Para Sempre - Sombras do Passado
3 O convite
Notas iniciais
Adrian
Dois anos. Dois longos e felizes anos. Para mim, parece inacreditável que esteja faltando apenas dois meses para completarmos dois anos de namoro. Dois anos em que meus dias foram os mais felizes possíveis.
Também é quase inacreditável que minha vida tenha mudado tanto desde que me apaixonei por Larissa Oliveira. Sinto como se tivesse nascido outra vez em um mundo totalmente novo. Mais do que qualquer outra coisa, adoro a nova vida que tenho ao lado dela. Adoro a sensação de dependência, a saudade que sinto quando não podemos ficar juntos, os carinhos que trocamos em nossos momentos de intimidade e, o que eu considero mais importante, a amizade e o companheirismo que há entre nós. Acho que não há nada no mundo que possa ser melhor do que isso.
Porém, preciso admitir que nem sempre foi assim. Os primeiros dias de namoro não foram tão simples como eu esperava. Em primeiro lugar, apesar de ter certeza absoluta dos meus sentimentos por ela, ainda sentia o peso da culpa por tê-la humilhado durante tanto tempo pesar sobre meus ombros. Sei que não deveria dar tanta importância aos acontecimentos do passado, e mesmo Larissa deixando claro que havia me perdoado, não conseguia evitar lembrar dos erros que cometi sempre que olhava nos olhos dela. Quando ficávamos juntos, pedia que Larissa entendesse o meu lado e tivesse muita paciência comigo. Ela, com seu jeito encantador, sorria para mim e, sem dizer uma palavra, assentia e me beijava, demonstrando que o amor dela por mim era forte demais para se deixar abater pelos altos e baixos do destino.
Outro inconveniente com o qual tinha dificuldade em lidar era o fato de Larissa e eu estudarmos na mesma classe que o ex-namorado dela, o Victor. Apesar de ele mesmo ter decidido desistir dela, eu tinha certeza absoluta de que seus sentimentos por ela ainda eram intensos, e percebia isso quando o flagrava olhando para ela. Certo, não é fácil esquecer alguém, principalmente se esse alguém foi muito importante e especial. Não tem como simplesmente ignorar que ela permaneceu ao seu lado durante muito tempo e jogar todo o passado e todas as lembranças no lixo. Mesmo assim, isso me incomodava. E, às vezes, meu ciúme acarretava pequenas discussões entre nós. Mas estas sempre finalizavam em beijos ardentes e carinhos.
Por essas e outras razões tenho certeza absoluta de que Larissa é a pessoa que Deus escolheu para mim. Sempre que nossos lábios se tocam, achatando-me em um beijo intenso, o desejo de eternizar o momento me possui de uma forma que me surpreende. A cada abraço trocado, noto com entusiasmo como o corpo dela parece se encaixar no meu, como a última peça de um quebra-cabeça incompleto. E de vez em quando, sem que ela perceba, fico parado olhando para ela fixamente, sabendo no fundo que jamais encontrarei um complemento mais perfeito para mim mesmo.
***
Poucos metros me separam de casa. Já posso sentir o sabor da fritada de batata e salame e do arroz à parmegiana que minha mãe costuma preparar aos domingos. Falei com ela minutos antes de desembarcar e ela disse que tem uma surpresa me esperando. Só pode ser isso. Este é um dos meus pratos favoritos, e pensar nele só aumenta ainda mais a minha fome. Resolvo apressar o passo.
Chego em casa, agradecendo por finalmente poder parar para recuperar o fôlego. Deixando para lá as memórias boas e ruins dos últimos tempos, giro a chave na fechadura e entro em casa. A sala de estar, como sempre, está bem arrumada. Os móveis espanados, sem nenhum grão de poeira, e o piso molhado, o aroma familiar de eucalipto emanando dele. Posso escutar o som da água caindo da torneira e dos pratos sendo empilhados na prateleira do armário da cozinha. Mas algo está diferente. Aspiro e inspiro várias vezes, sentindo uma pontada de decepção por não conseguir detectar o cheiro do meu prato favorito. Olho para o relógio de pulso e constato que faltam cinco minutos para as onze horas. Já é para o almoço estar cheirando. Ou pronto.
— Oi, mãe.
— Oi, querido. Que bom que chegou.
— Tudo bem por aí? – pergunto, indo até a geladeira. Mais do que faminto, estou sedento.
— Tudo certo. Acabei de limpar a casa e pus a roupa para secar. Por que a pergunta?
— Por nada não.
Ponho o copo sobre a mesa e me sirvo de água gelada, enquanto Érica guarda os pratos já enxaguados no armário. De repente, um sorriso se forma em sua boca.
— Do que está rindo?
