Notas iniciais
Primeiro capítulo de Sombras do Passado. O que achou do Prólogo? Bom, muito bom ou excelente? Deixe seu comentário e favorite. Como na Fanfic anterior, fortes emoções não faltarão. Uma excelente leitura à todos.

— O que é que foi isso? – é a primeira pergunta que me vem à mente.

Estou muito confusa. Embora tudo indique que as coisas estão na mais perfeita ordem, insisto em pensar que tem alguma coisa errada. Só não sei dizer exatamente o que é. E quando minha cabeça finalmente pára de girar, me permito refletir sobre o sonho que acabei de ter.

Foi, certamente, o sonho mais louco que já tive na vida. Não consigo me lembrar de nada que possa ser comparado ao que acabei de passar. Parecia tão real. A dor que senti ao dar com a cara no chão, a adrenalina percorrendo cada milímetro do meu corpo, o vento que açoitava meu rosto e o frio que penetrava nas frestas da minha roupa... Definitivamente, jamais experimentei algo parecido com o que eu vivi esta noite.

Já são duas e quinze da manhã. Ao constatar a hora no relógio, uma terrível sensação de desânimo toma conta de mim. Me levanto e olho para mim mesma no espelho. Meu rosto está terrivelmente pálido, e a testa, suada. Meu braço está dormente, sinal de que dormi sobre ele. Mesmo à luz fraca, posso ver que meus olhos estão úmidos, e refletem uma ansiedade que para mim não é nada boa. Nunca pensei que um sonho pudesse me deixar tão abatida.

Volto para a cama, procurando esquecer essa desagradável experiência. Por um breve instante, fecho os olhos e me concentro em minha respiração, deixando o ar entrar e sair, inalando profunda e conscientemente o ar fresco da noite. De repente, sinto uma rajada de vento no cabelo e um ruído passa acima da minha cabeça. Abro os olhos, assustada. É apenas um morcego, que entrou pela janela e agora voa muito perto de mim, batendo as asas num ritmo frenético. Quase gritei, mas tapei a boca à tempo. Não quero, de jeito nenhum, acordar meus pais. Detesto acordar alguém por causa de um pesadelo, ou por qualquer outro motivo.

O atrapalhado morcego quica no meu ombro e bate na parede. Então, volta a voar. Dá duas piruetas no ar e, por fim, sai em disparada pela janela. Uma brisa fria e sorrateira entra por ela, fazendo as cortinas de linho bailarem suavemente, o que me traz um pouco de tranquilidade. Fora o uivo do vento e o coaxar dos sapos vindo do jardim, nenhum som se faz ouvir. Tudo está calmo, exceto minha respiração. É inevitável o que estou sentindo. Não consigo tirar da cabeça a sensação terrível de estar sendo caçada por criaturas que nunca imaginei que pudessem existir. Isso me leva a fazer perguntas que não consigo responder: o que significa tudo isso? Por que isso está acontecendo comigo? De quem é aquela voz? O que são aquelas “coisas” e o que querem comigo? E, o mais importante, como sabem o meu nome?

Como eu suspeitava, não se trata de um simples sonho. Não mais. Há algo por trás desse pesadelo. Algo que cabe a mim descobrir.

***

Só depois que os primeiros raios de sol transpassam as frestas da janela é que eu me permito respirar tranquila. Sinto sono. Muito sono. Não consegui pregar o olho desde que acordei. Fiquei o tempo todo pensando naquele sonho e buscando respostas para as mil e uma perguntas que surgiam na minha cabeça, as quais parecem impossíveis de responder. Para minha sorte, hoje ainda é domingo. Não tenho obrigação nenhuma de me levantar cedo e não terei que fazer o enorme sacrifício de sair de casa e ir para a escola. Posso ficar aqui deitada o tempo que quiser e, talvez, compensar as longas horas em que fiquei acordada, resistindo à tentação de voltar a dormir.

