Notas iniciais
A vc que está acompanhando, meu mais sincero obrigado. Boa leitura!!!

— Já chega, irmã! Por favor, pare com isso!

Estephanie gargalha alto, depois mostra os dentes afiados num rangido enfurecido e feroz.

— Essa sua hipocrisia me dá asco!

Um de seus tentáculos começa a se mover como um chicote vivo e salta em minha direção. No segundo seguinte, sinto meus pés saírem do chão. A coisa envolve minha cintura como uma serpente faminta e começa a me pressionar com força.

— Larissa! – Ouço Adrian gritar. Olho para ele, ao mesmo tempo abrindo a boca em busca de ar. Não consigo respirar direito. E vejo com pavor que o lado esquerdo do rosto de Adrian está banhado em sangue.

Estephanie aproxima seu rosto monstruoso do meu. O cheiro ardido da criatura impregna em minhas fossas nasais, provocando-me uma imensa vontade de vomitar.

— Me solta! – Falo o mais alto que posso. Minha voz sai abafada, quase inaudível.

— Não está me reconhecendo, maninha? Sou eu. A criatura que lhe atormenta todas as noites. Eu sou a causa dos seus pesadelos.

— Então é você. Você está por trás disso.

— Sim, queridinha. E devo dizer que esta foi minha melhor façanha. Eu os coloquei em sua mente para que você caísse em minha armadilha. Como eu sabia que você seria estúpida o bastante pra voltar aqui, só o que precisei fazer foi esperar.

— Como assim? Que armadilha? Do que está falando?

— Ora, sua estúpida! Quem você acha que escreveu aquelas coisas no espelho e lhe enviou aquela carta? Foi tudo um plano desde o começo! Um plano para me vingar de tudo que você me fez!

— Não! Você não faria tudo isso sozinha! É impossível! Você está morta!

— Não é o que está parecendo!

— Você não poderia ter voltado. Tem mais alguém por trás disso, não tem? Não tem? Diga! Quem está te ajudando? Exijo que me diga!

— Você não é ninguém para me exigir nada! Agora mesmo vou manda-la para o outro mundo! Foi um prazer revê-la, irmãzinha! Adeus!

— Não! – Grito.

— Solte ela, ou eu juro que vai se arrepender!

Estephanie olha para baixo. Adrian está de pé, encarando-a com os olhos tomados por uma fúria animal.

— Adrian, meu amor, não!

A criatura solta um animalesco urro de raiva.

— Garoto insuportável! Vou destruí-lo de uma vez por todas!

— Estephanie, não!

Mal termino de gritar seu nome, a criatura lança um de seus tentáculos contra Adrian, que se lança ao chão com uma cambalhota. Estephanie solta outro urro de fúria e, novamente, lança seu tentáculo na direção dele. Adrian corre para alcançar a arma que está caída logo adiante. O tentáculo atinge alguns caixotes, fazendo pedaços de madeira e objetos de metal voarem em todas as direções. Antes que Estephanie possa fazer algum movimento, Adrian se joga para apanhar a arma, vira-se e dispara inúmeras vezes contra ela, que solta urros de dor enquanto as balas a perfuram, arrancando pedaços do seu corpo e fazendo com que uma gosma preta e nojenta jorre para fora dela.

— Morra! – Grita ele.

Adrian continua atirando, até que, para seu azar, a munição acaba. Os olhos dele se arregalam num misto de horror e incredulidade. Observa com espanto o corpo dela se regenerar. Os buracos provocados pelas balas simplesmente se fecham. Estephanie ri debochada e, sem se livrar de mim, lança outro tentáculo na direção dele, tão depressa que Adrian mal tem tempo de correr. Ela o agarra pelas pernas, chacoalhando-o no ar com veemência.

— Pare! – Grito. – Pare!

Estephanie pára, mas não o solta.

— Vou matar dois coelhos com uma única cajadada!

De repente, ouvimos um grito vindo de trás de nós. Henrique, já recuperado, vem correndo em nossa direção empunhando algo parecido com um machete, uma faca cuja lâmina é longa e serrilhada. Com um grito animalesco, ele golpeia o tentáculo da criatura, cortando-o em dois e libertando Adrian.

— Desaparece daqui!

Para a surpresa de Henrique, um novo tentáculo cresce no lugar do outro que ele cortou. Ele recua um passo com um soluço engasgado.

— Seu tolo! Nada pode me destruir!

Henrique tenta correr, mas não consegue ir muito longe. Estephanie agarra-o com outro de seus tentáculos e levanta-o. Estica-se para encará-lo bem de perto.

— Acho que já nos vimos antes. Seu rosto me parece familiar. Mas isso não importa, importa? A hora de vocês chegou! Vocês todos irão morrer!

— Ei! Coisa feia! Cara de bunda! Olha para cá!

