Para Sempre - Sombras do Passado

11 Bem-vindos ao purgatório


Notas iniciais
Mais um eletrizante capítulo de SOMBRAS DO PASSADO. Prepare-se para viver fortes emoções.

Larissa

— Onde acham que esta porta vai dar? – Pergunta Miguel. A ansiedade em sua voz é evidente.

Isso está muito estranho para o meu gosto, penso comigo. Até agora nada de diferente aconteceu. Como se o espirito maligno que habitava esta casa tivesse sido exorcizado. Tudo está muito quieto por aqui. E isso nunca é um bom sinal.

— Provavelmente, no porão. – Henrique responde.

— E o que está esperando para abrir? – Retruca Adrian.

— Já tentei, espertalhão. Mas não dá. Está trancada.

— Definitivamente, hoje não é nosso dia de sorte.

Adrian me entrega o diário e dá um passo para trás.

— Deixa que eu resolvo isso.

Ele respira fundo e, no segundo seguinte, joga seu corpo contra a porta. Se ele esperava que a porta cedesse no primeiro baque, ficou bem desapontado.

— Mas que... – diz ele, esfregando o ombro dolorido.

Estou começando a concordar com Miguel quando ele diz que hoje não é nosso dia de sorte. Encontramos o diário, e descobrimos quem foi a autora daquela mensagem macabra. Mas isso não responde todas as perguntas. Ainda há um mistério no ar. E, embora não saiba como, ou por quê, sinto que a resposta está atrás desta porta. É como se alguma coisa do outro lado estivesse me chamando. Fecho os olhos com força. No mesmo instante, começo a ouvir vozes em minha cabeça. São as vozes daquelas sombras falantes. Estão gritando meu nome, chamando por mim. Mas por quê? Por quê?

— Com licença. Abram alas.

Me sinto possuída por uma força que desconheço. Não é coisa boa, disso tenho certeza. Um estranho calafrio me percorre a pele. Não, ela não foi embora. Ela está aqui. Está junto de nós. Ela pode nos ver. E eu posso senti-la.

Paro diante da porta e levanto ligeiramente a perna direita. Miro na fechadura e, depois, chuto-a com toda força com a base do pé. A porta não cede. Continuo chutando. Consigo ouvir uma voz ronronante vinda do outro lado, como um pequeno dínamo funcionando por trás de uma parede. Chuto a porta mais uma vez, xingando. O ferrolho desliza e metade da porta gira para dentro. Os rapazes me encaram impressionados.

— O que foi? – Pergunto, arquejante.

— Gata, você é uma caixinha de surpresas – diz Miguel.

Sorrio brevemente e aponto a lanterna para dentro. Um túnel de pedra abobadado, alto e largo, estende-se à nossa frente. Há uma porta de madeira em forma de arco na extremidade final. Ando depressa para ela, esperando não ter de arrombá-la. Ao chegar, percebo uma coisa estranha: a porta está entreaberta. Não fechada por completo, apenas escorada, como se alguém recentemente tivesse entrado aqui e esquecido de fechá-la. Olho para Adrian antes de empurrar a porta, que se abre com um rangido irritante.

Quando fecho a porta atrás de mim, duas extensas fileiras de velas distribuídas pelo chão se acendem sozinhas e ao mesmo tempo, banhando o lugar numa luz dourada. Engasgo, levando a mão à boca enquanto meu coração bate depressa. O lugar está cheio de tralhas e bugigangas, cobertas de poeira e de teias de aranha, exatamente como imaginei que estivesse. Mas não esperava encontrar, em meio à bagunça de velas e cacarecos, algo que talvez só fosse possível encontrar nos filmes ou nos livros, ou, no meu caso, nos sonhos mais esdrúxulos.

Mas desta vez não é sonho. É verdade. À nossa frente, um pouco acima de nossas cabeças, vemos gaiolas de ferro forjado penduradas por grossas correntes pretas. E, dentro delas, estão as criaturas com as quais tenho sonhado, agora claramente visíveis. Era a última coisa que eu esperava ver nesta vida, ou em qualquer outra.

— O que, em nome de Deus, é isto? – Murmura Henrique.

Um pequeno lance de escadas dá acesso ao porão. Galgamos os degraus lentamente, sem desviar nem por um segundo o olhar das gaiolas que parecem estar flutuando no ar, sem meios visíveis de apoio.

