

–O quê?! Não, eu... – a loira novamente tentou se defender, já começando a entrar em desespero. Mas Shikamaru a interrompeu outra vez.

–Você matou o Itachi para conseguir o sharingan! Você... – a mente do Nara, involuntariamente, começou a trabalhar em busca de possibilidades. Analisar os fatos. Separar os dados. Ligar os pontos soltos – Você não fez isso sozinha... Você... está com a Akatsuki? Você é um deles? Como pôde, Temari?! Você nos traiu!

A expressão de Temari endureceu. A indignação na voz de Shikamaru era um insulto, mas ela não podia se defender daquelas acusações, não somente porque aquele era um segredo que não lhe pertencia, mas também porque o Nara não parecia estar disposto a escutá-la, nem a acreditar em nada do que ela dissesse. Encurralada e magoada pelas palavras ferinas do namorado, Temari sorriu com ironia.

–Por que você acha que eu estive aqui durante todo esse tempo, aguentando você, Sasori e os outros? – ela perguntou, encarando a expressão perplexa de Shikamaru — Eu quero poder, Nara. E se alguns tiverem que morrer para que eu alcance meus objetivos, que seja.

–Você... Eu acreditei em você, Temari. Acreditei que você poderia ser uma pessoa melhor, que poderia tirar de si esse instinto assassino que você possui, mas pelo visto, eu estava enganado! Você mentiu pra mim! Me enganou! Assim como enganou Sasori, assim como enganou a todos nós! – Shikamaru gritou, a incredulidade ainda estampada em seu rosto.

–Eu não posso ser uma pessoa melhor, Shikamaru! Eu não quero ser uma pessoa melhor! – Temari rebateu — Meu mestre me ensinou que eu preciso ser eu mesma e me aceitar como sou para começar a viver! E bem, veja só, esta sou eu! Eu avisei a você, não avisei? Eu continuo sendo o mesmo monstro que Sasori resgatou das areias do deserto! Eu sou um monstro!

–Chega, Temari! Eu desisto! Desisto de você, desisto de nós! Você tem razão, somos todos monstros... Mas você ultrapassou todos os limites! – Shikamaru falou, sem se atentar às lágrimas que começavam a se acumular nos olhos da Sabaku – Eu não quero ver você nunca mais! – disse, jogando o leque no chão do quarto e dando as costas à loira, afastando-se dali a passos apressados.

Atraído pela gritaria, Sasori se dirigia até o quarto de Temari a fim de saber o que estava acontecendo. No caminho até lá, esbarrou em Shikamaru, que chorava como uma criança e sequer ouviu quando o rosado perguntou o que havia de errado com ele, correndo para longe dali.

Quando enfim entrou no quarto de Temari, Sasori viu a discípula de pé, encostada na penteadeira, de cabeça baixa. O mestre correu para junto dela, segurando-a pelos ombros.

–Temari, o que houve? Você e Shikamaru brigaram? – ele perguntou, angustiado pelo sofrimento da garota. Foi quando viu a Sabaku erguer o rosto e encará-lo com os olhos vermelhos que revelavam o sharingan. Sasori arregalou os olhos, sentindo o coração falhar uma batida – Mas o que... Temari... Como... Como você tem o sharingan?

–Não é óbvio?! Eu estou aliada à Akatsuki! Eu usei vocês pra me aproximar dos Uchihas e conseguir roubar o sharingan! Eu sou uma traidora! E vocês são um bando de otários! – a loira respondeu, sorrindo, a expressão de quem era assombrada pelos fantasmas do passado. A mesma expressão que o rosado vira em seu rosto no dia em que ela decidiu ficar de vez na ORDEM.

Sasori olhou para ela, franzindo o cenho. Temari podia sorrir com ironia e praguejar o quanto quisesse, mas ninguém conhecia o coração daquela garota teimosa como ele.