Não quero correr o risco de sonhar com aquilo outra vez. Embora, em minha opinião, este tenha sido o sonho mais esquisito que já tive desde que consigo me lembrar, este não foi o primeiro – e tenho a sensação de que não foi o último. Lembro de uma certa vez em que me vi perambulando por aquela mesma floresta, seguindo por uma trilha ladeada por carvalhos nodosos cobertos por agulhas de pinheiro, troncos claros e retos encimados por copas frondosas, cujas folhas tinham formatos que eu nunca vi, e cores também, a julgar pelo que enxergava na escuridão crescente. Semelhante ao sonho posterior, eu estava andando em direção a um portal em forma de arco, e eu jurava estar ouvindo barulho de água corrente vindo de algum lugar do outro lado. Não havia raios, mas, assim como no outro sonho, me via cercada por olhos enormes e brilhantes, o que me causava um pouco de medo, mas não o bastante para me impedir de seguir adiante. Ao fim do túnel, cintilava uma luz amarelada, ofuscante, como a de um farol. E quando estava prestes a cruzar o outro lado, a luz desapareceu, e tudo ficou coberto de trevas, impossibilitando-me de ver e de me deslocar. Uma brisa estranha começou e, então, uma risada apavoradora se fez ouvir.

Desde então, nada mais ficou igual. Minhas noites de sono, antes tranquilas e ininterruptas, se tornaram longas e exaustivas. Tenho certeza absoluta de que já estive naquele lugar antes, ou pelo menos acho que tenho. Acho que os sonhos têm uma ligação especial, mas não consigo explicar por quê. Aliás, não consigo encontrar explicações para absolutamente nada. Tudo é muito confuso. Confuso demais para uma só pessoa.

Viro-me de bruços e fecho os olhos, cogitando se devo contar a Adrian tudo o que anda acontecendo. O que eu menos quero é preocupar meu namorado. Ele já tem problemas demais para resolver, e não será nada interessante procurá-lo para falar sobre sonhos. Ele certamente dirá: “Sonhos são apenas sonhos, minha querida. Você não tem que se preocupar com isso. Conheço você e sei que é forte o bastante para superar qualquer coisa”. Por mais que isso me traga confiança, isso não é suficiente para me deixar tranquila. Afinal, estou convencida de que esses sonhos significam alguma coisa. E eu não vou descansar enquanto não descobrir a verdade.

“Mas agora não”, penso eu. “Preciso de forças. De energia. Não posso fazer nada estando exausta. Preciso de algumas horinhas de sono ou a coisa vai ficar realmente ruim”. Quando estou finalmente adormecendo, a porta do quarto se abre com um rangido que me faz levantar num pulo e uma voz cantarolante – e, convenhamos, muito desafinada – soa pelo ambiente.

— Querida!

É a voz do papai. Está um pouco mais animado que o normal. Levanto a cabeça e vejo ele usando seu suéter xadrez favorito e uma calça jeans desbotada. Está sorrindo. Por algum motivo, está contente.

“Qual é, pai? O que faz acordado tão cedo, e em pleno domingo”? – tenho vontade de perguntar.

— Bom dia, pai – digo, em um tom de desânimo que botaria qualquer um para correr.

— Bom dia, querida. Dormiu bem?

“O senhor tinha que perguntar isso?”

— Mais ou menos.

— Como assim “mais ou menos”? O que aconteceu? Teve algum pesadelo?

“Esse interrogatório está começando a me irritar.”

— Isso. Tive um sonho estranho. Mas não consigo me lembrar de nada. Só sei que estou muito cansada.

— Desculpe, eu não sabia. – Aponta o polegar para a porta. – Se quiser, eu...

— Não, tudo bem – digo, afastando as cobertas. – Eu já ia me levantar mesmo. Que horas são?

— São quinze para as dez.

— Como é que é?

— Também fiquei surpreso. Você sempre levanta cedo. Por isso vim aqui te ver. Por um minuto pensamos que, talvez, você estivesse doente.

— Eu? Doente? Imagina.

— Realmente está se sentindo bem?

— Estou.

— Sempre há uma primeira vez para tudo, não é? – diz ele, rindo.