Miguel, do outro lado do porão, segurando o machete que estava com Henrique, começa a gritar e agitar os braços na tentativa de distrair a criatura. Mas ele está sozinho. Se nenhum de nós conseguiu derrota-la, ele tampouco conseguirá.

— Miguel, não!

— Seu inseto! Vou ensiná-lo a não zombar de mim!

Miguel levanta a faca para tentar golpeá-la, mas seu esforço é em vão. Antes que consiga fazer algum movimento, Estephanie o agarra pela cintura e começa a sufocá-lo.

— Vou esmagá-lo como uma barata!

— Não! Deixe-o em paz! É de mim que você quer se vingar! Pois aqui estou! Mate-me se quiser, mas poupe a vida deles!

— Outra vez o complexo de Messias. É patética esta sua disposição de se sacrificar pelos outros!

As criaturas, à distância, juntam-se num único bando. Posso ver o medo no olhar de cada uma delas, o mesmo medo que agora toma conta de nós.

Volto a encarar Estephanie, o deleite claramente visível em seu olhar.

— Mas acho que posso atender seu pedido! Se quer mesmo morrer por seus amigos, não irei me opor. Mas não pense que vou poupá-los. Porque eles são como você. Patéticos. Hipócritas. Não merecem viver. Na verdade, estarei fazendo um favor à humanidade. Terei o enorme prazer de exterminá-los da face da terra.

É o fim. Não consigo pensar em nada mais. Acabou. Já éramos.

“Vai desistir agora”?

— Quem disse isso? – pergunto mentalmente.

“O que podemos fazer? Ela é mais forte do que todos nós juntos! Não temos a menor chance contra ela!”

— Essas vozes... Espere! As criaturas! Elas estão conversando entre si. Consigo entende-las. Não sei como, mas consigo entender cada palavra do que estão dizendo.

“Mas nós somos muitos! E ela é uma só! Há mais de nós por aí. Somos criaturas místicas, não somos?”

— Primeiro eu cuido de seus amiguinhos! – diz Estephanie. – Depois eu cuido de você!

“Você ouviu? Ela vai mata-los! Vai mata-los!” – diz outra criatura.

“É o que acontece com quem cruza o caminho de Estephanie. Ela é portadora da morte! Ninguém que já a tenha conhecido ficou vivo para contar a história! Lembra do que aconteceu com nosso mestre? Ela também o matou, e usou o sangue dele para escrever aquela mensagem!”

“Jamais me esquecerei disso! Mas nem por isso devemos baixar a guarda, meus amigos! Escutem! Acho que não preciso lembrá-los de que também temos poderes, e que juntos somos fortes! Mais do que podemos imaginar!”

“O que você sugere que a gente faça?”

“Que lutemos, é claro!”

“Ele está certo,” diz a criatura com corpo de coelho. “Ainda temos uma chance. Eles vieram até aqui para nos libertar! Não vamos permitir que seu sacrifício seja em vão!

“Isso mesmo!”

“Podemos enfrenta-la!”

Gritos de guerra se fazem ouvir. Estephanie olha para trás e, pela primeira vez, vejo o temor se formar em seu semblante.

“Tem razão! Irmãos, ao ataque!”

— Não! – Estephanie grita, enquanto o exército de criaturas aladas voa em disparada em sua direção. – Se afastem!

Como uma matilha de lobos famintos, as criaturas mergulham sobre Estephanie e encurralam-na em um ponto sem saída. Começam a agredi-la com veemência, não dando-lhe chance nenhuma de revidar. Arranham-na, mordem-na e atiram-lhe bolas de fogo.

— Me larguem! Afastem-se de mim! Tirem essas garras sujas e imundas de cima de mim!

As bestas rebeldes deixam Estephanie completamente sem ação. Enquanto eles a mantém ocupada, aproveitamos para tentar escapar. Agora livres das garras dela, não há nada que nos impeça de fugir.

Adrian está caído no chão, desacordado. Corro até ele, sentindo uma onda súbita de desespero assaltar-me.

— Adrian, meu amor! Acorda! Por favor, abre os olhos. Precisamos sair daqui. Acorda, por favor.

Para meu alivio, Adrian começa a tossir. Tiro meu blazer para limpar a lateral do seu rosto, que está coberta de sangue. Ajudo-o a se sentar.

— Me fala, você está bem?

— Estou, querida... Um pouco dolorido, mas estou bem.

Abraço-o com força e beijo-o.

— Me perdoa – digo, chorando, pressionando minha testa contra a dele.

— Não se preocupe. Estamos bem, e é isso o que importa. Mas, como você disse, precisamos sair daqui. Podemos falar disso depois.

— Ok. Vamos.

Ajudo Adrian a se levantar e me certifico de que Miguel e Henrique também estão bem. Ambos assentem positivamente e gesticulam para a entrada do porão.

— É agora ou nunca.

— Não! Aonde pensam que estão indo? Voltem aqui!

