Para Sempre - Sombras do Passado
13 A história de Yasmin
Notas iniciais
São Paulo, setembro de 2015
Um problema nunca vem só. Eis uma verdade absolutamente certa. Quando você acha que as coisas finalmente estão melhorando, a vida vem e te esfrega na cara o que sua intuição tentou te avisar.
Eu achava que meu pesadelo havia acabado no minuto em que pus o pé fora do casarão amaldiçoado. Bem, parte do problema foi resolvido. Os pesadelos que me atormentavam deixaram de ser um fardo para mim. Já consigo dormir a noite toda e, até o presente momento, nem Estephanie nem as criaturas místicas voltaram a dar as caras.
Não, não é com isso que estou preocupada. Pelo menos não neste minuto. Meu grande problema, que parece estar longe de ter solução, tem nome e sobrenome: Yasmin Parker.
— Qual o problema dessa garota? – Murmuro, um segundo depois da novata entrar na sala, puxar uma cadeira e sentar-se.
— Disse alguma coisa? – Pergunta Bianca, sentada à minha esquerda.
É quinta-feira e, como de costume, a professora de gramática – uma moça simpática, chamada Vivian, de cabelos ruivos e cujo rosto é salpicado de sardas marrom-claras – nos trouxe à sala de computação para fazermos uma atividade virtual. O frio que faz aqui dentro é de amargar, mas, como bem sabe a simpática professora, nós jamais nos oporíamos à ideia de sair da sala de aula por um tempinho.
Yasmin Parker, como em todas as aulas, chegou atrasada e foi a última a entrar na sala. A professora lhe disse algo e pediu-a que se sentasse. Mas, enquanto fazia isso, ela me encarava, e só desviou o olhar quando a simpática Vivian ordenou que começássemos o exercício. Pensei que, se não estivesse na presença dos meus amigos e da professora, me levantaria e gritaria para essa novata cuidar da vida dela.
— Eu já estou por aqui com essa novata – murmuro. – Ela não pára de olhar para mim. Isso já está me irritando.
— De quem você está falando, amiga?
— Da Yasmin Parker.
— Você ainda está cismada com ela?
— Eu? É ela quem está cismada comigo. Para todo lugar que eu vou, ela está por perto. Parece que está me perseguindo.
— Bobagem.
— Eu também achava que era bobagem. Mas já faz um mês que ela se matriculou aqui e todo dia é a mesma coisa. Essa garota está procurando encrenca. Não vai demorar muito para eu me cansar desse joguinho e colocá-la no lugar dela.
— Escuta, Larissa, por que você não acaba de uma vez por todas com isso e vai lá falar com ela? A Yasmin pode ser um bicho do mato, mas ela parece ser uma boa pessoa. Não custa nada dar uma forcinha a pobrezinha. Pelo contrário. Acho que deveríamos ajudá-la a se enturmar. A coitada é muito solitária.
— Eu até concordo com você, mas acho que não vai ser tão simples.
— Como assim?
— Já lhe disse uma vez que não vou com a cara dessa tal de Yasmin. Essa guria não me inspira confiança.
— Por quê?
— É uma coisa que eu sinto. Não sei explicar. Posso até estar errada, mas alguma coisa me diz que essa garota não é flor que se cheire.
Me viro por um segundo e flagro mais uma vez Yasmin Parker olhando para mim. A garota se vira rapidamente, tentando, inutilmente, disfarçar.
— Viu? Ela estava me olhando de novo. Que ódio!
— Não acha que está exagerando um pouco? Ou...
— Ou o quê?
— Acho que já entendi tudo.
— Tudo o que? Do que está falando?
— Amiga, você está com ciúmes da Yasmin.
— Como é que é? Eu? Com ciúmes daquela garota?
— Está na cara. Você está se mordendo de ciúmes dela. Só porque o Adrian foi um dos poucos que lhe deram atenção e foram gentis com ela.
Solto um muxoxo e olho novamente para Yasmin, que parece bem concentrada em sua tarefa.
— Eu não estou com ciúmes coisa nenhuma.
— Então o que está rolando? – Bianca fala com firmeza, como se não lhe agradasse a forma como me comporto com relação a Yasmin. – Por que essa desconfiança? Você nem conhece a menina direito e já sai por aí falando mal dela.
— Em primeiro lugar, eu não saio por aí falando mal dela. Agora é você quem está exagerando.
— Será mesmo? Pensa bem. A garota mal chega no colégio e você diz que ela não é flor que se cheire. Isso não soa familiar?