–Eu sei que Itachi estava sendo perseguido, Temari. – o mestre falou, encarando a Sabaku com um olhar terno — Sei que você não roubou esses olhos, e que não está filiada à Akatsuki. Sei que Itachi não queria que Sasuke despertasse o sharingan porque havia alguém atrás desse poder. Conheci o Itachi o suficiente para saber que, mesmo depois de morto, ele não deixaria que se apossassem do poder do clã Uchiha. Então, por que não me conta a verdade?

A loira suspirou, sentindo os olhos arderem. Droga... Aquele maldito homem! Sasori conhecia seu coração, não podia mentir para ele. Inferno! Não podia começar a chorar, não podia!

–Ele... eu... – ela murmurou, a voz trêmula – Não posso contar!

–Por que não? – Sasori insistiu, fitando Temari com uma expressão preocupada.

–Eu... eu... – a loira gaguejou, incerta. De forma involuntária, as lágrimas começaram a rolar por seu rosto. Já carregava aquele segredo durante tantos anos, e já havia perdido o amor do garoto a quem ela amava... Em breve, talvez, a noticia se espalhasse, afinal, que motivos Shikamaru teria para guardar segredo sobre aquilo? Logo não lhe restaria nada ali. Temari sabia que teria que partir para longe, para muito longe, e tentar esquecer tudo aquilo.

–Me... – ela tentou dizer, mas as palavras começaram a ser sufocadas pelos soluços que saiam de sua garganta sem que pudesse controla-los – Me desculpe! – falou, atirando-se de joelhos na frente de seu mestre – Me perdoe, pai! Eu não fiz por mal!

O rosado suspirou, ajoelhando-se perto de Temari. Sem nada dizer, ele a envolveu em um abraço apertado, como se quisesse livra-la do sofrimento que a afligia.

–Eu tenho certeza absoluta de que você não fez por mal, Temari. – ele murmurou, ainda abraçando a loira – Sou seu mestre, seu pai. Confie em mim. Vamos resolver isso juntos.

A Sabaku fungou nos braços de Sasori, os olhos embaçados pelas lágrimas. Precisava desabafar, precisava tirar aquele peso de seu coração... Carregar aquele segredo sozinha estava sendo um fardo mais pesado do que ela podia suportar.

Rendendo-se, Temari contou tudo ao seu mestre, desde o dia do aniversário de Sasuke até quando disse à Shikamaru que havia se apoderado do sharingan por estar em busca de mais poder. Sasori ouviu a tudo atentamente, a expressão séria, enquanto sua mente traçava os próximos passos que precisavam ser dados.

Quando enfim terminou de falar, a Sabaku suspirou. Não se sentia mais leve, mas pelo menos agora havia alguém que não achava que ela era uma pessoa cruel, uma traidora.

Naquela noite, Temari dormiu no quarto de seu mestre, onde ninguém mais podia entrar sem permissão. A madrugada se arrastou, mas ela caiu rapidamente na inconsciência, exausta por tudo o que estava passando. Envolvida pelo torpor do sono, ela não percebeu quando Sasori a deixou sozinha, saindo do quarto por alguns instantes.

O rosado caminhava apressadamente pelos corredores da ORDEM, em busca de seus companheiros. Não demorou até achar Jiraya sentado em uma confortável poltrona, de olhos fechados, os fones de ouvido impedindo-lhe de ouvir os passos de Sasori se aproximando. Cutucou o ombro do sennin, fazendo-o pular de susto.

–AH! – Jiraya gritou, arregalando os olhos — Quer me matar, caralho?! – grunhiu, ainda arfando pelo susto que levara.

–Onde está Naruto? – Sasori perguntou, sabendo que não havia tempo para revidar a implicância de Jiraya.

Percebendo a expressão do rosado, o sennin o fitou com preocupação. Sasori geralmente era bem humorado e estava sempre sorrindo, era raro vê-lo tão sério.

–Está dormindo... O que houve? – Jiraya questionou, ouvindo o amigo suspirar.

–Temos problemas. – Sasori contou – Acredito que Sasuke está para fazer uma grande bobagem. Chame os outros. Precisamos acabar com isso antes que Orochimaru consiga pôr as mãos em nossos filhos.

