Assim que terminamos o plantão, fui ao shopping com Sol para fazermos umas comprinhas e tomar um delicioso café cremoso. Até os dias mais ruins, ficam mais leves com uma boa dose de café. Aproveitei para comprar umas roupas de frio e algumas de verão, estava precisando renovar o guarda roupa.

Cheguei em casa e o relógio apontava 23h, estacionei o carro e fui direto para o quarto, a casa ficava um gelo a noite, então sempre ligo o aquecedor. Deixei as sacolas em frente ao closet, guardaria tudo só depois de tomar um banho quentinho. Vesti meu roupão, prendi o cabelo em um coque e fui escovar os dentes, entrei no banheiro e liguei o chuveiro, gemi baixinho ao sentir aquela água quentinha bater na minha pele. Nada melhor que um banho quente para relaxar, me sentia exausta, quase todos os dias estava ficando depois do horário no trabalho. Só tinha tempo de chegar em casa e tomar banho, deitar e dormir, mas hoje eu estava aproveitando o tempinho que restou, para relaxar.

Fiquei ali debaixo do chuveiro, encostei a cabeça na parede de azulejo e deixei a água escorrer pelas costas. Depois de um longo tempo, desliguei o chuveiro, olhei para minhas mãos, meus dedos estavam enrugados, sorri ao me lembrar que minha mãe, sempre brigava comigo quando ficava muito tempo no banheiro. Ela dizia que ia acabar virando uma uva passa.

Sai de dentro do boxe, peguei meu roupão, fui até a pia, limpei o espelho que ficou embaçado com o vapor do chuveiro. Estava com olheiras, fazia muito tempo que não dormia bem, meus olhos castanhos claros estavam opacos, e minha pele morena não ajudava a disfarçar as manchas escuras debaixo dos olhos, passei um creme para disfarçar as manchas, escovei os cabelos, enquanto encarava meu reflexo no espelho. Meu cabelo e meus olhos eram da minha mãe, cabelos longos escuros ondulados e olhos castanhos claros. Meu corpo também era parecido com o dela, tinha 1,60 de altura, o corpo mediano, nem tudo muito grande e nem muito pequeno. Era considerada baixinha por minhas colegas de trabalho, mas eu gostava do meu corpo e não me sentia insegura quanto a isso. A maioria das minhas colegas vivia de dieta e sempre estavam reclamando do corpo, do cabelo, de tudo.

Terminei de pentear e sai do banheiro. Olhei para minha cama no centro do quarto, estava bagunçada, desejei por um segundo uma secretaria, mas gosto da minha privacidade e já sou cercada de pessoas o tempo todo no trabalho, chegar em casa e não ouvir nada, nem ninguém, é um alívio. Minhas colegas falam o tempo todo, as vezes não consigo ouvir nem meus próprios pensamentos. Me pergunto se em todos os lugares são assim, se em todas as repúblicas, o silencio é algo raro. Tenho tantas perguntas, curiosidades, medos, queria poder conhecer as outras cidades, outras culturas, mas tudo em Temiscera é restrito. Não podemos sair daqui, a não ser que façamos parte das forças armadas, ou do governo. Ouvi dizer que as damas da Elite têm passe livre, já que são responsáveis por grande parte do lucro do país. Enquanto meus pensamentos me levavam a lugares que nunca chegaria, fui ao guarda roupa peguei meu pijama, que era um blusão largo preto, que eu amava, uma calça larga, que bastante confortável. Passei um tempão arrumando minhas compras de mais cedo. Depois de um longo tempo perdido arrumando as coisas, no closet, fui pra cama, estava exausta.

Mesmo me sentindo cansada, não conseguia pregar os olhos, minha mente não parava de trabalhar e pensar e pensar... Por fim me dei por vencida e levantei, desci as escadas e fui preparar um chá de camomila. Senti um cheiro estranho, familiar, que foi se intensificando conforme me aproximava da cozinha. Aquele cheiro, aquele cheiro.... AHH SANGUE. Cheiro de sangue, meu coração disparou. Continuei caminhando apreensiva, podia ser algum animalzinho ferido, não queria assustá-lo. Senti meus dedos dos pés molhados, o chão estava muito molhado, se fosse um animal, já teria morrido. Ou talvez uma pessoa, mas no século em que estamos, não existe mais pessoas de rua, ou assaltos. Precisava pensar rápido. Nada na minha mente imaginava o que estava por vir. Dei meia volta, precisava do celular.

Tudo aconteceu tão rápido. Fui pega por trás, alguém me segurou e tampou minha boca, meu coração disparou, senti o ar faltar em meus pulmões. Senti o hálito gelado no meu pescoço. Não conseguia ver quem era, mas era muito alto e forte, me imobilizou.

“Silencio, não vou te machucar”.