— É – respondo, retribuindo o sorriso. Reparo no seu cabelo bagunçado e no pedaço de alface preso em seu dente. O que me leva a pensar que ele está com um pouco de pressa. – Por que está tão arrumado? Vai a algum lugar?

— Vou. Isto é, vamos. Sua mãe e eu. E é sobre isso que eu quero falar com você.

— Onde vocês vão? – pergunto, e um sentimento de preocupação crescente toma conta de mim sem que eu me dê conta. – O que está acontecendo?

— Calma. Não está acontecendo nada. Isto é, nada de ruim pelo menos. Tenho uma notícia que você vai adorar.

— O que é? Me conta.

— Seus avós nos telefonaram agora há pouco pedindo para que fôssemos buscá-los no aeroporto.

— O quê? – pergunto em voz alta. Finalmente, algo bom está acontecendo. – Isso é sério? Eles estão vindo para cá?

— Estão sim. Eles decidiram passar uma pequena temporada conosco.

— Mas isso é muito bom. Faz anos que não os vejo.

— É, de fato.

— Imagino que a mamãe também esteja muito feliz. Afinal, são os pais dela, não é? E, conhecendo ela como eu conheço, e pelo aroma que paira no ar, ela deve estar preparando um almoço de boas-vindas.

— Sim. Eu insisti para que fôssemos almoçar no restaurante novo que inauguraram semana passada. Lá servem um macarrão com molho italiano de dar água na boca, e você sabe que seu avô adora comida italiana. Mas a sua mãe não quis me ouvir. Ela acha que isso não causaria uma boa impressão nos pais dela.

— O senhor sabe como ela é. Não esquenta com isso. Mamãe só está querendo que tudo saia bem. E tem um detalhe que o senhor esqueceu. Vovó odeia comida italiana. E a mamãe também. A quem o senhor acha que ela puxou?

— Tem razão, querida. Acho melhor almoçar aqui mesmo. Não quero nem ver a cara da sua mãe se alguma coisa der errado.

— Nada vai dar errado, papai. E se der, não tem problema nenhum. Aqueles dois são muito humildes para se preocuparem com essas recepções chiques. Um abraço caloroso e um “seja bem-vindo” já é mais do que suficiente para eles.

— Como sempre a senhorita está certa. Perdão. A senhora.

— Que papo é esse de “senhora”? Que eu saiba, ainda não me casei.

— Mas você já usa um anel de compromisso. E isso é quase como estar casada.

— Quase. Ainda não moramos juntos.

— Mas pretende fazer isso logo, eu imagino. Afinal, você já tem quase vinte anos.

— Para ser sincera, ainda não pensei nisso.

— E vai demorar a pensar, eu espero. Porque, ainda que você seja maior de idade, não me sinto preparado para me afastar de você. Para mim, você ainda é e sempre será a minha menininha.

— Os pais são todos assim, é?

— Só os mais conservadores. E acho que pertenço a esse grupo.

— Pois não precisa se preocupar com isso, Sr. Pai Conservador. Só porque eu aceitei me casar com meu namorado, não significa que isso vai acontecer logo. Eu amo o Adrian. Amo muito. Mas ainda não me sinto pronta para dar esse passo. Acho que isso ainda vai demorar um pouquinho.

— Anos?

— Talvez sim, talvez não. Depende.

— Depende do que?

— Ora... de muitas coisas. Por mais que eu saiba que o Adrian é o amor da minha vida, ainda não sei bem o que me espera.

— Não me interprete mal, mas você não acha que seu namorado está com um pouquinho de pressa? Ele não é do tipo que força a barra, é?

— Até parece que o senhor não o conhece. Não acho que ele esteja com pressa. E não. Ele nunca forçou a barra comigo. E se o senhor quer saber se já falamos sobre sexo, a resposta é sim. Ele me respeita muito. E, para a sua informação, ele quer que a nossa primeira vez seja depois do casamento.

— Então ele é das antigas?

— Digamos que sim.

— Isso me deixa mais aliviado.

— O quê? O fato de eu ainda ser virgem?