— Já reparou em como o tempo tem passado depressa ultimamente? Nem parece que se passaram dois anos. Olhando para trás, a impressão que eu tenho é de que se passaram poucos meses.
Me sirvo de mais um copo d’água, sem desviar a atenção do que mamãe está dizendo.
— Parece até que foi ontem que nos mudamos para cá. Mal sabíamos o que seria de nós daquele dia em diante. Posso até dizer que foi uma verdadeira surpresa para mim o rumo que nossas vidas tomaram.
“Quem diria, não é? Que justamente aqui você encontraria o amor da sua vida. Me pergunto se tudo isso estava predestinado, ou se foi uma mera coincidência. Porque, veja bem, você não encontrou apenas a metade da sua laranja. Você reencontrou seus amigos. Todos eles, e num só lugar. Convenhamos que as chances de isso acontecer são muito pequenas. Por isso digo que vocês são mais do que amigos. Vocês são membros de uma espécie de família. Existe um elo muito especial entre vocês. Um elo que nada nem ninguém será capaz de destruir.”
— Concordo plenamente, mamãe. Somos mais do que amigos. Eles são a razão da minha existência. E é realmente impressionante que, depois de quase uma década, ainda estejamos compartilhando o mesmo espaço, e que nossa amizade não tenha mudado. Isto é, mudou. Está cada vez mais forte. Assim como o amor que eu sinto pela Larissa. Era no que eu estava pensando enquanto vinha para cá. Sinto que sou o cara mais sortudo do mundo por ter o amor daquela garota. Às vezes me pergunto se eu mereço que ela me ame tanto. Ela cuida tão bem de mim. E quando estamos juntos, eu esqueço de tudo. Ela é a coisa mais preciosa que eu tenho. Sinto que preciso dela a cada instante. Isso me assusta um pouco, mas acho que isso tem que acontecer. E quer saber? Nunca terei palavras suficientes para agradecer a Deus por tê-la colocado de novo em meu caminho.”
Érica abre um sorriso largo e assente positivamente.
— Fico feliz em te ouvir falar assim. É mais um motivo para acreditar que vocês foram feitos um para o outro.
— Por falar nisso, Larissa não ligou para a senhora? Não falo com ela desde ontem.
— Não, ela não ligou. Mas... – Érica vai em direção a geladeira. Estica-se para pegar algo. – ... ela passou aqui há mais ou menos dez minutos e pediu para te entregar isto.
— Um bilhete?
— Isso. E não se preocupe. Não li nada do que está escrito aí. Mas acho que nem será preciso. Ela me contou que os avós chegam hoje de viagem e que os pais dela estão preparando um almoço de boas-vindas. Ela quer que você vá.
Desdobro o pedaço de papel e leio o que está escrito:
Oi, meu amor.
Espero contar com a sua presença no almoço que meus pais vão preparar para comemorar a chegada dos meus avós à São Paulo. Faz muito tempo que não os vejo. Gostaria que você os conhecesse. Tenho certeza de que vão adorar você. Te amo muito, minha vida. Beijos. Larissa.
P.S.: Precisamos conversar.
— É. Parece que vamos ter um almoço de boas-vindas. E acho que é por isso que o almoço não está pronto até agora, certo?
— Certo. E não se preocupe comigo. Fui no Mcdonalds agora há pouco.
— Achei que estivesse de dieta.
— Não resisti. Ah, não me olhe assim. Não sou de ferro.
— Tudo bem, mamãe. Quem sou eu para julgar, não é mesmo?
— Que bom que pensa assim. E, se eu fosse você, correria já para o banheiro. Larissa deve estar esperando por você. Não vai deixar sua amada esperando, vai?
— Mas de jeito nenhum. Só que antes, vou ligar para ela.
— Faça isso. Ela disse que estava morrendo de saudades de você. Três vezes, se quer saber.
— Já vou dar um jeito nisso – digo, pegando o celular do bolso da bermuda, indo na direção da sala.
Digito o número dela depressa, torcendo para que não caia na caixa postal.
Para minha alegria, isso não acontece:
— Oi, lindo. Até que enfim lembrou de mim. Não estou reclamando, tá?
— Sei que não, meu anjo. Desculpe por não telefonar, mas é que hoje eu tive um dia difícil. Mas e você? Anda ocupada? Por que não me mandou uma mensagem?
— Não quis atrapalhar você. Sabia que você tinha um compromisso com o carrancudo do Sr. King e...
— Mas poderia, ao menos, ter me ligado para desejar boa-sorte. Sabe que eu amo ouvir sua voz.
— Desculpe. Não fica chateado, tá? Mas é que hoje eu acordei um pouco indisposta. Já passava das nove, e acho que você vai ficar surpreso em saber que foi o meu pai que me acordou.