Corremos para a saída, ignorando os gritos da criatura. Estamos quase fora do porão quando me recordo de algo importante.

As criaturas. Elas nos salvaram. É graças a elas que estamos livres. Elas não podem continuar presas aqui com esse demônio. Elas também merecem a liberdade.

— Larissa, o que está fazendo? – Grita Adrian.

— Ei, vocês! Aqui!

Torço para que as criaturas entendam o que eu quero dizer e venham até mim.

Dois deles param e se viram para mim. Sim, estão me entendendo.

— Venham comigo! Sigam-me!

“Vocês ouviram a humana,” grita o líder do bando. “Vamos com ela!”

As bestas aladas começam a voar para longe de Estephanie. Um deles – o menor de todos –, pára no meio do caminho e lança uma cortina de fogo sobre as pilhas de caixotes. Logo, todo o porão está em chamas, o que impede Estephanie de nos seguir enquanto corremos para fora.

— Isso ainda não acabou, irmãzinha! Ainda voltaremos a nos encontrar! Você ainda não se livrou de mim!

Com as criaturas logo atrás de nós, debandamos para fora da casa, que em menos de um minuto é tomada pelas chamas e se desfaz em pedaços.

Só paramos de correr quando chegamos ao barranco. De longe, vemos a casa desaparecer em meio ao fogaréu que cresce cada vez mais. Estamos livres. As criaturas também estão. E – gostando ou não – sabemos que as chamas que agora consomem a casa maldita não manterão Estephanie fora da nossa cola por muito tempo. Sabemos que há uma monstruosidade à solta, e que provavelmente voltaremos a nos encontrar. Torço para que isso demore a acontecer, e que estejamos prontos quando a hora chegar.

— Ainda não acredito que escapamos.

— Nem eu.

— Bem... No fim, deu tudo certo.

— E como.

Olho para cima. Juntas, em um único bando, as bestas aladas voam em direção às nuvens, desaparecendo na névoa sulfurosa que cobre os ares como um tecido grosso e acinzentado.

***

Um mês depois de todo aquele sufoco, Adrian ainda se pergunta como teve tanta sorte de sobreviver. Jamais contou à sua mãe sobre sua aventura na casa maldita. Tampouco contou como adquiriu aquele ferimento na lateral do rosto, onde agora há uma pequena cicatriz quase invisível. Disse que havia sofrido um pequeno acidente na casa de Larissa enquanto a ajudava a limpar a casa, que escorregara e batera com a cabeça na porta. Jamais se atreveu a dizer nenhuma palavra a respeito do que viveram naquele dia, e que devia sua vida a um bando de criaturas aladas que nem sequer deveriam existir.

O que importa para ele, desde então, é que a vida voltou à sua normalidade. Há pouco mais de um mês, a vida de sua namorada estava um genuíno inferno. Pesadelos estranhos e sem explicação a aterrorizavam todas as noites. Mensagens macabras surgiam do nada, e ainda havia as alucinações que Larissa afirmava ter. Ouvia vozes e pressentia que alguém – ou alguma força superior – a vigiava. Mas agora, tudo está como era antes. Não há motivo algum para temer ou se preocupar – exceto os problemas de sempre.

Adrian reflete sobre tudo isso deitado em sua cama, na calmaria do seu quarto, as mãos entrelaçadas sobre a cintura, a cabeça afundada na almofada macia e o olhar fixo no teto. Resolve, então, deixar as memorias do passado recente de lado e começa a pensar em algum programa divertido para fazer com Larissa neste fim de semana. Cinema parece ser uma boa pedida, pensa consigo. Um novo filme será lançado este sábado, e com certeza Larissa irá adorar o convite. Levanta-se e prepara-se para pegar o telefone quando ouve a campainha tocar.

— Filho, atende a porta para mim!

— Ok, mãe! – Grita de volta. – Estou indo!

Espero que seja algo realmente importante, diz mentalmente enquanto se dirige à porta. Vê, através da janela, um carro esporte preto parado em frente à sua casa. Um homem vestindo um traje social e usando óculos escuros está parado do lado de fora. Não reconhece o veículo, tampouco sabe quem é o sujeito que está ali parado, dando a impressão de que está esperando por alguém.

Decide verificar pessoalmente. Ao abrir a porta, depara-se com uma moça de pele alva, cabelos negros longos e olhos azuis. Sua boca se abre involuntariamente, e um soluço engasgado salta-lhe da garganta.

É Hannah Anderson.

— Oi, Adrian. Está lembrado de mim?

Notas finais
Se gostaram deste capítulo, comentem o que acharam e favoritem. E na próxima sexta, começará uma nova fase em Sombras do Passado. Capítulos recheados de emoções e suspense não faltarão. Na próxima sexta, não percam o capítulo 12: "A HISTÓRIA DE YASMIN." Vlw, amigos! Fui!