A voz, fez minhas pernas falharem, uma mulher não poderia ter uma voz daquelas. Não poderia ser o que estava pensando, isso seria impossível, sabia como eles eram e suas características físicas, por causa dos estudos na faculdade, mas nunca vi um de verdade. Ouvia coisas horríveis sobre eles, que eram cruéis e que tratavam mulheres como animais. Tentei me soltar, mas não conseguia mover um músculo, a força dele era fora do comum, me lembrei das lutas que aprendemos na faculdade, pensei em um modo de colocar em prática, mas a verdade é que nunca fiz esforço para aprender de verdade aquelas lutas, achei que nunca precisaria usar. Ele me levantou do chão com uma mão segurando meus braços e a outra na minha boca. Só conseguia pensar que já estava morta. Ele me levou até o banheiro que tinha no corredor antes da cozinha, para visitas, fechou a porta com o pé.

“Vou te colocar no chão agora, não vou te machucar. Prometa que não vai gritar.”,

Fiz um sinal positivo com a cabeça, ele foi soltando a mão que apertava minha boca, devagar, senti meus lábios formigarem, quando o sangue voltou a circular. Fechei os olhos, não queria ver o que iria acontecer. Ele levemente foi soltando meu cpro até que eu conseguisse sentir meus pés tocarem o chão. A essa altura meu corpo todo estava tremendo e minhas pernas moles, meu coração estava tão acelerado, que por um momento pensei que teria um enfarto ali mesmo. Controlei minha respiração, se queria sobreviver aquilo, precisava voltar ao normal. Ele bloqueava com o corpo a porta do banheiro, me virou de frente para ele, mas eu não tinha coragem de abrir os olhos.

“Não vou te machucar!”

Não queria ver o rosto de quem tiraria minha vida. Minha cabeça estava girando, lembrava de todas as fotos que vi, de mulheres mortas e torturadas, as imagens vinham a minha mente como flashes, não queria olhar aquele monstro a minha frente. Aos poucos fui abrindo os olhos, analisava cada parte que meus olhos podiam alcançar, vi que o lado esquerdo da calça estava com sangue, que escorria até as botas e pingava no chão pela barra da calça. Arrisquei olhar um pouco mais acima e vi que a blusa xadrez, estava com muito sangue. Pela quantidade de sangue que estava perdendo, não ia ficar muito tempo consciente. Também não estaria mais tão forte, era só questão de minutos. Mas no fundo, alguma coisa dentro de mim, queria estancar aquele sangue e ajudar, talvez fosse meu extinto de médica, o meu juramento. Ele levantou a mão direita para me tocar e involuntariamente meu corpo se retrai e dei alguns passos para trás.

“Prometo que não vou te machucar, só preciso de um tempo.”

Olhei para o seu rosto, não pude disfarçar meu espanto, ele tinha olhos castanhos esverdeados e cabelos ruivos, sua pele era clara, mas levemente bronzeada, mesmo estando pálido devido à grande quantidade de sangue que estava perdendo. Os lábios eram grossos e rosados, quase vermelhos, as linhas do rosto eram perfeitamente harmônicas. Não era como imaginei, pensei que eles fossem peludos e sujos, com aparência de neandertais, com os dentes faltando. Mas o homem a minha frente, era completamente diferente do que vi na faculdade. As imagens que eram mostradas, eram de homens gordos, sujos, peludos, brutos, pareciam monstros. Esse era diferente, apesar de estar sujo e aparentemente desnutrido, ainda sim continuava bonito.

Tentes me concentrar no homem a minha frente, ele pressionava com força a lateral esquerda do abdômen, onde deveria estar o ferimento, o sangue escorria entre seus dedos, o que indicava que foi profundo. Ele estava começando a perder os sentidos, foi descendo devagar até ficar sentado na porta do banheiro, esse era o momento perfeito para fugir dali e chamar a polícia. Ele estava com a cabeça baixa, e com os olhos fechados, me aproximei lentamente levantei minha mão, para tocar seu rosto, antes que minha mão pudesse alcançá-lo, ele segurou meu pulso com a mão sujando de sangue.

“Não estou inconsciente ainda.”, Ele pressionava meu pulso com força.