Fico boquiaberta, sem saber o que responder.
— Isso é muito diferente.
— Não, não é, e você sabe disso – Bianca responde com rapidez. – Você passou pela mesma coisa quando chegou aqui. Talvez você não se lembre, mas houve um tempo em que você era odiada pelas pessoas deste lugar. Agora as coisas são diferentes. Você está vendo as coisas por outro ponto de vista. Já a Yasmin, coitada, ela está enfrentando o mesmo problema que você. Ninguém a olha nos olhos. Ninguém lhe dirige a palavra. Você não sente pena dela? Não se comove nem um pouco com isso?
— Acontece que...
— Acontece, Larissa, que você só está agindo assim porque acha que ela vai se aproveitar da boa vontade do Adrian para dar em cima dele. É esse o seu problema. Você tem medo que ela o tire de você. Mas o que você ainda não percebeu é que Yasmin é uma pessoa direita. Se ela quisesse mesmo ficar com o seu namorado, ela já teria feito alguma coisa há bastante tempo, não acha? Ela não tem cara de ladra de namorados. Aliás, quer saber o que eu acho? Que ela tem medo de você.
— Medo de mim? Está louca.
— Não, não estou louca. Só estou pondo as cartas na mesa. Yasmin Parker pode ser o que você quiser, Larissa. Mas quase posso garantir que suas suspeitas não passam disso: de suspeitas.
Bianca se levanta e caminha em direção ao bebedouro. Enquanto se afasta, reflito sobre o que ela me disse. Deveria ter imaginado que minha melhor amiga não concordaria com minha forma de pensar sobre a novata. Principalmente por ambas termos tantas coisas em comum.
Yasmin é como se fosse o reflexo do meu passado, e talvez por isso Bianca insista em defendê-la tão arduamente.
— Talvez ela tenha razão. Talvez eu esteja sendo dura demais com ela e... Não! Não posso baixar a guarda com essa esquisita. Ela está tramando alguma coisa. Bianca a defende como se ela fosse uma santa e não se dá conta de que isso não passa de um disfarce. Yasmin Parker, na verdade, é um lobo em pele de cordeiro. E está aguardando o momento certo para, finalmente, mostrar as garras.
***
Não há nada no mundo que me deixe mais chateada do que ser contrariada, principalmente por meus amigos. Alguma coisa me diz que Yasmin Parker não é quem as pessoas acreditam que ela seja: a novata tímida e recatada que não faz mal a uma mosca. Tenho certeza absoluta de que a tão querida e respeitada filha do meu professor favorito não passa de uma dissimulada que está aprontando alguma coisa e se faz de boazinha para ficar acima de qualquer suspeita. Muito esperta, penso comigo. Mas uma mentira nunca vive o suficiente para envelhecer, e o mentiroso sempre acaba sendo pego com a boca na botija. Um dia, Yasmin Parker, você cometerá um erro, e eu estarei por perto quando isso acontecer. Sua máscara ainda vai cair. Afinal, toda cobra troca de pele.
***
— Foi por sua causa que meus pais me deixaram de lado. Eles me trocaram por você.
“O que ela quis dizer com isso?”, é o que me pergunto o tempo todo. Desde àquele dia, quando reencontrei Estephanie na casa maldita, não consigo pensar em outra coisa a não ser nas palavras que saltaram como um veneno letal dos lábios dela. Palavras que, para mim, não fazem sentido algum.
— Eles me trocaram por você. Preferiram dar toda a atenção à uma intrusa do que à própria filha!
Intrusa, foi o que ela disse. Mas por que ela me chamou assim, se ambas somos filhas da mesma mãe? Se nós nascemos do mesmo ventre e fomos criadas juntas? Lembro que éramos amadas e tratadas da mesma maneira. Nenhuma de nós recebia mais atenção do que a outra. Estephanie sempre foi uma garota rebelde, difícil e um tanto impulsiva, mas mamãe sempre foi paciente com ela e jamais levantou um dedo para agredi-la. Nem mesmo na noite em que ela me deu aquela surra e me ameaçou de matar-me caso eu a dedurasse.
Isso não foi o bastante para fazer Estephanie repensar suas atitudes. O fato de ela haver tentado me matar deixou bastante claro o quanto ainda me odeia, mesmo depois de morta. Mas eis o que me deixa realmente intrigada: Estephanie está morta, mas de alguma forma ela voltou do mundo dos mortos para se vingar de mim. Isso é tão absurdo quanto acreditar que fantasmas existem. Porém, não é nenhuma fantasia da minha mente.