–Ele não se atreveria... – Jiraya sibilou, os olhos ganhando um brilho furioso.

–Bem, ele já começou, não foi? Veja o que aconteceu com Itachi... Sasuke é o primeiro alvo dele, Jiraya. Precisamos proteger nossos discípulos.

O sennin se levantou da cadeira, o rosto vincado de seriedade, os punhos cerrados. Não deixaria que ninguém encostasse um dedo sequer em seu menino.

–Vamos chamar Asuma, Tsunade e Kurenai. Ligue para Yahiko. – Jiraya falou, encarando o rosado.

Sasori assentiu, acompanhando o sennin pelo corredor enquanto buscavam os outros mestres. Iria contar sobre o que Temari lhe revelara, a fim de deixar todos a par da situação – não deixaria os mestres pensando que sua discípula era uma traidora quando ela havia se sacrificado daquela maneira. A Sabaku podia ter se tornado uma bela adolescente mas, para seu mestre, ela ainda era uma menina. Esquentada, doida, impulsiva, geniosa, mas uma menina. Sua menina.

Naquela madrugada, o rosado se reuniu com os outros mestres, especulando sobre o plano que Sasuke deveria estar arquitetando. Ficariam de olho nele, cuidariam para que o Uchiha mais novo não perdesse de vista o rumo de casa, o lugar para onde ele deveria voltar quando tudo acabasse. Não poderiam impedi-lo de seguir o caminho que ele escolhesse, mas poderiam ajuda-lo. Os mestres sabiam, porém, que o moreno deveria se preparar para os tempos difíceis que viriam; havia muita coisa que Sasuke ainda não sabia, e seria duro ver no olhar dos irmãos a suspeita de que ele poderia ser um traidor.

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Aquele foi o dia em que Jiraya, Sasori, Kurenai, Tsunade, Yahiko e Asuma juraram cuidar de Sasuke e proteger seus discípulos das garras de Orochimaru.

Nem que aquilo custasse suas vidas.

Quando Sasori voltou para o quarto, viu que Temari já estava acordada e, para a sua surpresa, duas malas estavam encostadas na grade da cama. Ele a encarou seriamente por um instante, sentindo seu coração de pai apertar. Sasori sabia que sua filha havia decidido partir.

Mas seu coração de mestre sabia que aquilo era o melhor a ser feito. A discípula tinha uma missão a cumprir, Sasori estava ciente disso, e Temari também.

–Não vai demorar pra você poder voltar pra casa... Eu prometo. – ele falou, sua voz soando confiante.

Temari desviou os olhos de seu mestre. Não queria se deter à promessas que poderiam não ser cumpridas, afinal, ela sabia que aquilo não dependia apenas de Sasori.

–O que vai acontecer com Sasuke? – a loira perguntou.

–Ainda não sabemos, e não podemos interferir na escolha que ele fizer, mas acreditamos que ele tentará se infiltrar no campo inimigo. – Sasori revelou, vendo os olhos da Sabaku se arregalarem – Não se preocupe, estaremos cuidando dele. Estaremos cuidando de todos aqui. E, mesmo de longe, continuarei cuidando de você.

A loira desviou os olhos novamente, sentindo-os arder. Se quisesse prosseguir com aquilo, teria que ser forte, mais forte do que já era. Teria que se preparar para o longo tempo que passaria longe de sua família.

–Irei procurar por pistas enquanto estiver fora. – ela falou, vendo o mestre assentir – Vou começar pelo mestre daquela loirinha metida a besta, como é mesmo o nome dela... – implicou, tentando se lembrar.

–Yugito. – o mestre respondeu, sentindo a sobrancelha esquerda tremer – E já disse pra você parar de implicar com os outros dessa maneira!

–Certo, certo... – a Sabaku riu da bronca do rosado. Sentiria falta daquilo – Yugito. – pronunciou o nome com ironia, lembrando-se da loira de quem ela não gostava muito – Aquela patricinha é uma jinchuuriki, não é? Ouvi Shikamaru comentar que talvez o mestre dela seja o próximo da lista, pois Yahiko saiu da Espanha e veio brincar de celebrar missa em uma Igreja aqui pertinho...