— Sério? Não posso acreditar. Deve ter acontecido alguma coisa de ruim para você ter acordado... como foi que disse? Indisposta?
— Isso. Mas não esquenta com isso. Não está acontecendo nada.
— Nada mesmo? Devo acreditar?
— Deve sim. Estou muito bem.
— Tudo bem, meu amor. Só liguei para avisar que já estou à caminho. Não comecem sem mim, tá bom? Vou tomar um banho rápido e, em dez minutos, estarei aí.
— Que bom que você chegou em casa a tempo. Estava com medo que seu compromisso com o Sr. Acordei Com O Pé Esquerdo o impedisse de vir almoçar comigo. Isso, sim, me deixaria chateada. Por falar nisso, como foi a audição? Você foi aceito?
Solto um suspiro longo.
— Não, meu amor. Felizmente, não fui aceito.
— O que? Por que? E você disse “felizmente”?
— Disse. Se quer saber, meu amor, eu me livrei de uma grande dor de cabeça. Para começar, eu nunca deveria ter aceitado o convite daquele cara. Eu disse a ele que estava nervoso, e que ainda não tinha decorado todo o texto. Mas você o conhece. Ele queria que tudo saísse perfeito. E só porque eu saí um pouquinho do roteiro e dei uma improvisada, ele ficou uma fera. Me esculachou na frente de todo mundo. Foi horrível. Não desejo nenhum mal a ele, mas não quero ter que voltar a ver a cara dele por um bom tempo.
— Não posso acreditar. Quem ele pensa que é?
Apesar da tensão, eu rio. Claro que Larissa ficaria indignada pelo modo como o Sr. King me tratou, mas o que me cativa realmente é a simples lógica da sua atitude – “Mexeu com você, mexeu comigo também!”
— Mas não liga para isso, não, tá bom? Há coisas com as quais não vale a pena se importar. E acho bom você seguir o meu conselho. A vida é curta, mas está cheia de novas oportunidades. Vai ver que, mais cedo ou mais tarde, uma nova oportunidade baterá na sua porta. E você vai estar pronto para agarrá-la, sem hesitar.
— É incrível a sua capacidade de me fazer sentir bem. Quem é você, afinal de contas?
Larissa gargalha. O som da sua risada me faz suspirar.
— Já falei que eu amo sua risada?
— Não. Ama mesmo?
— Amo. Assim como eu amo cada segundo ao seu lado. Não imagina como eu adoro abraçar você, pegar na sua mão e escutar a sua voz bem baixinha no meu ouvido, me dizendo coisas que ninguém mais pode escutar.
— Eu poderia passar o dia inteiro ressaltando as razões pelas quais eu te adoro tanto, Adrian. Você é tudo para mim. E se nesses últimos dois anos eu não disse que você é a melhor coisa que já me aconteceu, quero que saiba disso neste exato momento.
Nos próximos cinco segundos, ficamos sem falar, como duas pessoas que esgotam todos os assuntos.
— Antes de desligar, posso lhe fazer uma pergunta?
— Claro que pode.
— Eu li o bilhete que você deixou com a minha mãe e tem um detalhe que me chamou bastante atenção. O que quis dizer com “precisamos conversar”?
— Bem... Eu... – Larissa pigarreia. – Quer saber, eu não posso mais ficar escondendo. Acho que você merece saber o que está acontecendo, mesmo que não seja algo tão importante.
— Posso saber do que a senhorita está falando?
— É uma coisa que eu não gostaria de falar por telefone. Prefiro falar com você pessoalmente.
— Amor, eu te conheço. Se tem algo errado, eu quero saber o que é.
— E você vai saber. Mas na hora certa. Depois do almoço conversamos. Nem um minuto antes, ok?
Suspiro, sabendo que é melhor não insistir.
— Ok. Depois do almoço. Mais nem um minuto mais tarde, certo?
— Adoro esse seu gênio forte, sabia? Me identifico muito.
— Bela tentativa, mocinha. Mas não pense que vai escapar de mim.
— Nem pretendo. Mas acho que não é para tanto. O que eu tenho para falar não é nada interessante.
— Mesmo assim, estou interessado em descobrir. Mas, por enquanto, tenho que me preparar para nosso almoço. Estou louco para conhecer seus avós.
— Venha rápido. Eles deram uma saidinha para relembrar os velhos tempos e devem chegar a qualquer momento.
— Seu pedido é um ordem. Amo você.
— Eu mais.
Desligo o telefone e sigo para o banheiro, tentando tirar da cabeça a ideia de que Larissa está me enganando, e que, o que quer que esteja acontecendo, seja mais sério do que ela está fazendo parecer.
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