Não é um sonho.
É real.
Mas como? Como ela conseguiu voltar? Quem a trouxe de volta?
“Por que você está falando assim? Nós duas somos irmãs! Irmãs, Estephanie! Isso não significa nada para você?”
“Você não é nada minha, sua estúpida. Não passa de um erro que nossos pais cometeram. Um erro que me tirou tudo o que tinha.”
Uma lágrima escorre dos meus olhos enquanto as memorias daquele dia terrível invadem minha mente como uma avalanche fora de controle.
“Depois que você apareceu, meus pais esqueceram de mim. Por isso a odeio tanto, sua intrusa. Porque é isso que você é. Uma maldita intrusa que roubou a minha vida!”
— Eu não te roubei nada! – Grito sem querer, como se quisesse que Estephanie me escutasse. – Caramba, acho que estou enlouquecendo. Preciso tirar isso da minha cabeça e seguir em frente. Aquilo não passou de uma fase ruim. Já acabou. Estephanie foi derrotada e não voltarei a vê-la nunca mais.
Será mesmo?
***
Acordo com o barulho do sinal. Adormeci bem no meio da aula de Geografia. Por sorte, estou no fundo da sala e o professor não me pegou no flagra. Vejo meus colegas saindo da sala para o refeitório e me encorajo para segui-los. Sinto-me tão cansada que poderia continuar dormindo até o final da tarde, ou, quem sabe, até o dia seguinte.
O refeitório parece um enorme formigueiro entre meio-dia e meio-dia e meia, com pessoas indo de um lado para o outro e um coral de vozes descompassadas enchendo o ar. Em outras circunstâncias, não teria dado a mínima importância para isso. Mas agora há tanta raiva e decepção dentro de mim que seria capaz de botar aquele lugar de pernas para o ar, se dessa forma eu conseguisse descarregar um pouco do meu mau-humor.
Estou indo em direção à fila, considerando seriamente a ideia de voltar para a sala de aula. Ouço um assobio vindo de algum lugar. Olho para a direita e vejo Viviane acenando para mim e sorrindo. Bianca está com ela. Não estou muito a fim de conversar com ninguém no momento. Mas já que cheguei até aqui, decido me juntar a elas.
— Você tem muita sorte, amiga – diz Bianca –. O professor nem percebeu que você dormiu durante a aula dele. Mas é claro. Estamos falando do sujeito mais lerdo deste internato.
— Não seja má, Bianca. Ele é só um pouco distraído.
— Um pouco?
— Tudo bem. Muito distraído. Mas dê um desconto ao coitado. Nem todo mundo consegue lidar com um bando de adolescentes que está mais preocupado com a hora do intervalo do que com a aula em si.
— Eu não fiz de proposito – respondo. – A verdade é que eu não dormi bem ontem à noite.
— Não me diga que teve outro pesadelo daqueles?
— Não. Isso já é passado. Agora tem outra coisa que está tirando meu sono. Mas, se não se importa, prefiro deixar este assunto de lado. Pelo menos, por enquanto.
— Como quiser.
Vejo Roberta vir em nossa direção pelo rabo do olho.
— Caramba – diz ela, puxando uma cadeira para sentar-se. – Achei que passaria o resto do dia na fila.
Ela começa a comer. O simples barulho do garfo batendo no prato me deixa irritada. Tento me conter para não provocar uma briga. Afinal de contas, meu problema não é com elas. É comigo mesma. Minhas amigas não têm nada a ver com esta situação.
— E você, Larissa? Não vai almoçar?
— Não estou com fome.
— Azar o seu – diz Roberta, com a boca cheia de arroz com ervilhas. – Está tudo uma delícia.
— Você está com uma cara... Aconteceu alguma coisa?
— Não. Eu estou bem. Só estou um pouco exausta. Não precisa se preocupar.
— Esqueceu com quem você está falando? Somos suas melhores amigas. Sabe que, independente da situação, pode contar com nosso apoio.
— Fico muito grata. Mas não. Sério. Não tem nada de ruim acontecendo. Como eu disse, só estou cansada.
— Vamos deixá-la em paz, meninas. Quando ela quiser falar, ela fala. Não é, Larissa?
Não respondo. Simplesmente olho para o lado como se não tivesse escutado. E eis que vejo alguém que adoraria não ver pelos próximos sessenta anos. Yasmin acaba de sair da fila e está procurando uma mesa vaga.