Sasori se manteve em silêncio, pensando no perigo que Yahiko corria. O mestre de Yugito estava investigando a Akatsuki por conta própria antes mesmo de atacarem Itachi – era bem provável que ele e sua discípula fossem os próximos alvos. Shikamaru, como sempre, tinha razão.

Temari pegou as malas e suspirou pesadamente, para em seguida se virar para o mestre. O rosado a encarava com carinho, sentindo o coração pesar. Quando poderia ver sua discípula novamente? Esperava que as coisas não demorassem a se ajeitar para que ela pudesse voltar logo para os seus cuidados de pai.

–Cuide bem desses olhos que lhe foram confiados, pestinha. – ele murmurou, sorrindo para a loira, bagunçando os cabelos dela, coisa que Sasori sabia que ela odiava.

Bufando e revirando os olhos, Temari sacudiu a cabeça a fim de se livrar das mãos insistentes do mestre sobre seus cabelos. Sasori não tinha jeito, parecia uma criança implicante!

–Tá legal, pare com isso! – ela pediu, emburrada, mas antes que pudesse esbravejar mais, sentiu os braços do mestre envolve-la em um abraço apertado.

–Me deixe orgulhoso, Temari... – o mestre murmurou, quase sem querer deixa-la partir. Mentalmente, Sasori tentava se convencer de que era melhor para ela correr o mundo em busca de pistas que pudessem ajuda-los a resolver toda aquela confusão. A situação ali estava complicada demais... Distante, Temari estaria mais segura do que se ficasse no meio do furacão que envolvia a vida de todos naquele momento. – Eu te amo, filha.

Sem conseguir dizer mais nada, a Sabaku se afastou, saindo do quarto sem olhar para trás. Ainda era cedo e não havia ninguém de pé para vê-la ir embora, e a loira saiu da ORDEM sem ser percebida.

“Temos a resposta para todos os seus medos

É curta, é simples, é cristalina, querida

Ela está por aqui, em algum lugar

Perdida em meio às nossas vitórias

Ó, crianças

Levantem sua voz, levantem sua voz

Crianças

Alegrai-vos, alegrai-vos”

O’Children – Nick Cave

Quando enfim atravessou os grandes portões da ORDEM, ela largou as malas no chão de uma vez, levando as mãos até o rosto a fim de esconder as lágrimas que caiam.

O pranto sofrido de Temari revigorou as forças de que ela precisaria para partir e tentar solucionar o caos que envolvia a vida de sua família, assim como sabia que Sasuke faria.

–Eu também te amo, pai... – a Sabaku se permitiu dizer, jurando que aquelas seriam as últimas lágrimas que iria derramar até poder ver seu mestre e sua família novamente.

Antes de partir, Sasuke olhou para os portões atrás de si uma última vez, arregalando os olhos ao perceber que Jiraya estava ali, de braços cruzados, encarando-o com uma expressão serena. De onde aquele homem havia saído?

O dia começava a nascer, os primeiros raios de sol iluminando fracamente o rosto do mestre.

–Tem certeza do que está fazendo? – o sennin perguntou.

–Não. – Sasuke respondeu, sentindo o peito apertar em receio – Mas isso não importa mais.

–Bom... Espero que possa voltar logo para casa, filho. Estaremos esperando por você. – Jiraya garantiu, sorrindo.

Os pensamentos do Uchiha se voltaram para a possibilidade de que Naruto jamais o perdoasse pelo que estava prestes a fazer, e seu coração apertou com ainda mais intensidade.

–Será mesmo? – o moreno questionou, incerto.

Jiraya assentiu, a serenidade ainda estampada em seu rosto.

–Seu lugar sempre será ao nosso lado, Sasuke. Sua casa é nosso coração. Você será sempre bem-vindo, quando enfim conseguir voltar. – o sennin falou, andando na direção do Uchiha. Parou diante do garoto, bagunçando os cabelos negros dele – Meu filho precisa de você. Não demore.