— Também. Mas não ligue para mim. Só penso no seu bem-estar.

— Adrian também pensa no meu bem-estar.

— Isso é bom.

Um silêncio paira entre nós. À essa altura da vida, conversar com meu pai sobre minha vida íntima é um tanto estranho. Sei que não deve ser. Afinal, somos pai e filha, e como tais, devemos sempre contar um com o outro, seja para falar dos problemas pessoais ou de como andam as coisas. Mesmo encabulada, me sinto contente por estarmos compartilhando nossas emoções. Isso me mostra o quão querida por meus pais eu sou, e mesmo achando que Ângelo não deve se preocupar tanto comigo – afinal, como ele mesmo disse, estou prestes a completar vinte anos –, eu não encaro isso como uma coisa ruim. Pelo contrário. Isso me traz confiança e alívio. Me faz acreditar que meu pai sempre vai estar aqui para me proteger, até mesmo de Adrian, se for preciso.

— Por falar em tempo, faltam cinco para as nove. Já devíamos estar a caminho do aeroporto. Sua mãe deve estar uma fera comigo.

— E eu ainda nem tomei café da manhã. Por isso nem vou perguntar se posso ir com vocês.

— Melhor você ficar em casa.

— Pai, eu já disse que não estou doente.

— Eu sei – diz ele, dando uma piscadela. – Mas estou vendo que você adoraria tirar mais um cochilo. Não queria falar, mas você não está com uma cara muito boa.

— Pode falar. Estou horrível, não estou?

— Você não está horrível, querida. Só um pouquinho despenteada e... pálida. Mas isso se resolve com um bom banho e um café da manhã requentado. Siga minhas instruções e em pouco tempo você estará novinha em folha.

— Está bem, Sr. Pai Conservador. Este título lhe cai muito bem.

— Muito lisonjeiro. Mas agora preciso ir. Dá para ouvir sua mãe rangendo os dentes daqui.

— Melhor ir logo. Você sabe como mamãe odeia chegar atrasada em algum lugar.

— E como sei. Bem, até logo.

Ângelo beija minha testa e me abraça. Respiro fundo, agradecendo mentalmente por esse abraço. Nenhuma outra coisa me deixaria mais disposta neste momento. A não ser, talvez, Adrian.

— Está mesmo se sentindo bem, não está?

— Garanto que sim.

— Então lá vou eu.

— Tchau. E talvez não tenha notado, mas tem...

— ... um pedaço de repolho no meu dente. É, eu sei.

— Não é repolho. É alface.

— Eu sempre me confundo. – Levanta-se. – Agora sim, tchau. Ou, como dizem os franceses, Au revoir.

— Au revoir, pai.

— Au revoir, querida.

Ângelo sai, deixando a porta entreaberta. Enquanto ele sai, sinto uma pontada de culpa por ter dito a ele que tudo está bem, quando sei perfeitamente que isso não é bem verdade. Não contei a ele sobre os pesadelos que venho tendo. Ângelo com certeza pediria ajuda à mamãe, que, por sua vez, me aconselharia a contar tudo para Adrian, e o que eu menos quero no momento é deixar todos ao meu redor preocupados comigo. Mas também não quero resolver tudo sozinha. Nem poderia. Em algum momento, irei precisar de uma segunda opinião, de alguém que entenda de sonhos melhor do que eu, e só há duas pessoas no mundo em quem eu confio cegamente a ponto de revelar todos os meus segredos: meu namorado, Adrian, e minha melhor amiga, Viviane.

— Adrian – digo em voz alta, saltando da cama. – Ele não sabe que meus avós estão vindo. Acho que esta é uma oportunidade perfeita para meus avós o conhecerem. Vou ligar para ele e convidá-lo para almoçar aqui. Mas antes... – levanto o braço esquerdo e fungo. – ... preciso de um banho. E já!

Corro para o banheiro, idealizando o momento em que abraçarei meus avós depois de tanto tempo sem vê-los.

Notas finais
Gostaram? Deixe seu comentário e favorite! Próximo capítulo na Segunda-Feira! Até lá! ♥