— Ei! – Viviane começa a gritar. Percebo que ela está acenando para Yasmin, tentando fazer com que ela a veja. – Coisinha! Aqui!
— O que está fazendo? – Pergunto.
— Do que você a chamou?
— Acho que já está na hora de conhecermos a novata. Ei! – Torna a gritar. – Garota!
— Está todo mundo olhando para a gente. Pare com isso.
Viviane me ignora, e continua a acenar. Yasmin a avista e começa a se aproximar.
— Ai, não – murmuro, escondendo o rosto entre as mãos.
— Relaxa, Larissa. A Maitê não vai morder você.
— O nome dela não é Maitê e você sabe disso – diz Bianca.
— Para mim tanto faz. Não tenho culpa se ela tem cara de Maitê.
Yasmin chega à nossa mesa, mas não se senta. Viro a cara para o lado, desejando que ela se retire logo.
— Oi, Yasmin. Tudo bem? Por que não se senta com a gente?
— Eu...
Solto um suspiro nervoso, a fim de intimidá-la.
— Eu agradeço, meninas, mas prefiro sentar em outra mesa, se não se importam.
— Qual é? – diz Roberta. – Deixa disso, criatura. Vai, senta aí. Ninguém aqui vai te morder. Não é, Larissa?
Yasmin me encara.
— É – obrigo-me a dizer.
— Tudo bem. Já que insistem...
Yasmin põe a bandeja de comida sobre a mesa e senta-se. Mantenho o rosto virado, tentando ignorar o fato de que ela está a poucos centímetros de mim, fazendo meu sangue ferver, como se estivesse em um caldeirão, e subir direto para a minha cabeça.
— Você não me contou muita coisa sobre você na última vez que nos vimos – começa Bianca. – Na verdade, você não me contou quase nada sobre você.
— Não gosto muito de falar de mim. – Yasmin solta um suspiro. – Sei o que as pessoas deste internato pensam a meu respeito. As pessoas daqui não são nada discretas. Elas falam o que pensam e nem se importam se isso vai lhe afetar ou não. Simplesmente opinam e que se dane o resto. Mas, acreditem ou não, eu sou diferente. As pessoas falam que sou metida, cheia de frescuras... Eu não me importo, se querem saber. Não ligo, pois sei que nada disso é verdade. Mas quem vai acreditar em mim? Por isso não perco meu tempo tentando convencer as pessoas de que não sou quem elas pensam que sou.
— Nós acreditamos em você.
Yasmin, por um segundo, parece surpresa.
— Acreditam?
— Claro. Estivemos observando você desde que chegou. Sabemos que as pessoas estão enganadas a seu respeito. E acho que já está mais do que na hora de isso mudar.
— Para ser honesta com vocês, eu adoraria fazer amigos. Mas eu não costumo confiar muito facilmente nas pessoas. Sou uma garota difícil de lidar, e por isso tenho medo de me aproximar das pessoas. Tenho medo de que elas se cansem de mim e me abandonem. Isso já aconteceu uma vez. Pessoas que fingiam ser minhas amigas me deixaram de lado sem mais nem menos. Porque simplesmente não me suportavam. Eu não as culpo. Como eu disse, meu jeito de ser incomoda as pessoas. Mas o que eu posso fazer? Nasci assim. Esta sou eu. Não sei agir de outra maneira.
— Podemos ajuda-la com isso – diz Viviane, pondo sua mão sobre a dela. – Não vamos tentar mudá-la, porque isso depende unicamente de você. Mas podemos ajudá-la a ter mais confiança em si mesma. Este é o grande segredo. Se você confiar em si mesma, as pessoas ao seu redor passarão a confiar mais em você.
— Confesso que nunca havia pensado dessa forma. Mas claro. O que mais se pode esperar de uma garota cuja mãe não esteve tão presente quanto ela gostaria? Sei que não deveria, mas invejo vocês. Suas vidas parecem ser... perfeitas. Se eu pudesse voltar no tempo, teria escolhido viver com meu pai. Se tivesse sido assim, talvez minha forma de ver o mundo fosse outra.
— Nossas vidas não são perfeitas, Yasmin – falo pela primeira vez. – Ninguém tem uma vida perfeita. Também temos nossos problemas. A forma como os encaramos é o que nos diferencia uns dos outros.
— Você tem razão, Larissa. – Yasmin sorri. – Desde o começo, eu soube que você era uma garota excepcional.
— Você acha mesmo?