“Só ia checar seus sinais. Sou médica, só posso ajudá-lo, se examinar seu ferimento.”

Menti. Ele soltou meu pulso, deixando o braço cair sob as pernas, estava fraco. Não deveria ajudá-lo, mas fiz um juramento como médica, provavelmente seria presa por isso. Precisava agir rápido, levantei e fui até a pia do banheiro, abri o armário, que tinha algumas faixas e gaze, sempre deixava de reserva pela casa. Peguei tudo que tinha e voltei para ele, abri a blusa xadrez e pude ver um corte profundo na região do abdômen, parecia ter sido feito por um objeto muito afiado, provavelmente uma faca. Não deixei de reparar o abdômen definido e o peitoral largo, mas estava muito magro, provavelmente não comia a dias, vi marcas roxas no pescoço, poderiam ser de mãos, mas aquelas tinham outro formato. Voltei minha atenção para o ferimento, ele gemeu, comecei a limpar com a gaze, precisava ver a profundidade do corte, precisaria ser costurado, não parecia ter atingido nenhum órgão vital. Mas precisava deitá-lo, para que eu pudesse costurar e o banheiro era pequeno para nós dois, o que dificultaria meu trabalho.

“Preciso dos meus instrumentos para fazer a sutura, ou vai sangrar até morrer, minha maleta está no quarto.” — Ele respirou fundo, estava lutando para não perder a consciência.

“Não vou deixar você sair desse banheiro e me entregar para a polícia.” – Ele era mais esperto do que imaginava, mas realmente estava pesando em salvá-lo e depois entregar para a polícia.

“Você não está em posição de fazer exigências, ou me deixa sair e pegar minha maleta ou vai morrer de sangrar nesse banheiro.” — Ele encostou a cabeça na porta, respirando fundo, fez uma careta de dor, e depois concordou cansado

Tudo bem, mas eu vou junto.” — Revirei os olhos, mas concordei.

“Ok, mas preciso que fique em pé, e se apoie em mim” — Ele tentou levantar, sem questionar, uni todas as minhas forças para ajudá-lo a ficar de pé, era tão pesado, parecia ter uma tonelada. Fiquei do lado direito dele e passei o seu braço em volta do meu pescoço.

“Coloque um pouco do seu peso sobre mim e assim juntos vamos até o quarto.” — Perto dele, me senti uma miniatura, peguei uma das gazes e pressionei sobre o ferimento. — Segure isso bem aqui e não solte até chegarmos no quarto.” - Coloquei minha mão direta no abdômen dele e a outra nas costas e assim fomos caminhando lentamente, pelo corredor. Chegamos na ponta da escada e ele hesitou.

“Escadas! Sério?” — seria difícil para ele subir com aquele ferimento, mas era isso ou sangrar até a morte.

“O quarto é lá em cima, é isso ou me deixar subir sozinha.”, Ele pareceu o som sarcástico em minha voz, dando um sorriso amarelo. Olhou para as escadas e começou a subir lentamente, degrau por degrau, apoiando no corrimão. Sei que ele estava sentido dor, mas tudo que poderia usar para ajuda-lo estava no quarto e aquela lentidão estava me deixando nervosa. Mas não poderia fazer nada, dada as circunstâncias que ele se encontrava, aquela seria a velocidade mais rápida que conseguiria ter no momento.

Quando chegamos no último degrau, senti um alívio, ele era pesado e subir as escadas exigiu mais do que minha força habitual. Chegamos ao quarto e o ajudei a sentar na minha cama, respirei fundo, ambos estávamos ofegantes por causa do esforço. Ele por estar fraco e eu por não ter o hábito de carregar ninguém tão pesado.

“Vou pegar minha maleta que está dentro do closet, deite-se.” — Ele apenas obedeceu deitando-se na cama com dificuldade. Fui ao closet, abri umas das prateleiras, peguei minha maleta e abri. Peguei a agulha para costurar, uma mini pinça, faixas, gaze e o anestésico. Fui até a cama, ele ainda estava pressionando o ferimento, estava tudo ensopado de sangue. Estava com um homem ensanguentando na minha casa, pior na minha cama e a única coisa que estava pensando, era em como limparia os lençóis.