— Não posso acreditar. As criaturas do meu sonho... – Engulo em seco antes de completar a frase. – Elas são reais.

Parece algo tirado de Harry Potter, penso, enquanto me aproximo das gaiolas. Criaturas aladas, cada uma mais estranha do que a outra, se remexem inquietas em seus confinamentos, voando de um lado para o outro e murmurando palavras que não consigo entender. Uma delas – com um corpo peludo e robusto como o de um leão e uma cabeça emplumada e achatada como a de uma águia – gira em círculos sem parar como um cachorro agitado, como se estivesse perseguindo a própria cauda, que é felpuda e tem uma chama esverdeada na ponta. O outro, o da gaiola vizinha – cujo corpo é semelhante ao de um lagarto, comprido e com escamas –, permanece parado como uma estátua, sentado sobre duas patas como um gato, cabisbaixo como se estivesse pensando. A cauda longa e nua balança lentamente, e as asas curtas que se projetam do seu dorso mal se mexem.

— Alguém, por favor, diga que isso é um sonho.

— Que tipo de coisas são essas? – Pergunta Henrique, apontando a lanterna para uma das gaiolas. A criatura que está nela tem o corpo rechonchudo e peludo, semelhante ao de um coelho, mas sua cauda é enrolada; o nariz, comprido e curvo; as orelhas, caídas; e os olhos, grandes e brilhantes, como se fossem feitos de chamas azuis. – De onde elas vieram?

— Não sei. Só sei que elas apareciam no meu sonho.

A criatura se encolhe a medida que me aproximo. Muito estranho. Elas parecem ter medo de mim. É como se nunca tivessem me visto, ou me considerassem uma ameaça. A criatura da gaiola ao lado murmura algo em alguma língua desconhecida e faz um gesto em minha direção. Não faço ideia do que ela disse, mas, seja o que for, serviu para acalmar a coisa de olhos de fogo.

Abro a gaiola e a pego. Ela se remexe um pouco, ainda com medo, mas depois relaxa.

— Coitadinhos. Há quanto tempo será que estão presos?

— Podemos mesmo confiar nessas... coisas?

A criatura, de repente, agita as asas e levanta voo, mas está fraca demais para se manter no ar e, depois de duas ou três piruetas, cai no chão como uma pedra.

Corro até ela.

— Coitadinha. Está tão fraca que mal consegue voar.

A queda não serviu para a criatura desistir e, outra vez, ela tenta levantar voo, mas não consegue permanecer no ar nem por três segundos e volta a cair.

— Já vi muita coisa louca. Mas isso... É o fim da picada.

— Nem me fale.

Com a ajuda dos meus amigos, abro as gaiolas e liberto as criaturas uma por uma. A última criatura – de corpo emplumado e colorido –, murmura uma palavra, a qual eu imagino que signifique “obrigado”, e levanta voo, juntando-se às demais criaturas que voam agitadas no alto.

— Parecem bem assustadas – diz Henrique, o olhar fixo no teto.

— E não é para menos – retruca Adrian, que também não esconde seu espanto.

— Agora tudo faz sentido – começo a falar, certa de que as respostas que eu tanto procurava finalmente estão ao alcance das minhas mãos. – No sonho, elas me chamavam e me perseguiam. Porque precisavam de mim. Porque queriam a minha ajuda.

— Mas por que você?

— Isso é o que viemos descobrir.

Olho para o corredor de velas que se estende até a outra extremidade do porão, onde posso ver com clareza uma espécie de altar, sobre o qual repousa um castiçal aceso, dois vasos de flores e um porta-retratos com a fotografia de alguém. Sinto outra vez uma sensação ruim se apoderar do meu corpo. Começo a andar em direção ao altar, o olhar fixo nas chamas que balançam de um lado para o outro, como numa dança cômica ensaiada com antecedência. Ouço passos atrás de mim. Viro-me.

É Miguel.

Ele me encara com os olhos arregalados, engolindo em seco no momento em que meus olhos encontram os dele.

— Eu acho que é melhor a gente dar o fora.

— Não, Miguel – respondo com frieza. – Ainda não podemos ir.

— Mas você disse... Isto é, você prometeu que ia ser rápido.