Sasuke se desvencilhou da mão insistente de Jiraya, arrumando os cabelos. Involuntariamente, ele riu. Precisava aproveitar enquanto podia, já que, pelo rumo que as coisas estavam tomando, sorrir seria um ato cada vez mais raro em sua vida. Esperava que não desaprendesse a rir quando enfim pudesse voltar para casa.

–Será que Temari ficará bem? – Sasuke questionou, preocupado. O peso da culpa fazia seus ombros arriarem, afinal, era por causa dele que a Sabaku estava sendo obrigada a se afastar.

–Um dia, todos vocês poderão voltar para casa. Tenho certeza. – Jiraya respondeu.

Sasuke suspirou. Era hora de partir.

–Não esqueça... – o sennin continuou – Você sempre terá um lugar para onde voltar. Nós amamos você, Sasuke. Somos sua família. Não se esqueça disso.

O moreno assentiu, sem conseguir responder àquelas palavras. Era melhor que começasse a sufocar aqueles sentimentos que o faziam ter vontade de desistir de tudo. Tinha uma missão a cumprir. Protegeria sua família, nem que aquilo custasse sua própria vida.

Sem olhar para trás, Sasuke partiu. Esperava que Jiraya estivesse certo, e não demorasse muito a poder voltar para casa.

Mesmo sem provas concretas de que Temari pudesse ser inocente, uma vez que a própria Sabaku admitiu ser culpada, Shikamaru jamais parou de investigar o caso da morte de Itachi. Nunca contou a ninguém uma única palavra sobre o sharingan, mantendo intacto o segredo de Temari. Quando questionado pelos irmãos, Shikamaru contou apenas que a Sabaku estava sob suspeita de ser aliada do grupo que perseguiu e matou Uchiha Itachi.

É claro que Shikamaru passou todos os anos desde então procurando por pistas que pudessem provar que suas suspeitas estavam erradas, e mesmo que odiasse admitir, não conseguia aceitar a ideia de que Temari fosse culpada pela morte de Itachi. Devia ter algo que ele não estava conseguindo ver... Algo que estava passando despercebido nas suas deduções...

Mas as palavras cruéis e o olhar irônico de Temari no dia em que se viram pela última vez antes de ela partir ainda martelavam em sua cabeça, dando-lhe a certeza de que lutar contra os fatos era algo irracional.

Temari era culpada. Ponto final.

Porém, quando soube da possibilidade de Sasuke ser o culpado pela morte do próprio irmão, o coração do Nara se agitou com uma alegria que ele sabia ser errada, mas que não conseguiu evitar. Quando, na boate de Hidan, Sasuke admitiu ter matado Itachi, Shikamaru teve certeza de que Temari escondia algo. Ele sabia que a Sabaku havia partido por algum motivo que ainda lhe era desconhecido, e a cada dia que passava, Shikamaru sentia o peso das palavras de acusação que havia dito a ela espremer seu coração. Em um momento de descontrole, os fatos mal analisados haviam sido decisivos para a partida de Temari. E não houve um dia sequer em que o Nara não lamentasse pelas acusações levianas que havia feito.

Fazendo com que todos pensassem que a ORDEM poderia estar envolvida nas mortes dos mestres, Sasuke despistou a atenção de sua familia da verdadeira ameaça. Não demorou muito até que conseguisse compreender as intenções de Orochimaru. Com Itachi morto, Sasuke se tornara um alvo sem proteção. E qual não foi a sua surpresa quando o próprio Orochimaru o procurou em busca do sharingan.

Em vez de entregar seu poder, Sasuke fez um acordo com aquele que havia sido responsável por toda a desgraça que se abateu e que ainda se abateria sobre sua família. Havia muita coisa a ser feita, muito a ser descoberto, antes de dar um fim àquele sofrimento. Aos poucos, Sasuke se afastava de sua família, passando a ignorar a existência de Sakura. Precisava faze-la pensar que ele havia se perdido em meio aos objetivos que havia traçado, para que ela não se envolvesse demais em toda a confusão que agora rodeava sua vida.