— Claro que sim. Quando Bianca me contou sobre você, sua história, seu passado, o que você sofreu quando chegou aqui, fiquei ansiosíssima para conhecê-la. Passei todo esse tempo procurando uma forma de chegar até você, pois eu sabia que poderíamos ser boas amigas. Me identifico muito com você. Aliás, não só com você. Também com suas amigas. Queria muito ser amiga de vocês. Estão sempre juntas, rindo, se divertindo... Sempre desejei viver uma amizade assim.
— Como assim? Você nunca teve amigos?
— Bem... Em toda a minha vida, eu só tive duas amigas de verdade. A Estephanie... e a Hannah.
Sinto um arrepio cruzar meu corpo ao escutar esses nomes. Jamais poderia imaginar que Yasmin tivesse contato com alguma delas.
— Quem é Hannah? – Pergunta Viviane.
— Nada menos que a primeira namorada do Adrian – Roberta responde.
Viviane ergue as sobrancelhas.
— Yasmin, você conheceu a minha irmã?
— Como? Estephanie é sua irmã?
— Infelizmente, sim.
— Juro que não sabia. Ela nunca me falou de você.
Dou de ombros.
— Isso não me surpreende. Ela e eu éramos como água e óleo. Completamente imiscíveis. Mas essa é uma história que eu prefiro deixar para lá.
— Conte-nos mais sobre suas amigas. Como elas estão? Ainda mantém contato com elas?
Yasmin cabisbaixa-se.
— As coisas não são mais como antigamente. Hannah continua morando no Canadá, e de vez quando ela me manda um e-mail. Já a Estephanie...
Um silêncio paira sobre a mesa por alguns segundos.
— O que aconteceu com ela?
Yasmin olha para mim, certamente com receio de falar sobre o que, coincidentemente, já sei.
— Fale, mulher.
— Bem...
— Pode falar – digo. – Isso não é mais um segredo para mim.
— Lamento muitíssimo, Larissa. Há pouco mais de três anos, sua irmã entrou em uma depressão profunda. Até hoje isso é um mistério. Ninguém sabe a causa dessa mudança repentina. Ela simplesmente parou de sair de casa e afastou-se de todos. Um dia... ela decidiu pôr um fim nisso. Sumiu misteriosamente e só foi encontrada dias depois. Estava no meio do mato, com as roupas rasgadas e os pulsos cortados.
Fecho os olhos com força, sentindo o peso das palavras de Yasmin.
— Que horror – diz Bianca, tapando a boca.
— Sim. Depois que Estephanie se foi, a Hannah ficou muito triste. Ambas eram ótimas amigas, o que me deixa um pouco estupefata. Estephanie não era de se apegar a ninguém, mas as duas tinham tantas coisas em comum que acredito que as coisas não poderiam ser de outra maneira. Adoravam-se como irmãs. Trocavam mensagens e e-mails todo santo dia e, de vez em quando, uma escrevia para a outra. Quando Hannah se mudou para o Canadá, Estephanie fez questão de conseguir um apartamento para ela e para o pai. O tio dela, um tal de Travis Anderson, também ajudou muito, mas Estephanie não desgrudava dela nem por um minuto. Chegava a ser irritante. Enfim... Tudo acabou muito repentinamente. Hannah nunca foi mais a mesma. Tornou-se fria, agressiva.
— Não fazíamos ideia.
— Mas o que fazer? Não dá para mudar o que já está feito. Mesmo assim, fiquei muito preocupada com ela. Mesmo me dando nos nervos, ela é minha melhor amiga. Parte de mim não queria deixá-la lá, sozinha. Mas eu já tinha feito minha escolha. E querem saber? Eu não me arrependo nem um pouco. Alguma coisa me diz que serei muito feliz aqui.
— Você acha?
— Antes eu duvidava. Agora tenho certeza absoluta.
— Se você tem certeza disso, nós também temos – diz Roberta. – E desde já, pode se considerar nossa nova melhor amiga.
— Está falando sério? – Pergunta Yasmin, surpresa.
— Claro que estou. Fique sabendo que eu simpatizei com você. E faço questão que você ande com a gente.
Yasmin solta um riso breve, o que me faz rir também. Ainda não posso acreditar, mas estou feliz por Yasmin Parker. Também não acredito que vou dizer isso, mas sua história me surpreendeu, e minha opinião sobre ela mudou completamente.
— De verdade, meninas, eu agradeço muito. Vocês são incríveis.
— A gente sabe disso.
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