— Eu sei o que prometi, mas será que você não entende o quão isso é importante para mim? – Não me contenho e grito. – Eu preciso saber quem foi que prendeu essas criaturas aqui e que relação isso tem com meus pesadelos.

— Olha, garota, se você quer saber, para mim isso já é um pesadelo. E eu nem quero pensar no que pode acontecer se ficarmos aqui por mais algum tempo.

— Relaxa, seu medroso. Nada de ruim vai nos acontecer.

— Sinceramente, tenho minhas dúvidas – diz Henrique, aproximando-se.

Ignoro-os e volto a me virar para o altar. Olho para o porta-retratos e solto um soluço involuntário. Pego-o e encaro a fotografia com uma mescla de horror e tristeza. É a foto da minha irmã mais velha, Estephanie, com vinte anos mais ou menos. Num piscar de olhos, a ficha cai, e todas as minhas suspeitas se confirmam.

Sinto as mãos de Adrian acariciar meus ombros nus.

— O que foi, meu amor?

— Lembra que uma vez eu disse que tinha uma irmã e que ela havia desaparecido?

— Lembro. Você disse que seus pais e ela tiveram uma briga e que depois fugiu de casa.

— Isso. Aqui está ela.

Mostro-lhe a fotografia de Estephanie, esperando que ele fique tão surpreso quanto eu. Mas não. Ele encara a foto como se já a tivesse visto.

— Como é mesmo o nome dela?

— Estephanie.

— Estephanie – repete ele, ainda com o olhar fixo na foto. – O que realmente aconteceu com ela?

— Ela desapareceu quando eu tinha sete anos. – Começo a falar, um pouco desnorteada por estar remoendo uma história que eu acreditava já haver superado. – Lembro como se fosse ontem. – De repente, todas as lembranças surgem como uma avalanche. – Ela ficou furiosa porque meus pais a repreenderam por ela ter me batido. Estephanie e eu nunca nos demos bem. Ela me xingava e gritava comigo sempre que podia. Na verdade, eu nunca entendi porque ela me odiava tanto. Ela vivia repetindo que eu era a pior coisa que tinha acontecido naquela família.

“Em uma noite, quando meus pais voltaram do cinema e me viram chorando, eles perguntaram para Estephanie o que tinha acontecido. E sabe o que ela respondeu? Que eu havia escorregado no banheiro e batido com a cara no chão. Um momento antes de eles chegarem, ela me advertiu que, se eu contasse para os nossos pais que ela havia me batido, eu pagaria muito caro. Fiquei com medo do que ela pudesse fazer comigo, e por isso não disse nada quando eles chegaram. Mas eles não engoliram aquela história, pois sabiam do que Estephanie era capaz. Sabiam que ela costumava ser má comigo, e obrigaram-na a confessar.

“Ela confessou que havia me batido e, depois disso, simplesmente sumiu. Desde então nunca mais soubemos nada dela. Procuramos ela em toda parte, mas nunca a encontramos. Entendem agora por que eu precisava voltar à esta casa? Entendem por que eu precisava deste diário? Por que ambos pertencem a ela. Porque ela é a explicação para tudo o que está acontecendo”.

— Acha que sua irmã tem alguma coisa a ver com isso?

— Depois de tudo que vi e passei... Eu não duvido.

De repente, ouvimos o ranger da porta atrás de nós. Engulo em seco antes de me virar.

— Bravo! – Em seguida, ouço palmas. Viro-me no mesmo instante. É Estephanie que está entrando. Ela galga os degraus lentamente, abrindo os lábios arroxeados em uma imitação macabra de sorriso. – Sempre achei você uma garota esperta, maninha. Agora vejo que me enganei. Se fosse mesmo tão esperta, jamais teria voltado a esta casa.

Fico paralisada, incapaz de mover um músculo enquanto ela se aproxima. As criaturas acima de nós se agitam de puro desespero. Encaro-a com pavor. Sua face continua alva e imaculada como sempre foi. Seus olhos cor violeta focados em mim mal piscam, e seus cabelos negros e longos balançam ao ritmo dos seus passos seguros e silenciosos.

— Por que o espanto, querida? Não esperava me ver aqui?