Porém, quando ocorreu a morte de Sasori, Sasuke se viu sem muitas alternativas. Quase entrou em desespero, temendo perder o controle da situação. Aquilo não estava em seus planos, não mesmo. Ele não deveria ter deixado aquilo acontecer... Mas como poderia impedir Orochimaru e a Akatsuki?

Se Sasori estava morto, aquilo significava que Gaara estava sem proteção. O Sabaku era o próximo alvo.

Tentando manter a calma, Sasuke analisou a situação em que se encontrava. Sua família sabia que ele estava infiltrado na Akatsuki em busca de informações sobre a morte dos mestres, mas não sabia que Orochimaru era quem controlava aquela facção criminosa, e por isso Sasuke ainda podia ir e vir da casa de seus amigos livremente. Porém, os “serviços” que passou a prestar à Akatsuki logo despertaram as especulações dos membros da ORDEM sobre o Uchiha ter se tornado um traidor. Estando infiltrado na Akatsuki, enganando Orochimaru, manipulando a ORDEM, tentando proteger sua família... Como Sasuke iria lidar com a morte de Sasori? Como poderia proteger Gaara?

Só havia uma solução: Levar o Sabaku para a Akatsuki, onde Sasuke poderia cuidar da segurança do ruivo sem levantar maiores suspeitas. Obviamente, o Uchiha não deixou que Gaara tivesse muito envolvimento com os membros da Akatsuki, e não deixou que ele descobrisse sobre Orochimaru. Gaara ficou ali apenas o tempo suficiente para que Sasuke se certificasse de que não havia nenhuma ameaça à espreita prestes a tomar o poder do ruivo.

***

Para aqueles que conheciam a verdade por trás das ações de Sasuke e Temari, não haviam culpados a serem encontrados. Quando deram suas vidas para proteger seus discípulos, os mestres sabiam que existiam apenas aqueles que foram tragados pelo mar da vida e tentavam, a todo custo, nadar em direção à salvação. Alguns conseguiram chegar à terra firme, outros, porém, se perderam no mar bravio de tal forma que era impossível achar o caminho de volta. Estes, então, nadaram obstinadamente em busca daquilo que achavam ser o certo, mas as ondas da vida foram mais fortes. E ninguém consegue resistir para sempre.

Enquanto uns se salvam, outros se afogam.

Notas finais
Oi! E aí? Gostaram? Eu gostei muito de escrever sobre Sasori, Jiraya e Itachi em PS. Não são só vocês que se apegam aos personagens... Eu também me apego às personalidades que desenvolvo aqui. Bom... realmente, não tenho muito a dizer sobre o capítulo de hoje (apesar de ele ter sido imenso, kkkkkkkkkkkkkkkk), mas espero que vocês tenham muito a opinar, então, por favor, não deixem de comentar, tá? Lembrem-se de que, se cheguei até aqui com essa história, foi pelo incentivo de vocês, então, muito obrigada por terem me acompanhado até agora xD Espero que tenham gostado das músicas :) Prometo tentar postar o próximo capítulo logo, loguinho, tá? Então, nos vemos por lá xD P.S.: Não sei se conseguirei postar algo antes do dia 31, então desde já desejo a todos vocês um ano novo repleto de novas possibilidades. Lembrem-se: a vida é curta demais para perdermos tempo com aquilo que não vale a pena, ou com o que não faz parte de nossos planos. Não deixem que os outros decidam o que vocês devem fazer com suas vidas. Continuem a sonhar, mas enquanto sonham, lutem para tornar seus desejos realidade. E enquanto lutam, sonhem ainda mais. Não se importem tanto com a opinião alheia, não deixem que os outros impeçam vocês de lutar por aquilo em que acreditam. A vida foi feita para que possamos vive-la. Não deixem a oportunidade de ser feliz passar despercebida. Lembrem-se disso, tá? Amo vocês xD Bjks!