Olho para Adrian, que no mesmo instante saca uma arma do bolso de trás e aponta para Estephanie. Antes que eu pergunte de onde, diabos, ele tirou isso, me recordo da velha arma Colt que encontramos na primeira vez em que estivemos aqui. Certamente ele a encontrou enquanto estávamos na sala de estar e a guardou consigo para o caso das coisas se complicarem.

— Não se aproxime de nós!

— Mas o que é isso? Acha que com isso vai me amedrontar?

Adrian continua apontando a arma para ela, esperando que ela recue. Mas Estephanie não recua. Continua se aproximando, esboçando um riso de escárnio. Noto que as mãos dele tremem. Seu semblante de medo e desespero é evidente. Ele não tem forças para atirar. Permanece estático, sem ação.

— Estou avisando. Mais um passo e eu juro que...

— Que o quê? Que vai me matar? – Ri debochada. – Você é covarde demais para isso!

Estephanie dá mais um passo, e, em seguida, estende a mão aberta na direção da arma. Adrian grita. O cabo da arma brilha em um vermelho fundido. O revólver começa a arder em chamas na mão dele. Com um berro alto de dor, Adrian larga o ferro no chão e começa a soprar a palma de sua mão queimada.

— Para o seu governo, não sou mais um ser patético de carne e osso como você.

— O que, diabos, você é? – Grita Adrian, segurando a mão ferida, lágrimas jorrando dos seus olhos sem que ele possa controlar.

— Sou o seu pior pesadelo.

Ela estende a mão para frente mais uma vez, e os pés de Adrian saem do chão. Estephanie o está fazendo levitar. Ele grita, apavorado. Grito para que ela o solte, mas ela não o faz. Com um riso diabólico, ela faz um movimento com a mão e Adrian é arremessado para trás como um boneco de trapo. Grito angustiada enquanto seu corpo choca-se violentamente contra a parede e cai no chão com um forte baque.

— Adrian!

— Agora, irmãzinha, somos só você e eu. Duvido que esses dois covardes tenham coragem de me enfrentar.

Olho por cima dos ombros de Estephanie. Henrique e Miguel estão logo atrás, paralisados de medo. Ranjo os dentes, sentindo uma fúria que jamais senti antes, e que parece me queimar por dentro.

— O que aconteceu com você, irmã? – Disparo. – Por que tudo isso?

— Por que pergunta, se já sabe a resposta? – Começa a rodear-me, falando tão perto de mim que posso sentir seu hálito gélido em meu pescoço, fazendo meu corpo inteiro sacudir num espasmo brutal. – Eu me tornei assim por sua causa, imbecil. Foi por sua causa que meus pais me deixaram de lado. Eles me trocaram por você. Preferiram dar toda a atenção à uma intrusa do que à própria filha!

— Por que está falando assim? Nós somos irmãs! – Ela ri debochada, o que faz minha raiva crescer cada vez mais. – Irmãs, Estephanie! Isso não significa nada para você?

O semblante risonho de Estephanie se anuvia e escurece, numa combinação de fúria e desdém.

— Você não é nada minha, sua estúpida. Não passa de um erro que nossos pais cometeram. Um erro que me tirou tudo o que tinha.

Mas do que, demônios, ela está falando?

— É um absurdo você querer me culpar por uma coisa dessas. Me fala, que culpa eu tenho de ter nascido? Por que você insiste em me condenar por uma escolha que eles fizeram?

— Eu a condeno porque a sua chegada mexeu com a cabeça deles. Depois que você apareceu, meus pais esqueceram de mim. Por isso eu te odeio tanto, sua intrusa. Porque é isso que você é. Uma maldita intrusa que roubou a minha vida!

— Isso não é verdade! Eu não te roubei nada! Como também não é verdade que nossos pais te deixaram de lado. Eles nunca esqueceram você.

— E você quer que eu acredite nisso? É mesmo uma imbecil.

— Depois que você sumiu, eles ficaram arrasados. Mamãe quase entrou em depressão. Quanto ao meu pai, ele gastou metade da fortuna dele só para tentar achar o seu paradeiro... E aqui está você. O que eu vou dizer a eles? Como acha que eles vão reagir quando souberem que você morreu?

— Eles não vão saber. Você não vai dizer absolutamente nada a eles.

— Como assim? Eles precisam saber a verdade.

— Não, maninha. Eles não vão saber de nada. Porque você não vai viver tempo suficiente pra contar.

Um calafrio atravessa meu corpo, fazendo-me arquejar involuntariamente. Sinto o coração palpitar loucamente, as forças me abandonarem, as pernas cederem. Minha boca se abre para buscar ar. Tento falar algo, mas nenhuma palavra sai.

— Eu jurei que um dia faria você pagar por ter roubado a minha vida.

Seu rosto, antes alvo e limpo, começa a escurecer. Enquanto olho apavorada, uma mancha negra parece espalhar-se pela pele, que murcha e enruga como papel velho nas chamas. Logo sua face não passa de uma casca enegrecida. Meu estomago revira. Sinto uma ânsia de vômito hedionda tomar conta de mim.

— E esse dia chegou! – Sua voz se transforma. Torna-se grave e satânica. – Prepare-se para implorar por piedade!

— Não, irmã! Pense nos nossos pais!

— Não mencione aqueles traidores miseráveis! Eles merecem sofrer! E já vou dar-lhes um bom motivo para isso.

Estephanie estende suas mãos – agora pálidas e cadavéricas – para o meu pescoço. Não consigo me mexer. Apenas fico parada, esperando a morte me envolver.

— Deixe ela em paz!

Estephanie vira-se, surpresa. Henrique está a poucos metros dela, apontando-lhe o revólver. Segura-o firmemente, o dedo apoiado no gatilho, mirando-o na testa da criatura.

— Veremos quem irá implorar por piedade agora – diz ele, friamente.

— Sinceramente, não sei quem de vocês é o mais estúpido!

Mesmo ante a ousadia de Estephanie, Henrique não baixa a guarda e continua a apontar-lhe a arma.

— Você está certa, Estephanie. Foi um erro ter vindo aqui. Mas numa coisa você errou. Não sou tão covarde como pensa.

Em seguida, pressiona o gatilho e arma dispara. Um raio de energia salta do cilindro, enchendo o ambiente de fumaça, fogo e um ronco ensurdecedor. A bala zumbe sedutoramente enquanto viaja em direção ao seu alvo, mas ela nem chega perto. Estephanie franze o cenho e estende a mão aberta para frente, fazendo a bala parar no ar. Um único movimento com a cabeça a faz girar para longe. Termina sua viagem na parede lateral, levantando uma pequena nuvem de gesso e poeira.

— Como...? Como...?

— E ainda se diz sensato!

A criatura ergue novamente as mãos e arremessa Henrique em direção à escada como um brinquedo nas mãos de uma criança raivosa. Ele cai batendo a cabeça no concreto, rola alguns degraus até parar e não mexer-se mais.

— Henrique! Não! – Miguel grita.

— Maldita! – Começo a gritar, sentindo mais raiva de mim do que dela. Eu sou a culpada pelo que está acontecendo. Meus amigos estão morrendo por minha causa. Agora irei pagar pelo meu estupido erro. – Deixe-os em paz! É a mim que você quer!

Ela volta a me encarar, expondo os dentes amarelos e sua língua negra e pegajosa num sorriso hediondo.

— A diversão acabou! Conheçam agora minha verdadeira face!

Arregalo os olhos de puro horror quando Estephanie começa a gargalhar. A risada diabólica ressoa no ar, fazendo todo o lugar estremecer. Uma chuva de poeira despenca do teto quando ela abre os braços. Antes que eu possa perguntar o que está acontecendo, o rosto negro de Estephanie começa a derreter, como se fosse feito de cera. Uma nova face surge no lugar desta. Uma face não humana. Sua cabeça se torna losangular e exageradamente grande. A pele agora é escamosa e arroxeada, com linhas negras entrelaçando-se e cruzando o rosto do queixo à curva dos olhos. Os olhos brilham em vermelho, e os dentes estão duas vezes maiores. Seus dedos enrijecem ainda mais e, onde antes ficava os braços, agora há tentáculos.

Recuo, apavorada. Vejo Adrian levantar-se com o canto do olho. Por um segundo, sinto uma onda de alivio se apoderar de mim. Mas logo o desespero volta a assumir o controle dos meus atos. Não consigo controlar a voz em minha mente que grita que vamos morrer. E por minha causa. Pela minha estúpida obsessão.

— Farei com que paguem por terem cruzado meu caminho!

Notas finais
Gostaram? Comentem o que acharam (please) e favoritem.